Arquivo diários:12 de fevereiro de 2026
DEU NO X
ALEXANDRE GARCIA
PENDURICALHOS
O Tribunal de Justiça de São Paulo recorreu ao Supremo contra uma decisão do ministro Flávio Dino, que deu 60 dias para toda a República Federativa do Brasil se adaptar à Constituição, que diz, no artigo 37, inciso XI, que nenhuma remuneração no setor público, em nenhum lugar, pode superar a remuneração de um ministro do Supremo, que é de R$ 46,3 mil. É dinheiro dos nossos impostos, usado para as folhas de pagamento do Estado brasileiro em seus três níveis (município, estado e União), nos três poderes.
O Tribunal de Justiça argumenta que é preciso esperar o Poder Legislativo legislar sobre a natureza desses benefícios, os “penduricalhos”. Mas já legislaram, tanto que está na Constituição. Esse trecho já foi até alterado: houve uma emenda constitucional em 1998, e outra em 2003. A redação atual diz que “a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração direta, autárquica e fundacional [ou seja, em fundações também], dos membros de qualquer dos poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos ministros do Supremo Tribunal Federal (…)”. Então, já está feita a lei.
Pode ser que, na comparação com cargos semelhantes na iniciativa privada, um agente público receba menos. Mas neste caso sinto muito, são escolhas que cada um faz. Uma vez fui convidado para ser presidente de uma autarquia, e não aceitei. Eu ganhava mais no emprego que tinha. Para me convencer, disseram que eu seria também conselheiro da Petrobrás, de Itaipu, da Siderbrás, e com isso eu iria acumulando salários e superando o que ganha um ministro do Supremo. Recusei. Se for para ser assim, é preciso mudar a Constituição.
Isso nos interessa porque o dinheiro sai do nosso trabalho. Pagamos impostos para sustentar o Estado, para que o Estado nos preste bons serviços públicos, inclusive de justiça, seguindo a Constituição. É o que exigimos como detentores do poder, como origem do poder. Precisamos entender como funciona uma democracia.
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Sem novas hidrelétricas, de onde vai sair a energia de que o Brasil precisa para crescer?
Dilma Rousseff, uma vez, falou de “estocar vento”. Mas, quando não há vento, os cataventos param, não dá para estocar, e isso é um problema. Não é o único; há a questão ambiental Tem o problema ambiental também: são passarinhos que morrem colidindo com as pás, o ruído constante que também afeta os animais… fora o preço. Tudo isso para algo que nem é constante – ao contrário da água, que nós temos em abundância. Mas não deixam fazer hidrelétricas. Belo Monte é uma confusão até hoje. E não conseguem construir mais nada. O Paraguai tem metade de Itaipu e a usa bem. Os paraguaios negociaram bem, nós é que não negociamos bem. E, enquanto isso, o governo estimula carros elétricos, que consomem energia. De onde vamos tirar essa energia extra, que seria necessária, por exemplo, para a indústria, se não podemos aproveitar nossa abundância de desníveis de água? Vamos voltar ao carvão, ou ao óleo combustível para gerar energia elétrica?
Temos bons técnicos, mas maus planejadores políticos, maus estrategistas – portanto, maus estadistas. O imediatismo não deveria existir na cabeça de um político, que obrigatoriamente tem de ser um estadista e um estrategista, pensando no futuro. É bom pensarmos sobre a eletricidade necessária para o Brasil poder crescer. Se não fosse por Itaipu e outras hidrelétricas, construídas ainda no tempo do chamado governo militar, nós estaríamos com as luzes apagadas.
DEU NO JORNAL
PEDIDO FEITO
A Polícia Federal (PF) pediu a suspeição do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), por sua atuação no caso envolvendo o Banco Master.
A corporação teria encontrado mensagens do ministro no aparelho celular do banqueiro Daniel Vorcaro, por isso o declarou suspeito.
Em nota oficial, Toffoli disse que tudo não passa de “ilações”.
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A Polícia Federal pediu a “supeição” do ministro.
Peço aos leitores que entendem do assunto que nos ajudem:
Decretada esta tal suspeição, que consequências isso traria?
Ajudem nos, sinhores juristas fubânicos.
