JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (53)

Tristeza, esta semana. Perdemos Wal, amigo queridíssimo, em quem votei nos últimos 30 anos (pelo menos). E a Copa. Shakespeare dizia (Cimbelino) que “algumas dores são passíveis de cura”. Wal, com saudades. A Copa, daqui só há 4 anos, se Deus quiser. Para alegrar o ambiente, nesse entretempo, seguem conversas.

ANÚNCIO DE JORNAL. Na grande cheia do Recife, em 1975, algumas vias (ou trechos delas) ficaram cobertas por dois metros de água ou mais. Como a Avenida Caxangá. Depois o proprietário de casa lá situada fixou cartaz, no portão, que ganhou a primeira página dos jornais locais:

– Vende-se essa merda.

* * *

Por falar em anúncios me mandaram esse, que seria de um jornal impresso:

‒ VENDO IMÓVEL.

Em ótima localização
Te vi passando. Pela primeira vez
E à primeira vista
Fiquei assim, sem reação:
Vendo, imóvel.

Só que em verdade eram, conferi depois, versos de Bruno Félix (na série Poemas classificados).

GORDO, boleiro no tênis. Eram gêmeos, iguais nos rostos mas diferentes nos caminhos. Daniel, crente, quase um santo. Enquanto Samuel, com extensa folha corrida na polícia, estava para ser preso a qualquer momento. Só que morreu Daniel, difícil entender os desígnios do Senhor. Pouco depois falei com seu irmão Samuel, o Gordo,

– Lamento.

– Não foi tão ruim, dr. José Paulo.

– Como?

– É que enterrei ele com meu nome. Quem morreu fui eu. E já avisei, na delegacia, para cancelar os processos de Samuel. Resumindo, agora sou Daniel.

Incrível é que tudo acabou bem. Os processos já prescreveram. Não lhe aconteceu nada. E ele acabou mudando mesmo de vida, passando a ser (um pouquinho) mais parecido com o mano Daniel.

MARIA, empregada de Margarida Cantarelli. Em Londres, fazia todas as compras. Por ser quem cozinhava, na casa, sabia do que precisaria. Ninguém acreditou pudesse conseguir, dado não falar uma palavra de inglês. Mas nunca teve qualquer problema, incrível. Há quilos de histórias, com ela. Vai só uma, da primeira feira que fez. Quando acabou, somou os preços e pagou:

‒ Está tudo aqui.

O vendedor da feira entendeu pelos sinais, contou o dinheiro e confirmou na sua língua

Paid (pago).

Na volta, chegou de cara fechada. Dizendo que foi destratada. Margarida quis saber:

‒ Como é?, Maria.

‒ Pois imagine que o homem, no fim, teve a cara de pau de me mandar peidar.

PORCO, encordoador de raquetes. Trabalha na sala da casa, onde fica seu equipamento. Encontrou Maria Lectícia e confessou

– Dona Letícia, estou vivendo um inferno.

– Que aconteceu?, Porco.

– Silvana tirou 30 dias de férias.

– Para você ver a importância das mulheres, na vida dos maridos.

– A senhora não entendeu, dona Lectícia. Ela está passando férias é dentro de casa.

* * *

Apareceu com uma tatuagem na perna, da família Chaves, aquele mexicano que passa no SBT. Ao ver essa coisa ridícula, não resisti

‒ Agora tatue a frase Eu sou um idiota.

‒ Só se for em grego antigo, doutor. Escrevi num papel

‒ Pronto, pode tatuar. E fique tranquilo que ninguém vai saber o que está escrito.

‒ Mas EU vou saber, doutor.

‒ Não tem problema, Porco, porque VOCÊ é mesmo um idiota.

WHITES ONLY, Washington DC, 1969. Estava indo para encontro com o educador Paulo Freire. Dentro do ônibus, placa dizia que na primeira metade só poderiam ficar brancos; e, no fundo, negros. Em protesto, sentei atrás. Longe dos brancos (até porque, em Harvard, era o mais escuro da classe). Sou trigueiro, assim está no Certificado de Reservista. Um velho negro tocou no meu ombro

– Posso lhe dar um conselho?

– Pois não.

– Vá para a frente, que é seu lugar.

– Perdão, fiz de propósito, sou contra essa discriminação.

– Por favor, vá para a frente.

– Prefiro não ir.

Dois outros (armários, enormes) se levantaram, com cara feia, e insistiram – Volte para seu lugar. Voltei, claro, que doido não sou.

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O CHOFER

Antigamente, não se falava em “motorista de táxi”. O que havia era “chofer de praça”. E na praça, concentravam-se os carros de aluguel.

O táxi, propriamente dito, apareceu historicamente quando foram aplicadas taxas à sua utilização, através do taxímetro, aparelho mecânico ou eletrônico, que mede o valor cobrado pelo serviço, com base em uma combinação entre a distância percorrida e a tarifa inicial. Foi inventado no século XIX, pelo alemão Wilhelm Bruhn.

Em Natal, o chofer de praça trajava sempre terno cáqui, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos.

Seu Josias era um conhecido chofer de praça de Natal, educado, conversador e simpático, com pouco mais de cinquenta anos. Era um contador de histórias.

Muito supersticioso, não trabalhava no dia em que tinha um sonho mau. Se sonhasse com gato preto, urubu, sapato ou arrancando dente, sabia que, naquele dia, nada para ele ia dar certo, e preferia ficar em casa. Gostava muito de relembrar episódios de sua vida.

Contava que, antes de ser chofer de praça, tinha sido chofer de um caminhão misto e havia feito muitas viagens pelo sertão nordestino, transportando passageiros.

O misto, para quem não sabe, é um caminhão que na sua carroceria havia alguns bancos para o transporte de passageiros, adultos e crianças.

Gostava muito da profissão, até que, num certo dia, em plena viagem, um dos passageiros do misto foi acometido de uma tremenda dor-de-barriga e ele viu-se obrigado a parar o carro na estrada, diversas vezes. O passageiro entrava correndo de mato a dentro, para satisfazer suas necessidades e voltava pálido e envergonhado.

A viagem, nesse dia, sofrera um atraso enorme, o que o deixou bastante contrariado. Numa das paradas solicitadas pelo passageiro, para ir ao mato, disse seu Josias que também desceu e se dirigiu a uma casinha que avistou ao longe, em busca de alguma “meizinha” que curasse essa infeliz dor-de-barriga do seu passageiro. Foi recebido por uma velhinha, que lhe perguntou:

– O senhor já experimentou dar o olho da goiabeira a ele (o chá)?

Disse seu Josias que não gostou da pergunta e respondeu grosseiramente:

– Se depender disso, esse passageiro pode se acabar pelo fundo, feito balaio! A senhora é doida, dona? Vôtes!

O chofer contou que voltou muito contrariado, e meteu o pé no acelerador, enquanto, nessas alturas, o mau cheiro do passageiro empestava a boleia do misto. Ao chegar a Natal, deixou o passageiro no pronto-socorro e foi direto tratar de mandar lavar o carro.

Foi a última vez que dirigiu o misto. Ficou traumatizado com o ocorrido. Afinal, teve de parar o carro umas dez vezes, para que o passageiro corresse para o mato, correndo o risco de se limpar com urtiga. e precisar de socorro médico.

A partir de então, abominou a profissão de chofer de misto, e se tornou motorista de táxi, durante muitos anos.

DEU NO X

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SCHIRLEY – CURITIBA-PR

Sextou!

As sextas-feiras nunca mais foram as mesmas depois que tu deixou de por aqui passar com sua “mágica palavristica” mas (sempre tem um) nao tenho como pular as sextas-feiras.

Pois falo é de tu. Tu mesmo, Sancho.

E como pensar em Sancho e não pensar em livros. Pois o dito lia até bulas de remédios.

Ah…. Os livros. Segurá-los nas mãos, sentir o cheiro do papel e lê-los e revê-los quando o livro é bom.

Quem já leu livros de Berto sabe do que falo. Tenho todos.

Livros jamais se tornarão supérfluos. Nada os substitui.

Espero que Sancho continue lendo. Lendo não, devorando livros.

Trago este desabafo (não sei se é bem um desabafo ou (ei-lo) se é a dor que nos provoca a saudade) depois de assistir mais um vídeo (logo abaixo) de Suassuna falando justamente dos 📚.

Finalizando pergunto aos fubânicos:

Já leram algum livro este ano? Aproveitando para viajar com eles, filosofar com eles, aprender com eles, sonhar com eles, etc, etc, etc. Assim, segurando-os nas mãos? Nada os substitui. Nada.

Um abraço e um inté pra tu Sancho (pra Deus nada e impossível).

