CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O MALANDRO E O MANÉ

Que me perdoem as pessoas que entendem que armas de fogo devem ser de uso restrito das forças estatais e criminais, mas eu sou a favor do direito à autodefesa.

Consequentemente, sou contra o excesso de obstáculos legais ao acesso do cidadão – que paga seus impostos, procura cumprir as leis, etc,etc… – aos meios que lhe proporcionem a efetividade dessa autodefesa. Inclusive o porte de armas de fogo.

Feito esse esclarecimento, essa é uma história que eu precisava contar. É baseada em fatos ocorridos há mais de dez anos, e nela o malandro estava armado, mas o mané também estava.

E mais não digo.

Quem quiser saber o que aconteceu tem que ver o vídeo.

DEU NO JORNAL

PIFOU

Não bateu 2% da meta pretendida pelo governo para o “Voa Brasil”, que tentou vender para velhinhos passagens aéreas encalhadas em horários cruéis.

Foram 52 mil bilhetes até este mês.

O pretendido: 3 milhões.

* * *

Um fracasso retumbante, espantoso.

Mais um do atual desgoverno.

E o desmantelo continua.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CARNAVAL ERA ASSIM

Eu nasci num ensolarado domingo de carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, frequentava o baile infantil do Clube Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua, atrás dos blocos. Durante a juventude aguardava o carnaval chegar acontecendo as pré carnavalescas: Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras onde a alegre e bonita burguesia em fantasia ou smoking caía no passo. Amanhecia o dia dançando na areia da praia, banho de mar na praia da Avenida da Paz.

Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava, todas as noites, na Rua do Comércio, a Maratona Carnavalesca, Além do corso, fila de carros rodeando o centro da cidade; nas esquinas uma orquestra tocava frevança. Caíamos no passo junto às meninas virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do frevo, sem diferenças e preconceitos, apenas sorrisos, remelexo do corpo e a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.

Domingo anterior ao carnaval acontecia o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia. Desfile e concurso de troças, escolas de samba, fantasias e bloco carnavalesco. A turma de Ruben Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, exibia as críticas, bem humoradas, à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, brincavam nas ruas, nos clubes e biroscas da cidade.

Outros foliões fantasiavam-se com irreverência: Fusco, Tarzan, Lincoln, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição: todos os Blocos de Frevo: Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros, depois do desfile na Avenida, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima. Meu pai aguardava a tropa do frevo com dois caldeirões de “laco-paco” de maracujá, cerveja gelada, cachaça e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam três a quatro frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci. Havia organização, um bloco de cada vez, se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. Acompanhávamos o último bloco até desaparecer em Jaraguá ao anoitecer.

O Carnaval iniciava à noite do sábado de Zé Pereira. Primeiro, a juventude brincava na Rua do Comércio, no corso em cima de um jipe, vestido de macacão, maizena na mão, meladeira entre os amigos, costume herdada dos entrudos nos primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando; amores surgindo, amores fugindo. É carnaval, tudo valia, amor de carnaval desaparece na fumaça. Meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.

Domingo de Carnaval por volta das dez horas da manhã, a moçada já fazia fila para entrar na matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar e nos lenços. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira. “Um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanhã não tem mais”.. “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”. No final da última noite, a Orquestra do Maestro Passinha, no Clube Fênix, dava as últimas voltas no salão, finalmente, descia à praia, o sol nascendo, os foliões dançando o Vassourinhas na areia branca, terminava num mergulho no mar azul esverdeado.

Cansados, molhados, sentados nos bancos da Avenida da Paz, namorados abraçados, ainda com fôlego de beijos agarrados, alegres, outros descansavam deitados na grama. Finalmente alguns amigos me acompanhavam a um café em casa. Abraçados, caminhando e cantando pela Avenida, bonitas canções: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou.”

