1. Tenho teoria formulada com base nas 5 idades. É bem simples.
PRIMEIRA IDADE. Você não conhece ninguém e ninguém lhe conhece. É a de todos nós, no começo de nossas vidas. Nada a lamentar, pois.
SEGUNDA IDADE. Você conhece todo mundo e ninguém ainda lhe conhece. Avançando um pouco mais, no tempo, acontece com todo mundo. Lemos jornais, vemos TV, sabemos quem são os atores na história, mas esses passam por nós e sequer nos cumprimentam. O que é normal.
TERCEIRA IDADE. Você conhece todo mundo e todo mundo lhe conhece. É a da plenitude da vida social. Uma fase boa. Só que passa, esse o problema, infelizmente passa. Pessoa (Caeiro, O guardador …) até escreveu
‒ Que te diz o vento que passa? Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois.
Só para lembrar, inspirado nele, o amigo Manuel Alegre fez a mais famosa canção de protesto, contra Salazar, que Portugal conheceu (Trova do vento que passa). Assim começa
‒ Pergunto ao vento que passa Notícias do meu país E o vento cala a desgraça O vento nada me diz.
QUARTA IDADE. Todo mundo lhe conhece e você já não sabe quem são os que lhe cumprimentam. É aquela onde estou, hoje. De vez em quando, após um encontro com alguém mais moço, pergunto “Você é filho de quem?” Quando explanei à querida Tânia Bacelar como funciona essa idade, ela definiu lindamente ‒ “É a da tampa do caixão, Zé Paulo”. É mesmo. Tenho pena de nós. Faltando só a última.
QUINTA IDADE. Você não conhece mais ninguém e todos mundo já se esqueceu de você. Só falta essa. O começo do fim. Espero, apenas, que demore (muito) a chegar. E bem a propósito lembro versos de José Bernardino, cantador de São José do Egito (PE)
‒ Já vou sentindo o excesso Do peso na minha carga Trilhando um caminho estreito Vendo tanta estrada larga Sinto uma sede tão grande Que a ponta da língua amarga.
2. Isto posto, exponho agora outra teoria pessoal, a das idades comparadas com as estações do ano, Primavera ‒ Verão ‒ Outono ‒ Inverno. Que começou num dia em que estava fazendo aniversário e apareceu, no escritório, o (grande) pintor Zé Cláudio, saudades dele. Entrou na sala, mostrou uma folha seca de Coração-de-Nêgo (nem sei mais se podemos continuar a dizer o nome, politicamente incorreto, desse pé de pau) que apanhou no chão e falou “É seu presente”. Não entendi, que folha seca não é propriamente um presente. E, pior, ele nem me deu, colocou foi em sua bolsa. Uma semana depois chegou belo quadro seu, com aquela folha pintada. Que belo presente!, senhores. Obrigado, amigo. E respondi, na hora, com esses versos que expressam bem as tais 4 idades:
‒ São 4 as folhas que a vida Esparrama pelo chão A primeira é esperança A segunda é amplidão
Mas o destino tonteia Quando se acaba o verão Que a terceira é desalento E a quarta é solidão.
Tudo recomendando, como dizia o amigo Eduardo Galeano, que ““Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”.
3. Por isso, neste novo ano que já vem, desejo aos leitores que vivam plenamente suas boas idades. E que o vento demore a lhe trazer dita quarta folha, do inverno, a da solidão. Valendo lembrar outros versos, agora do mesmo Pessoa (sem título, 1928),
‒ Ó vento vago Das solidões, Minha alma é um lago De indecisões.
Por tudo então, bem no fundo desse lago da existência, bons anos a todos e cada um. E há braços, com o coração.
P.S. Agora, perdão, mas o mar me espera. O “Mar” de Antonio Machado, para quem “não lhe servem âncora, timão, remos e o medo de naufragar”. O “Mar calmo”, de Shakespeare. O “Mar amigo”, de Baudelaire. O “Mar sempre recomeçando”, de Valéry. Os “Mares” de Camões, “nunca dantes navegados”. O “Mar salgado”, cantado por António Correia de Oliveira e Pessoa. O “Mar tenebroso” dos navegadores antigos, de que falava Torga. O mesmo Torga que, entre 12 e 18 anos, viveu no interior de Minas Gerais, como caçador de cobras, mas essa é outra história… O mar azul da Lagoa Azul, aqui em Pernambuco. E tantos outros. Por isso me despeço agora dos leitores com a intenção de voltar a essas páginas só depois do carnaval. Como em todos os outros anos, antes. Se o JBF ainda me quiser, claro. E se Deus permitir, sem dúvida. Até lá, pois. Graças. Adeus. Pensando bem até breve, melhor assim.
Não poderia deixar de prestar algum depoimento sobre a Fábrica de Produtos Químicos, Braskem. Essa é a 3ª e última parte, muitos problemas e acontecimentos foram notórios e publicados desde que a fábrica começou a funcionar em 1975. Assim que surgiu a notícia que uma fábrica de produtos químicos, Salgema (Braskem) seria instalada entre a praia e a lagoa no bairro do Trapiche, os valores dos imóveis despencaram nos bairros vizinhos. O bairro do Trapiche seria a futura expansão urbana da classe média, uma nova Ponta Verde. Nenhuma casa nova foi construída nesses 47 anos de funcionamento da BRASKEM, por medo da possibilidade de vazamento de produtos clorados.
Para entender melhor. Foi descoberta uma grande mina de Salgema (Salmoura) no subsolo da lagoa Mundaú, nos bairros de Bebedouro, Mutange, Pinheiro, Bom Parto e uma parte do Farol. A fábrica Braskem escavou 35 minas durante esses anos, extraindo a Salmoura para ser beneficiada pela fábrica do Trapiche por meio da eletrólise separam o Cloro do Sódio, fabricando e exportando produtos básicos para plásticos.
O grande perigo seria um vazamento de cloro. A inalação do cloro causa asfixia na garganta e no peito. O gás cloro é letal foi a primeira arma química utilizada em guerras em 1915 (e proibida usá-las pelo Tratado de Genebra). Esse o grande motivo da desvalorização dos imóveis. Todos os dias, às 10 horas da manhã, o Departamento de Segurança da Braskem liga uma estridente e apavorante sirene como exercícios de fuga, ouvida em toda região. A Braskem tem excelente esquema de segurança (dizem eles), mas, já aconteceram no mundo acidentes de gravíssimas consequências, como numa fábrica de produtos químicos em Bophal na Índia em 1984, quando morreram mais de 6.000 funcionários e moradores dos arredores num vazamento de gás mortífero ainda hoje não explicado (procurem na Internet essa história).
Em 1985, os então estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Érico Abreu e Mário Lima, preocupados com a possibilidade de um acidente semelhante ocorrer na BRASKEM, produziram um material investigativo sobre as consequências da extração de salmoura na Lagoa. Concluíram dentre as possibilidades, estava a de tremores e rebaixamento no solo de áreas próximas às minas. Érico Abreu considera o alerta feito há trinta anos, uma espécie de previsão. Em 2015 aconteceram vários pequenos terremotos, rachando as casas com perigo de afundar. 60.000 moradores foram desalojados da região.
Em 2009 fui convidado e com muita honra passei oito anos como Secretário de Cultura da cidade histórica de Marechal Deodoro. O prefeito deu-me a missão de realizar uma Festa Literária nos moldes da FLIP em Paraty. Planejei durante alguns meses, para realizar a FLIMAR, o orçamento estourou. Deram-me a ideia de solicitar as 11 passagens dos grandes escritores à BRASKEM. Achei até que seria uma obrigação da fábrica pois a cidade de Marechal fica nas proximidades. Fui bem recebido pelos diretor, não teve problema em cooperar com as 11 passagens, desde que colocássemos a logomarca da BRASKEM em folhetos, site, auditórios e distribuísse propaganda da BRASKEM ao povo durante os quatro dias de evento. A 1ª FLIMAR foi um sucesso à nível nacional.
No ano seguinte retornei à BRASKEM, eles ofereceram a colocar trenzinho para conhecer a cidade e convidar grandes nomes não só da literatura como também da música. Assim a FLIMAR cresceu nos outros anos. Era um negócio como outro qualquer, a BRASKEM nos dava parte das precisões em troca de espaços para propaganda. Era importante para eles a propaganda na comunidade. Nesses oito anos eu fui oportuno, todos os anos me convidavam para entregar o Prêmio Braskem instituído exclusivamente à Imprensa com concurso de reportagens ambientais. A entrega dos Prêmios era festa de arromba com artistas globais.
Quando eu soube que a BRASKEM iria instalar a segunda fábrica no município de Marechal Deodoro, duplicando a produção. Falei com Prefeito, Secretário de Meio Ambiente, mas já estava tudo pronto, a Odebrecht construiu a fábrica em um ano. Em 2013 assisti a inauguração da 2ª fábrica da Braskem em Marechal, na ocasião tive a honra em apertar a mão da presidente Dilma Roussef.
Em 2015 aconteceram os primeiros terremotos e a previsão dos jornalistas: Mário Lima e Érico Abreu. O restante da histórias todos conhecem, mas, consultem à Internet ou leiam o excelente livro: “Rasgando a Cortina de Silêncios”. A mim, resta acompanhar milhões de alagoanos gritando: FORA BRASKEM!