 

DEU NO JORNAL

O CHANCELER E A INVASÃO DE ESPANTALHOS AMERICANOS

Editorial Gazeta do Povo

invasão estados unidos

Mauro Vieira tirou da cartola o risco de uma invasão norte-americana para criticar designação de facções como terroristas

Se depender do chanceler Mauro Vieira, as Forças Armadas já deveriam estar convocando nossos reservistas e os novos caças Gripen deveriam estar prontos para o combate – afinal, os Estados Unidos estão prestes a invadir o Brasil! Ao menos é o que se depreende de uma carta absurda enviada pelo ministro das Relações Exteriores ao deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), que pedira ao Itamaraty uma explicação sobre as possíveis consequências da designação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo norte-americano.

Segundo o Itamaraty, o fato de o governo norte-americano classificar as facções brasileiras como “organizações terroristas estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) traz consigo o “a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro” – uma hipótese que não foi levada a sério por nenhum analista ouvido pela Gazeta do Povo, e nem pelo Departamento de Estado dos EUA, que a chamou de “absurda”. “Os Estados Unidos estão tomando medidas decisivas, no âmbito de suas próprias competências soberanas, para combater os narcoterroristas. Essas gangues brasileiras agora atuam nos Estados Unidos, e vamos defender nosso povo contra elas”, disse a chancelaria norte-americana.

Por mais que a diplomacia brasileira pretenda induzir, na população brasileira, algum tipo de paralelo com o caso venezuelano, em que os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro e o levaram para ser julgado nos EUA por associação com o narcotráfico, a situação brasileira é bastante diferente. A designação das facções brasileiras (que de fato já lavam dinheiro fora das fronteiras nacionais, agindo também nos Estados Unidos) como organizações terroristas serve para que o governo norte-americano possa usar certas ferramentas para combatê-las – é o caso das sanções recentemente aplicadas a pessoas e empresas acusadas de ligação com o PCC. A asfixia econômica das facções, inclusive no exterior, é um meio eficaz de enfraquecê-las e, quem sabe, dar alguma vantagem ao Estado brasileiro para que possa finalmente retomar os territórios dominados pelo crime organizado, especialmente nas áreas pobres de cidades grandes e na Amazônia.

Nada, portanto, de marines ou SEALs subindo os morros cariocas para prender traficantes, nem de porta-aviões na Baía de Guanabara bombardeando as favelas. Insinuar que os norte-americanos estejam planejando qualquer tipo de ação militar não autorizada em território brasileiro é recorrer à chamada falácia do “espantalho”, em que se inventa uma versão fictícia de um argumento, para se poder contestá-lo mais facilmente – afinal, que brasileiro aceitaria tranquilamente uma invasão estrangeira? Colocar um ataque norte-americano na lista de consequências plausíveis da designação de PCC e CV como organizações terroristas é uma tentativa de mostrar que o governo brasileiro teria razão ao se opor à decisão do governo dos EUA, decisão essa que tem o apoio da maioria dos brasileiros.

Mas não é só isso: às vésperas de uma eleição que promete ser bastante disputada, tudo o que possa ajudar a retratar o presidente Lula como o grande protetor da soberania nacional e líder da resistência contra uma potência estrangeira interessada em prejudicar o Brasil será usado em favor do petista – mesmo que para isso seja preciso inventar uma ameaça militar. O petista já posou de grande negociador durante o primeiro “tarifaço” de Donald Trump, ainda que o recuo norte-americano tenha sido motivado pelo salto da inflação com o encarecimento dos itens importados, e não por mérito de Lula; não custaria nada à máquina de propaganda lulista colocar no presidente um uniforme camuflado e fazer dele o comandante-em-chefe capaz de manter longe daqui o exército mais poderoso do planeta – que esse exército nunca tivesse mesmo planejado qualquer visita ao Brasil seria mero detalhe.

O Itamaraty já havia se rebaixado globalmente ao substituir a neutralidade e a defesa pragmática dos interesses brasileiros pela atuação ideológica escancarada em favor de ditaduras amigas; agora, se rebaixa internamente ao entrar na campanha eleitoral fabricando uma ameaça estrangeira para que Lula possa surfar nela e se projetar como alguém comprometido com o interesse nacional. Enquanto isso, a verdadeira soberania continua a ser violada pelas facções, que expulsam o Estado de áreas vastas ou populosas, impondo o próprio regime de terror a cidadãos que o poder público tem a obrigação de proteger.

PENINHA - DICA MUSICAL

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