DEU NO JORNAL

ACORDO UE-MERCOSUL

Editorial Gazeta do Povo

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Fazendeiros franceses protestam contra acordo entre União Europeia e Mercosul, em 15 de janeiro

Neste sábado, a presidente da Comissão Europeia (o braço executivo da União Europeia), Ursula von der Leyen, estará em Assunção, no Paraguai, para um evento aguardado há anos: a assinatura do tratado de livre comércio entre a UE e o Mercosul, destravado após uma maioria qualificada de membros da UE ter aprovado o texto, em 9 de janeiro. O evento ocorre em nível ministerial – quem fará a assinatura em nome dos países sul-americanos serão os chanceleres –, mas o Paraguai convidou também os presidentes dos países-membros do Mercosul; Lula já confirmou que não estará presente.

Esta é uma etapa necessária, mas não a última, antes que o acordo entre em vigor. Depois disso, ainda será que preciso que o acordo seja aprovado no Parlamento Europeu e nos Legislativos de cada um dos países do Mercosul. Só então será possível falar na criação de uma das maiores (se não a maior) áreas de livre comércio do mundo, envolvendo três dezenas de nações – incluindo várias potências agrícolas e industriais –, 722 milhões de consumidores e um PIB de US$ 22 trilhões: um objetivo que levou duas décadas e meia de negociações, com inúmeras idas e vindas.

O comércio entre os blocos, no entanto, será livre ma non troppo. Se no passado houve resistência vinda do Mercosul, especialmente da Argentina kirchnerista, mais recentemente os ímpetos protecionistas vêm da Europa – principalmente da França, que se opôs ao acordo ao lado de Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda. Se Itália e Bélgica tivessem mantido suas ressalvas, o acordo teria naufragado no Conselho Europeu, pois esses oito países representam mais de 35% da população da UE; no fim, a Bélgica se absteve e a Itália foi favorável à assinatura. Para apaziguar o agronegócio europeu, altamente subsidiado, a UE aprovou uma série de salvaguardas, como cotas e restrições sanitárias, que podem limitar a competitividade dos produtos sul-americanos no mercado europeu. Ainda assim, o descontentamento persiste, a julgar pelas manifestações de agricultores, que continuam a ocorrer mesmo depois da aprovação do acordo no Conselho Europeu.

Apesar disso, se tudo sair como o previsto – mesmo com os acréscimos de última hora para contentar o setor agropecuário europeu –, o resultado será indubitavelmente positivo. As tarifas atuais devem ser gradualmente reduzidas ou extintas, e após 12 anos 95% dos bens e 92% do valor das importações europeias provenientes do Brasil terão entrada livre ou muito mais facilitada nos países da União Europeia. Em contrapartida, 91% dos bens europeus importados pelo Brasil também terão tarifas eliminadas ou reduzidas, baixando seus preços e aumentando as opções do consumidor brasileiro – um desafio para alguns setores específicos (inclusive do agronegócio, como laticínios e bebidas finas, mas principalmente da indústria), que terão de se modernizar para competir com o concorrente europeu.

A história e a teoria econômica já se cansaram de mostrar os benefícios da inserção no comércio internacional, um jogo do qual o Brasil ainda hoje se mantém relativamente distante – mesmo com recordes recentes, o país respondia por apenas 1,3% do comércio global de bens em 2024. Facilitar o acesso do exportador brasileiro ao mercado europeu, e do consumidor brasileiro a produtos e serviços europeus, é medida bem-vinda e uma oportunidade que todos esperam há muito tempo.

RODRIGO CONSTANTINO

BOLSONARO NA PAPUDINHA

Bolsonaro Papuda

Alexandre de Moraes determina a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o Complexo da Papuda, no Distrito Federal

“Hoje, já fiz o que tinha que fazer”, disse Alexandre de Moraes para uma plateia submissa da turma de Direito da USP nesta quinta. O ministro se referia à decisão de transferir Jair Bolsonaro para a Papudinha. Os bajuladores aplaudiram, lembrando que todo regime ditatorial necessita da cumplicidade de uma elite perversa.

Carlos, filho do ex-presidente, chamou o ambiente da nova prisão de “severo” e lembrou que seu pai não cometeu qualquer crime. O novo espaço, maior, possui upgrades, sem dúvida, mas certamente Moraes não autorizou a transferência por crise de consciência humanitária.

Sua decisão, aliás, veio logo depois de encontro com Lula e de pesquisas mostrando certo momento para Flávio Bolsonaro. Seria uma forma de tentar esvaziar a denúncia de que Jair estava sob tortura? Essa é a tese do deputado Mauricio Marcon. O sistema quer manter Bolsonaro calado e afastado, mas vivo (por enquanto). Ao menos até a eleição.

Outra possibilidade é uma cortina de fumaça para abafar o escândalo do Banco Master, que tem Moraes e Toffoli envolvidos até o pescoço. Sempre que o sistema se vê nas cordas puxa algum factoide ou cria alguma notícia sobre Bolsonaro, pois sabe que isso desvia a atenção da mídia.

Por mais que a Papudinha represente uma melhora em relação ao confinamento na PF, a escolha não foi fruto de preocupações humanitárias. Moraes disse que prisão não é “colônia de férias”, e comparou a situação de Bolsonaro com presos comuns para constatar que ele é um “privilegiado”. Por que o ministro não comparou com outros políticos?

Nem vamos falar de Sergio Cabral e toda turma da Lava Jato que estão soltos! O ex-presidente Collor está em prisão domiciliar, em sua cobertura de frente para o mar em Alagoas, por ter bipolaridade. Chico Brazão, acusado de ter mandado matar Marielle Franco, foi para prisão domiciliar por questões de saúde. Por que Bolsonaro não pode ter o mesmo tratamento?

Se compararmos com Lula quando era presidiário, a discrepância salta aos olhos também. Lula dava inúmeras entrevistas, recebia um monte de gente, descolou até uma namorada com quem casou depois, tinha esteira ergométrica na “cela” e por aí vai. Não resta a menor dúvida: Bolsonaro é alvo da vingança do sistema.

E não é porque as condições melhoraram um pouco que devemos parar com as cobranças: Bolsonaro sequer deveria estar preso, mas com suas comorbidades e idade, a única prisão “aceitável” seria a domiciliar.

PENINHA - DICA MUSICAL