DEU NO X

XICO COM X, BIZERRA COM I

VALENTE E FELINA

Levei meu amigo para ver o treino do PSG, em Recife. Naquele sub-11 prevalecem os meninos – de menina, só ela, Valentina, iluminando o campo, correndo atrás da bola, se desmarcando, cruzando, chutando e fazendo gol, tudo com muita classe, exacerbada categoria. Destaque total. A menina, de cabelos presos, brinquinho na orelha e pernas infantis, além de uma impressionante visão de jogo, deixa os meninos à reboque de seu futebol vistoso e clássico. Ela chega com a disposição de ocupar o lugar que às mulheres foi roubado a vida toda com a certeza de que futebol é também coisa de mulher, sim. Vai Valentina, valente como deve ser, felina como aquela que quer conseguir seu final objetivo. O gol é só o início da vitória no jogo da vida. Ainda bem que ela joga no mesmo time de Bernardo. Vai que é tua, Valentina!

OBS: Meu amigo, Humberto Araújo, arquiteto, artista plástico, olhar apurado e conhecedor, boquiaberto e tão entusiasmado quanto eu com o futebol da menina, fez a ilustração dessa minha croniqueta.

* * *

Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

Nossos CDs estão nas plataformas virtuais e, em formato físico, na Loja Passadisco do Recife.

DEU NO JORNAL

OS INFERNOS QUE NÃO SÃO NOSSOS

Luís Ernesto Lacombe

Corruptos viram santos graças ao STF

Com a ajuda de uma jurisprudência sem lógica, corruptos viram santos, vítimas de “injustiças”

Não, o paraíso não é aqui. Quem acredita nisso estará sempre no caminho errado, longe dos valores morais, apartado da vida espiritual, das virtudes. A busca pelos prazeres terrenos vai arrastá-lo sempre para os pecados. A sensação passageira será de liberdade total, em meio à inevitável escravidão. Será sempre prisioneiro de seus desejos aquele que se imagina acima do bem e do mal, aquele que repete sem parar que “o importante é ser feliz”, “é aproveitar cada momento”, não importam as consequências disso, nem para os outros, nem para si próprio.

As dores dos outros não são consideradas. Há um desprezo absoluto por elas. Os mundanos, em sua frivolidade quase diabólica, também se esforçam para desprezar seus próprios sofrimentos. Com certa dificuldade, às vezes. Quando não conseguem disfarçar seu padecimento, negá-lo, entregam-se à revolta, amaldiçoam qualquer possibilidade de aprendizagem, de crescimento, de remissão e redenção. O que eles querem é poder, dinheiro. Eles são deuses tortos, querem agora, querem aqui.

Não há mais fidelidade, senão ao que não presta. Não há mais verdade, não há mais compromissos com a justiça, com o bem. Assim estamos nesse mundo. Os honrados, os íntegros são empurrados para o inferno. Os pulhas, os patifes tomaram o controle de tudo. E se protegem, e protegem os seus. Os pecados agora foram transformados em virtudes, que passaram a ser condenadas. Está tudo do avesso, está tudo em chamas. A degeneração e a decadência parecem implacáveis.

Tentam assegurar o paraíso na Terra, o falso firmamento, a toda espécie de bandido. Traficantes, assaltantes, assassinos, estupradores, pedófilos, a “justiça dos homens” decidiu absolvê-los. Aos corruptos deram mais, eles foram alçados a uma estranha categoria de “santos”. Há, para isso, todo um esquema doutrinário e uma jurisprudência desprovida de qualquer lógica. Todos os ilícitos fartamente comprovados praticados por um grupo específico viraram casos de “injustiça”.

Talvez estejam agora em busca de uma reparação para essa gente tão especial: Lula, Sérgio Cabral, José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha, Henrique Pizzolato, Valdemar Costa Neto, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros, Aldemir Bendine, André Vargas, Beto Richa, Eduardo Cunha, João Santana, João Vaccari Neto, José Carlos Bumlai, a turma das empreiteiras, os irmãos Batista…

A confraria dos “deuses” supremos pode “editar o país” à vontade, usando quaisquer pretextos furados, quaisquer teses e narrativas insustentáveis. Não há mais civilização, democracia, respeito às leis. O sistema promove a grande farra da impunidade, empilhando, às toneladas, abusos, arbítrios e ilegalidades. Fala em “armação, fruto de um projeto de poder”, apontando para os outros, fugindo do espelho. Quer derrotar, assim, a cidadania, as liberdades… Acha-se invencível, mas sua visão revisionista não é capaz de mudar o inferno interior de cada um que está no sistema, seu inferno na Terra e o inferno das profundezas.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ FERREIRA – SÃO JOSÉ DOS CAMPOS-SP

Olá, mestre Berto!

