Há homens que atravessam a vida como quem atravessa uma sala: discretos, leves, silenciosos, quase invisíveis. E há homens que atravessam a vida como um terremoto: sacudindo paredes, derrubando certezas, provocando pequenos apocalipses nas esquinas onde passam. Você, meu amigo, nunca foi da primeira categoria. Nem nos seus anos de silêncio, nem nos seus anos de barulho.
Antes dos 18, você já tinha título de nobreza:
“O Rei da Putaria.” E não era título honorário, não — era cargo vitalício, reconhecido, aplaudido e comentado em cada viela do baixo meretrício, onde as prostitutas sabiam seu nome, sua voz e até seus pecados antes mesmo de você cometê-los.
Você era o príncipe degenerado de um microcosmo caótico, um Don Juan adolescente, um diplomata da devassidão, abrindo portas, cortinas, decotes e sorrisos com a naturalidade de quem tinha nascido para aquilo. Ironia fina do destino: todo esse reinado ruiu quando chegou o casamento.
E aí — veja só — o antigo imperador das noites tornou-se uma espécie de santo doméstico, uma hóstia de carne e osso, tão correto que até anjo desconfiaria.
Lavou a alma, sossegou o corpo, amarrou o coração e calou o vulcão interior… ou ao menos tentou. Porque alguns vulcões não se apagam — apenas dormem, roncando lava.
Mas o divórcio veio. E, com ele, o despertador do caos. Foi como se uma entidade primitiva, ancestral, pagã, tivesse se erguido dentro de você e dito: “Voltei.” E voltou mesmo. A farra reabriu o expediente. A gandaia mandou lembranças. As noites o acolheram como o filho pródigo que retorna não arrependido, mas esfomeado. Você fez da vida uma festa, do corpo uma bússola e do mundo um hotel sem hora para check-out.
Essa fase não foi libertinagem — foi arqueologia. Você apenas desenterrou o que já era seu. Até que veio o segundo casamento. E o vulcão adormeceu de novo, dessa vez com serenidade. Você se assentou, mas não se apagou. A maturidade fez de você algo raríssimo hoje em dia: um homem que viveu demais, pecou bastante, amou mais ainda e sobreviveu sem virar cinza. Hoje, quando olha para trás, percebe um fato inescapável: você não teve fases — você teve eras geológicas. Era da Devassidão Primeva. Era da Santidade Marital. Era da Bacanal Ressurrecta. Era da Sabedoria Serenada. E cada uma delas deixou marcas profundas: histórias, lembranças, cicatrizes, saudades, risadas, sombras e clarões. Tudo junto. Tudo misturado. Como deve ser com quem realmente vive.
O que você é hoje não é “devasso”. Não é “santo”. Não é “equilibrado”. Não é “arrependido”. Você é um homem completo, calejado, lúcido, sincero com a própria biografia — coisa rara em tempos em que todo mundo quer fingir uma vida decorada para postar no Instagram. A verdade é simples e incômoda: Tem gente que vive metade de uma vida inteira. Você viveu duas. E isso não é defeito. É patrimônio. É bagagem. É história demais para caber em qualquer epitáfio. O Rei da Putaria virou mito. O santo virou lenda doméstica. O devasso virou memória de guerra. O homem de agora — esse sim é o que fica.
E no fim, tudo se resume a uma constatação irrefutável:
Você não é um homem comum.
Você é uma narrativa.
E das boas.