Hoje cedo Chupicleide, a inxirida secretária de redação desta gazeta escrota, fez um vale de adiantamento do salário deste mês de maio.
Isso por conta das doações feitas nos últimos dias pelos fubânicos Joab M., Violante Pimentel, Reynaldo Nabuco, A.J.S, Júlio Sidarta, Mario do Couto, Maria de Fátima Pereira e José Inácio Cunha,
Grato a todos vocês que contribuem para cobrirmos as despesas com a hospedagem e a manutenção deste jornaleco, serviços prestado pela empresa Bartolomeu Silva.
Além, é claro, do salário de Chupicleide.
E, atendendo a um pedido dela, fecho a postagem com uma composição que ela adora e que tem o sugestivo título de “Só Gosto de Tudo Grande“.
Ô sujetinha safada!
Uma interpretação da saudosa artista pernambucana Marinês.
Um excelente final de semana para toda a comunidade fubânica!!!
1918, fim da I Guerra Mundial. Alagoas não foi à guerra, mas um filho seu, valoroso guerreiro, Firmino Vasconcelos, então prefeito de Maceió, comemorou com três dias de festas a Paz Mundial. O povo bebeu e dançou na Praia do Aterro, no centro da cidade. Maceió é talvez a única capital que tenha praia no centro da cidade.
Durante o discurso, emocionado, empolgado com as doses de cachaça, das boas, distribuídas ao povo, o alcaide prometeu, ali, naquela praia extensa de areia branca, faria uma urbanização com o nome de Avenida da Paz.
O prefeito era um cara decente, diferente desses de hoje em dia que fazem mil promessas e depois esquecem, logo cumpriu a jura.
Foram construídas duas calçadas paralelas, uma junto à pista de calçamento, outra ao lado da praia. Jardins gramados em desenhos arabescos, bancos de concreto, postes de ferro trabalhado, beleza de arte da Fundição Alagoana. No final dos anos 40 a Avenida da Paz era nosso paraíso, a criançada brincava com ximbra, pião, roubar bandeira, jogava futebol no coreto. Só havia um problema o guarda municipal que chegava em seu turno antes de anoitecer, muito cônscio de suas obrigações, não deixava as crianças pisarem na grama, ou colocarem os pés em cima dos bancos. Ele ficava vigiando nossos passos com um apito para chamar atenção quando alguma de nós colocava um pé no banco ou coisa parecida. Nós meninos criados livres logo o apelidamos de “Guarda Doido”.
Ele ficava irado quando alguém gritava “Guarda Doido”, juntava a molecada para saber quem foi que gritou, nós calados. Certa noite ao atravessar a Avenida na hora do jantar, escondi-me atrás de um poste, gritei alto, “Guarda Doido”, tive azar, ele me viu saiu em disparada em meu encalço. Corri, antes de ele me pegar entrei na de Seu Luiz Ramalho que estava na porta, contei para ele rapidamente o que se passava. Seu Luiz encarou o guarda que queria me levar preso, depois foi me deixar em casa onde recebi um belo carão de meu pai. Fiquei mais de uma semana sem pisar na Avenida ao anoitecer. O Guarda Doido todos os dias com uma vara ligava o interruptor das luminárias do Calçadão. Pela madrugada ao amanhecer o dia ele desligava a iluminação da Avenida.
Certa vez ao deparar-me com um livro de Jorge de Lima, poeta alagoano de União dos Palmares, considerado um dos três maiores poetas da língua portuguesa, junto com Camões e Fernando Pessoa. Ao ler um poema o “O Acendedor de Lampiões”, lembrei-me do Guarda Doido de minha infância que acendia a iluminação da Avenida Paz.
O Acendedor de Lampiões
Jorge de Lima
Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente! Um, dois, três lampiões, acende e continua Outros mais a acender imperturbavelmente, À medida que a noite aos poucos se acentua E a palidez da lua apenas se pressente. Triste ironia atroz que o senso humano irrita: – Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita. Tanta gente também nos outros insinua Crenças, religiões, amor, felicidade, Como este acendedor de lampiões da rua!
Petistas malandros fogem de responsabilidade como o diabo da cruz.
O senador Jaques Wagner (PT-BA), velho contorcionista, é contra CPI do Roubo aos Aposentados porque o problema teria sido “resolvido” com as demissões do ministro da Previdência e do presidente do INSS.
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Chamar petista de “malandro” é uma tremenda redundância.
Nikolas Ferreira, mais uma vez, é um herói, não é? Ele fala, e o país treme. Não sei em quanto está o número de visualizações do que ele disse sobre o escândalo na Previdência. Em 24 horas, já havia ultrapassado 100 milhões. As televisões morrem de inveja. Em vez de criticarem a corrupção, criticam o Nikolas. É incrível. É aquela velha história: preferem atacar o mensageiro, não a mensagem. Inacreditável.
O ex-ministro da área social do governo Bolsonaro, Onyx Lorenzoni — que mora aqui perto, mas também vive em Portugal, onde faz doutorado — me lembrou algo importante: assim que o governo Bolsonaro começou, foi editada a Medida Provisória 871, de 2019, com o objetivo de moralizar essa questão dos descontos na folha. Essa MP obrigava a CONTAG a fazer um recadastramento anual dos descontos. Na Câmara, alteraram para tri-anual — já dando uma “aliviada” —, mas a medida permaneceu.
Depois, veio um decreto de Bolsonaro que praticamente exigia a presença física do aposentado ou pensionista para autorizar qualquer desconto. Nada de assinatura que pudesse ser forjada. A validação deveria ser por ligação telefônica ou aplicativo. Mas, em 2023, a esquerda derrubou tudo isso. Boa intenção? Os fatos mostraram o contrário.
Logo de cara, os descontos multiplicaram por cinco. E continuaram a crescer, em progressão geométrica. Um verdadeiro escândalo.
Fica aqui o registro desse caso.
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Prisão e censura
E mais: o advogado Luiz Felipe Pereira da Cunha me informou que sua cliente, Adalgisa Maria Dourado, finalmente foi para casa. Adalgisa estava em profunda depressão, com tendências suicidas, havia caído no corredor do presídio e mal conseguia caminhar. Idosa, nunca havia sido presa antes, e foi condenada a 16 anos e meio. Não matou ninguém.
Agora, está em casa, mas com tornozeleira eletrônica. Só pode receber visitas de parentes — que precisam estar cadastrados. Está proibida de usar redes sociais e de dar entrevistas. Não pode contar a ninguém o que viveu no presídio. Acompanhou um grupo que foi a Brasília no 8 de janeiro, com a intenção de participar de uma manifestação pacífica, que acabou virando um tumulto.
Imagens do Palácio do Planalto mostram que houve um “esquadrão precursor”, que entrou antes e foi bem recebido por ninguém menos que o então ministro do Gabinete de Segurança Institucional, General G. Dias. Ele sequer foi investigado. Uma situação, no mínimo, estranha.
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Privilégio que virou norma
Ontem entrou em vigor uma lei, publicada no Diário Oficial da União, que agrava as penas para quem agredir fisicamente juízes, promotores, oficiais de justiça e defensores públicos. As penas podem aumentar de um terço até dois terços. Por exemplo: se alguém for condenado a 21 anos, com o agravante pode chegar a 28 (com um terço) ou até 35 anos (com dois terços).
Além disso, a nova lei prevê segurança especial para esses profissionais: transporte blindado, colete à prova de balas, vaga garantida em escola pública para os filhos, possibilidade de trabalho remoto. E se a agressão causar lesão corporal grave ou resultar em morte, será enquadrada como crime hediondo.
Mas o que diz a Constituição, em seu artigo 5º, cláusula pétrea? Que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. E viva o Brasil!
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O inchaço do Congresso às custas do contribuinte
E só para terminar: disseram que o aumento no número de deputados federais não traria despesa alguma. Pois bem: aumentaram 18 cadeiras. Não são mais 513, agora são 531 deputados federais. A consequência disso? Mais 30 deputados estaduais. E, claro, nenhuma despesa nova… porque os pagadores de impostos estão sempre aí para cobrir tudo.
E um pouco mais do Rio de Janeiro: agora, até o Flamengo é alvo de tiros. O time havia chegado de um jogo na Argentina, desembarcou no Galeão e os jogadores seguiram para suas casas. O goleiro, ao trafegar pela Linha Amarela, teve seu carro atingido por quatro disparos numa tentativa de assalto.
Enquanto isso, o prefeito Eduardo Paes continua promovendo grandes shows em Copacabana. Que beleza! Mas, com esse nível de insegurança, o Brasil jamais vai conseguir atrair investidores.
Os homens, no começo, comunicavam-se por gestos. Ou símbolos. Até hoje, ao menos alguns gênios. Como Rubem Braga, que era de Cachoeira de Itapemirim, a terra de Roberto Carlos. E, todas as madrugadas, falava com Millôr Fernandes (os apartamentos eram próximos) mexendo os braços, como aprenderam na marinha. Millôr começava:
Saudades dos amigos queridos. Só que esse tipo de comunicação logo foi substituído pelas palavras. Também aqui havendo problemas, com relação às distâncias, que a voz ia só até onde o ouvido pudesse escutar. Cito um caso. Emilio Menezes, na Academia Brasileira de Letras, odiava o confrade Oliveira Lima ‒ por Gilberto Freyre definido como Quixote Gordo. Quando estava no Rio, não era sempre, Oliveira e sua mulher, Flora, todas as tardes saiam de braços dados para caminhar em Copacabana. Emílio ficava na esquina do edifício e, quando passavam, dizia com altura de voz suficiente para que Oliveira, pobre dele, pudesse ouvir
‒ Aí vão a Flora e a Fauna da literatura brasileira.
Com o tempo, essa comunicação foi mudando. E conversas, entre pessoas próximas, passaram a se dar também por formas diferenciadas. Seguem três exemplos, em conversas de que participei com outros amigos, todos especiais na minha vida. E, com cada um deles, aprendi muito. Sobretudo vendo a vida por outros olhos, mais serenos e tranquilos, compreendendo a beleza que se pode ver na natureza, nas obras dos homens, nos gestos. Grandes personagens.
O primeiro foi Noberto Bobbio, de Turim (Itália), para Luigi Ferrajoli (L’itinenario di NB: della teoria generale del diritto alla teoria dela democrazia) “maior filósofo teórico do Direito e maior filósofo da política”. Fui seu primeiro tradutor, no Brasil (texto inicial, Diritto e Forza). Nossas conversas ocorreram sempre via cartas; hoje, diria Pessoa, em “tintas remotas e desbotadas” (Álvaro de Campos, O esplendor dos mapas). Até cheguei a convidá-lo para vir ao Recife. Respondeu de maneira curiosa, dizendo não, preferia ficar em casa, “que já começo a sentir as primeiras mordidas da velhice”. Apesar disso viveu bem e só nos deixou em 2004, com 94 anos.
O segundo foi Carlos Drummond de Andrade, a partir de 1985, dois anos antes do seu fim. A relação começou quando, na Capitania dos Portos, registrei o nome de um pequeno barco a vela, que tinha, usando verso de seu Poema das sete faces (aquele do “Mundo, mundo, vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ Seria uma rima, não uma solução”), que era “Mais vasto é o meu coração”. E mandei foto dele ao mar, navegando. Respondeu com bilhete, que até hoje guardo, “Meu verso num barco ‒ haverá maior prêmio para um poeta?” A partir daí, conversávamos com frequência às noites. Por telefone. Andava já longe dos tempos em que se divertia falsificando a assinatura do ministro da Educação, seu chefe Gustavo Caponema, em bilhetes que enviava para os amigos. Estava, desde a morte da filha única Julieta (câncer), já desencantado com a vida. Por vezes repetia frase que antes escrevera, “do meu passado só restam mortos” (Claro Enigma). Não durou muito depois de se sentir sozinho e nos disse adeus em 1987.
O terceiro foi o uruguaio Eduardo Galeano. Nossas conversas se deram sempre a partir de e-mails em que se assinava HUGALE ‒ uma espécie de heterônimo a partir do nome, eduardo HUGhes GALEano. Das definições que costumava lembrar me encantou uma que citava sempre, do amigo Fernando Birri, sobre a utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Estávamos acertando uma vinda sua à praia da Lagoa Azul, para provar do mar de Pernambuco, quando começou a sofrer com um câncer injusto. Ao encerrar conhecido poema (O direito de sonhar), escreveu que “Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”. E assim se deu, pena, sua última noite ocorreu em 2015.
Só que, hoje, tudo vai sendo substituído pela internet. Que ela é quase Deus; por ter, como ele, os dons da Ubiquidade, da Onisciência e da Onipotência. Sem contar que, depois da inteligência artificial, as coisas vão ficando ainda pior. E já pressinto aquele dia inevitável em que vai aparecer, na telinha do computador, um cidadão que tenha como endereço eletrônico OTODOPODEROSO@CÉU.COM, em mensagem dizendo
‒ Bons dias, amigo José Paulo, estou à sua espera para jantar.
Se assim for, e quando for, estou preparado para responder
‒ Não posso, escusas, que vou encontrar com um neto.
Para, espero, ele responder
‒ Lamento não ter tido um, fiquei só com o Filho, pena para mim. Considerando suas palavras, então, vamos deixar nosso encontro para o próximo ano. Graças. Adeus.