Gilmar Mendes legislou, como é recorrente no Supremo Tribunal Federal, para anular prerrogativa prevista em lei havia 75 anos, proibindo cidadão de pedir impeachment de ministros da Corte, inclusive o dele próprio.
A decisão monocrática cria uma situação bizarra: impedido de representar contra ministros nomeados, o cidadão pode fazê-lo contra presidente da República, eleito.
A blindagem indignou até o presidente do Senado, engavetador de dezenas de pedidos, sempre dócil em relação ao STF.
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A nota aí de cima fala em “situação bizarra”.
Que nada!
Tá tudo dentro dos conformes.
Na republiqueta banânica dos dias atuais, isso é normal, normal, normal.
Dias Toffoli: anulações em série na Lava Jato e sigilo sobre caso do Banco Master
Li, em um jornal, uma mensagem de leitor afirmando, sobre o caso Master, que “ou se pune com rigor ou se normaliza a corrupção”. Fiquei admirado com a desinformação, ou a ingenuidade, do leitor. Ele não sabe que já se normalizou a corrupção neste país? No Brasil as pessoas fizeram delação – Antônio Palocci fez, Marcelo Odebrecht fez, Alberto Youssef fez, todas delações importantíssimas –, e o que acontece?
Na quarta-feira o ministro Dias Toffoli, que já anulou multas da JBS, mandou fazer busca e apreensão na 13.ª Vara Federal de Curitiba para apurar supostos abusos do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro contra os doleiros. É o que está acontecendo: as pessoas confessaram, devolveram o que roubaram da Petrobras, e daí? Pessoas foram condenadas por três instâncias, uns dez juízes no total, e depois o processo é anulado por razões burocráticas. Nunca se anula um processo quando ele já está no fim. “Está na vara errada”, dizem, mas se está no fim nem se mexe mais, porque foi seguido todo o processo e foi tudo confirmado na segunda e até na terceira instância. Que nada, anula-se tudo.
No caso Master, o ministro Dias Toffoli impôs sigilo absoluto. Em geral, o sigilo existe para ações de Direito de Família, questões de divórcio, briga entre casal, o sigilo serve para não constranger a família. Tem isso no caso Master? E o leitor está achando que ainda não se normalizou a corrupção por aqui…
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Presidente da Alerj preso avisou colega na véspera de operação policial contra ele
Agora mesmo, lá no Rio de Janeiro, foi preso o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar. Em setembro, quando avisaram-no de que o deputado TH Joias seria preso no dia seguinte, Bacellar ligou para o colega para preveni-lo; então, o deputado chamou um caminhão de mudanças para levar as provas. TH Joias está indiciado por intermediar a venda de armas para o Comando Vermelho. Não é pouca coisa.
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Gilmar Mendes mudou a lei para dificultar impeachment de ministros do STF
O ministro do STF Gilmar Mendes deu uma liminar para a Associação de Magistrados Brasileiros mudando as regras para impeachment de ministros do Supremo. Foi uma coisa encomendada, porque a maior parte dos magistrados não tem nada a ver com isso. O preceito constitucional diz que é o Senado Federal que processa e julga ministros do Supremo, e o objetivo foi atacar a origem para impedir que isso aconteça. Qual é a origem? A Lei 1.079/50, que diz que qualquer cidadão pode tomar a iniciativa de denunciar ministro do STF para o Senado; a denúncia pode ser aceita por maioria simples de senadores, e a condenação ocorre com maioria de dois terços, como diz a Constituição.
Gilmar aceitou o pedido da AMB e mudou tudo. Agora, só o procurador-geral da República pode oferecer denúncia; a aceitação não exige mais maioria simples, tem de ser dois terços; não se pode tirar um terço do salário se a denúncia foi aceita. Coisas assim, mudando a lei. Mas juiz não pode fazer isso. O juiz pode dizer “isso é inconstitucional”, mas não pode colocar outra redação no lugar. Quem faz outra redação, diante da inconstitucionalidade da anterior, é o Poder Legislativo, como diz o nome.
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Santa Catarina continua dando exemplo para o Brasil
Falei no meu canal que 25 anos atrás Gustavo Kuerten, o catarinense Guga, se tornou número 1 do mundo no tênis. E lembrei que Santa Catarina é um estado que está dando exemplos. Em Chapecó, em Florianópolis, o morador de rua, o viciado, é acolhido para fazer tratamento e depois recebe oferta de emprego. Se não quiser nem um nem outro, volta para a sua cidade, onde poderá ser acolhido pelos vizinhos, pelos amigos, pela família, de onde ele se desviou. Uma iniciativa exemplar das prefeituras e que está dando certo.
Há quem diga que dezembro é o mês da luz, da esperança, da fraternidade. Balela. Dezembro é, na verdade, o grande palco onde a humanidade exibe — com orgulho quase comovente — sua capacidade infinita de fingir. É quando a sociedade, já exausta de suas próprias contradições, resolve maquiar-se com purpurina emocional e interpretar, com a profundidade de uma poça d’água, o papel de “ser humano elevado pelas virtudes do natal”.
Uma pantomima coletiva que faria até os deuses gregos gargalharem de pena.
A súbita conversão dos medíocres
É fascinante observar como, no último mês do ano, os mesmos que passaram janeiro a novembro praticando grosserias, indiferença, veneno social e mesquinharia passam por uma metamorfose tão improvável quanto duvidosa.
Do nada, tornam-se anjos barrocos:
— “Feliz Natal, querido!” — “Que Deus te abençoe!” — “O importante é o amor!”
Dezembro transforma canalhas em santos de gesso, e hipócritas em poetas de cartão de shopping.
É a única época do ano em que pessoas tóxicas distribuem abraços — como se o calor humano que negaram durante meses pudesse ser compensado com um tapinha nas costas e um sorriso forçado.