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

THANKS, TRUMP

“Nenhum governo na história desistiu voluntariamente de seu poder” – Murray Rothbard

Eu não acho que Trump esteja fazendo um bom governo. A enorme confusão com tarifas de importação acabou ficando parecida com tosquia de porco, como diria meu avô: muito grito e bem pouca lã. Trump também não conseguiu nada de positivo nas brigas entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestina. De forma geral, ele parece estar mais preocupado em aparecer na mídia do que em governar seu país. Não é o primeiro nem será o último: Obama passou oito anos fazendo isso.

Este comportamento midiático, porém, acabou gerando um resultado positivo, talvez até involuntário, mas bastante importante. Podemos dizer que é uma mudança de paradigma.

Nos últimos cem anos, o “estado”, que é apenas uma entidade jurídica, tornou-se na cabeça das pessoas algo real, que tem vontades, interesses, direitos e até mesmo “soberania”. Acredita-se que o estado deve ser sempre obedecido e sempre ter a última palavra. E acredita-se também que se isso for seguido por todos, o mundo será um lugar pacífico e justo, e em cada país o tal estado soberano resolverá todos os problemas.

É curioso que as pessoas não percebam a contradição: acreditam que é necessário que em cada lugar exista uma autoridade única, absoluta, com poder ilimitado sobre o resto da sociedade – o estado. E não percebem que o conjunto desses estados convive em completa anarquia, sem nenhuma autoridade única que possa impôr aos demais o cumprimento das regras supostamente em vigor. Sim, existe a ONU e um monte de órgãos vinculados, mas trata-se apenas de um imenso cabide de emprego multi-nacional que não tem nenhum poder prático. Como escrevi há algumas semanas, os países criaram um monte de regras para as guerras, e agora fogem das regras dizendo que as guerras não são guerras.

Quem deveria ser soberano é o povo, não o governo. Mas o discurso corrente fala sempre em soberania do estado ou em soberania do país, o que de certa forma reproduz o feudalismo da Idade Média, quando a maioria das pessoas era chamada de “servo” e era considerada como propriedade de um determinado lugar. O dono do lugar poderia mudar, via guerra, herança ou casamento, mas a servidão dos moradores continuava. Como continuação dessa idéia, as pessoas foram levadas a acreditar que fronteiras desenhadas em mapas são coisas concretas e inquestionáveis, que devem ser respeitadas e veneradas com fervor religioso e que concedem ao governo dentro de cada fronteira o poder absoluto de mandar.

Aí chega Trump, e faz todos relembrarem um antigo conceito: manda quem pode e obedece quem precisa. O mundo sempre foi e sempre será governado pelos mais fortes. O direito de mandar é conquistado, não surge de discursos de “soberania nacional” e “auto-determinação dos povos”, direito que aliás é negado sistematicamente pelos governos: a própria carta da ONU fala no direito de secessão como consequência lógica do princípio da auto-determinação, mas também inventa um “princípio da integridade territorial” que na prática justifica o hábito dos governos de escreverem nas constituições que seus territórios são “indivisíveis”. O resultado é que para o povo a tal auto-determinação é só uma piada.

Recentemente o governo Trump divulgou uma versão atualizada de sua Doutrina de Segurança Nacional, onde é citada a Doutrina Monroe, criada duzentos anos atrás e conhecida pela expressão “A América para os americanos”. No mundo de hoje, o novo documento serviu, de um lado, para memes e piadas nas redes sociais, e de outro, para discursos emocionados dos defensores da soberania nacional mundo afora. Na prática, o que Trump está fazendo é explicando de forma bem didática aquilo que o restante do mundo já deveria saber: que os fortes não negociam com os fracos; os fortes negociam entre si, e aos fracos resta obedecer.

DEU NO X

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

O QUE PRECISA ACONTECER?

Um tanto ausente das páginas de nossa querida gazeta, retorno após cuidados com a saúde e com demandas urgentes que não avisam quando desejam aparecer, com sói acontecer com as urgências. Desde já agradeço a generosidade de meus esparsos leitores.

Confesso que diversas vezes iniciei o texto desta coluna, pretendendo tratar de algum susto do momento, mas sempre que começava era atropelado por algum absurdo ainda maior, sempre surpreendido pela constatação de que o anterior não fora o ponto mais baixo que a indigente moralidade nacional poderia chegar.