Conversei muito ontem com o grande Peninha, nosso José Eduardo Sanches de grande memória musical.

Que alegria saber que existem outros que têm pela musica e assuntos culturais intensa dedicação.

Me senti muito representado, para usar palavra de agora , na conversa.

Grande Peninha…

Que alegria e satisfação poder ter o privilegio de sabê-lo tão receptivo e amigo.

Vou incomodá-lo mais vezes!!!

R. Meu caro, sua conversa com Peninha, além da amizade, rendeu também uma excelente homenagem pra você.

Como sabem nos nossos leitores, o expediente diário desta gazeta começa com a excelente coluna musical do Peninha, um especialista nesse ramo.

Considero um privilégio editar uma página que tem um colaborador tão qualificado e com tanta dedicação ao tema no qual é especialista.

Veja na coluna dele de hoje, que está na postagem logo abaixo, a quem ele dedicou as músicas desta semana.

Parabéns!

Abraços e uma excelente semana.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DE DISTÂNCIAS E SAUDADE

O tic-tac do relógio de parede quebrava o silêncio da tarde se despedindo. A noite já espreitava escurecendo o dia. Ricardo apurou os ouvidos tentando encontrar respostas para uma inquietação. Onde estaria Esmoler? O amigo se ausentara no meio do cochilo da tarde. Não era seu costume sair sem avisar. Esperava ouvir seus passos subindo os batentes, rangendo a madeira sob o peso de cada passada.

O cego segurou a bengala pelo meio. Bateu duas vezes com o objeto no canto da mesa. De repente uma música veio à sua lembrança. A voz do cantor ecoando em sua lembrança. Sentiu o cheiro da dama que lhe abraçara duas vezes antes de dizer “até amanhã”. Um amanhã que nunca ocorreu para os dois. No outro dia ele viajara cedo, sem o nome dela, sem seu endereço… apenas a sensação do calor de sua mão sobre sua mão.

Poucos anos depois, quando a vista já dava sinais de cansaço, assistia na TV um programa de calouros quando a viu: julgava o concurso. Descobrira ali o nome dela.

Coincidência ela haver dado a maior nota justamente para o rapazinho que cantara Unchained Melody num Inglês perfeito. A mesma que dançaram duas vezes – ele pagara para a orquestra repetir – antes de saírem andando pela madrugada, como se não tivessem para onde voltar.

Descobrira pela TV o quanto estavam distantes um do outro. A saudade que sentiu naquele momento foi maior que a distância.

Estava nessas lembranças quando ouviu os passos de Esmoler e os reclames da madeira. Em seguida os passos pararam, a chave foi introduzida na fechadura, girou, a maçaneta desceu com um rangido baixinho. Mais baixo que o ruído das dobradiças se curvando na abertura da porta.

– Ricardo, desculpe-me sair sem avisá-lo – Esmoler falou depositando um pacote sobre a mesa. – Seu sono estava de ronco.

– Não se desculpe por isso. Se desculpe por me haver partido agora uma lembrança boa – falou baixando a cabeça.

– Qual? Posso saber?

– Ah, meu amigo Esmoler! Você não compreenderia. Precisaria sentir a distância e a saudade como eu as sinto, para entender.

– Entender? O quê? Fale-me – pediu o amigo.

O cego levantou a cabeça como se pudesse ver pela janela do apartamento. Houve um silêncio. Por fim falou:

– Que a distância é o parâmetro físico ou temporal pelo qual se mede uma saudade. Quanto maior a distância, maior a saudade.

Ficaram outra vez em silêncio.

Esmoler deixou a sala. Entrou no quarto, acendeu a luz e se perdeu em outras preocupações.

Ricardo tamborilou na mesa e cantou baixinho “God speed your love to me”, repetindo as duas últimas palavras com uma saudade eterna.

Na parede o relógio sabia exatamente do tempo presente.

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO