DEU NO X

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

O QUE PRECISA ACONTECER?

Um tanto ausente das páginas de nossa querida gazeta, retorno após cuidados com a saúde e com demandas urgentes que não avisam quando desejam aparecer, com sói acontecer com as urgências. Desde já agradeço a generosidade de meus esparsos leitores.

Confesso que diversas vezes iniciei o texto desta coluna, pretendendo tratar de algum susto do momento, mas sempre que começava era atropelado por algum absurdo ainda maior, sempre surpreendido pela constatação de que o anterior não fora o ponto mais baixo que a indigente moralidade nacional poderia chegar.

Pensei em fazer um compilado dos últimos e inacreditáveis acontecimentos, a maioria deles parido pelas castas superiores da política e dos poderes da república, mas desisti para não abusar da paciência e da saúde dos colegas. Ademais, penas mais competentes que a minha já escreveram largamente sobre o assunto.

Portanto, permitam-me dividir uma experiência pessoal, que servirá de mote ao que pretendo tratar:

Tenho um amigo de infância, dessas amizades que desde o início sabemos eternas. Pois bem, este amigo tem muitas qualidades invejáveis, inclusive é poeta e ótimo escritor. Porém, o que mais admiro; invejo mesmo, não é nenhum de seus muitos talentos, mas o dom que ele tem para dormir.

Isso mesmo, trata-se de um verdadeiro dom. Aloisio (este é o seu nome) dorme, profundamente, em qualquer lugar ou circunstância. Por mais complicada que esteja a vida; os problemas enfrentados ou o barulho ao redor ele dorme o sono dos justos. E dá trabalho, muito trabalho para ser acordado. Em mais de uma ocasião perdeu avião por dormir além da hora. Entre amigos, sempre perguntamos: o que é preciso para o Aloisio acordar?

Mencionei meu amigo para fazer uma pergunta cuja possível resposta me causa temor: O que será preciso para o Brasil acordar? Sim, como Aloisio, o país dorme o sono dos justos, enquanto ao redor e em suas próprias entranhas os absurdos gritam a plenos pulmões.

A cúpula do judiciário ultrapassa todos os limites constitucionais; pune inocentes com crueldade assemelhada à tortura; invade prerrogativas de outros poderes e tem alguns de seus membros envolvidos naquele reputado como o maior escândalo bancário da história e, diante da lama que se aproxima, impõe sigilo total sobre aquilo que toda a população deveria saber, seguindo em uma espiral descendente sem fim. E o país dormindo…

Uma ditadura sanguinária massacra a população que grita por liberdade; um ditador assassino é deposto, preso e levado à julgamento por uma potência estrangeira, isso a poucos quilômetros de nossa fronteira, e o que faz nosso presidente e seu entorno? Apoia os ditadores, em alinhamento ao que existe de pior no mundo, fingindo não saber que pode ser o próximo. E o país dormindo…

As contas públicas, premidas por gastos irresponsáveis e inúteis, cujo único resultado visível é o luxo usufruído pelo casal real e seus amigos, explodem com estrondo ensurdecedor, deixando um precipício cuja beirada está logo à frente. O ministro da fazenda, atual “cárrego dos arreios do Rei”, chicoteia a população com impostos extorsivos e mesmo assim o abismo se aprofunda. Vamos todos cair. E o país continua dormindo…

O Crime organizado toma do Estado e subjuga a população de grandes áreas do território e se infiltra em todas as esferas dos poderes constituídos, conduzindo o país a passos largos para se tornar um narcoestado, enquanto governantes e segmentos dos meios artísticos e intelectuais se alinham aos criminosos e atacam as forças de segurança. Mesmo assim o país continua dormindo.

O sono do meu amigo é um dom. O sono do país é uma maldição que nos condena a um eterno rebaixamento moral, ético e institucional. Enquanto o país dorme, perde-se estrepitosamente a honra, a liberdade, a segurança e o futuro. Nem isso o faz acordar. O que precisará acontecer?

Intervenção estrangeira? Ruína econômica? Quebra da ordem social? Nem quero pensar em algo assim; confesso temer a resposta. Só espero que quando isso ocorrer o avião não tenha partido e ainda haja tempo.

Acorda, Brasil, o tempo urge!

DEU NO X

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FILHO DA MÃE

Exemplo de homem sem escrúpulo

Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.

Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.

Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.

Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:

– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!

Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.

– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?

Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.

Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.

Novo constrangimento!

Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”

Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.

E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?

Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.

“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:

Aquilo é um Filho da Mãe!

Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.

Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.

O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.

Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.

Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.

Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:

P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.

Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”

DEU NO JORNAL

ACORDO UE-MERCOSUL

Editorial Gazeta do Povo

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Fazendeiros franceses protestam contra acordo entre União Europeia e Mercosul, em 15 de janeiro

Neste sábado, a presidente da Comissão Europeia (o braço executivo da União Europeia), Ursula von der Leyen, estará em Assunção, no Paraguai, para um evento aguardado há anos: a assinatura do tratado de livre comércio entre a UE e o Mercosul, destravado após uma maioria qualificada de membros da UE ter aprovado o texto, em 9 de janeiro. O evento ocorre em nível ministerial – quem fará a assinatura em nome dos países sul-americanos serão os chanceleres –, mas o Paraguai convidou também os presidentes dos países-membros do Mercosul; Lula já confirmou que não estará presente.

Esta é uma etapa necessária, mas não a última, antes que o acordo entre em vigor. Depois disso, ainda será que preciso que o acordo seja aprovado no Parlamento Europeu e nos Legislativos de cada um dos países do Mercosul. Só então será possível falar na criação de uma das maiores (se não a maior) áreas de livre comércio do mundo, envolvendo três dezenas de nações – incluindo várias potências agrícolas e industriais –, 722 milhões de consumidores e um PIB de US$ 22 trilhões: um objetivo que levou duas décadas e meia de negociações, com inúmeras idas e vindas.

O comércio entre os blocos, no entanto, será livre ma non troppo. Se no passado houve resistência vinda do Mercosul, especialmente da Argentina kirchnerista, mais recentemente os ímpetos protecionistas vêm da Europa – principalmente da França, que se opôs ao acordo ao lado de Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda. Se Itália e Bélgica tivessem mantido suas ressalvas, o acordo teria naufragado no Conselho Europeu, pois esses oito países representam mais de 35% da população da UE; no fim, a Bélgica se absteve e a Itália foi favorável à assinatura. Para apaziguar o agronegócio europeu, altamente subsidiado, a UE aprovou uma série de salvaguardas, como cotas e restrições sanitárias, que podem limitar a competitividade dos produtos sul-americanos no mercado europeu. Ainda assim, o descontentamento persiste, a julgar pelas manifestações de agricultores, que continuam a ocorrer mesmo depois da aprovação do acordo no Conselho Europeu.

Apesar disso, se tudo sair como o previsto – mesmo com os acréscimos de última hora para contentar o setor agropecuário europeu –, o resultado será indubitavelmente positivo. As tarifas atuais devem ser gradualmente reduzidas ou extintas, e após 12 anos 95% dos bens e 92% do valor das importações europeias provenientes do Brasil terão entrada livre ou muito mais facilitada nos países da União Europeia. Em contrapartida, 91% dos bens europeus importados pelo Brasil também terão tarifas eliminadas ou reduzidas, baixando seus preços e aumentando as opções do consumidor brasileiro – um desafio para alguns setores específicos (inclusive do agronegócio, como laticínios e bebidas finas, mas principalmente da indústria), que terão de se modernizar para competir com o concorrente europeu.

A história e a teoria econômica já se cansaram de mostrar os benefícios da inserção no comércio internacional, um jogo do qual o Brasil ainda hoje se mantém relativamente distante – mesmo com recordes recentes, o país respondia por apenas 1,3% do comércio global de bens em 2024. Facilitar o acesso do exportador brasileiro ao mercado europeu, e do consumidor brasileiro a produtos e serviços europeus, é medida bem-vinda e uma oportunidade que todos esperam há muito tempo.

RODRIGO CONSTANTINO

BOLSONARO NA PAPUDINHA

Bolsonaro Papuda

Alexandre de Moraes determina a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o Complexo da Papuda, no Distrito Federal

“Hoje, já fiz o que tinha que fazer”, disse Alexandre de Moraes para uma plateia submissa da turma de Direito da USP nesta quinta. O ministro se referia à decisão de transferir Jair Bolsonaro para a Papudinha. Os bajuladores aplaudiram, lembrando que todo regime ditatorial necessita da cumplicidade de uma elite perversa.

Carlos, filho do ex-presidente, chamou o ambiente da nova prisão de “severo” e lembrou que seu pai não cometeu qualquer crime. O novo espaço, maior, possui upgrades, sem dúvida, mas certamente Moraes não autorizou a transferência por crise de consciência humanitária.

Sua decisão, aliás, veio logo depois de encontro com Lula e de pesquisas mostrando certo momento para Flávio Bolsonaro. Seria uma forma de tentar esvaziar a denúncia de que Jair estava sob tortura? Essa é a tese do deputado Mauricio Marcon. O sistema quer manter Bolsonaro calado e afastado, mas vivo (por enquanto). Ao menos até a eleição.

Outra possibilidade é uma cortina de fumaça para abafar o escândalo do Banco Master, que tem Moraes e Toffoli envolvidos até o pescoço. Sempre que o sistema se vê nas cordas puxa algum factoide ou cria alguma notícia sobre Bolsonaro, pois sabe que isso desvia a atenção da mídia.

Por mais que a Papudinha represente uma melhora em relação ao confinamento na PF, a escolha não foi fruto de preocupações humanitárias. Moraes disse que prisão não é “colônia de férias”, e comparou a situação de Bolsonaro com presos comuns para constatar que ele é um “privilegiado”. Por que o ministro não comparou com outros políticos?

Nem vamos falar de Sergio Cabral e toda turma da Lava Jato que estão soltos! O ex-presidente Collor está em prisão domiciliar, em sua cobertura de frente para o mar em Alagoas, por ter bipolaridade. Chico Brazão, acusado de ter mandado matar Marielle Franco, foi para prisão domiciliar por questões de saúde. Por que Bolsonaro não pode ter o mesmo tratamento?

Se compararmos com Lula quando era presidiário, a discrepância salta aos olhos também. Lula dava inúmeras entrevistas, recebia um monte de gente, descolou até uma namorada com quem casou depois, tinha esteira ergométrica na “cela” e por aí vai. Não resta a menor dúvida: Bolsonaro é alvo da vingança do sistema.

E não é porque as condições melhoraram um pouco que devemos parar com as cobranças: Bolsonaro sequer deveria estar preso, mas com suas comorbidades e idade, a única prisão “aceitável” seria a domiciliar.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

COISAS DA VIDA

Tiana sofreu muito com a morte repentina de Patrocínio, seu marido durante dez anos. Os dois já casaram maduros, ela com 42 anos e ele com quase 60. Ele era aposentado da Rede Ferroviária Federal e o casal morava em João Pessoa (Pb). Tiana era natural de Nova-Cruz (RN), onde tinha familiares, e em datas festivas, ela e o marido estavam sempre lá. Viviam bem financeiramente e sempre em harmonia. Com a morte do marido, e sem filhos, Tiana ficou muito depressiva e sozinha.

Era alta e bonitona, com tendência a ser gorda. Depois de viúva, começou a engordar mesmo e tornou-se obesa. Tinha 1.70 m, e passou a pesar quase 100 quilos. Tornou-se o que se diz no interior, “um mulherão”.

Um ano depois, Arlinda, sua melhor amiga, residente em João Pessoa (Pb) e casada com um funcionário público estadual da Paraíba, também enviuvou. Suas duas filhas já eram casadas, e ela também se viu mergulhada na mesma solidão de Tiana.

As duas amigas, viúvas ainda “casáveis”, meses depois, começaram a sair juntas para a Igreja, depois para teatros, shoppings, restaurantes e cinemas. Logo resolveram fazer excursões ao Sul do Brasil. Gostaram tanto que se programaram para uma viagem ao exterior. Isso serviu para que as duas saíssem da rotina e se convencessem de que a vida continua. Ambas cumpriram suas respectivas missões de esposas dedicadas, e agora estavam prontas para usufruir a liberdade e a boa situação financeira de que dispunham. Aos poucos, foram recuperando a autoestima e tornaram-se vaidosas, na esperança de superar a fria solidão da viuvez. De repente, os olhos das duas voltaram a brilhar, apesar das boas lembranças e da saudade que sentiam dos falecidos maridos.

Arlinda era mais atirada, mais bonita e mais jovem do que Tiana. Por obra do destino, reencontrou um ex-namorado do seu tempo de juventude, agora divorciado, e os dois começaram a namorar.

Tiana era conservadora e se policiava muito. Jurava que jamais se casaria novamente. Apesar de muito simpática, não era atraente, e sua obesidade a prejudicava. Era ruim de dieta e por isso não conseguia perder peso.

Ao ver Arlinda se aprumar com um ex-namorado do tempo da sua juventude, Tiana sentiu inveja, apesar de não demonstrar. Compensava essa frustração, dizendo sempre que a coisa melhor do mundo era a liberdade. Nessas alturas, por brincadeira, dizia que se Patrocínio, seu falecido marido, quisesse voltar lá do Céu onde estava, ela seria a primeira a dizer:

-Homem, pela caridade, não invente de voltar não! Fique aí mesmo!!!

Sentindo-se em segundo plano, por ter praticamente perdido a companhia da amiga Arlinda, agora em um relacionamento sério, Tiana foi passar uns dias em Nova-Cruz. Quem sabe, se sua felicidade não estaria ali!!!

A ocupação de Tiana, em Nova-Cruz, era bater papo à tarde toda com duas ou três amigas, embaixo de um Ficus Benjamina, que há em frente à casa de sua irmã. O assunto era homem e tudo o que com ele se relacionasse. Ávida por arranjar um namorado com quem pudesse refazer sua vida conjugal, Tiana estava disposta a investir nessa ideia.

Pensando em solucionar sua carência afetiva, tinha na cabeça sua proposta amorosa já estabelecida e não escondia das amigas. Queria um homem até 60 anos, que soubesse ler e escrever, fosse sadio, com tudo funcionando nos conformes, para lhe fazer companhia e para ela amar e querer bem! Não fazia questão de dote. Não precisava trazer nem a mala. Podia vir somente com a roupa do corpo, que ela fazia questão de comprar tudo novo! Estava disposta a dar casa, carro, comida, plano de saúde e roupa lavada, e ainda uma boa mesada.

Foi nesse estado de ansiedade, que, em Nova-Cruz, Tiana foi apresentada a um viúvo de 68 anos, cuja mulher tinha morrido há poucos meses. As informações que lhe deram sobre ele foram as melhores possíveis. Aposentado do serviço público estadual, tinha duas filhas já casadas, que moravam na capital. Bebia “socialmente” e gostava “um pouquinho” de jogo de cartas. Tinha sido um bom marido.

O primeiro encontro de Tiana com Epaminondas foi uma decepção. Ele era baixinho, magrinho e usava óculos com lentes do tipo fundo de garrafa. O homem demonstrou ser galanteador e inconveniente, pois disse logo que tinha adorado o seu físico. Gostava de mulheres carnudas e corpulentas. As mulheres assim tinham mais personalidade e eram determinadas. Achava que mulher tinha que ter carne, pois quem gosta de osso é cachorro e arqueólogo.

Tiana ficou sem jeito e não gostou do modo debochado e grosseiro como o suposto futuro pretendente falou. Também não se sentiu, nem de longe, atraída por ele. Não houve entre os dois a falada química nem o brilho do olhar. Não simpatizou com o viúvo e preferiu descartá-lo.

Para completar, de outra fonte, havia chegado aos seus ouvidos a informação de que ele era um jogador contumaz e um alcoólatra inveterado. Dessa forma, Tiana escapou de fazer uma besteira. Por um triz, não caiu nas garras desse viciado em jogo e em bebida. Depois desse susto, pensou muito e decidiu encarar a solidão desoladora da viuvez, e não mais insistir em “procurar sarna para se coçar”. Lembrou-se das palavras bíblicas, que sua saudosa mãe gostava de repetir:

“Nem só de pão vive o homem.”