Sem fazer “ilações”…
DEU NO X
ATÉ ELES PASSARAM A ENXERGAR
BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS
DISCURSO
DEU NO JORNAL
APÓS UM MÊS SEM MADURO, VENEZUELA MUDOU POUCO
Editorial Gazeta do Povo

Famílias de presos políticos protestam diante da Assembleia Nacional da Venezuela, em 10 de fevereiro
Pouco mais de um mês depois da ação norte-americana que tirou da Venezuela o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores – atualmente sendo julgados nos Estados Unidos por ligações com o narcotráfico –, as expectativas em relação ao futuro do país infelizmente são mais modestas que na sequência imediata da operação ordenada por Donald Trump. Maduro é carta fora do baralho, mas o chavismo continua governando o país e não dá sinais de que vá deixar o poder nem mesmo no médio prazo.
A líder oposicionista María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, manifestou, em entrevista recente, a esperança de que haja eleições na Venezuela em menos de um ano, mas, também em entrevista, o atual presidente do Legislativo venezuelano, Jorge Rodríguez – irmão da ditadora interina, Delcy Rodríguez –, descartou “eleições neste período imediato”, afirmando que a prioridade é estabilizar o país, e que qualquer possibilidade de um novo pleito depende de “avançar na estabilização nacional” e de “um acordo com todos os setores da oposição”. Uma ala da oposição, liderada pelo deputado e ex-candidato presidencial Henrique Capriles, aceitou o convite para diálogo, mas sabe-se que, em muitas outras ocasiões, essas supostas aberturas serviram apenas para o chavismo reagrupar suas forças e retomar a repressão.
Eleições, a rigor, nem sequer seriam necessárias. A Venezuela tem um presidente eleito, mas atualmente impossibilitado de exercer o poder: é Edmundo González, que venceu o pleito de julho de 2024, cuja apuração foi fraudada pela autoridade eleitoral chavista. Em um cenário ideal, Estados Unidos e a oposição venezuelana estariam trabalhando para colocar González no Palácio de Miraflores, mesmo que no médio prazo. No entanto, se o preço para remover os bolivarianos for a repetição da eleição, realizada de forma limpa, sem inabilitações arbitrárias (como ocorreu com María Corina, que era a candidata da oposição em 2024, mas teve de ser substituída por González), com apuração transparente e garantia de respeito aos resultados, é o caso de tolerar a solução possível em vez de perseguir o ideal impossível.
Um possível avanço que, no entanto, ainda exige a típica cautela quando se trata da ditadura venezuelana é uma iminente anistia a oposicionistas. O projeto de lei foi aprovado de forma unânime em primeira votação no dia 5, e deve passar por segunda votação nesta semana. “Nós pedimos perdão e temos de perdoar também”, disse Jorge Rodríguez, tentando igualar moralmente a ditadura e a oposição, como se os presos tivessem cometido algum crime real que devesse ser perdoado, em vez de simplesmente terem pressionado pelo retorno da democracia à Venezuela. Além disso, as famílias de presos políticos já identificaram várias brechas no projeto de lei, e que permitiriam ao regime manter encarcerados quase metade dos oposicionistas presos. Outro truque é o que exclui da anistia os processados ou condenados por violações graves de direitos humanos, crimes contra a humanidade, crimes de guerra, homicídio doloso, corrupção e tráfico de drogas; pareceria um dispositivo razoável, se o chavismo não usasse especialmente as acusações de corrupção para se livrar de oposicionistas pela via judicial – a própria María Corina é alvo de uma dessas acusações.
Mudança real, até o momento, veio apenas no setor de exploração de petróleo, com alterações na Lei de Hidrocarbonetos que facilitam a atuação de empresas norte-americanas no ramo – embora seja difícil prever o quão dispostas elas estão, ao menos no momento, a investir em um país conturbado como a Venezuela. Restaurar a democracia no país ainda parece um objetivo secundário (isso se realmente for um objetivo). Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, disse ao Senado norte-americano que deseja uma Venezuela “democrática”, com “eleições livres e justas”, mas sem apresentar nem sequer uma janela temporal ou estimativa para que isso aconteça. Os venezuelanos seguem otimistas mesmo depois de um mês de avanços mínimos (o que mostra o quanto Maduro estava destruindo o país), mas, sem passos concretos para o fim do chavismo, esta esperança pode arrefecer.
PENINHA - DICA MUSICAL
MÁRIO REIS
MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS
A CAPITAL ONDE O PODER APRENDEU A NÃO TER VERGONHA
Brasília não é uma cidade. É um sintoma. Erguida no meio do nada para simbolizar o futuro, acabou se tornando o maior monumento brasileiro ao descolamento da realidade. Uma maquete de concreto onde o poder vive em gravidade zero, flutuando acima da vida comum, como se o país fosse apenas um conceito abstrato — jamais gente de carne, osso e boletos. Brasília não governa o Brasil. Ela administra a distância. Ali, o sofrimento vira estatística; a miséria, gráfico; a educação, uma linha orçamentária facilmente sacrificável; o professor, um custo incômodo; o cientista, um luxo dispensável; o povo, um ruído de fundo que atrapalha a liturgia do poder.
O País Que Paga Como Primeiro Mundo e Recebe Como Colônia
O brasileiro paga impostos suíços para receber serviços haitianos — com todo respeito ao Haiti, que ao menos tem a dignidade de não fingir normalidade institucional. Aqui, paga-se caro para: estudar mal, adoecer muito, envelhecer inseguro, trabalhar demais, receber pouco e ouvir que “não há recursos”. Mas curiosamente, nunca falta verba para privilégios, auxílios de toda natureza, salários que desafiam a física econômica, aposentadorias que zombam da demografia e cargos que só existem para acomodar lealdades. No Brasil, o Estado é mínimo para o cidadão e máximo para si mesmo.
A Corrupção Não é Um Desvio — É Um Método
Aqui vai a parte que dói: A corrupção no Brasil não é exceção, é arquitetura. Ela não acontece porque “faltam leis”. Ela acontece porque as leis foram feitas para permitir que ela aconteça sem consequências reais. O sistema não falha. Ele funciona exatamente como foi desenhado. Funciona para: absolver os amigos, prescrever os crimes, eternizar processos, relativizar escândalos e cansar o cidadão até que ele desista de esperar justiça. A impunidade brasileira não é acidente: é política pública informal.
Professores: O Maior Desprezo Nacional
Não é coincidência que um país que despreza seus professores não produza prêmios Nobel. É consequência direta. Professor no Brasil é tratado como: missionário (para justificar salário baixo), herói (para naturalizar o sacrifício), vocacionado (para negar direitos) e culpado (quando o sistema falha). O Estado diz: “Educação é prioridade”. E imediatamente faz o oposto. Porque educação liberta; e liberdade intelectual é uma ameaça ao poder medíocre. Um país que investe em professores cria cidadãos difíceis de enganar. E isso, para certas instâncias, é inaceitável.
O Complexo de Vira-Latas Não Nasceu do Nada
O brasileiro não se acha inferior por genética, clima ou destino. Ele foi treinado para isso. Treinado por: séculos de colonização predatória, uma elite que sempre se viu como europeia exilada, uma narrativa constante de fracasso, e um Estado que nunca se reconheceu como servidor do povo. Aqui, o sucesso individual é tolerado. O sucesso coletivo é sabotado. Porque um povo confiante exige mais. E exigir mais é perigoso para quem governa pouco e ganha muito.
Brasília Não Tem Medo do Povo – Tem Desprezo
Essa é a verdade mais cruel. Se houvesse medo, haveria mudança. Há apenas indiferença blindada por ar-condicionado, assessores e carros oficiais. Brasília não se envergonha. Ela se protege. Protege-se: do olhar crítico, da comparação internacional, da meritocracia real, da eficiência e da transparência verdadeira. O poder ali não se sente servidor. Sente-se proprietário.
E Mesmo Assim… O Brasil Não é Brasília
Aqui está o erro fundamental de quem governa de lá: confundir o país com o palácio. O Brasil real: acorda cedo, trabalha duro, improvisa, cria, resiste e sobrevive apesar do Estado — não por causa dele. O brasileiro comum é infinitamente melhor do que o sistema que o administra. E é por isso que tanta gente sente vergonha — não do país, mas da distância obscena entre quem sustenta tudo e quem decide tudo.
Conclusão (A Joelhada Moral)
Brasília não cairá por bombas. Ela treme com algo muito mais perigoso: Consciência lúcida; Comparação internacional honesta; Palavras que não pedem licença; Cidadãos que param de se culpar e começam a analisar. Porque quando o brasileiro percebe que: não é incompetente, não é inferior, não é o problema, o castelo de privilégios começará a parecer o que sempre foi: um insulto em concreto armado.
