DEU NO JORNAL

MARIO VARGAS LLOSA E A VERDADE PERPÉTUA DA LITERATURA

Paulo Briguet

Mario Vargas Llosa, gigante da literatura e vencedor do Nobel de 2010, morre aos 89 anos neste domingo (13)

“A arte não reproduz o visível, ela torna visível.” (Paul Klee)

Que saudade de conversar com meu pai! O tema predileto de nossas conversas era literatura; graças a ele, fui apresentado a um mundo fascinante habitado por personagens inesquecíveis como Tolstói, Dostoiévski, Kafka, Borges, Proust, Henry Miller, Shakespeare e tantos outros.

Um dos autores que discutíamos frequentemente era o peruano Mario Vargas Llosa, que morreu aos 89 anos neste Domingo de Ramos.

Em 1978, pouco antes do Natal, eu passeava com meu pai pelo Centro de São Paulo quando ele entrou numa livraria e comprou um volume de capa branca intitulado “A Orgia Perpétua”. Ao sairmos da loja, perguntei:

— Pai, o que é orgia?

Ele hesitou por um instante, mas logo disse:

— É uma festa em que as pessoas se divertem muito, bebem muito, comem muito, cometem excessos…

Não é admirável o esforço em explicar o que é orgia a um menino de 8 anos? Esse era meu pai.

Mas eu não estava satisfeito. Lancei uma segunda pergunta:

— E o que é perpétua?

Essa era mais fácil. Ele sorriu e disse com total segurança:

— Perpétua é algo que dura para sempre.

O resultado imediato dessa conversa foi que na festa de Natal de 1978, vendo todo mundo da família beber, comer e se divertir à vontade — que exagero! —, eu arrisquei um comentário:

— Nossa, que orgia!

Anos depois, na época da universidade, quando atravessava um período de depressão, li A Orgia Perpétua (por sinal, aquele mesmo exemplar comprado por meu pai na livraria Avenida São João). 

Digo, sem medo de errar, que foi um livro fundamental para minha trajetória de escritor. Nesse longo e impactante ensaio, Llosa mergulha no universo do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. 

Em uma passagem particularmente memorável, o escritor confessa que a leitura de Madame Bovary em Paris salvou-o do suicídio. 

Essa afirmação (até por se referir a um romance em que a protagonista comete suicídio) teve grande importância para mim naquele momento.

Após ter lido A Orgia Perpétua, mergulhei na obra ficcional de Mario Vargas Llosa. Comecei pelo hilariante Tia Júlia e o Escrevinhador, avancei pelo pouco conhecido, mas comovente História de Mayta (sobre um jovem destruído pela mentalidade revolucionária). 

Encarei o épico A Guerra do Fim do Mundo (uma fascinante reconstituição ficcional da Guerra de Canudos, em que o nosso Euclides da Cunha é personagem). 

Apreciei as memórias políticas de Peixe na Água (em que Llosa narra sua candidatura a presidente do Peru em 1990) e me encantei com o romance de formação A Cidade e os Cachorros

Lamentavelmente, não li Conversa na Catedral e A Casa Verde — mas pretendo fazê-lo agora. (E quando digo agora, é agora mesmo: escrevo este texto na Biblioteca Municipal de Londrina e vou fazer o empréstimo dos dois livros daqui a alguns minutos.)

Pouco antes da morte de meu pai, foi a minha vez de comprar um livro do Llosa para ele: A Verdade das Mentiras, uma sensacional coletânea de ensaios sobre grandes romances e novelas da literatura universal. Ah, vocês sete não imaginam como esse livro rendeu ótimas conversas com meu pai…

A abordagem de Llosa me faz lembrar uma frase atribuída a Pablo Picasso: “A arte é a mentira que nos faz ver a verdade”. Da mesma forma, livros como Doutor Jivago, O Estrangeiro, O Grande Gatsby e Santuário nos oferecem chaves simbólicas para a compreensão da realidade e o fortalecimento da alma.

Se em 1978 eu não compreendi bem o que significava a palavra orgia, em 2008 eu entendi perfeitamente o sentido da palavra perpétua.

No dia 7 de outubro de 2010, quando liguei o computador para ver as notícias do dia, levei um susto: a foto de meu pai estava na manchete do jornal. 

Olhei uma segunda vez e percebi que não era Paulo, mas era a imagem do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura: Mario Vargas Llosa. Sim, eles eram fisicamente muito parecidos.

