JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VIROLAS E MEIA-SOLAS

“Seu Vavá” o Sapateiro do bairro

Se alguém procurasse na Bela Vista, pequeno e antigo bairro de Fortaleza, pelo senhor Edivaldo Santos, nem mesmo os poucos e antigos moradores saberiam informar – mas, se alguém procurasse “Seu Vavá”, o único Sapateiro do bairro e, provavelmente, um dos poucos daquela cidade que ganhavam a vida e o sustento da família, literalmente batendo sola no pé de ferro e arrumando virolas de sapatos femininos, não precisaria perguntar muito.

A confiança na execução do trabalho perfeito e o cumprimento das promessas de entregas do serviço fizeram de “Seu Vavá” um dos profissionais mais procurados – e, pasmem, nunca saíra da sua oficina para atender a domínio, fosse qual cliente fosse. Assim, era comum que senhoras das classes média e alta procurassem os seus serviços. Pela perfeição, principalmente nos calçados já “amaciados e acostumados com os calos dos pés”.

Pé de ferro – um dos principais equipamentos de trabalho

Mas, o que “Seu Vavá” mais recebia – e trabalhava só, sem ajudante – era a recuperação de sapatos masculinos. A meia-sola com um novo salto, parecia que o dono havia comprado um novo calçado. A perfeição do serviço, que era entregue religiosamente conforme prometido, e ainda recebia o brilho de uma engraxada. Esse, com certeza, era o principal segredo do atendimento preferido e de tanta procura pelos serviços do “Seu Vavá”

A meia-sola caprichada e um novo salto

Naqueles anos, fins da década de 50, começo da década de 60 e até meados dos anos da década de 70, os homens que frequentavam salões de festas nos clubes sociais, gostavam de usar sapatos de duas cores: branca e vernelha. E o capricho do serviço de recuperação e limpeza do “Seu Vavá”, era outro dos motivos que muitos lhe davam preferência. Os homens, calkçados com sapatos de duas cores, calça de linho ou gabardine branca, chamavam a atenção nos salões de tertúlias dos clubes sociais.

Os anos se passaram. A moda masculina ficou mais “gaiata”, sem graça, sem brilho, sem esmero e, por que não dizer, sem valor. Ficou, asseguro, “apapagaiada”, como diria meu falecido e inesquecível Avô João Buretama, que apreciava aquela moda, muito embora só usasse as “alpercatas” (como ele próprio falava).

Os clubes sociais acabaram. Orquestras inteiras que alegravam as noites da sociedade, literalmente desapareceram. Ivanildo e seu Conjunto, e tantas outras orquestras que foram substituídas pelos balançar de bundas e músicas onde o que é dito não diz nada.

A perfeição e o carinho do trabalho do “Seu Vavá” ajudava a beleza e elegância feminina

O Sapateiro que sustentou tantas famílias, aos poucos perdeu espaço para a informalidade travestida de conforto do tênis e o salto alto perdeu espaço para a denominada “rasteirinha”, um calçado que, dizem, ajuda a mulher a descansar as panturrilhas sobrecarregadas durante um dia de trabalho onde a elegância faz parte. Mas, tanto o Sapataeiro quanto o Acendedor de Lampiões, ou o Entregador de leite todos os dias nas portas da freguesia, ou ainda, o Açougueiro que tantas vezes nos ajudava a escolher a boa carne das refeições e dos churrascos, são profissões que, aos poucos, estão desaparecendo.

Relojoeiro, Ourives, Prestamista, Jornaleiro…… por onde anda essa gente?

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

CAOS GENERALIZADO

Semana passada falei aqui da rotina que se tornou o Brasil pela constância de se ver os mesmos assuntos na mídia ou em qualquer lugar. A corrupção é o cerne dos problemas, mas talvez não seja o núcleo. O Brasil não difere muito de paciente com metástase provocando por esse tumor chamado corrupção. A sucessão de escândalos é algo fora do normal.

Essa semana, por exemplo, a polícia federal encontrou R$ 3,2 milhões na casa de um prefeito (ou ex-prefeito) e de acordo com aquilo que foi divulgado, tratava-se de recursos de uma emenda parlamentar. Veja bem: estamos falando de R$ 3,2 milhões em dinheiro vivo. Aí vem uma coisa que eu não consigo entender: onde este dinheiro foi sacado?

É inconcebível que em tempos de alta tecnologia, o setor público ainda se valha do uso da antiga “caderneta”. Se todas as transferências acima de R$ 1 mil devem ser informadas ao COAF, por que ainda se tem dinheiro vivo transitando por aí? Considere que o dinheiro sai da conta única do tesouro, que é vinculada ao Banco do Brasil e para sacar ou ser transferido necessita de um processo, de um procedimento e de várias autorizações.

Dinheiro na cueca, dinheiro na bunda, dinheiro em caixa de sapatos (como o caso do secretário de saúde do Pará na época da pandemia), dinheiro dentro de gavetas (como esse caso dos R$ 3,2 milhões), menos dinheiro onde, realmente, deveria estar: fazendo política pública para melhorar o bem-estar da população. O estado brasileiro é um caos generalizado. Questões prioritárias como educação, saúde e segurança são instrumentos naturais da sanha dos corruptos.

A coisa mais abjeta em tudo isso é leniência das instâncias judiciais. O plano de aparelhar as instituições para defender interesses partidários é bastante antigo. Zé Dirceu uma determinada ocasião disse isso. Aécio Neves falou de como deveria ser o modus operandi para investigar políticos: coloca um delegado que seja simpático ao investigado e pronto. O cara vai lá, investiga e arquiva. Depois ele foi gravado naquela tramoia dos irmãos Batistas. Não custa lembrar que ele foi afastado do senado por Marco Aurélio, mas os deputados entenderam que esse tipo de decisão não cabe ao STF, mas à câmara. Não valeu no caso de Deltan Dallangnol.

Não vamos conseguir mudar o país e não estamos fazendo esforço para isso. No máximo a gente protesta, externa, esculhamba, publica textos nas redes sociais, mas não tratamos da causa. Eu sempre pergunto: por que os deputados corruptos são eleitos? A única explicação é através da compra de votos e nesse ponto me revolta o comportamento do eleitor. É muita burrice não enxergar que uns R$ 300,00 por um voto não muda a vida dele, mas qual o esclarecimento que está sendo dado a este tipo de eleitor?

A gente vive um paradoxo formidável. O presidente eleito não anda nas ruas sem ser chamado de ladrão. A bem da verdade, ele não anda nas ruas de jeito nenhum. Prefere a plateia catequizada, a velha claque paga para aplaudir. Não há políticas públicas inovadoras, apenas aquelas destinadas a manter a pobreza, continuadamente, pobre.

Hoje, o governo não tem respaldo para continuar a não ser o ombro amigo da justiça. Vejam a questão do IOF. Uma medida que iria prejudicar a economia brasileira, tornar o crédito mais caro, afetar mercados imobiliário e agropecuário com a taxa das LCI/LCA, além de comprometer rentabilidade do VGBL com um imposto de 5%. Derrotado no congresso, o governo pretende recorrer ao STF. Onde uma decisão do congresso sobre política fiscal é matéria constitucional?

A gente fica indignado com isso, mas quando a gente olhar para o STF e se lembra que o advogado do presidente foi transformado ministro, então… por favor, alguém me dia se vale a pena insistir?

DEU NO JORNAL

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CANTORIA EM MEU QUINTAL

Um Rouxinol me acordou
Cantando no meu quintal.

Mote de Fátima Marcolino

Passei a noite sonhando
Que voltava ao meu sertão
E naquela aparição
Senti papai me abraçando.
Seguimos cantarolando
E por detrás do curral
Um pequeno cardeal
Ao nos avistar, voou…
Um Rouxinol me acordou
Cantando no meu quintal.

Ao passar pela cancela
Que dava acesso ao açude
Vi uma bola-de-gude
Que um dia brinquei com ela.
Vi uma bola amarela
(Presente de um Natal)
Que a seca colossal
Sem ter dó estorricou.
Um Rouxinol me acordou
Cantando no meu quintal.

Em um pé de baraúna
Paramos pra descansar
E vi papai me mostrar
A sua nova “riúna”.
Um piado de graúna
Vinha de um milharal
Como se fosse um sinal
Do tempo bom que passou.
Um Rouxinol me acordou
Cantando no meu quintal.

Fotos no sítio Letreiro em Altinho-PE. Ao fundo a lendária Pedra do Letreiro

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Mãe Aninha

Eugênia Anna dos Santos, mais conhecida como Mãe Aninha, nasceu em 13/7/1869, em Salvador, BA. Mãe de Santo (Ialorixá), fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador e no Rio de Janeiro. O terreiro foi fundado em 1895 e tombado pelo IPHAN em 2000. Trata-se de um dos terreiros mais tradicionais de Salvador.

Filha de Leonídia Maria da Conceição Santos e Sérgio José dos Santos, afro-brasileiros da nação Grunci (ou Gurunsi). Foi iniciada na nação Queto, em 1884, pela Ialorixá Marcelina da Silva. Fundou seu terreiro no Rio de Janeiro, em 1895, e anos depois retornou à Salvador para fundar o terreiro Ilê Opô Afonjá, em 1910. Como atividade civil, trabalhou no comércio de quitutes, artesanato e produtos para rituais africanos, estabelecida na Ladeira da Praça, no Pelourinho e foi uma empreendedora bem sucedida.

Consta que ajudava os mais necessitados, amparando-os e encaminhando-os para trabalhar na sua residência. Essa posição social iria refletir na aquisição em 1909, das terras no alto de São Gonçalo para a criação de seu terreiro. Em 1936, instituiu o Corpo de Obás de Xangô e no ano seguinte participou do II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, a convite do escritor e etnólogo Edison Carneiro. Influenciou Getúlio Vargas, na promulgação do Decreto-Lei 1.202, no qual ficava proibido o embargo sobre o exercício da religião do candomblé no Brasil. Para isso, contou com a ajuda de Oswaldo Aranha, seu filho-de-santo e chefe da Casa Civil e do ogã Jorge Manuel da Rocha.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Mestre Didi), no livro História de um terreiro nagô (Editora Max Lomonad, 1988) tornou-se fonte indispensável para traçar o perfil de Mãe Aninha, pelo fato de ter compartilhado da vida dela, como agente direto e espectador. No livro, Mestre Didi escreve o nome de Mãe Aninha como “Eugênia Anna dos Santos” e a filiação com o nome do pai “Sérgio dos Santos (Anió)” e da mãe como “Lucinda Maria da Conceição’ (Azambrió)”. Estas informações são diferentes das registradas na certidão de nascimento. Mestre Didi, emenda: “O restabelecimento da antiga tradição dos Obás de Xangô veio dar ainda maior prestígio ao Opô Afonjá e demonstrar as qualidades e conhecimentos da Ialorixá Aninha Iá Obá”.

Segundo Marcos Santana em seu livro Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano (Editora EGBA, 2006) “(…) é de aceitação universal que a jovem Eugênia Ana dos Santos teria sido iniciada na nação Queto em 1884, aproximadamente, pela insigne Ialorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia de Figueiredo, Omoniquê.” O sociólogo Donald Pierson, no livro Brancos e pretos na Bahia: estudo de contato social (Editora Nacional, 1945), registra que ela “Possui na cidade uma pequena loja onde vende vários artigos, inclusive usados nos rituais de culto; e sabendo os membros do mundo afro-brasileiro que esses artigos devem ser legítimos, uma vez que são vendidos por ela, a loja faz bom negócio.”.

Em 1936, aos 67 anos, ficou doente e faleceu em 13/1/1938. O cortejo fúnebre seguiu de carro de seu terreiro até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde ficou exposto até as 15hs. do dia seguinte. Foi sepultada no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, com todas as formalidades de praxe do candomblé e da religião católica. Em 3/1/1945, foi realizada a obrigação de Acú (ou obrigação dos sete anos), o último dos compromissos da Sociedade para que a sua Mãe de Santo obtivesse luzes e descanso eterno.

DEU NO JORNAL

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

NOTAS PARA UM NOVO SEMESTRE

1. Sempre é bom relembrar uma citação famosa, em tempos de crise brasileira: “O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloquência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, persuasor permanente; da técnica-trabalho, eleva-se à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece ‘especialista’ e não se chega a ‘dirigente’, especialista mais político.” Autoria de um pensador sempre relembrado: Antônio Gramsci.

2. Reli, outro dia, o Bê-a-Bá de Pernambuco, do saudoso poeta Mauro Mota, repleto de significativos apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos que tinha? No Bê-a-Bá de Pernambuco constatamos o uso de palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, angu, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. Releitura que me deixou ainda mais saudoso do inesquecível poeta, ex-diretor do então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, uma instituição que foi uma universidade para a minha formação técnico-cultural.

3. O instante político brasileiro nem sempre está muito propício para quadros técnicos politizados, dotados de sementeiras noções acerca do social, para ampliar a eficácia das políticas públicas dos diferenciados setores, respeitadas as peculiaridades regionais e sub-regionais, urbanas e rurais. Entretanto, recentemente, cientistas políticos consequentes estão advertindo: o excesso de participação aparentemente efetiva, apenas para inglês ver, pode ter como efeito o descrédito de muitos e o aumento da abstenção eleitoral em 2026.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os quantitativos de salários mínimos se agigantam no mundo brasileiro e os “bicos” tornam-se mais necessários, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a famosa lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e populismos eleitorais belicistas, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.”

5. Outro dia, me deparei com um testemunho para lá de inacreditável. Um jovem intelectualmente bem apetrechado, atlético nos seus vinte e oito anos, declarava que passava inúmeras vezes por medíocre para evitar a rejeição dos seus derredores sociais. Uma superdotação contida pela caretice ambiental dos bundões que arrotam prepotências, confundindo sexualidade com enfiações influenciadas pelas redes sociais que ampliam um nítido QI de primata. Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. Mas pouco a pouco vão percebendo, os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam nenhum futuro. Nem grandes e pequenos. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, quando dela emergir uma maturidade direcional dos seus governantes, agindo como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando plenamente a cartilha ética dos seus direitos e dos seus deveres. Quem sobreviver, vivenciará.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL