Quantos anos de cadeia? pic.twitter.com/1h7dm6YiqI
— TumultoBR acervo (@TumultoBRacervo) June 26, 2025
Quantos anos de cadeia? pic.twitter.com/1h7dm6YiqI
— TumultoBR acervo (@TumultoBRacervo) June 26, 2025

Dois ícones da cantoria nordestina de improviso: Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992) e Severino Pinto, o Pinto de Monteiro (1895-1990)
* * *
Uma cantoria de Pinto do Monteiro e Lourival Batista
Pinto do Monteiro
É certo, meu camarada
O que você tá dizendo
Eu costumo andar assim
Sujo e cheio de remendo
Mas ninguém diz onde eu passo:
“Pinto ficou me devendo.”
Lourival Batista
De ninguém ando correndo
Pois não faço maus papéis
Não devo, o que compro pago
Desde o perfume aos anéis
Seja chapéu pra cabeça
Ou sapato para os pés.
Pinto do Monteiro
E os duzentos e dez
Que tu tomaste a Armando?
Por uns quatro ou cinco dias
O tempo foi se passando
Já faz quatro ou cinco meses
Ó ele ali esperando!
* * *
Uma cantoria de Sebastião da Silva e Moacir Laurentino:
Moacir Laurentino
No inverno estou feliz,
trabalhando o meu dia,
olhando o saguim na mata,
que saltita, canta e pia,
e o passa-sebo furando
a casca da melancia.
Sebastião da Silva
No calor do meio dia,
escutar uma peitica,
deitado em colchão de folha
debaixo da oiticica,
quanto mais o sol esquenta
mais bonito o sertão fica.
Moacir Laurentino
A água desce na bica
quando chove em fevereiro,
no terreiro o peru roda,
fuça um porco no aceiro,
e a água desce do corgo
com basculho pra o barreiro.
* * *
Uma cantoria de Silveira e Diniz Vitorino
Silveira
Tu não faz a metade do que faço
Quando eu pego um cantor se acaba o nome
Nesse dia os cães não passam fome
E urubus festejam no espaço
Deixo o corpo do pobre num bagaço
Exposto ao monturo seu despojo
Cantor fraco eu só mato de arrojo
E a folia se arrancha na ossada
Sai a alma gritando abandonada
E o diabo não quer porque tem nojo.
Diniz Vitorino
No momento que eu me aperreio
Com o peso esquisito do meu braço
Não existe prisão feita de aço
Que com o murro eu não parta pelo meio
No momento que acabo com o esteio
Que alguém pra fazer gasta um ano
Tiro telha, quebro ripa, envergo cano
De metal ou de aço bem maciço
Você morre e não faz este serviço
Só faz eu porque sou paraibano.
Silveira
Dei um murro na venta de um poeta
Que a cabeça rodou fez piruetas
E passando por todos os planetas
Foi parar no reinado de um profeta
Nisto um santo que viu ficou pateta
A cabeça do vate estava um facho
Uma alma gritou ô velho macho
E são pedro gritou o que é isso?
Disso um anjo que estava junto a cristo
É silveira zangado lá embaixo.
Diniz Vitorino
Eu ja fui no inferno urgentemente
E entrei numa poeta lá por trás
E peguei um irmão de satanás
E um primo, um irmão e um parente.
Pra mostrar que eu sou cabra valente
Dei um tapa no diabo carrancudo
E peguei outro diabo cabeludo
Dei-lhe tanto que o cabra ficou calvo
Se você morrer hoje já ta salvo
Que o que tinha de diabo eu matei tudo.
* * *
CANTORIAS E FOLGUEDOS NORDESTINOS

Plenário da Câmara dos Deputados: originalmente projetado para cerca de 300 parlamentares, hoje abriga mais de 500
Há uma discussão muito grande sobre o aumento do número de deputados, de 513 para 531. O Senado aprovou um projeto de lei que já tinha passado pela Câmara, em resposta a uma decisão do Supremo que deu um prazo de 30 de junho para a Câmara cumprir a Constituição, segundo a qual o número de deputados tem de ser proporcional à população dos estados, com base no censo de 2022. Nós teremos, já no ano que vem, de eleger 531 deputados, além de dois terços dos 81 senadores.
Por que tantos deputados? Eu fiz uma continha aqui: nós temos 395 mil brasileiros para um deputado. Nos Estados Unidos, um deputado representa 782 mil americanos. A Câmara de Representantes norte-americana tem 435 deputados para uma população de 340 milhões; nós somos 210 milhões e teremos 531 deputados. E tudo isso tem consequência também nas assembleias legislativas, que serão acrescidas de 30 deputados estaduais. Tudo bancado pelo pagador de impostos.
Quando Oscar Niemeyer construiu o plenário da Câmara, ele planejou um espaço para 326 cadeiras. Agora são 513. Já diminuíram o corredor do meio e os espaços nas laterais para caber mais cadeiras. Quero ver como vão ajeitar aquilo. Será que vão arrumar cadeiras de dois andares?