Pensei em fazer um compilado dos últimos e inacreditáveis acontecimentos, a maioria deles parido pelas castas superiores da política e dos poderes da república, mas desisti para não abusar da paciência e da saúde dos colegas. Ademais, penas mais competentes que a minha já escreveram largamente sobre o assunto.

Portanto, permitam-me dividir uma experiência pessoal, que servirá de mote ao que pretendo tratar:

Tenho um amigo de infância, dessas amizades que desde o início sabemos eternas. Pois bem, este amigo tem muitas qualidades invejáveis, inclusive é poeta e ótimo escritor. Porém, o que mais admiro; invejo mesmo, não é nenhum de seus muitos talentos, mas o dom que ele tem para dormir.

Isso mesmo, trata-se de um verdadeiro dom. Aloisio (este é o seu nome) dorme, profundamente, em qualquer lugar ou circunstância. Por mais complicada que esteja a vida; os problemas enfrentados ou o barulho ao redor ele dorme o sono dos justos. E dá trabalho, muito trabalho para ser acordado. Em mais de uma ocasião perdeu avião por dormir além da hora. Entre amigos, sempre perguntamos: o que é preciso para o Aloisio acordar?

Mencionei meu amigo para fazer uma pergunta cuja possível resposta me causa temor: O que será preciso para o Brasil acordar? Sim, como Aloisio, o país dorme o sono dos justos, enquanto ao redor e em suas próprias entranhas os absurdos gritam a plenos pulmões.

A cúpula do judiciário ultrapassa todos os limites constitucionais; pune inocentes com crueldade assemelhada à tortura; invade prerrogativas de outros poderes e tem alguns de seus membros envolvidos naquele reputado como o maior escândalo bancário da história e, diante da lama que se aproxima, impõe sigilo total sobre aquilo que toda a população deveria saber, seguindo em uma espiral descendente sem fim. E o país dormindo…

Uma ditadura sanguinária massacra a população que grita por liberdade; um ditador assassino é deposto, preso e levado à julgamento por uma potência estrangeira, isso a poucos quilômetros de nossa fronteira, e o que faz nosso presidente e seu entorno? Apoia os ditadores, em alinhamento ao que existe de pior no mundo, fingindo não saber que pode ser o próximo. E o país dormindo…

As contas públicas, premidas por gastos irresponsáveis e inúteis, cujo único resultado visível é o luxo usufruído pelo casal real e seus amigos, explodem com estrondo ensurdecedor, deixando um precipício cuja beirada está logo à frente. O ministro da fazenda, atual “cárrego dos arreios do Rei”, chicoteia a população com impostos extorsivos e mesmo assim o abismo se aprofunda. Vamos todos cair. E o país continua dormindo…

O Crime organizado toma do Estado e subjuga a população de grandes áreas do território e se infiltra em todas as esferas dos poderes constituídos, conduzindo o país a passos largos para se tornar um narcoestado, enquanto governantes e segmentos dos meios artísticos e intelectuais se alinham aos criminosos e atacam as forças de segurança. Mesmo assim o país continua dormindo.

O sono do meu amigo é um dom. O sono do país é uma maldição que nos condena a um eterno rebaixamento moral, ético e institucional. Enquanto o país dorme, perde-se estrepitosamente a honra, a liberdade, a segurança e o futuro. Nem isso o faz acordar. O que precisará acontecer?

Intervenção estrangeira? Ruína econômica? Quebra da ordem social? Nem quero pensar em algo assim; confesso temer a resposta. Só espero que quando isso ocorrer o avião não tenha partido e ainda haja tempo.

Acorda, Brasil, o tempo urge!

DEU NO X

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FILHO DA MÃE

Exemplo de homem sem escrúpulo

Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.

Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.

Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.

Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:

– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!

Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.

– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?

Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.

Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.

Novo constrangimento!

Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”

Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.

E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?

Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.

“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:

Aquilo é um Filho da Mãe!

Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.

Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.

O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.

Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.

Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.

Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:

P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.

Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”