“Seu Vavá” o Sapateiro do bairro
Se alguém procurasse na Bela Vista, pequeno e antigo bairro de Fortaleza, pelo senhor Edivaldo Santos, nem mesmo os poucos e antigos moradores saberiam informar – mas, se alguém procurasse “Seu Vavá”, o único Sapateiro do bairro e, provavelmente, um dos poucos daquela cidade que ganhavam a vida e o sustento da família, literalmente batendo sola no pé de ferro e arrumando virolas de sapatos femininos, não precisaria perguntar muito.
A confiança na execução do trabalho perfeito e o cumprimento das promessas de entregas do serviço fizeram de “Seu Vavá” um dos profissionais mais procurados – e, pasmem, nunca saíra da sua oficina para atender a domínio, fosse qual cliente fosse. Assim, era comum que senhoras das classes média e alta procurassem os seus serviços. Pela perfeição, principalmente nos calçados já “amaciados e acostumados com os calos dos pés”.
Pé de ferro – um dos principais equipamentos de trabalho
Mas, o que “Seu Vavá” mais recebia – e trabalhava só, sem ajudante – era a recuperação de sapatos masculinos. A meia-sola com um novo salto, parecia que o dono havia comprado um novo calçado. A perfeição do serviço, que era entregue religiosamente conforme prometido, e ainda recebia o brilho de uma engraxada. Esse, com certeza, era o principal segredo do atendimento preferido e de tanta procura pelos serviços do “Seu Vavá”
A meia-sola caprichada e um novo salto
Naqueles anos, fins da década de 50, começo da década de 60 e até meados dos anos da década de 70, os homens que frequentavam salões de festas nos clubes sociais, gostavam de usar sapatos de duas cores: branca e vernelha. E o capricho do serviço de recuperação e limpeza do “Seu Vavá”, era outro dos motivos que muitos lhe davam preferência. Os homens, calkçados com sapatos de duas cores, calça de linho ou gabardine branca, chamavam a atenção nos salões de tertúlias dos clubes sociais.
Os anos se passaram. A moda masculina ficou mais “gaiata”, sem graça, sem brilho, sem esmero e, por que não dizer, sem valor. Ficou, asseguro, “apapagaiada”, como diria meu falecido e inesquecível Avô João Buretama, que apreciava aquela moda, muito embora só usasse as “alpercatas” (como ele próprio falava).
Os clubes sociais acabaram. Orquestras inteiras que alegravam as noites da sociedade, literalmente desapareceram. Ivanildo e seu Conjunto, e tantas outras orquestras que foram substituídas pelos balançar de bundas e músicas onde o que é dito não diz nada.
A perfeição e o carinho do trabalho do “Seu Vavá” ajudava a beleza e elegância feminina
O Sapateiro que sustentou tantas famílias, aos poucos perdeu espaço para a informalidade travestida de conforto do tênis e o salto alto perdeu espaço para a denominada “rasteirinha”, um calçado que, dizem, ajuda a mulher a descansar as panturrilhas sobrecarregadas durante um dia de trabalho onde a elegância faz parte. Mas, tanto o Sapataeiro quanto o Acendedor de Lampiões, ou o Entregador de leite todos os dias nas portas da freguesia, ou ainda, o Açougueiro que tantas vezes nos ajudava a escolher a boa carne das refeições e dos churrascos, são profissões que, aos poucos, estão desaparecendo.
Relojoeiro, Ourives, Prestamista, Jornaleiro…… por onde anda essa gente?