* * *
DataPrev e Ministério da Gestão também têm culpa no escândalo do INSS
A Folha de S.Paulo publicou, no dia 24, uma coluna questionando por que a DataPrev e o Ministério da Gestão, ao qual a DataPrev está subordinada, não estão sendo cobrados pelo caso das fraudes no INSS. O colunista lembrou que a DataPrev é talvez mais responsável que as duas autoridades que caíram por causa do escândalo, o presidente do INSS e o ministro da Previdência, Carlos Lupi, porque todo o controle desses dados passa pela DataPrev, mas ninguém controlou se os pobres idosos descontados tinham autorizado esses descontos; no máximo, conferiam se a pessoa estava viva e se o contracheque dela comportava o desconto. E, como diz o colunista, a DataPrev, pertencendo à pasta da ministra Esther Dweck, tem autonomia, não tem de obedecer a ordens do INSS dizendo para fazer ou não fazer determinado controle. É bom lembrar que o governo Bolsonaro pretendia instituir regras mais rígidas, mas elas foram enfraquecidas com votos daqueles que queriam favorecer a área sindical, beneficiada com esses descontos.
* * *
Os números dos homicídios que ninguém comenta
Falam tanto sobre homicídios no Brasil, e tenho aqui os dados de 2024 da capital da República. A maioria das vítimas, 88%, era de homens; só 12% eram mulheres. Mas a cobertura dos jornais não mostra isso. Armas de fogo foram usadas em 41% dos homicídios; os outros foram cometidos com facas, paus, pedras, barras de ferro. Por fim, o motivo: em 50% dos casos, tirar uma vida para roubar um celular.
Um dos mais famosos boêmios potiguares, Zé Areia, (1900-1972) viveu na época da Segunda Guerra Mundial, e marcou época, não apenas pela vida de boêmio, como pelo arsenal de respostas malcriadas, que trazia na ponta da língua, pronto para se defender dos desafetos ou simples cidadãos anônimos, que, por acaso o incomodassem.
Havia quem mexesse com ele, somente para ouvir a resposta agressiva.
Foi o caso de um professor que o encontrou na porta do Café São Luiz, na Cidade Alta, e foi dizendo:
– Hoje eu estou doido para ver um corno!
Zé Areia o convidou:
– Entre aqui no café. Vou lhe mostrar o maior corno do mundo!
E em frente ao espelho, disse:
– Veja ali! É aquele que está junto de mim!!!
Era o próprio professor.
Zé Areia nunca se preocupou muito com o seu conforto pessoal, vivendo modestamente. Sempre preferiu a vida de boêmio, sem se preocupar em acumular dinheiro.
Sua inteligência privilegiada, suas respostas na ponta da língua e sua simpatia, conquistavam a todos, e lhe facilitavam a venda de loterias ou rifas, desfilando com lindos carneiros, objetos dos sorteios.
Amigo de juventude de João Café Filho, qual não foi a sua alegria ao ver o amigo chegar à Presidência da República. Viajou para o Rio, na esperança de conseguir um bom emprego, conforme lhe havia sido prometido.
Ao chegar ao Palácio, foi atendido por um secretário, que não permitiu sua entrada, e ainda lhe transmitiu o recado de que o emprego disponível no momento era o de seringueiro na Amazônia.
Indignado, Zé Areia teria disparado, no ato:
– Meu amigo, você diga pra Café Filho que quem veio aqui foi o amigo dele Zé Areia, atrás do emprego que ele me prometeu, quando subisse na vida. Diga também, que ele se lembre de que, no Rio Grande do Norte, quem tira leite de pau é “bu…….!” Um emprego desse, eu não quero!!!
Certa tarde, melancólico, num botequim, Zé Areia contava sua desdita. Fora casado, tivera lar, esposa e filhos, mas a mulher não aguentara sua vida boêmia e as incertezas dos dias sem ter o que comer com os filhos. Certa madrugada, ao voltar para casa, não encontrou nem mulher, nem filhos, nem móveis. E Zé Areia confessou que ficou louco de aperreio, não por ela, mas pela saudade dos filhos.
Terminou localizando a nova moradia da ex-mulher. Agora, tida e mantida pelo Coronel Teodósio, conhecido chefe político, poderoso e rico.
Cheio de alegria, Zé Areia foi à procura dos filhos. Estava brincando com eles, quando salta dum cavalo o tal coronel Teodósio, rebenque na mão e falando grosso:
– Boa tarde, seu Areia!
Assustado, conta Zé Areia que só fez desengalhar o chapeu da galhada de chifres e respondeu, educadamente:
– Boa tarde, coronel Teodósio, Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias!