As ceias — templos da falsidade refinada
E lá vão todos, vestidos de branco, como se a cor pudesse purificar suas intenções. Sentam-se à mesa para uma refeição que ninguém quer realmente compartilhar, mas todos fingem apreciar. Convive-se durante essas horas com parentes que se evitou o ano inteiro, respondem-se perguntas idiotas com paciência postiça e ri-se de piadas tão mortas quanto o peru da véspera. É uma liturgia tão teatral que faria Shakespeare pedir arrego.
O velho de barba branca — símbolo máximo da alienação sazonal
E no centro desse circo moral está ele: o venerável Papai Noel, uma figura tão logicamente absurda quanto emocionalmente conveniente.
Um velhinho gordo, vestido de lã em pleno calor tropical, que dirige um trenó voador puxado por renas possivelmente alucinadas.
Esse personagem simboliza, com perfeição, o nível de fantasia necessária para sustentar a farsa coletiva.
Afinal, é preciso crer em alguma coisa para justificar toda essa performance artificial — e nada mais apropriado do que um mito importado, descolado de qualquer realidade.
A fé adaptada às conveniências
E como se já não bastasse, o calendário ainda insiste em celebrar um nascimento que — historicamente — não ocorreu no mês celebrado.
Mas aceitar fatos nunca foi o forte dos entusiastas das festas de fim de ano. O importante é a encenação. A aura artificial. O verniz de “espiritualidade”. Não importa que o homenageado provavelmente reprovaria 90% dos excessos cometidos em seu nome.
A verdade incômoda — e inegável
Toda essa farofa emocional serve a um propósito simples: fingir que somos melhores do que realmente somos.
Dezembro é o momento em que a humanidade tenta corrigir, em poucos dias, um ano inteiro de descaso, preguiça moral e egoísmo institucionalizado.
É a estação da hipocrisia em flor. Mas há quem observe tudo isso com a tranquilidade dos que não caem na farsa. Aqueles que preferem a solitude honesta a uma festa ruidosa; o silêncio inteligente a uma conversa vazia; um copo de whisky verdadeiro a um brinde falso. Esses — poucos, raros e lúcidos — sabem que dezembro não é sagrado, iluminado ou transformador. Dezembro é apenas um mês quente demais, barulhento demais, teatral demais e insuportavelmente hipócrita. E que, quando passa, deixa-nos apenas um alívio imenso: o de saber que não precisamos participar do espetáculo grotesco da “bondade temporária” jamais.
Prejuízo dos Correios atingiu R$ 6 bilhões em 2025, quase o triplo do ano anterior
Em 2005, um flagrante de corrupção nos Correios deu origem às investigações que revelariam o escândalo do mensalão. Vinte anos depois, o rombo nos Correios volta às manchetes. O elemento comum na paisagem, com extensão de duas décadas, é o governo do PT.
Eis o desafio para os sábios: a resistência ao tempo de uma empresa anacrônica, uma administração anacrônica, um partido anacrônico e um presidente anacrônico. O que explica esse fenômeno? Que mágica estaria por trás dessa espécie de reencarnação do que foi superado, entre outras coisas, porque deu errado? Ou melhor: porque deu muito errado.
A projeção atual para o rombo nos Correios, tendo em vista o próximo exercício, ultrapassa a casa dos R$ 20 bilhões. Como reagir a uma calamidade dessas? Injetando mais dinheiro, claro. Já que a norma é o anacronismo — e a escola, o fisiologismo —, a coerência manda gastar.
A empresa sinalizou a necessidade de uma nova injeção de 20 bilhões de reais, e a operação já está desenhada: a contratação do empréstimo dessa quantia acaba de ser aprovada pelo Conselho de Administração dos Correios, e cinco bancos já apresentaram proposta — Banco do Brasil, Safra, BTG Pactual, ABC Brasil e Citibank.
Há também outra ideia fértil em gestação: a criação de uma “taxa de universalização” para sustentar os Correios. Você certamente considera mais do que justo enfiar a mão no bolso para ajudar a tapar o rombo dessa estatal que tanto o auxilia. O nome do imposto é especialmente inspirado: provavelmente o autor do batismo da “taxa de universalização” imaginou que não haveria nada mais simpático do que universalizar o rombo.
Sempre que você vê empresas estatais deficitárias patrocinando projetos privados, você se enche de orgulho. Com certeza o anima a ideia de ajudar a cobrir o prejuízo dos Correios para que essa marca possa continuar concedendo patrocínios milionários a artistas da MPB. Aí você vai ao show, paga uma fortuna pelo ingresso e se sente duplamente orgulhoso.
Se, por acaso, você não votou no Lula, fica sendo a sua oportunidade de contribuir com o projeto nacional de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos.
O voto em Lula na última eleição foi recomendado por economistas consagrados, inclusive participantes da implantação do Plano Real. Parte deles hoje está em silêncio, e outra parte está criticando o descalabro econômico. Provavelmente nunca tinham ouvido falar no PT e não tinham ideia de como seria um governo Lula.
Quando os escândalos se iniciaram em 2005, com a corrupção nos Correios, esses economistas deviam estar de férias. E, quando o PT tentou barrar o Plano Real e a responsabilidade fiscal, eles deviam estar olhando para outro lado.
Parte importante da elite econômica e acadêmica achou melhor fazer cara de nojo para a política bem-sucedida de Paulo Guedes. Surfaram a onda do salvacionismo progressista — e replantaram o anacronismo petista. Agora é tarde para tentarem se desvencilhar do abraço em Lula e Haddad, o economista providencial.
Mas estão todos bastante remediados para sofrer com isso. Sofrimento mesmo, só para os que acreditaram neles.