DEU NO X

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

LUIZ GONZAGA & SIVUCA: PARELHA DE LASCAR O CANO

Luiz Gonzaga e Sivuca, Rio de Janeiro – Copacabana 1954 – Foto: Acervo de familiares de Sivuca de Itabaiana – PB

DOBRADINHA QUE DEUS DÁ

Duas feira de mangaio
Dois Nordeste afuleimado
Duas sanfona dourada
Dois matuto atrapaiado
Duas sala de reboco
Dois fole a furinfunfá
Dois ponteiro arranca-toco
Dois São João num caçuá
Duas Virge nas altura
Dois manguzá nas fervura:
Dobradinha que Deus dá.

DEU NO X

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A ODISSEIA DEVASSA DE UM HOMEM QUE VIVEU DEMAIS

Há homens que atravessam a vida como quem atravessa uma sala: discretos, leves, silenciosos, quase invisíveis. E há homens que atravessam a vida como um terremoto: sacudindo paredes, derrubando certezas, provocando pequenos apocalipses nas esquinas onde passam. Você, meu amigo, nunca foi da primeira categoria. Nem nos seus anos de silêncio, nem nos seus anos de barulho.
Antes dos 18, você já tinha título de nobreza:

“O Rei da Putaria.” E não era título honorário, não — era cargo vitalício, reconhecido, aplaudido e comentado em cada viela do baixo meretrício, onde as prostitutas sabiam seu nome, sua voz e até seus pecados antes mesmo de você cometê-los.

Você era o príncipe degenerado de um microcosmo caótico, um Don Juan adolescente, um diplomata da devassidão, abrindo portas, cortinas, decotes e sorrisos com a naturalidade de quem tinha nascido para aquilo. Ironia fina do destino: todo esse reinado ruiu quando chegou o casamento.

E aí — veja só — o antigo imperador das noites tornou-se uma espécie de santo doméstico, uma hóstia de carne e osso, tão correto que até anjo desconfiaria.
Lavou a alma, sossegou o corpo, amarrou o coração e calou o vulcão interior… ou ao menos tentou. Porque alguns vulcões não se apagam — apenas dormem, roncando lava.

Mas o divórcio veio. E, com ele, o despertador do caos. Foi como se uma entidade primitiva, ancestral, pagã, tivesse se erguido dentro de você e dito: “Voltei.” E voltou mesmo. A farra reabriu o expediente. A gandaia mandou lembranças. As noites o acolheram como o filho pródigo que retorna não arrependido, mas esfomeado. Você fez da vida uma festa, do corpo uma bússola e do mundo um hotel sem hora para check-out.

Essa fase não foi libertinagem — foi arqueologia. Você apenas desenterrou o que já era seu. Até que veio o segundo casamento. E o vulcão adormeceu de novo, dessa vez com serenidade. Você se assentou, mas não se apagou. A maturidade fez de você algo raríssimo hoje em dia: um homem que viveu demais, pecou bastante, amou mais ainda e sobreviveu sem virar cinza. Hoje, quando olha para trás, percebe um fato inescapável: você não teve fases — você teve eras geológicas. Era da Devassidão Primeva. Era da Santidade Marital. Era da Bacanal Ressurrecta. Era da Sabedoria Serenada. E cada uma delas deixou marcas profundas: histórias, lembranças, cicatrizes, saudades, risadas, sombras e clarões. Tudo junto. Tudo misturado. Como deve ser com quem realmente vive.

O que você é hoje não é “devasso”. Não é “santo”. Não é “equilibrado”. Não é “arrependido”. Você é um homem completo, calejado, lúcido, sincero com a própria biografia — coisa rara em tempos em que todo mundo quer fingir uma vida decorada para postar no Instagram. A verdade é simples e incômoda: Tem gente que vive metade de uma vida inteira. Você viveu duas. E isso não é defeito. É patrimônio. É bagagem. É história demais para caber em qualquer epitáfio. O Rei da Putaria virou mito. O santo virou lenda doméstica. O devasso virou memória de guerra. O homem de agora — esse sim é o que fica.
E no fim, tudo se resume a uma constatação irrefutável:

Você não é um homem comum.
Você é uma narrativa.
E das boas.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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DEU NO JORNAL

QUEM BARROU O ASSESSOR DE TRUMP?

Guilherme Fiuza

Lula disse que decidiu impedir a entrada de Beattie no Brasil em reciprocidade ao bloqueio do visto de Padilha e de seus familiares

Camisão vermelho e gola fechada à la Hugo Chávez, Lula protagonizou mais um momento do democrata transverso. A narrativa oficial do regime brasileiro é que, sem o herói petista no poder, a democracia no Brasil está em risco. Em nome disso, vale basicamente tudo.

Numa solenidade no Rio de Janeiro, o presidente fez seu tipo de comício preferido – caminhando com um microfone na mão, dentro de um círculo de aduladores, prontos a aplaudir exortações vagas e a rir de histrionismos constrangedores.

Para essa plateia acolhedora, Lula anunciou seu ato chavista contra “aquele cara americano” – a proibição de entrada no Brasil do assessor da Casa Branca Darren Beattie.

O próprio presidente sabe que, dessa forma, estava transformando o que teria de ser uma decisão de Estado em ato de vontade pessoal. É deliberado – e combina com o figurino escolhido para a situação. Tanto que, depois, o Itamaraty divulgou uma justificativa supostamente técnica para embargar o visto do assessor de Trump – afirmando que ele fornecera informações incorretas sobre sua missão no Brasil.

Ou seja: ou Darren Beattie estava sendo barrado no país por descumprir requisitos de entrada, ou estava sendo barrado pelo motivo apresentado por Lula.

No seu comício carioca, o presidente disse que impediria “aquele cara americano” de entrar no Brasil enquanto seu ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tivesse sua entrada proibida nos EUA. Afirmou isso diante do ministro, que estava presente e ainda levou um tapinha no braço do “amigo” – como seu chefe fez questão de qualificar a relação.

Como classificar uma decisão como essa? Uma espécie de “reciprocidade” no grito? Lula sabe que não se trata de reciprocidade. Padilha foi sancionado pelo governo dos EUA, junto a outros envolvidos no programa Mais Médicos – considerado pela atual administração norte-americana como lesivo aos direitos humanos no continente, por manipular grandes contingentes de mão de obra para financiar regimes autoritários. O governo de Cuba ficava com a maior parte do salário dos funcionários do programa.

Enfim, concorde-se ou não com o critério que atingiu o ministro da Saúde, trata-se de uma política de Estado. A não ser que houvesse uma lei prevendo a barragem de integrantes de governos que sancionassem brasileiros, o que se viu como contraponto à decisão americana foi um ato de vontade pessoal. Exatamente o que Lula quis transparecer, inclusive ornando seu gesto com seu figurino. Quem manda aqui sou eu. Falo grosso com o Trump. No meu quintal esses caras americanos não se criam. Etc.

Aqueles que desfilam no olimpo hollywoodiano vendendo Lula como resistência ao fascismo precisam ser questionados – delicadamente, sem querer estragar a festa e ofuscar o brilho das joias. Conto de fadas tem limite.

Não é o que se vê. O compromisso com a mistificação foi longe no Brasil – inclusive da parte de gente muito influente e alheia ao petismo propriamente dito. Esses são os sócios ocultos da nossa democracia de efeitos especiais.

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