O país anda “bestialógico” (disparatado). Muito. Mais que muito. E, com frequência, me divirto lendo poemas nesse estilo, usando palavras que não existem. Ficam sem sentido, claro, esse precisamente o objetivo. Melhor os sonetos que a realidade nacional, hoje. E gosto dessa graça livre, leve, solta (ao menos enquanto o Supremo não censurar), na esperança de que o mesmo possa também ocorrer com o amigo leitor. Seguem para começar, como exemplo:
1. O primeiro de Millôr Fernandes. Há uma história divertida que me foi contada pelo próprio Ariano Suassuna, sobre o tal soneto. Começa quando apareceu de repente Millôr, em sua casa (na Rua do Chacon), para conhecer nosso mestre. Assim que entrou, Ariano levantou da rede e começou a recitar o tal soneto, começando assim: “Penicilina de casapopéia”. Millôr reagiu, “Você recitou esse primeiro verso errado, comendo uma palavra”. E Ariano “Você é que não escreveu certo, usando um verso alexandrino (com 12 sílabas), quando todos os outros têm apenas 10. Eu só corrigi”. E, o mais engraçado, é que Ariano tinha mesmo razão. Segue o texto, como escreveu Millôr:
Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se parte carmo tu que esperepéia
Já crima volta pinda cataruma.
Estando instinto catalomascoso
Sem ter mavorte fide lastimina
És todavia piso de horroroso
E eu reclamo – Pina! Pina! Pina!
Casa por fim, morre peridimaco
Martume ezole, ezole martumar
Que tua para enfim é mesmo um taco.
E se rabela capa de casar
Estrumenente siba postguerra
Enfim irá, enfim irá pra serra.
2. E o segundo é esse soneto magnífico, de Dom Luiz Lisboa, arcebispo da Igreja Católica em Cachoeiro de Itapemirim, a terra de Roberto Carlos. Segue:
Tu és o quelso do pental ganírio
Saltando as rimpas do fermim calério,
Carpido as taipas do furor salírio
Nos rúbios calos do pijón sidério.
És o bartólio no bocal empíreo
Que ruge e passa no festão sitério
Em ticoteio no partano estírio
Rompendo as gambas do hartomogenério
Teus belos olhos que têm barlacantes,
São camensúrias que carquejam lantes
Nas duras péleas do pegal balônio;
São carmentórios de um carcê metálico
De lúrias peles, em que buza o bálico
Em vertimbáceas do cental perônio.
3. Não é soneto, mas é bestialógica, esta sextilha de Zé Limeira. Para quem não conhece, um cantador meio (talvez mais que isso) doido, com quase dois metros de altura, que andava sempre com um lenço vermelho no pescoço, óculos escuros (mesmo de noite) e anéis em todos os dedos. Por considerar veículos a motor “coisa do demo”, só andava a pé. E era adorado por seu público:
Pra cantar Filosomia
Sobre a vida de Jesus
Canto debaixo da terra
Na Santa Filanlumia
Oceano desdobrado
No véu da Pilogamia.
4. Por fim, mais um soneto. Este não propriamente bestialógico, apesar de ter esse título, mas que vale mesmo a pena, de Bernardo Guimarães (1825-1884). Autor, entre outros romances, de Escrava Isaura – que fez muito sucesso numa adaptação da TV Globo, em 1976. É o Patrono da Cadeira 5, na Academia Brasileira de Letras, hoje ocupada por Ailton Krenak. Segue:
Eu vi dos polos o gigante alado
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bucões ariscos
Devorando em silêncio a mão do fado.
Cinco fatias de tufão gelado
Figuravam na mesa entre os petiscos.
Envolto em crepe de fatais rabiscos,
Campeava o sofisma ensangüentado.
Quem és, que assim me cerca de episódios?
Perguntei-lhe com voz de silogismo,
Brandinho um facho de trovões seródios.
Eu sou ‒ me disse ‒ aquele anacronismo
Que a vil caterva de sulfírios olhos,
Nas trevas sepultei um solecismo.
Por tudo, então, viva o Brasil real, popular e profundo, que ainda sobrevive no sangue vermelho, Rubro Veio (como no título de romance do confrade na ABL Evaldo Cabral de Melo), que ainda corre dentro de nós.
Imagem de quando a alma sai do corpo.
Who are we hiding from? pic.twitter.com/WuJbH8d5VO
— Nature is Amazing ☘️ (@AMAZlNGNATURE) June 26, 2025
Meus caros:
Tive o privilégio de ler antes e assinar a orelha da nova obra da Regina, escritora de Ribeirão Preto.
A história gira em torno de Elídio Patrezzi, artista plástico e professor de teatro, que vê sua vida pessoal e profissional se desintegrando ao mesmo tempo. Entre um casamento em crise e a busca por validação no competitivo cenário artístico, Elídio embarca numa empreitada criativa ao lado do amigo Júlio.
A proposta ousada que desenvolvem é aceita para compor uma importante exposição – uma conquista que, a princípio, parece redentora, mas logo se revela um inesperado pesadelo.
O livro é carregado de possíveis affairs entre as personagens e revela detalhes quase não conhecidos da vida pessoal dos artistas e de seu processo criativo, sendo, por isso, um convite a tropeçar, junto com os personagens, nas inquietações da alma humana, entre lampejos de genialidade e as inevitáveis quedas do ego.
O Tropeço do Xamã já está disponível nas principais livrarias e canais online da Editora Desconcertos.
Clique na imagem abaixo para acessar: