Eu já sinto as dores prematuras Da velhice que aos poucos se avizinha.
Mote de Melchior SEZEFREDO Machado.
Meia dose de cana me faz mal, Meia concha de feijão me empanzina, O doutor proibiu a tubaína, O arroz que consumo não tem sal. Nem me lembro qual o mês do Carnaval, (Eu que tanto gostava de Marchinha) No percurso da sala pra cozinha Vou mais lento com medo das tonturas. Eu já sinto as dores prematuras Da velhice que aos poucos se avizinha.
Depois do Dia dos Reis Magos, arrumações do gabinete de estudos revelam fatos, fotos, feitos e falas que pareciam fixados no baú do esquecimento, mas que saltam, agora, para o cotidiano existencial, exigindo novas análises memoriais, como se tudo fosse apenas uma simples questão de começo. Alguns ainda parecem ser de muita valia para os momentos que estamos vivenciando, com o emergente acordo Mercosul x União Europeis. E alguns ressaltam angústias antigas que persistem, de incômodas consequências para todos. Alguns ainda apontam para ontens sobreviventes, merecendo, abaixo, ser explicitados, a data não sendo mais relevante:
a. A maior tragédia do ser humano contemporâneo está na sua dominação pela força dos mitos, tornando-o sem uma soberana capacidade de discernir e discordar, indispensável no trato da coisa pública e dos procedimentos profissionais particulares. Compreensivelmente, muita gente está mitificando os seus dirigentes, para se arvorarem de primogênitos de deuses. Olvidando-se todos que. no palco da vida, há coisas, mil coisas, que custam bem pouco, mas acarretam efeitos extraordinários. Um telefonema, por exemplo. Um e-mail de agradecimentos. Ou um atendimento fraternalmente personalizado, quando o assunto merecer mais importância. Procedimentos que diferenciariam o agora de um passado majestático, , tecnocrático e pernóstico, até bem pouco tempo sofrido pelos que não portam de cabeça baixa.
b. Nada ameaça mais uma democracia que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental: em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida. Nos casos estaduais, nada mais oportuna que uma análise despreconceituosa de todos, sem apegos a cargos e funções, deixando-se refletir diante da seriedade de propósitos dos parlamentares eleitos. Estratégias e táticas bem definidas e discutidas, contínua postura dialogal e um ver-melhor-o-derredor, bem poderiam constituir os balizamentos necessários para um a favor ou contra dos que legislam em prol do todo.
c. Nossa crise brasileira, que também se incorpora a uma crise mundial, é profunda, muito profunda. Prenúncio do fim de uma era, início de uma nova fase nacional, onde quase todo mundo está ainda despreparado para um assumir consequente. A ausência de uma profissionalidade efetivamente comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros despreparados a uma não conformação com o fortalecimento do setor político, gerando um outro componente naquele caldo cultural que carrega dupla tendência: uma, a de ser hipercrítica em relação a tudo aquilo que desagrada; a outra, a de ser subcrítica diante daquilo que concorda. E os hiper e os sub não estão ampliando a cidadania da Nação brasileira. Estão, sim, deixando os políticos sem proposições criativas, com uma frágil consciência acerca da própria máquina partidária. E plenos de um mandonismo inoportuno, detentor de poder decisório quase absoluto, que somente faz aumentar o número daqueles que consideram o absolutismo como caminho natural para o desenvolvimento nacional, única saída para garantir a lucratividade do Grande Capital.
d. A hora de reinventar-se chegou. Ultrapassar os obscurantismos técnicos, sociais, políticos, religiosos e culturais é prova maior de querer uma democracia cada vez mais solidificada. Caso contrário, outras situações poderão advir, com prejuízos para quase todo mundo. A la Venezuela, por exemplo.
Martha de Hollanda Cavalcanti nasceu em 20/3/1903, em Vitória de Santo Antão, PE. Escritora, jornalista, poeta e militante feminista, foi pioneira na luta pelo sufrágio feminino, em 1928. Fundou a Liga Feminista Brasileira, em 1931, e foi a primeira mulher eleitora e candidata a deputada em Pernambuco, em 1933.
Filha de Mathilde de Aragão Rabelo de Holanda e Nestor de Holanda Cavalcanti, tradicional família intelectual e política da cidade. Teve os primeiros estudos no Colégio Santa Margarida e Ginásio Pernambucano, no Recife. Casou-se com o jornalista e historiador José Teixeira de Albuquerque, em 1928, e estreou nas letras, em 1930, com o livro de poemas Delírio do nada, apresentado por Coelho Neto e Alberto de Oliveira.
O livro foi bem recebido pela Academia Brasileira de Letras e pela crítica brasileira e portuguesa e foi reeditado em 2024, pela editora Scortecci. Sobre a autora, dois livros de caráter biográfico foram publicados: em 1984, Martha de Hollanda: feminismo e feminilidade, um ensaio da historiadora Cristina Inojosa, publicado pelo Selo Editorial Mirada, e em 2003 foi lançado Uma guerreira no tempo: Resgate de um época, Martha de Hollanda e o delírio do nada – publicado por Luciene Freitas. Martha faleceu em 2/10/1948.
Martha faleceu em 2/10/1948 e era uma mulher diferenciada. Vestia-se de modo ousado, inventava moda, roupas extravagantes, penteados inusitados, cores fortes, decotes pouco comuns à época, roupas feitas em alfaiatarias e muita maquilagem. Algumas vezes, vestia-se como homem; transitava com um bem talhado paletó, gravata e bengala. Ainda jovem, bebia, fumava e era carnavalesca fanática. Costumava fazer o footing sozinha e frequentar cinema, teatro, sorveterias e casas de chá, o que não era comum às mulheres da época. Era conhecida por todos como uma mulher a frente de seu tempo.
Logo após a Revolução de 1930, surgem em Pernambuco duas organizações com a intenção de lutar pelos direitos femininos: a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, em 10/11/1931, dirigida por Edwiges de Sá Pereira e a Cruzada Feminista Brasileira, em 12/11/1931, liderada por Martha de Hollanda. Duas entidades criadas com a mesma intenção e quase no mesmo dia. Está visto que houve aí uma cisão de ideais entre as duas protagonistas. As duas tinham temperamento diferenciado, uma mais conciliadora e outra mais radical. Ambas foram analisadas num paper do XV Encontro Regional de História da ANPUH-Rio, em 23-27 de julho de 2012, intitulado Por uma igualdade emancipadora da mulher: Edwiges de Sá e Martha de Hollanda, feministas em luta pela cidadania política em Pernambuco dos anos de 1930, apresentado por Alcileide Cabral do Nascimento, à disposição na Internet.
Resumo do paper: “Esta apresentação tem como objetivo analisar os discursos de duas feministas pernambucanas, Edwiges de Sá Pereira e Martha de Hollanda, que problematizaram as diferenças entre os gêneros na esfera política nos anos de 1930. Em seus discursos, operam com a ideia de uma biologia que informa o que é ser feminino e masculino. Questionam a dimensão subjetiva da mulher como ser frágil, débil e intelectualmente inferior. Ao recusar a fatalidade do destino feminino ao mundo privado, evocam nas suas práticas discursivas o espaço público na ampla acepção de direito à palavra, a uma educação emancipadora e à esfera das decisões políticas. Investem na imprensa escrita e falada. Revistas, jornais e rádios são os territórios simbólicos onde reinventam práticas de liberdade, de inserção no mundo público. Entre o riso e a dor de ser, ousaram e sonharam por um mundo mais justo para as mulheres”.