FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

1. Sempre é bom relembrar uma citação famosa, em tempos de crise brasileira: “O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloquência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, persuasor permanente; da técnica-trabalho, eleva-se à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece ‘especialista’ e não se chega a ‘dirigente’, especialista mais político.” Autoria de um pensador sempre relembrado: Antônio Gramsci.

2. Reli, outro dia, o Bê-a-Bá de Pernambuco, do saudoso poeta Mauro Mota, repleto de significativos apontamentos. Quem é que sabe, por exemplo, que Pernambuco vem de Paranã-puka, denominação dada pelos caetés à abertura feita pelas águas nos arrecifes do nosso porto natural? Quem é que sabe que Jerônimo de Albuquerque carregava o apelido de Adão Pernambucano, tamanho era o número de amantes e filhos que tinha? No Bê-a-Bá de Pernambuco constatamos o uso de palavras africanas. Muitos nem imaginam que bunda é uma palavra africana. Como inúmeras outras do nosso cotidiano: banana, angu, samba, mucambo, garapa, cabaço, fuzuê, mulungu, bugiganga e carimbo. Além de moleque, mulungu, caçula, cafuné e cambada. Releitura que me deixou ainda mais saudoso do inesquecível poeta, ex-diretor do então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, uma instituição que foi uma universidade para a minha formação técnico-cultural.

3. O instante político brasileiro nem sempre está muito propício para quadros técnicos politizados, dotados de sementeiras noções acerca do social, para ampliar a eficácia das políticas públicas dos diferenciados setores, respeitadas as peculiaridades regionais e sub-regionais, urbanas e rurais. Entretanto, recentemente, cientistas políticos consequentes estão advertindo: o excesso de participação aparentemente efetiva, apenas para inglês ver, pode ter como efeito o descrédito de muitos e o aumento da abstenção eleitoral em 2026.

4. Muitos estão cientes de que “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.” Quando os quantitativos de salários mínimos se agigantam no mundo brasileiro e os “bicos” tornam-se mais necessários, os roncos estomacais se avolumam, incomodando famintos e saciados, os últimos ainda desatentos para a famosa lição histórica: “quem semeia ventos colhe tempestades.” E as tempestades são más conselheiras, atraem patas e chibatas, messianismos autoritários e populismos eleitorais belicistas, independentemente de classes sociais. O “maldito” Wilhelm Reich, em 1942, já repetia incessantemente: “A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o burguês ao proletário. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do poder não se limita aos capitalistas, atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe.”

5. Outro dia, me deparei com um testemunho para lá de inacreditável. Um jovem intelectualmente bem apetrechado, atlético nos seus vinte e oito anos, declarava que passava inúmeras vezes por medíocre para evitar a rejeição dos seus derredores sociais. Uma superdotação contida pela caretice ambiental dos bundões que arrotam prepotências, confundindo sexualidade com enfiações influenciadas pelas redes sociais que ampliam um nítido QI de primata. Somos um país naturalmente vocacionado para uma irreversível liderança continental. Mas pouco a pouco vão percebendo, os mais responsáveis, que os oportunismos populistas não beneficiam nenhum futuro. Nem grandes e pequenos. A nação brasileira fascinará o mundo inteiro, quando dela emergir uma maturidade direcional dos seus governantes, agindo como se fossem brasileiros consequentes, cada um dominando plenamente a cartilha ética dos seus direitos e dos seus deveres. Quem sobreviver, vivenciará.

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