JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

BASTA DE SIGILO

1. O presidente do Supremo não quer permitir que Receita Federal e Ministério Público fiscalizem corruptos (e corruptores) a partir da quebra do Sigilo Bancário. Por se tratar, segundo se vê em seu voto na quarta-feira, de um direito fundamental. Só para lembrar (vou repetir), tudo começou com o Código de Hamurabi, na antiga Babilônia. Onde estão consignados os primeiros litígios entre coletores de impostos e os que viviam de emprestar dinheiro. Na Grécia, banqueiros eram considerados trapezistas. Porque ofertavam créditos, no meio da rua, sobre mesas (trapezas). A categoria melhorou muito seu padrão de vida, com o tempo. Em Florença, maior centro financeiro da Idade Média (80 bancos), São Tomás de Aquino pregava que “juro é preço do tempo e o tempo pertence a Deus”. Com o que cobrar esse juro seria pecado. E dos grandes. Tendo como opositor, nessa querela teológica, o reformador protestante Calvino. Para quem Deus não se incomodaria com esses juros, “desde que não excedessem 5% ao ano”. Não por acaso sendo Calvino sustentado, por banqueiros de Genebra, durante os últimos 25 anos de sua longa vida. Tratando-se de bancos, há temas para todos os gostos.

Já o Sigilo Bancário teve início com Ordenação alemã de 1934, que dizia: “Todo cidadão que, consciente ou inconscientemente, animado por baixo egoísmo ou qualquer outro sentimento, tenha fundos no estrangeiro será punido com a morte”. Além da perda de todo seu patrimônio, em favor do Estado. Hitler, a partir daí, determinou que sua temida Polícia Secreta do Estado (GEheime STAatsPOlizei), fizesse depósitos, nos bancos suíços, em nome de ricos judeus alemães. Pedindo certidão ao banco, em seguida, para fazer prova do (suposto) crime. Começavam, já neste ano, as primeiras execuções de empresários judeus e suas famílias. Daí resultando na Suíça, em 1936, a primeira legislação sobre sigilo bancário do planeta. Nascida como um gesto humanitário. Para evitar que pessoas morressem.

Ocorre que dito sigilo, com o tempo, começou a ser usado por traficantes, sonegadores e corruptos. O que levou a mesma Suíça, desde 01/01/2017, a por fim ao Sigilo Bancário de seus 266 bancos. A partir de acordo com a União Europeia e 38 parceiros da OCDE. Aderindo, sua Administração Federal de Comunicação, ao Programa de Troca Automática de Informação. Nosso presidente do Supremo vai na contramão da história. O Sigilo Bancário já deixou de existir faz tempo, no mundo, para casos de corrupção. Enquanto ele quer proibir o follow the money, que se daria no compartilhamento desses dados, e permitiria mais fáceis condenações. Não faz sentido. Está errado. A menos que sua intenção seja proteger quem tenha, nas suas declarações de Imposto de Renda recursos de origem duvidosa.

2. Em tema conexo, esse mesmo presidente disse que traficantes, assassinos e corruptos a serem liberados, com o fim da prisão em Segunda Instância, seriam “só” 4.895. Tem o nome de todos os beneficiários, claro. Só assim saberia desse número. E mantém a relação em sigilo. Com criminosos indo às ruas em conta-gotas. Acaba de ser liberado o traficante DJ Rennan da Penha, preso em Gericinó (Rio). Condenado a 6 anos e 8 meses de prisão. Saiu dizendo “agradeço aos meus fãs”. Talvez o Ministro seja um deles. Também o chefe do tráfico de drogas em São Gonçalo (Rio), Antônio Ilário Ferreira, conhecido no crime como Rabicó. Condenado a 27 anos e 3 meses. E os outros?, presidente Toffolli. Quais são? O povo brasileiro tem direito a saber.

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LOBOS E CORDEIROS

Jean de La Fontaine (1621/1695) estudou teologia, serviu ao grande Fouquet, mas acabou famoso mesmo foi ao publicar Fábulas Escolhidas. Membro da Academia Francesa, está sepultado ao lado de Molière no Père-Lachaise. Uma de suas mais conhecidas fábulas, O Lobo e o Cordeiro, conta história de cordeiro que bebia num riacho. O lobo, faminto, reclama: “Como é que tem coragem de sujar a água que eu bebo?” O cordeiro explicou ser impossível, “por beber uns 20 passos mais abaixo”. O lobo diz “Você andou falando mal de mim no ano passado”. E o cordeiro, “No ano passado eu ainda não havia nascido”. “Se não foi você foi seu irmão”. “Mas sou filho único”. Não adiantou. E acabou sendo almoço do lobo. Só que o mundo gira. E fosse contada hoje, aqui no Brasil, a fábula teria que ser alterada.

Nessa versão atual, adaptada para os novos tempos, o lobo não iria usar argumentos tão singelos como os de La Fontaine. Tudo seria mais sofisticado. Para começar, providenciaria gravações ilegais com acusações comprometedoras. De que o cordeiro pretendia privatizar o rio. De que iria censurar a imprensa. De que preparava um golpe. Por aí. O cordeiro, desconfiado, pede que mostre as gravações. O lobo informa que o Sigilo da Fonte lhe dá o direito de não mostrar nada. O cordeiro diz que gravações ilegais não valem como prova. E o lobo apenas exibe recortes de jornais, após o que declara “Se saiu nos jornais é verdade”.

No Supremo da Floresta, Ministros condenaram o pobre cordeiro. Dizem até que eram lobos disfarçados. Sendo ou não, inatingíveis e felizes, aproveitaram para soltar um monte de lobos presos. Pelos mais variados crimes. De corrupção a cordeiricídio. Fosse pouco e o Lobo Maior (assim era conhecido, por lá, seu presidente) requisitou 600 mil fichas dos moradores da região. Mas, suspeita-se, queria ver só as dos cordeiros. Para condenar outros. O maior número possível. A moral dessa história, segundo La Fontaine, é que “A razão do mais forte é sempre a melhor”. Continua valendo, ainda hoje. Mas, nos dias que correm, há uma moral secundária. A da verdade pós-moderna. Segundo a qual mais importante que ter razão é dizer que tem razão. Em declarações a jornais, televisões, comícios e caravanas. E esta moral poderia ser: “Faça barulho, o mais possível, que nas eleições muita gente vai acabar acreditando”.

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QUANTOS TRAFICANTES?, MINISTRO

O Supremo vai realizar, finalmente, velho sonho de ministros bem nossos conhecidos. O de soltar Lula. Sem se preocupar que, além dele, ganharão as ruas um caminhão de condenados. Quantos? Segundo Gleisi, “outros 148 mil criminosos também serão libertados”. Mas ninguém assina embaixo do que diz esta senhora. O Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP), do CNJ, informou serem “190 mil”. E, contraditoriamente, o presidente do mesmo CNJ, Tofolli, reduziu esse número a “só” 4.895. “Só”? Acha pouco?, ministro. Sem que se explique a razão dessa diferença nos números. Antes, 190 mil. Depois, “só” 4.895. Será mesmo?

O ministro Toffoli dispõe dos dados, no CNJ. E tem o dever de completar a informação. Sabemos só de alguns, na Lavajato: Lula, José Dirceu, seu irmão Luiz Eduardo; um timaço com Delúbio, Vaccari, Bumlai, Genu, por aí; altos funcionários da Petrobrás nomeados, pelo governo da época, para distribuir propinas entre os companheiros; e alguns ricaços, donos da Engevix, da Mendes Júnior, da Corretora Bônus Banval. Mas falta saber quais serão os milhares de outros criminosos a serem beneficiados. Quantos traficantes?, senhor ministro. Fernandinho Beira Mar e Marcola estarão nesta ação entre amigos? E quantos pedófilos? E quantos estupradores? E quantos assassinos? Os brasileiros têm direito de saber. Que tudo ocorre em sombras. Para que um único condenado por corrupção seja solto. Não é justo.

Desalentador é também ver entendidos se exibindo, em falas e textos lamentáveis, cheios de lugares comuns. Tentando emprestar alguma dignidade a essa decisão pífia. Lembro meu pai, num Discurso de Paraninfo que fez em 1964. No duro ano que inaugurou os duros anos da Redentora. Disse ele, sobre os que interpretam a lei para ferir a democracia: “Quando o despotismo se instaura há, quase sempre, um jurista que não lhe falta com seus serviços. Como se o direito fosse matéria informe sobre a qual se pudesse operar livremente e não devesse ter substancial conteúdo de expressão da consciência coletiva”. Após o que citou Tocqueville: “Ao lado de um déspota que comanda, se encontra quase sempre um jurista”. E concluiu dizendo que “traía sua ciência o jurista que legalizava a tirania”. O velho chamava essa gente de “juristas da ditadura”. Se aqui ainda estivesse, no Brasil de hoje, talvez usasse a expressão “juristas da impunidade”. Advogados e juízes (inclusive ministros!), leves e felizes, devotados “só” a soltar os seus.

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NOSSOS MORTOS

O mundo acabou. Morreu meu pai. Lembro como se fosse hoje. Quem já passou por isso, (infelizmente), sabe como é. Poucos dias depois ligou Hélio Naslavsky. Convidando para comemorar o nascimento de um neto. Agradeci a lembrança e prometi que iria. Por educação. Não sentia disposição para nada. Ocorre que o amigo ficou insistindo. Seja, então, a vida continua. Dona Lectícia chegou no escritório fim da tarde e, de lá, fomos à maternidade.

Hospital Albert Sabin (Ilha do Leite). Logo no início do corredor dos quartos, ficava o berçário. Com 10 ou 20 recém nascidos rebolando, lá dentro. Minha mulher acha todos lindos. Para mim, são quase ratos. E tudo igual. Sem aquela pulseirinha, simplesmente não consigo distinguir um filho meu do de outro qualquer. Quase. O quarto daquele neto de Hélio era o último. Fomos caminhando, bem devagar. No corredor, pregado nas portas, uma sucessão de mensagens idiotas, próprias de pais de primeira viagem. Cheguei, meu nome é Pedro. Coisas assim. Tudo, naquele ambiente, dava notícias de vida. No quarto, uma grande festa. A do herdeiro que chegava. Com direito até a charuto, maravilha. Num hospital! E pode? Alí podia. Fomos logo embora. Estranho foi que, ao entrar no carro, me senti em paz. A opressão no peito desapareceu, como por encanto. Mas o que aconteceu?, eis a questão.

Em casa, nessa noite, tudo ficou claro. É só a maneira certa de ver quem somos. E entendi, afinal, que os homens nascem, vivem vidas se possível dignas e fazem amigos. Poucos ou muitos. Até que um dia se vão. E deixam saudades. Poucas ou muitas. No mesmo momento em que outros netos, de outros Hélios, estão nascendo. Mais tarde, estes serão também substituídos por novos netos dos netos de Hélio. E assim será, sucessivamente, até os fins dos tempos. Por isso, amigo leitor, nesse dia quase de finados, me permito dar conselho. Se perder alguém da família, ou amigo próximo, não lamente em demasia. É que, caso tenham tido vidas dignas, com amigos e saudades, afinal cumpriram seus destinos. Valeu a pena. A vida é breve. Como disse Pessoa (no Desassossego), apenas “hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, um ponto final”. E esse ponto final chega, sem choro nem vela, para todos nós. Só que até lá, com alma, coração e a consciência da maravilha de aproveitar intensamente cada instante, viva a Vida.

P.S. Esta semana, perdemos o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Tinha uma doença estranha, nem sei o nome. Certo é que não podia receber luz. Mesmo à noite, usava filtro solar. Mas era um homem feliz. Morreu de pneumonia. Complicado é que o destino parece escolher sempre a pessoa errada. Tanta gente ruim que não faria falta, à nossa volta ou em Brasília, e em troca a Ceifeira leva os bons? Sobre esse amigo escrevi versos em um livro de afetos, Aos Amigos Tudo. Reli isso, agora. E estranhei o contraste entre a alegria de antes, que se vê nas palavras, e a tristeza em lembrar mais um que se foi. Segue a prova. Ele fez comentário sobre artigo que escrevi, afirmando “eis-nos do outro lado do tempo”. Respondi:

Tem quem cala e o que mente
O da sombra e o do dia
O que sabe e o que confia
O que nega e o que consente
pois há dois lados somente
No trajeto do oprimido
E no barro percorrido
mais vale o corpo suado
Que o tempo do outro lado
É o tempo não vivido.

Descanse em paz, amigo.

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FERNANDO PESSOA E O BRASIL (II DE II)

Lisboa. Continua coluna indicando frases de Pessoa que valem para nosso Brasil, hoje. Com pequenos comentários que me permiti fazer, em seguida:

HOMEM: “O esforço é grande e o homem é pequeno” (Mensagem – Padrão). Quando o homem é pequeno, por dentro, nem todo esforço vale a pena.

HONESTIDADE: “Mas é tão difícil ser honesto ou superior!” (Apostila). Difícil e raro.

ILUSÃO: “A ilusão é mãe da vida” (Primeiro Fausto). E a vida é mãe de todas as ilusões.

INJÚRIA: “Os homens são sempre mais prontos em retribuir injúrias do que favores, porque retribuir um favor é uma obrigação e retribuir uma injúria é um prazer” (Os preceitos práticos em geral e os de Henry Ford em particular). Melhores são aqueles capazes de não fazer favores impróprios nem retribuir injúrias.

INVEJA: “Invejo a todas as pessoas o não serem eu” (Livro do desassossego). Todas as pessoas invejam quem gostariam de ser.

LENDA: “Assim a lenda se escorre/ A entrar na realidade” (Mensagem, Os Castelos). Nos palácios e nas prisões, pobres lendas.

LUCIDEZ: “Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer” (Tabacaria). E me sinto morrendo, por estar lúcido.

MÁRTIR: “Onde alguém vê um mártir, outrem verá um louco” (Ideias estéticas). Por trás de um louco, outrem verá um mártir.

MITO: “O mito é o nada que é tudo” (Mensagem, Ulisses). O mito é o tudo que é nada.

MORAL: “Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido” (Nota solta, sem data). Pena que haja tão poucos homens estúpidos hoje, na praça.

PASSADO: “O passado não é senão um sonho…” (O marinheiro). Mas, por vezes, é também pesadelo.

PÁTRIA: “A minha Pátria é onde não estou” (Opiário). Você é que se perdeu. A pátria está onde sempre esteve.

PERDÃO: “Não haverá, enfim,/ Para as coisas que são/ Qualquer coisa assim/ Como um perdão?” (Sem título, sem data). Algumas coisas não merecem perdão.

PRAZER: “Todo prazer é um vício” (Passagem das horas). Há outros. Piores.

PÚBLICO: “O público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade” (Nota). Sobretudo em véspera de eleição.

RICOS: “Respira-se melhor quando se é rico” (Livro do desassossego). Principalmente quando a grana veio fácil, em malas ou contas no estrangeiro.

SILÊNCIO: “O silêncio é dos Deuses” (Sem título, 10/8/1916). E dos sábios.

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VIVA O CARDEAL

Vaticano. Amanhã, o teólogo e filósofo português José Tolentino Mendonça vai ser Cardeal. Em São Pedro, assim se diz por aqui. Foi uma ascensão rápida. Ano passado, era capelão na freguesia do Rato. Em Lisboa. E membro do Conselho Pontifício da Cultura (nomeado por Bento XVI). Em Roma. Lá, conheceu Francisco. Quase um desconhecido para o grande público, em fevereiro de 2018 conduziu o Retiro Quaresmal do Papa. “Interessa-me a espiritualidade do cotidiano”, disse na ocasião. A impressão que causou foi tão forte que logo iria ser Diretor da Biblioteca e do Arquivo Secreto do Vaticano. Arcebispo de Suava (África). E, agora, Cardeal. Com 53 anos. O segundo mais novo, entre todos. No mesmo dia em que correu a notícia da nomeação, recebemos seu artigo semanal para os jornais. Reafirmando tema tão atual, que é a solidão humana. Para uma (limitada) ideia de quem se trata, seguem trechos desse pequeno texto:

“À entrada de um café, aviso gentil impresso em tamanho garrafal, impossível de passar despercebido: Não temos Wi-Fi. Conversem uns com os outros. E, como tudo na vida, há quem o lesse e entrasse no estabelecimento a sorrir; e há quem, com visível desconforto, procurasse outro poiso. Conversar com os outros, ainda o saberemos fazer? Hoje, continuamos a conversar… no afã por conectar com o distante, e empobrecemos a relação com o que está próximo. O nosso discurso povoa-se de intermitências… Estamos e não estamos. O tempo real de escuta cai. A concentração dura o instante de um relâmpago. As conversas precisam de tempo. São as deambulações, as digressões e as derivas que nos conduzem à ciência do encontro, que nos desarmam enquanto falamos ou escutamos, que nos sobressaltam ou comovem, que nos deslocam interiormente, que nos interligam.

“Montaigne definiu a conversa como um falar franco que abre caminho a um outro falar. É um belo modo de descrever aquilo que numa conversa verdadeira acontece, quando a confiança oferecida pela palavra e sustentada pela escuta autorizam a expressão desse outro falar que está submerso em nós. Por isso, persiste sempre uma tensão na experiência da conversa… A vida é, de fato, essa circularidade. O autor dos Essais compara-a ao que acontece numa partida de tênis. Os interlocutores não estão estáticos. Mesmo parados movem-se, segundo a geometria da bola que voa de campo a campo. E o importante, por fim, não é fazer vencer as minhas ideias, nem se adequar às do outro, mas reagir em sintonia, compassar, cadenciar, aprender a alegria da troca”.

Francisco, ao assumir, disse que vinha “do fim do mundo”. Com o desejo de “trazer as periferias para o centro”. Em sua missão reafirmando, sempre, uma pregação permanentemente a serviço dos mais frágeis. E contra a exclusão. Pode não ter conseguido ainda mudar, no tanto que desejaria, a Igreja Católica. Mas, ao menos, vai mudando sua hierarquia. O protocolo, no Conclave de Eleição dos Papas, havia já sido alterado por João Paulo II. Ao determinar que só aqueles com até 80 anos teriam seus direitos mantidos. Rude golpe na velha Cúria. Com isso, dos 228 cardeais de hoje, só 128 votam. E podem ser votados. Francisco já fez 66 deles (52%) E, com o tempo, vai aumentar esse número. Mudança relevante que vem fazendo, aos poucos, é no peso dos votos. Com redução na importância dos continentes mais ricos. A Europa, que tinha 60 cardeais eleitores, hoje tem só 54. E América do Norte, de 14, caiu para 12. Enquanto aumentaram América do Sul, de 19 para 23. África, de 11 para 19. Ásia, de 10 para 16. E Oceania, de 1 para 4.

Tolentino aprendeu, com a vida, que a esperança é o contrário da utopia. E faz parte desse processo de reforma da Igreja. Amigo de Pernambuco, aqui veio diversas vezes (2008/15/17). E é, sobretudo, um grande poeta. Um padre poeta. Com quase 20 livros publicados. Da Madeira, é filho de pescador. Até confessa isso no seu artigo desta semana:

“Este verão revi o filme de Roberto Rossellini, Stromboli, e fiquei siderado com a cena da pesca do atum, mostrada ali como uma coreografia primitiva, intensíssima, até pungente. Durante essa longa cena só me recordava de meu pai, que foi também pescador. Eu fixava-o, com nitidez, de barco em barco, entre as personagens de Rossellini. Vestia uma camisa verde como há muitos anos, na última vez que o vi”.

É como se fosse uma premonição. Que quase todos os apóstolos escolhidos por Jesus tinham essa profissão. Mas deve-se, por fim, destacar, aqui, um estranho dom que tem. O de fazer com que todos os fisicamente próximos dele se sintam em paz. Como se uma aura misteriosa o cercasse. Por isso lhe disse, quando ainda era padre, “O amigo se prepare que vai ser Papa”. Seria o segundo nascido em Portugal. Depois de João XXI, mais conhecido como Pedro Hispano, em 1276. Ele achou graça. O tempo dirá se acertei.

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A ESPADA DE DÂMOCLES

Trata-se de antiga lenda. Uma história moral, se algo assim for possível. Aconteceu, primeiro, com Timeu de Tauromênio (356-260 a.C.). Mas acabou famosa, só depois, nas mãos do cônsul romano Cícero (106-43 a.C.), em sua Tusculanae Disputationes. Ao mostrar que todo poder é incerto e transitório. Mais tarde, o próprio Cícero provaria desse fel. Acabou proscrito. Executado. Com mãos e cabeça exibidos nas ruas de Roma. Só, que essa é outra conversa.

Aconteceu, no caso, com Dionísio, O Velho. Que, depois de libertar Siracusa do domínio de Cartago, tornou-se um tirano sanguinário. Invejado por governar a mais rica cidade da Sícilia, ninguém o cortejava mais que Dâmocles. Dionísio, irritado com tanta bajulação, pediu que ocupasse o seu posto ao menos por um dia. Foram então dados, a esse aprendiz de ditador, riquezas muitas e as mais belas mulheres (hoje, esse relato seria politicamente incorreto). E tudo corria bem. Até que Dâmocles percebeu haver, pendurada sobre sua cabeça, uma espada afiadíssima. Presa por frágil fio do rabo de cavalo. Dionísio explicou que assim vivia. Sob o permanente risco de perder tudo. E, com receio de morrer, Dâmocles preferiu devolver ao tirano seu posto.

Espada é palavra que vem do grego. Numa referência a Esparta, cidade conhecida por seus guerreiros ferozes. Muitas outras histórias envolvem espadas. Como a de Excalibur, cravada na pedra. E que só poderia ser removida por homem destinado a ser Rei da Inglaterra. Um conto que talvez seja baseado em fato real, ocorrido no século XII. Quando um cavaleiro, Galgano Guidotti, depois de ter renunciado à nobreza, tornou-se eremita. Devotado às lições da Sagrada Escritura, em seus delírios teria se encontrado com os 12 apóstolos. Junto a uma cruz. E, para marcar o local, fincou sua espada no chão úmido, que alí ficou depois petrificado. Tudo como ainda hoje se pode ver na Capela de São Galgano, na cidade de Montesiepi (Itália).

Indo adiante, e não por acaso, a deusa grega Themis, símbolo do Poder Judiciário, tem na mão uma balança; e, na outra, uma espada. Que representa distinção entre o verdadeiro e o falso. Em desalinho com a visão de Ruy Barbosa (Discursos e Conferências), para quem “A espada não é a ordem, mas a opressão”. Em sua homilia desta semana, o padre Sérgio Absalão, na capelinha dos Aflitos, lembrou que o próprio Deus é por vezes apresentado com uma espada. Sendo, sua palavra, uma “espada de dois gumes”. Segundo ele, Santo Agostinho explica essa metáfora dizendo que Deus fala “das realidades temporárias e das realidades eternas”. Seja como for, a lenda parece boa lição para nossos homens públicos em nosso país. A partir da frase atribuída a Shakespeare, “O mal da grandeza é quando ela separa a consciência do poder”.

O Congresso quer mandar em tudo. O Supremo até lei criou, para beneficiar réu condenado (em 3 instâncias) por corrupção. O Executivo, sem qualquer coordenação, se perde numa radicalização insensata. A oposição esquece o interesse coletivo e só pensa em votos para as próximas eleições. Enquanto nós, indeterminados cidadãos comuns do povo, assistimos, incrédulos e perplexos, a um Brasil que sofre. Essa gente parece não perceber que, sobre todos, pesa a opinião pública. Uma Espada de Dâmocles. Lembro nosso queridíssimo Dom Helder: “Eles pensam que o povo não pensa. Mas o povo pensa”. É isso, meus senhores de Brasília. Não abusem, por favor. Vocês podem até não acreditar, mas o povo pensa mesmo.

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OUTROS PENDERAMAS

Semana passada, falei de uma volta ao engenho Penderama. Onde nasceu meu velho pai. E da saudade que ainda hoje rói, por dentro. Leitores responderam, reproduzindo situações que aconteceram também com eles. Por acreditar que o melhor, no ofício de escrever, é a relação com quem lê, seguem alguns depoimentos:

“Bentinho (Dom Casmurro) também quis ligar as duas pontas da vida. Faltavam os outros mas, sobretudo, faltava ele mesmo”. Admaldo Matos, escritor.

“Já me programei várias vezes para voltar ao engenho Pureza, na mata Sul, onde convivia com matas e livros de Monteiro Lobato. Sempre saio dessas visitas com a percepção de que o mundo em que vivi, menino, foi apenas um sonho”. Ângelo Castelo Branco, jornalista.

“Todos temos nosso Penderema. O meu talvez seja um baú inexistente, cheio de fitinhas de cores diferentes, cada uma representando lembranças de tempos idos”. Gentil Porto, médico.

“O passado é insuportável. Um retrato de faltas. Ausências. Perdas. Você é corajoso: consegue rever, transcrever. Eu sou um covarde! Sequer olhei para casa de meus pais, no bairro da Torre. Quando passo pela Igreja de lá, não olho para o entorno. Teimo, em vão, não olhar para a paisagem desfigurada. Me agarro a lembrança, o resto da vida, que só desaparecerá quando afinal morrer o menino…”. Gustavo Krause, escritor.

“Linda homenagem ao Velho, José. Que, se onde estiver houver internet, ficará profundamente feliz”. Respondi: “Acho difícil. Internet no céu…”. E ele: “Também acho. Mas como se trata de área desconhecida, pelo menos para nós que ainda estamos do lado de cá, quem sabe?????”, Inaldo Sampaio, jornalista.

“Meu pai morreu longe de mim/ (eu é que estava longe dele)./ Tantos anos se passaram/ E ainda não lhe vi a sepultura./ Continuo longe./ Mas sua presença me sacode/ Como um choque elétrico,/ Uma bebida forte que me arde/ Por dentro./ Está vivo nos meus dedos,/ Nos cabelos ralos/ – A nuca, dá arrepios de se ver./ Está cada vez mais perto de mim/ (eu é que estou mais perto dele)”. Ivo Barroso, tradutor.

“Caro amigo, consigo em Penderama”. Manuel Alegre, poeta português.

“E nem assim; porque tantos/ De ler os versos do menino/ Criam, nos seus próprios engenhos mentais,/ Ramos de estórias imaginárias/ Que, se pudessem, teriam vivido/ Nem que fosse/ Só para um dia/ Morrer… de saudade”. Silvio Meira, gênio.

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ADEUS, PENDERAMA

Esta semana, recordamos com saudades mais um aniversário da morte de meu pai. Em um 3 de setembro. Faço isso lembrando o Engenho Penderama, onde nasceu. A ver:

Penderama é uma coleção de perdas./ O afeto que ficou preso no coração/ Um último beijo que gostaria de ter dado no velho/ Um abraço, ao menos isso,/ Que fosse mais que um abraço.

Melhor, então, considerar que tenha,/ De agora em diante,/ Um sabor menos amargo./ Caminhos que não voltarei a percorrer/ Lembranças de quem sonhei ser/ Que permanecem plantadas naqueles campos.

Passa a vida/ Todos passamos/ Nem sempre recordar é morrer./ Às vezes é apenas ir desaparecendo bem devagar.

Numa véspera de Natal, voltei ao Engenho Penderama./ Não foi a visita boa que pensei./ Porque vai longe a distância que separa memória e realidade/ E ninguém nunca volta, verdadeiramente, às terras da infância.

Muda o espaço físico,/ Nosso corpo envelhece,/ Tudo vai se perdendo.

Tentei encontrar, nos rostos de alguns meninos brincando,/ Traços de outras crianças que vejo nas ruas das cidades/ Mas encontrei só as rugas precoces de nossa Zona da Mata.

Os campos tinham marcas de abandono.

A casa-grande como que encolheu/ Acabou igual a tantas outras/ Metade ocupada por uma escola/ Metade por família de posseiros.

O terraço, enorme na minha imaginação,/ Reduziu-se a pouco mais que metro e meio de largura./ No piso, cerâmicas fora de lugar/ Decompondo-se/ Pouco a pouco/ Pedaço por pedaço/ Em um desenho ilógico.

Daquele cenário,/ Grandioso dentro de mim,/ Restou um presente dilacerado.

Procurei a infância/ E encontrei restos.

Busquei lembranças de outros tempos/ Ou promessas do futuro/ E apenas encontrei o barulho das brincadeiras de algumas crianças tristes.

Sem mais ter o que fazer, fui embora./ Tendo apenas o cuidado, antes, de acenar para alguns velhinhos que me olhavam curiosos/ Sentados nos degraus de uma escada/ Sem nem saber que, com aquele gesto,/ Estava dizendo adeus a um pedaço de minha vida.

Não fiz perguntas./ Nem era preciso./ Apenas olhei, uma última vez, aquela paisagem que já começava a se dissolver/ Silenciosamente.

Mas que só desaparecerá, então completamente,/ Quando afinal morrer o menino que um dia viu seu pai, ali,/ Sentado em uma cadeira de balanço,/ Com os olhos fechados,/ Sorrindo.

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O ABUSO É A LEI

O Supremo tem, pendentes de julgamento, 4.350 Habeas Corpus (Acervo atual, 26/08/19). Boa parte dormindo por anos. Ocorre que a nova Lei do Abuso de Autoridade (PL 7.596/17) determina ser crime (art. 9º) “deixar de: III – Deferir Habeas Corpus, quando cabível”. Valendo essa lei, pergunta-se: Quem vai julgar os 11 Ministros do Supremo, por Abuso de Autoridade? Serão condenados? Onde vão cumprir suas penas? Voltando ao mundo real, caro leitor, alguém imagina que algo assim vai acontecer? Não vai, claro. A ideia é só ameaçar juízes da Lavajato ou dos interiores de nosso Brasil profundo. Especialmente aqueles que representem risco para os poderosos. Não por acaso, na lei, apenas 3 condutas puníveis são de parlamentares; 6, de outras autoridades; e 68 de Polícia, Ministério Público e Juízes.

Claro que seria mesmo impossível não haver coisas boas, no texto. Como os arts. 25 e 41, criminalizando provas ilícitas (como as gravações do IntercePT). Ou o art. 13, que protege o preso (em tese, inocente) da humilhação de serem exibidos, em programas de rádio e televisão, como animais de circo. Mas se trata de projeto com grandes imprecisões (arts. 1º, 9º, 31). E regras que parecem feitas para beneficiar criminosos (arts. 12, 18, 22, 27, 30, 32 e 38). O Tribunal de Justiça de Pernambuco, em razão disso, acaba de lhe fazer pesadas críticas. Porque “enfraquece as autoridades dedicadas ao combate à corrupção”.

O Senador (de Garanhuns/PE) Randolfe Rodrigues, que apresentou esse projeto, declarou no Recife (Geraldo Freire, 27/08) não reconhecer o texto como seu. Em razão das mutilações que sofreu pelas mãos do revisor, Senador Renan Calheiros – réu em um processo de corrupção e indiciado em mais 10 investigações similares, no Supremo (tem foro privilegiado). Depois, o projeto foi à Câmara. E acabou aprovado numa sessão malassombrada. Vergonhosa. Triste. Não é que sejamos contra o controle dos Abusos, modernizando a Lei atual (4.898/65). Ao contrário. Mas isso deve ser feito a partir de amplo debate com a sociedade. Ouvindo especialistas. Em um novo projeto. Mais de acordo com as expectativas do indeterminado cidadão comum, que deseja um país decente. Em resumo, e por ser um desastre absoluto, única decisão insuspeita, digna e respeitável, do Presidente da República, seria o veto. Vetará?, eis a questão.