JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O FUTURO DAS UTOPIAS

Thomas Morus escreveu em latim sua Utopia, em 1516. A inspiração veio ao ler Mundus Novus (1504), de Américo Vespúcio, um navegador experiente que sabia escrever. Talvez o primeiro best-seller do mundo, com mais de 40 edições. Tanto sucesso fez que quando quiseram dar nome ao novo continente, que surgiu para o mundo em 12/10/1492, em vez de Colômbia (que seria o natural, por conta de Cristóvão Colombo), escolheram América (pela crença de ter sido uma descoberta dele, Américo Vespúcio).

Nesse livro, relata Vespúcio que 24 homens, mulheres e crianças, presos em uma feitoria de Cabo Frio, seguiriam como degredados para uma ilha – aquela que, depois, teria nome de um italiano que quase acabou com o pau-brasil do nosso Nordeste, Fernan di Norogna ‒ hoje, Fernando de Noronha. Daí veio a ideia, do inglês, para conceber uma outra ilha, a de Utopia.

Só que Morus logo depois, em 1535, perdeu a cabeça. Literalmente. Sem nem saber que aquelas pessoas sequer chegaram a viajar; e encontraram seu destino, longe da ilha que sonhou, pelas mãos de índios Termiminós chefiados por Arariboia. Mais tarde, 500 anos depois de sua morte (em 1935), Morus foi canonizado e virou santo, mas essa é outra história.

A partir dele, muitas outras utopias foram sendo criadas. Quando o mundo era maior, concebidas como um lugar distante – Anidro, Acórea, Eldorado, Ilhas Afortunadas. Mais tarde, passou a ser apenas um outro tempo – a sociedade dos homens de bem, de Proudhon; a Nova Atlântida, na ilha de Bensalém, do filósofo Francis Bacon; a sociedade sem regras, de Bakunim; a sociedade sem classes, de Marx e Engels.

Bom lembrar, por fim, a da igreja católica. Mais competente de todas, que promete um outro lugar (o Paraíso) em um outro tempo (depois do Juízo Final). Aldo Moflley contou prá lá de duas mil delas. “Dolorosas utopias de todos os filósofos do mundo”, segundo Raul de Leôni em seu poema Crepuscular (do livro Luz mediterrânea).

No capítulo das utopias brasileiras, mais conhecida é a de Bandeira, sua Pasárgada – em que há camas e mulheres a escolher. Mas, apesar de muito apreciar o poeta do Recife, prefiro a utopia que Guilherme de Figueiredo concebeu em seu Viagem a Altemburgo. Dando-se então que, por muito gostar desse curioso conto, não resisti à tentação de reescrevê-lo. E tantas vezes o fiz que já nem sei, hoje, de quem é cada pedaço. Faz mal não, o que prestar é dele e o resto meu.

Seja como for, nesse país imaginário, tudo funciona bem. Militares por exemplo, que sempre querem chegar ao poder, em Altemburgo começam as carreiras como Marechal. A partir daí, para cada vez que tentarem ser Presidente da República, ou depois de cada ato de bravura praticado, perdem um posto, até findar suas carreiras como soldado raso. Pra aprender a ficar quietos.

Criminosos violentos e irrecuperáveis, outro exemplo, são obrigados a tomar uma “injeção de bondade”; após o que passam a viver em santidade, com vidas castas e puras de dar inveja a Madre Tereza de Calcutá. Até que, no máximo em quatro anos, acabam todos mortos. De tédio.

Nesse lugar perfeito, cumpre ver também a solução encontrada para os males da saúde. Simples e prática, como tudo em Altemburgo. Médicos, por lá, são os profissionais mais bem remunerados. Com direito a resolver tudo, na vida dos seus pacientes. Inclusive recomendando regimes cruéis e exercícios insensatos – como o das esteiras, em que se anda mais de hora pra chegar onde já se está. Por conta de lipídios e colesteróis, dizem sempre, como se fosse uma desculpa respeitável.

Voltando aos médicos, remédios apenas quando os pacientes precisem. Poucos, de preferência. E operações, apenas se forem mesmo necessárias. Problema é só quando morre um desses pacientes; posto que então, e simplesmente, eles não recebem o salário do mês. Assim se explicando porque nos velórios, algumas vezes até mais que as viúvas, médicos sempre choram desconsoladamente.

E com tantas utopias no mercado, em um fim de ano como este em que estamos, não resisto em dizer a minha. Um lugar que não é imaginário, como Pasárgada ou Altemburgo, mas real. Nosso querido Brasil. E a utopia é ver esse país majestoso se reencontrar com sua história.

Um país menos radicalizado. Mais parecido com aquele habitado por “homens cordiais”, como sonhado por Sérgio Buarque de Holanda (no seu Raízes do Brasil). Em que possamos conviver bem, mais fraternalmente, respeitando as opiniões dos que nos são próximos e não pensam como nós.

É o presente que desejo receber nesse Natal. Algo impossível? Talvez. Mas devemos seguir nessa trilha. E lembro do amigo Eduardo Galeano que vivia repetindo uma definição de Fernando Birri

‒ A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Essa é a utopia que sonho. Um caminhar que não finde nunca. Para que possamos construir e reconstruir, sempre, nosso futuro. Na linha dos Provérbios e Cantares, de Antonio Machado, poeta do rio Guadalquivir,

‒ Caminhante não há caminhos, caminhos se fazem no andar.

Bom Natal, amigos. Caminhando, sempre em frente, na direção de um Brasil parecido com o de nossas raízes. Mais decente. Sobretudo mais solidário. E mais fraterno. Abraços, então, para todos e para cada um.

COMENTÁRIO DO LEITOR

IDOSOS VÍTIMAS

Comentário sobre a postagem ESCÂNCALO DO INSS MAIS PERTO DELE

Alvaro Simões Filho:

Só quem não conhece Lula, o Descondenado, poderia imaginar que seus recorrentes episódios de corrupção em valores elevadíssimo não voltariam a acontecer.

Foi só o apedeuta voltar à cena do crime que a corrupção veio junto.

Nada que não fosse esperado com certeza absoluta.

Dessa vez só chama atenção não pelos crimes em si, mas pelas vitimas: idosos aposentados.

É muita falta de compostura, de sentimentos, de civilidade, de moral e de honra desses cafajestes.

ALEXANDRE GARCIA

O MICROGERENCIADOR DA PENA

Alexandre de Moraes já agiu como promotor, como investigador, como juiz, agora está agindo como juiz de execuções. Ele autorizou Jair Bolsonaro a fazer fisioterapia, porque o sedentarismo leva ao agravamento de todas as suas comorbidades – e é sedentarismo dentro de um cubículo que pode ser chamado de solitária. As decisões de Moraes confirmam que ele está numa solitária. Bolsonaro pode receber cartas, mas os itens que ele receber têm de ser revistados. A esposa Michelle está autorizada a fazer duas visitas por semana, das 11 horas às 11h30, às terças e quintas-feiras. Moraes também autorizou Bolsonaro a dar entrevista para o site Metrópoles, no dia 23 de dezembro.

Em resumo, Bolsonaro está em uma solitária. E agora vai fazer uma fisioterapia, para melhorar as condições musculares em geral, mas especialmente dos pulmões, que são muito afetados por aquelas contrações, aqueles soluços, por causa de tantas intervenções no corpo e do problema gástrico; o que está no estômago volta durante o sono, entra no pulmão, já causou pneumonia. É por isso que ele terá de fazer fisioterapia.

* * *

Acordo entre Mercosul e União Europeia está naufragando

Vejam como o Brasil é interessante: Lula já festejou muito o acordo entre Mercosul e União Europeia, mas esse acordo que ele festejou tanto, pelo jeito, não vai ocorrer. E ele não gostou muito: disse que é agora ou nunca. Deu um ultimato. E o ministro de Relações Exteriores, ministro Mauro Vieira, ainda disse que, se não for agora, não há mais o que negociar com a União Europeia. “Vamos dar atenção a outros parceiros importantes que estão na fila”, disse. Vejam a arrogância, como se o mundo inteiro estivesse na fila para negociar com o Mercosul.

A reunião de cúpula do Mercosul, no sábado, vai ocorrer sob esse ultimato. Tinham anunciado, festejado, tinham de fazer acordo, mas não vai sair. Agricultores se manifestaram na Bélgica, na frente do Parlamento Europeu. Itália, França, Hungria e Polônia já anunciaram que, por enquanto, não lhes interessa esse acordo. Eles têm de defender os interesses dos agricultores franceses.

E vejam que coisa ilógica: Lula diz que não entende por que nós queremos fazer o acordo e eles não, se o acordo é vantajoso para os europeus. Quer dizer, então, que ele vai assinar um acordo vantajoso para os outros, e não para os países do Mercosul? Que interessante! Mas esse é o país em que estamos vivendo.

* * *

Atiradores de Sydney são inimigos da civilização ocidental

Vejam os nomes dos dois assassinos de judeus em Sydney, na Austrália, que usaram fuzis. O estampido do fuzil se confundia com os fogos de artifício, porque era o início da festa judaica da reconstrução de Jerusalém e do templo. As pessoas pensavam que eram rojões, mas eram tiros de fuzil; 15 judeus foram mortos, e um dos atiradores também. Eram pai e filho: o filho se chama Naveed Akram, 24 anos; o pai era Sajid Akram, 50 anos. No carro deles havia uma bandeira do Estado Islâmico e muitos explosivos. Digo isso para sabermos quem eram os assassinos antissemitas, que se apresentam como inimigos da civilização ocidental, a civilização fundada em valores judaico-cristãos.

DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO

O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

* * *

Muitas cenas são revistas
Na hora crepuscular
O bico de um peito cheio
Proíbe um pagão chorar
A casca do fruto racha
A voz do silêncio é baixa
Mas dá pra Deus escutar.

* * *

É bonito o matuto se firmar
Num galão carregando duas latas
Um cachorro sentar nas duas patas
Convidando o seu dono pra caçar
Uma gata na boca carregar
Um filhote que nasceu sem a visão
Quando a boca se cansa põe no chão
Mas o dente não fere a sua cria
Deus pintou o sertão de poesia
Meu orgulho é ser filho do sertão.

* * *

Branca, preta, pobre e rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

O sol diminui os raios
Depois que a tarde se fecha
O vento carrega a folha
Da galha de um pé de ameixa
Sai dando tabefe nela
Depois se aborrece e deixa.

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DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

PAIXÃO POR CAVALOS

O presidente brasileiro conhecido por sua paixão por cavalos foi João Figueiredo. Ele governou o Brasil de 1979 a 1985 e era famoso por sua frase: “Prefiro o cheiro de cavalo ao cheiro do povo”. Figueiredo era um grande entusiasta de cavalos e frequentemente participava de eventos equestres.

Num passado remoto, o único ser de quem Frederico, o Grande da Prússia gostava apaixonadamente era o seu cavalo, o mais formoso corcel que se possa imaginar, cavalo digno de um rei e tão inteligente que abrandou e conquistou o coração do monarca.

Um dia, em que o monarca estava muito aborrecido e atarefado, como sempre acontecia, o que não era raro, soube que o seu cavalo favorito estava doente.

Num acesso de fúria, sentindo a sua própria insignificância, por não poder salvar a vida do seu cavalo, apesar de ser um grande monarca, fez apregoar que aquele que lhe desse a notícia da morte do seu cavalo predileto seria enforcado.

Passaram-se alguns dias e o estado do nobre animal era sempre o mesmo, mas, numa manhã, quando os pajens faziam uma visita às cavalariças, encontraram o moço da estrebaria que lhes disse que o cavalo tinha morrido.

Quem se atreveria a dar a notícia ao rei? Quem ia correr o risco de ser enforcado?

Ali ficaram, conversando e discutindo vários planos até que chegou a hora de redigir o boletim para ser entregue à Sua Majestade. Naquele momento um dos escudeiros disse ao moço de estrebaria que não tivesse medo que ele próprio se ia apresentar ao rei.

“Olá!” disse o rei Frederico. Como está o cavalo?

“Senhor”, respondeu o escudeiro, “o cavalo continua no seu lugar. Está deitado e não se mexe. Não tem forças e não come. Também não bebe, não dorme, nem respira, nem…

“Então, exclamou impacientemente o rei, meu cavalo predileto morreu!!!…”

“Vossa Majestade disse a verdade”, respondeu tranquilamente o escudeiro.

A fala do Rei fez os empregados respirarem aliviados.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

ESCÂNCALO DO INSS MAIS PERTO DELE

O senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo no Senado, foi um dos alvos de mandado de busca e apreensão da operação Sem Desconto, deflagrada nesta quinta-feira (18), que apura um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, Adroaldo da Cunha Portal, foi alvo de prisão domiciliar e foi afastado do cargo de “número 2” da pasta.

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Adroaldo Portal – numero 2 da Previdência – preso hoje na operação sem desconto

Romeu Carvalho Antunes, filho do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e o advogado Eric Fidelis, filho do ex-diretor do INSS André Fidelis, também foram presos durante a ação policial.

Além de pai e filho, Romeu e Antônio são sócios. Uma das empresas que compartilham tem o nome de “World Cannabis” e é alvo da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O “careca do INSS” é apontado pelas investigações como um dos principais envolvidos nos descontos indevidos em aposentadorias e pensões. Ironicamente, a empresa de fachada no escândalo da compra de respiradores pelo Consórcio NE tinha Hemp no nome, alusão à maconha também.

A Polícia Federal apreendeu armas, relógios, carros de luxo e dinheiro vivo na nova fase da operação Sem Desconto. Os agentes cumprem ao todo 52 mandados de busca e apreensão e 16 mandados de prisão preventiva no Distrito Federal, Maranhão, São Paulo, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Minas Gerais.

A CPMI do INSS, instalada para investigar um esquema bilionário de fraudes em descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas, tornou-se o centro de uma disputa política envolvendo o nome do filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Na terça-feira (16), deputados da oposição acusaram governistas de blindar o filho do presidente mesmo diante de possíveis evidências de uma viagem a Portugal que Lulinha teria feito com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Uma testemunha afirmou que Lulinha recebia mesada de R$ 300 mil do esquema.

O cerco vai se fechando em torno de Lula. Fica cada vez mais claro que esse escândalo do INSS teve o DNA de muita gente próxima do presidente, inclusive de seu filho. Lula seguirá fazendo cara de paisagem, ignorando o caso e mobilizando sua base para boicotar a CPMI. Mas o trabalho da PF vai se aproximando da sua família, que mais parece uma quadrilha. Desviar recursos de idosos aposentados talvez seja mesmo o ápice da canalhice, em meio a tantos escândalos que Lula e seu PT acumulam até aqui.

Só não dá para fingir surpresa: quem imaginou que colocar o ladrão de volta à cena do crime, como diria seu vice Alckmin, faria com que escândalos de corrupção voltassem com tudo à tona?!