Espero que Paulo e Mario possam agora ter boas conversas lá na Catedral de Deus. E imagino que o assunto será a verdade perpétua da literatura.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ÉS DO CÉUS O COMPOSTO MAIS BRILHANTE – Bocage

Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura.

És dos Céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

DEU NO JORNAL

MEDALHA

No Dia do Café, ontem, nunca um cafezinho custou tão caro.

A bebida querida dos brasileiros disparou 77,78% no governo Lula, nos últimos doze meses.

Os números foram apurados no IPCA, do IBGE.

* * *

Palmas pro gunverno lulo-petralha!!!

Conseguiu bater mais um recorde na Olimpíada do Aumento de Preços.

Medalha de Ouro.

Visão Libertária

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

FÁCIL, FÁCIL

Comentário sobre a postagem POR PURO RANCOR, IMPRENSA INSISTE QUE TRUMP VAI LEVAR O MUNDO AO APOCALIPSE

Sergio Rieffel:

De tudo o que foi escrito na coluna, implicitamente notamos uma coisa boa:

O cidadão pode ser o maior ignorante em tudo que é quanto assunto, ele pode não estar nem aí para qualquer análise feita por qualquer “especialista” sobre qualquer coisa, ele pode ainda morar em uma caverna sem qualquer contato com o mundo externo!

Se, no entanto, inadvertidamente ele for perguntado sobre qualquer assunto, ele só precisa devolver com outra pergunta:

– A imprensa e o PT são a favor? Se sim, a coisa não presta e sou contra!!!

Pronto!

Acertou!

Deu a mais sábia das respostas!

Fácil, fácil…

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ALEXANDRE GARCIA

A MAIORIA DO CONGRESSO QUER O PL DA ANISTIA TRAMITANDO

sostenes pl anistia

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, protocolou requerimento de urgência para o PL da Anistia

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, já protocolou o pedido de urgência para a votação do projeto de lei da anistia. Urgência, no caso, significa votar depois da Páscoa. Tem a assinatura de mais de metade dos deputados, embora um ou dois tenham retirado a assinatura, sabe-se lá por quê. Esse pedido de anistia foi empurrado por decisões do Supremo, como a que não contemplou a necessidade de Clezão ir para casa se tratar, e ele morreu na cadeia. Ou o caso da Débora; todos sabem que ela não estava armada a não ser com um batom, que ela não causou nenhum dano à estátua granítica da deusa da justiça. Esses exageros do Supremo é que levaram a esse pedido de anistia.

E é bom lembrar que a anistia está prevista na Constituição. O artigo 48, inciso VIII, diz que é competência do Congresso Nacional conceder anistia. Então, não existe essa de dizer que não pode. O Congresso pode, porque o poder do povo foi transferido aos congressistas pelo voto. Ou então não é democracia.

* * *

8 de janeiro e facada em Bolsonaro têm inúmeras questões sem resposta 

Quando se fala do 8 de janeiro, surgem alguns nomes que estão fora dos processos. Por que não investigaram o general Gonçalves Dias? Ele aparece em várias gravações dentro do Palácio do Planalto, ciceroneando, oferecendo água para os primeiros que entraram lá, e mesmo assim não foi citado em nada. É inexplicável.

Este é apenas um caso, há outros ainda mais misteriosos, em que nem os nomes aparecem. Vejam a facada de Adélio Bispo em Jair Bolsonaro; ela continua tendo efeitos que vão durar por toda a vida de Bolsonaro. Essa provavelmente não será a última cirurgia, porque a consequência de operações que abrem o abdômen e manipulam o intestino delgado é exatamente isso: aderências que vão grudando e dificultando a circulação dentro do intestino. A cirurgia resolve o problema agora, mas daqui a um tempo ele volta.

O que as pessoas se perguntam é: Adélio agiu sozinho? Aí aparecem nomes de pessoas que poderiam ter influenciado Adélio, que criaram o álibi autorizando Adélio a entrar no gabinete de um deputado – um falso Adélio, um falso registro, um álibi – no mesmo dia em que ele atacaria Bolsonaro. Estava tudo pronto. E parece que, depois da facada, Adélio ficou perturbado e acabou preso. Isso não estava no script. Aí aparecem advogados de repente. Quem chamou os advogados? Quem pagou os advogados? Tudo isso volta a ser falado, até que seja esclarecido. Enquanto não responderem a essas grandes perguntas, o assunto vai permanecer.

A manifestação do 8 de janeiro também tem a ver com perguntas não respondidas. Ela aconteceu porque as pessoas não entenderam a apuração de votos. Vejam a quantidade de gente que se mobilizou espontaneamente em Natal, ao saber que Bolsonaro estava por lá. E o resultado da eleição em Natal diz que Lula ganhou. Mas comparem as manifestações de rua com Bolsonaro e as viagens de Lula; o povo tem dúvidas, e elas continuarão até que o Congresso decida como se faz uma apuração de voto confiável e, sobretudo, transparente, auditável. Na Alemanha aconteceu assim: fizeram tudo digital, e depois a Justiça decidiu que não pode, porque o eleitor não está entendendo como o voto dele foi contado.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

CAROLINA MARIA DE JESUS – UMA ESCRITORA NO “QUARTO DE DESPEJO”

Carolina Maria de Jesus (1914-1977), no dia do lançamento de Quarto de Despejo

Tom Farias, pseudônimo de Uélinton Farias Alves, Rio de Janeiro (1960), biógrafo negro de mão-cheia, relança a história de vida da poetisa, contista, memorialista, compositora, atriz, mulher, independente, Carolina Maria de Jesus, favelada, catadora de lixo por mais de doze anos na favela Canindé (SP), que se tornou uma das maiores escritoras do Brasil.

Nascida no município de Sacramento (MG), em 14 de março de 1914 e encantada no dia 13 de fevereiro de 1977, em São Paulo, onde viveu boa parte de sua vida na favela Canindé, Zona Norte de Sampa, sustentando, sozinha, três filhos de pais diferentes, apenas catando papéis.

Foi nesse período, 1960, que teve seu diário, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada,” publicado pela Editora Francisco Alves, com o auxílio do jornalista alagoano Audálio Ferreira Dantas, que visitou a favela para fazer umas reportagens para a revista O Cruzeiro, tornando-a mundialmente conhecida. Nesse livro ela retrata o realismo cruel e degradante da favela de Canindé, onde parecia que o mundo da miséria tinha sua sucursal ali.

Depois do estrondoso sucesso do lançamento do quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus, mais uma vez incentivada pelo jornalista Audálio Dantas, publica Casa de Alvenaria 1, onde registra os primeiros meses que morou em Osasco (SP) e Casa de Alvenaria 2: registra os meses que ela viveu em Santana (SP), onde ela descreve sobre as contradições cruéis de seu tempo, que não é diferente hoje. A fome, a miséria e o abandono ceifando vidas, e restos de comida jogados no lixo pelos donos dos armazéns todos os dias, não sendo distribuído com os pobres catadores de lixo; Pedaços de Fome e Provérbios (1963), são relatos dessas histórias desumanas do cotidiano da favela que estavam guardados em mais de quinze cadernos que Carolina mantinha num baú especial do seu barraco de madeira.

Carolina Maria de Jesus, é uma grande escritora negra brasileira sobrevivente da miséria, da fome, disse Tom Farias, seu biógrafo. Foi chamada de Machado de Assis de saia, Jorge amado do povo, e Shakespeare de cor. Tem muito peso nisso. Então os romances, os contos, os provérbios, as poesias de Carolina precisam estar no panteão da literatura com letra maiúscula, junto a todos os escritores de peso que o Brasil pariu, pela sua importância literária.

No dia 28 de julho de 2019, o colunista do JBF, José Domingos Brito, memorialista pródigo, prestou uma homenagem singular a Carolina Maria de Jesus na sua coluna domingueira: AS BRASILEIRAS aqui no JBF (clique  aqui para ler), detalhando sua descoberta pelo jornalista da revista O Cruzeiro, Audálio Dantas e a sua ascensão após a publicação do seu best seller aqui e no exterior: Quarto de Despejo: O Diário de uma Favelada.

Dentre seus livros lançados constam ainda: Casa de Alvenaria Um (diário 1961), Casa de Alvenaria Dois (diário 1961), Provérbios (memórias 1963), Pedaços da Fome (memória – 1963), Diário de Bitita (memória – 1986), Antologia pessoal (poemas – 1996), Meu estranho diário (1996), dentre outros tão mais importantes quanto quarto de despejo.

Carolina Maria de Jesus, escritora de raro talento, encantou-se no dia 13 de fevereiro de 1977, aos 62, de insuficiência respiratória, em seu quarto, no bairro de Parelheiros, onde ela viveu os últimos 20 anos de sua vida, na Zona Sul de São Paulo, na chácara que ela havia comprado com o dinheiro recebido dos direitos autorais da venda do livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, sucesso de venda aqui e no exterior.

PENINHA - DICA MUSICAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA