Continuo com conversas de livro que estou escrevendo (título da coluna).
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CELSO FURTADO, economista. Reunião marcada em seu apartamento da Conrado Niemeyer. Uma ruazinha tranquila de Copacabana que se toma, subindo a República do Peru, até quase o morro. Marcou 5 da tarde – “5 en punto de la tarde em todos los relojes”, como no verso de Lorca em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías, morto em um triste dia de agosto de 1935. Cheguei antes da hora, não quis subir e tive tempo de ler três inscrições pintadas, no asfalto, em frente a seu edifício. Duas mais velhas,
– Lídia, nosso amor é impossível. Adeus, querida. Sempre teu, João.
– Lídia, penso que me enganei. Aposte em nosso amor. Liga, Lídia. Por favor.
E a terceira, mais recente,
– Pô, Lídia, três meses e nenhum telefonema?
Sem assinaturas, as duas seguintes. Mas a mesma letra. Já no apartamento, olhando para baixo desde seu terraço, dava para ler as frases escritas na rua. E perguntei, a Celso, como iria findar aquele amor impossível.
– Tem jeito não. É mais fácil consertar o Brasil.
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HUMBERTO WERNECK, escritor. Ligaram para sua casa.
– Alô, senhor Humberto?
– Sim, quem fala?
– Senhor Humberto, aqui é do Lar do Idoso.
– Aqui também.
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JOÃO LYRA, usineiro em Alagoas. No escritório, por trás de sua mesa de trabalho, há dois enormes pôsteres. Um de Hitler, o outro do Papa Pio XII. Não resisti e perguntei
– Desculpe, dr. João, mas a qual desses dois senhores o senhor obedece?
– Quando é para fazer o bem, meu filho, é esse,
e apontou para o Papa.
– Mas, se for para o mal…
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NÁSSARA, cartunista. Estávamos indo para Petrópolis, fazer já nem sei o quê. Eu, na direção. A meu lado, na frente, Jaguar. Atrás Millôr, Chico Caruso e, no meio, Nássara. Gênio. E surdo. Fazíamos as perguntas, Jaguar escrevia num caderno, mostrava e ele ia respondendo. Falou quase duas horas, sem parar. Já chegando, Jaguar arrancou do caderno as folhas com perguntas, fez um bolo, abriu a janela e disse
– Isso é que eu chamo jogar conversa fora.
E jogou mesmo.
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OSCAR COUTINHO, médico. Fez todos os exames em Salmen Giske. Enquanto atendia, o paciente ia falando sobre sua vida. No fim, Oscar,
– Já sei o que pode resolver seus problemas, Salmen.
Em 1.655, o padre António Vieira proferiu este Sermão na Igreja da Misericórdia (Conceição Velha, Lisboa), perante D. João IV e sua corte. Advertindo, o Rei, sobre o pecado da corrupção pela cumplicidade. E “Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis”, explicou depois. Como tem a ver com o Brasil em que, pelas últimas decisões do Supremo, a corrupção parece valer a pena, lembro alguns trechos.
“Antigamente os que assistiam ao lado dos príncipes chamavam-se laterones. E depois, corrompendo-se este vocábulo, como afirma Marco Varro, chamaram-se latrones. E que seria se assim como se corrompeu o vocábulo, se corrompessem também os que o mesmo vocábulo significa? O que só digo e sei, por teologia certa, é que em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: Principes tui socii rurum: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por que? São companheiros dos ladrões porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões porque os consentem; são companheiros dos ladrões porque lhes dão os postos e poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente seus companheiros porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.
“Levarem os reis consigo ao paraíso os ladrões, não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Dom fulano (diz a piedade bem intencionada) é um fidalgo pobre, dê-se-lhe um governo. Mas, porque é pobre, um governo, para que vá desempobrecer à custa dos que governar; para que vá fazer muitos pobres à conta de tornar muito rico!?… Em suma, o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados e ricos: e elas ficam roubadas e consumidas.
“Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam”. E por fim restam absolvidos, nos tribunais, talvez pudesse Vieira concluir. A vingança é que, assim disse mais tarde, “Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis”. Ao menos isso.
Liga Janete Costa, querida, para dizer que a Polícia Federal havia entrado na casa do maestro Geraldo Menucci, quase madrugada, em busca de drogas. Quebrou objetos, não achou nada e ameaçou voltar. Estava apavorado. Tínhamos acabado de chegar no Ministério da Justiça (março de 1985) e aquela gente continuava acreditando ainda estar na Ditadura. Liguei para o Superintendente de Pernambuco. E a ele disse que terceiros, fingindo ser a PF (quis ser elegante), invadiram uma casa sem mandado judicial. E isso não podia mais acontecer. Pedi que assumisse o caso. Dia seguinte, voltou Janete a ligar. Dizendo que o Superintendente foi, ele próprio, falar com Menucci. Ofereceu proteção. E deixou cartão com telefones (inclusive pessoais), para o caso de algo acontecer. Acabou tudo bem.
Assim o conheci. E logo nos tornamos amigos. Veio do Sul para se integrar ao Movimento da Cultura Popular, nos tempos de Arraes prefeito. Aqui, foi maestro assistente da Sinfônica do Recife, primeiro regente de nossa Banda Sinfônica e responsável pela criação do Coral Bach, do Centro de Criatividade Musical de Olinda e da Orquestra Pés Descalços. Virtuoso, tocava flauta doce e violino. No Ministério da Justiça, montamos com ele um programa de ressocialização, nas penitenciárias, ensinando presos a tocar instrumentos. Permitindo que pudessem aprender um ofício e, ao sair, com ele se manter. Funcionando ainda como estímulo para outros apenados. Um case de sucesso.
Sábado 20/06, na coluna Voz do Leitor do JC, certo Antônio José dá conta de que perdemos Mennuci para o Covid. Lamento. Dante, na sua divina Comédia, pergunta “O que é a glória?”. E, num diálogo com um amigo de San Gimignano (Toscana), Guido Cavalcanti (até dizem que os Cavalcanti no Brasil vieram dele), fala na fórmula Pater Sancte: sic transit gloria mundi! ‒ usada (até 1963), pelos papas, na sua primeira caminhada pela Praça de São Pedro. Três vezes se ajoelhavam e, três vezes, repetiam a frase, as glórias do mundo passam. Sei disso. Passam. Mas choro por ele. Schubert compôs, em 1822, apenas os dois primeiros movimentos de uma bela Sinfonia em si menor (Alegro Moderato, Andante com Moto). E parou por ai, sem que se conheçam as razões. A obra é conhecida como Sinfonia Inacabada. Pensei no compositor austríaco ao ler a notícia de agora. Porque a trajetória inacabada de Menucci, grandiosa, merecia mais que só um rodapé. É injusto. Mas segue a vida, para o amigo Pessoa (Reflexões) só “o lado de fora da morte”.
Vicente Lobão era um sujeito muito popular. Goleiro, juiz de futebol, leão de chácara, foi quase tudo no Recife. E anunciou que seria candidato a vereador. Poucos duvidavam dessa eleição. Mas seus planos acabaram atrapalhados por um pequeno acidente. Resumindo, no São João de 1959, ele morreu. Esmaragdo Marroquim, Diretor de Redação do JC, destacou Severino Pedrosa para tirar foto desse lamentável acontecimento. Pedrosa, na época, era presença obrigatória em todos os casamentos da cidade. Com sua máquina Laika, seus tiques nervosos e sua imensa capacidade em causar confusão. Como nunca teve pressa, nem nos casamentos, chegou tarde. O corpo já tinha ido embora do local. Esmaragdo quase teve um infarto. “Seu Pedrosa, pegue Mata-Sete e só volte aqui com uma foto do morto. Loooogo!!!” Mata-Sete era um desses faz-tudo que estão em todas as redações. Tomou garupa na lambreta de Pedrosa e foram, os dois, para o Pronto-Socorro (o Restauração da época), então na Fernandes Vieira. O necrotério ficava em uma entrada lateral. O corpo, inerte e solitário, jazia sobre a lousa fria.
Gorduchão, Vicente era mais pesado que devia. Demais, para os braços franzinos do pobre Mata-Sete. Sem contar que, depois de algumas horas, todo corpo endurece. É o rigor mortis, como dizem os entendidos. Pedrosa subiu em dois banquinhos, um sobre o outro, e anunciou ao acessor a estratégia: “Eu grito Vá, você dá um golpe de caratê na barriga do homem, ele se inclina um pouco para frente, então você mete um pescoção na nuca dele, se abaixa, e eu tiro um 3×4”. Dito e feito. Só não contavam é que, no fim da operação, precisamente na hora em que o flash pipocou, o morto desse um berro monumental, “Uuaaaaiii”. E saísse correndo pelas ruas. Era o vigia.
O resto dessa história ficamos sabendo aos poucos. Esmaragdo ficou sem sua foto. Pedrosa quebrou a perna, coitado, ao cair dos bancos. Mata-Sete virou pai-de-santo. Com fama de ter mãos milagreiras, capazes de ressuscitar defunto. E o vigia se queixou, numa delegacia, de ter sido covardemente agredido. Mas seus agressores nunca foram localizados. Só o pobre do Vicente Lobão cumpriu, religiosamente, seu destino de defunto. Sem sequer uma foto. Perda inestimável para a democracia brasileira. Nessa noite, entre bandeiras, fogos e fogueiras, um grande balão colorido subiu aos céus. E nunca mais voltou.
“A vida é pouco e a dor é muito”, dizia Pessoa (In Articulo Mortis). Mas a dor fica e a vida segue. Aproveito a regra e seguem histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna).
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JESSIER QUIRINO, poeta. Contou história de vizinho, Nino da Padaria, que todo dia brigava com a sogra. Naquela manhã, acordou com o chinelo trocado, pisando em bosta de cururu, discutiu de novo com a velha e saiu de casa mordido. Ao sentar no banco da praça, uma cigana pediu para ler sua mão.
‒ Tou vendo aqui que o senhor não se dá bem com sua sogra.
‒ Isso tá na minha mão?
‒ Tá, sim. E tou vendo, também, que ela vai morrer logo.
‒ Por favor, minha senhora, olhe bem direitinho e diga se vou ser absolvido.
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JOSÉ PASTORE, escritor. Em Paris, Eros Grau (ex-ministro do Supremo) lhe conta caminhada, indo a restaurante, com ministro da Suprema Côrte da França, Jean-Claude Colliard. E o francês
– Eros, você percebeu que ninguém me conhece aqui em Paris, e muito menos me cumprimenta? Sabe por quê? Porque eu não sou artista de televisão.
Pastore pensou no Supremo do Brasil. E começou a rir.
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MARIA LECTÍCIA, a quem obedeço. Pouco depois da missa de trigésimo dia de dona do Carmo, sua mãe. Noite alta, sonolenta, pergunta
– Minha mãe já dormiu?
– Já.
– Obrigado.
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MILLÔR FERNANDES, gênio. Na Lagoa Azul, de vez em quando, tem andada dos siris. Partem do mangue, vem se lavar no mar; e depois, usando palavras de Pessoa (Caeiro, no Guardador), para de onde vieram, voltam depois. No trajeto, com frequência, passam por dentro de nossa casa. Com ordem, aos funcionários, para não serem incomodados. Noite dessas, grito pavoroso. De Guga, mulher do arquiteto Paulo Casé, que sai do quarto com um siri pendurado na orelha. Dei um tapa e ele voou. Millôr completou a cena com esse comentário,
‒ Siri melhor quem siri por último.
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SALMEN GISKE, construtor. Foram ao médico. Eliane entrou antes e pediu providências. Depois, Salmen. E o renomado mestre Sérgio Gondim foi logo perguntando
– Soube que está bebendo todos os dias.
– Não senhor.
– Como?
– Não. Estou bebendo todas as noites.
– Então é diferente. Me convide prá gente beber juntos.
PEDRO ARRUDA, médico e marido. Luiz Henrique, filho de Zefinha, empregada que nem sabia ler, era então uma criança pequena. Hoje, é graduado em engenharia mecatrônica. Emociona imaginar que atos, palavras e exemplos de Pat, ao ensinar sua mãe, mudaram, através de outras Zefinhas, o destino de alguns Henriques.
ADMALDO MATOS, homem público. Cada um de nós carrega um cemitério dentro de si, onde se vão sepultando parentes, amigos, colegas, conhecidos, em túmulos de saudade. À medida que envelhecemos o cemitério cresce e, em momentos de pandemia, tem-se a sensação de que a morte nos rodeia e espreita, prestes a dar o golpe.
AÉCIO GOMES DE MATOS, pensador. Seu texto me fez pensar na vida passada de trabalho e lutas, numa perspectiva positiva do futuro. Amigos morreram, mas ficou a glória de suas contribuições para uma sociedade melhor. O sentimento que me imobiliza hoje é a falta de perspectiva de futuro. Neste contexto a morte, em mim, não me faz muita diferença.
ALEXANDRE LEMOS, advogado. As lembranças se eternizam no coração dos que foram enriquecidos com o gesto. Cada semente, se o solo é fértil, um dia vai germinar.
ANTÔNIO MAGALHÃES, jornalista. No artigo de ontem, a grandeza das coisas simples.
CARLOS EDUARDO VASCONCELOS, advogado. Tocante. E triste. Ela não mais será uma educadora desconhecida.
CARLOS MESQUITA, ator. Mulheres como Patrícia e Zefinha, guerreiras, são espíritos evoluídos na luz.
CARLOS PRAGANA, pintor. É com exemplos assim que se constrói um país melhor.
CRISTOVAM BUARQUE, ministro da Educação. Me entusiasmei e começamos em prédios e até em canteiros de obras. Esta foi a frustração que fiquei ao ser demitido. O programa, hoje, poderia se chamar Patrícia. Quando telefonou para me demitir, o Presidente Lula disse que queria um ministro para priorizar o ensino superior, que alfabetização e educação era uma tarefa dos municípios. Mas precisava mesmo era de um ministério para Tarso Genro.
EDILSON PEREIRA NOBRE, presidente do TRF5. Belo artigo. Mais belo ainda o exemplo.
EDNA MENDONÇA, médica. Seu artigo de hoje é, na verdade, uma homenagem a todos os professores através de Patrícia.
EDUARDO ARAÚJO, advogado. A finitude da vida é algo que nos inquieta, e, com certeza, a mais bonita lágrima é a da saudade. Ela nasce dos risos que já foram, dos sonhos que não acabam e das lembranças que jamais se apagam. Com delicadeza, fez-nos chorar… e também refletir no quanto somos efêmeros e frágeis diante da vida. Fica a sensação de que tudo termina quando mal começa.
ENNIO CANDOTTI, presidente da SBPC. Patrícia é uma esperança que não morre.
FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, professor. Um texto que deixará Patrícia extremamente feliz, onde ela está, bem perto da Criação.
IGNEZ BARROS, escritora. O propósito de Patrícia era muito mais que tirar pessoas do analfabetismo, sobretudo trazê-las a um convívio digno com a sociedade, tornando-as visíveis e interligadas. Ela partiu de um olhar particular, preocupando-se com Zefinha, com o filho da Zefinha, e, por extensão, com todas as Zefinhas e Luiz Henriques das proximidades. Um projeto inovador, simples e solidário. A visão dela foi extraordinária, ao criar um método prático que permitisse um conhecimento rápido, uma espécie de passaporte para os saberes elementares. Patrícia, é certo, deixou uma linda germinação.
JOSÉ PASTORE, economista. Ah! Como o Brasil precisa de mais dessas Patrícias! E de mais Cristovãos!
LINETE MEDEIROS, pintora. As lembranças se eternizam no coração dos que foram enriquecidos com o gesto. Se o solo é fértil, um dia vai germinar. Saudades, recheadas de orgulho, no coração daqueles onde a semente terminou.
LÚCIA PELUSO, advogada. Que tenhamos e possamos despertar momentos mágicos, sem deixar morrer a esperança, principalmente na escuridão que atravessamos.
LUZILÁ GONÇALVES, escritora. Esses dias todos, um nó na garganta, ainda não consegui chorar.
MÁRCIO RABELO, advogado. Por que a política, que deveria resolver os problemas do cidadão, termina por complicá-los? Feliz foi nossa querida Patrícia, colega de natação do Clube Português, enquanto cuidou das suas aspirações sem depender da politicalha brasileira! Que Deus a tenha.
MARGARIDA CANTARELLI, desembargadora federal. Seu artigo me comoveu muito. Imagine eu que não tenho mais irmãos de sangue! Os três já partiram. Mas sou feliz porque tenho irmãos do coração.
MISAEL WANDERLEY, médico. Solidarizo-me com a dor sua, de meu professor Pedro Arruda e do meu colega e cirurgião bem atuante com quem me encontro semanalmente no Esperança, Gustavo. Sintam-se abraçados.
OSWALDO MENDES, jornalista. Beleza de história. As tristes esperanças são como o escaravelho que se finge de morto enquanto é noite para renascer fortalecido ao amanhecer.
PAULO HENRIQUE MACIEL, advogado. Quando soube que ela se encantara, ocorreu-me pensar que a indesejada surpreendeu-me com Beto (65), Antônio Augusto (64) e Rock (71). Ela foi uma das pessoas mais doces que conheci. Se Deus existir, que a colha e a mim não condene.
RAFAEL DE MENEZES, juiz. Somos pó, a efemeridade da vida nos revela que aquilo que não passa, que não morre, são as boas ações praticadas em nosso favor e especialmente dos outros; viver é doar-se! A transitoriedade terrena nos convence de que só viveremos bem esta vida se a vivermos para os outros.
ROBERTO DaMATTA, escritor. Bom, belo, brasileiro e triste.
SILVIO MEIRA, gênio. Tristes esperanças, nos tristes tópicos. Tudo, hoje, está triste…
VERA ANDRADE, professora. Há pessoas que passam na nossa vida e deixam um pouco de si, ou levam um pouco de nós. Há outras que não passam.
WALTER MANZI, advogado. Doeu…
XICO BIZERRA, compositor. Como faz falta ao País a existência de algumas Patrícias, a suprir a deficiência estatal na educação, por um lado; e, por outro, não submetendo às humildes pessoas o constrangimento de se declararem analfabetas, frequentando salas de aula inadequadas e inexistentes para pessoas já adultas. Só me veio à mente a alegria que sentiria o Mestre Paulo Freire se dessa história tomasse conhecimento.
Patrícia levantava cedo, como todos os professores, e voltava para casa à noitinha. História de antes da pandemia. Em verdade, quase mais ninguém volta para casa. Nos dias que correm, volta-se para apartamento. O de Patrícia fica no Edifício Simone de Beauvoir, no Parnamirim (Recife). Zefinha trabalha nesse apartamento. Não sabe ler. E decidiu que precisava aprender. Para anotar os recados. Para entender as receitas, na cozinha. Para andar de ônibus sem ter que pedir favor a quem está na fila, querendo saber qual é. Mas, sobretudo, porque seu filho, Luiz Henrique, começou a ser alfabetizado na escola. E seria uma vergonha, para ela, não ser capaz de ajudá-lo nos deveres-de-casa. Várias colegas de profissão, no edifício, também não haviam estudado antes por quase as mesmas razões dela: horários das aulas incompatíveis com o trabalho, não conseguir aprender na mesma velocidade que a das crianças, vergonha por estar em classe com pessoas tão mais jovens.
Patrícia decidiu ajudar essa gente. Sem intenção de reproduzir, nas aulas que daria, os currículos escolares tradicionais. Não fazia sentido, para ela. Passou a ensinar, apenas, o fundamental para ser cidadão. Ler e escrever. Saber digitar calculadoras (baratas, no mercado) em vez de exigir, dos próprios alunos, que soubessem fazer as complicadas 4 operações matemáticas. Além de conceitos econômicos como lucro, prejuízo e troco. Mesmo sem haver literatura sobre esse novo método. Assim tudo começou. E cresceu. Zefinha trouxe amigas do edifício. E mais gente foi aparecendo. Patrícia decidiu estimular outros, em edifícios próximos, a fazer o que estava fazendo.
Foi como febre. O que no começo era apenas um jeito de ajudar Zefinha, passou a ser imitado. Há uma energia enorme, no coração das pessoas comuns, esperando para ser despertada naquele momento mágico que separa o criticar do fazer. As grandes transformações começam assim. Por dentro. Conversei com Cristovam Buarque, então Ministro da Educação, que se encantou com a simplicidade do programa. E pelo fato de que funcionava, no mundo real, e a um custo muito baixo. Havia esperanças no ar.
P.S. Pouco depois, Lula demitiu Cristovam. Por telefone. E, hoje, Patrícia Cavalcanti Arruda, a professora, é só saudade. Como dizia Pessoa (O Andaime), o tempo “Leva não só as lembranças/ Mas as mortas esperanças”.
Sic transit gloria mundi (assim passa a glória deste mundo). Os papas pronunciam a frase três vezes, na cerimônia de posse, para lembrar a miséria que há na vaidade das pompas terrestres. Não por acaso, para os gregos, ídolo é o mesmo que fantasma, como que reconhecendo a dimensão especial dos papéis que lhe são reservados. Tanto que Scott Fitzgerald dizia (em O Grande Gatsby) “mostre-me um herói e escreverei uma tragédia”. E segue a vida. E vem a morte. Não há como alterar esse roteiro.
Momento mais evidente dessa finitude, e também do prazer intenso de viver, para mim é quando perco alguma pessoa próxima. E, de logo, tomo emprestado frase atribuída a Chopin, “não me compreendam tão depressa”. Porque essa aparente contradição entre sentimento de perda, e alegria indescritível, só pode ser explicada em função do cenário em que tudo isso ocorre, a alameda que vai da pequena capela do Cemitério de Santo Amaro (Recife) até o portão de entrada que lhe fica em frente. Depois de cada um desses enterros, invariavelmente, me dirijo a essa capelinha. E, dali, “vou por onde me levam meus próprios passos”, em palavras de José Régio (Cântico Negro), até o portão e depois à rua. Um caminhar lento, e em tão profunda solidão, que sou capaz de ouvir meus próprios passos, como se fossem de outra pessoa. E, em certo sentido, são mesmo.
Capela e portão convertidos em símbolos. Com diferenças grandes. A porta da capela está usualmente fechada; e o portão, aberto sempre. Atrás fica um homem morto, pregado na cruz; em frente, pessoas de carne e osso, vivendo suas bem-aventuranças e seus martírios. Atrás, apenas uma imagem de pureza e perfeição; em frente, vendedores de amendoim, motoristas de táxi, curiosos, pedintes, o circo da realidade. Atrás, a inscrição Jesus Nazarenus Rex Judaeorum; à frente, no portão, inscrição nenhuma. Mas quando passo por ele sempre lembro, por alguma razão imprecisa, da porta do inferno na divina Comédia, de Dante, onde se lê “deixai toda esperança, vós que entrais”.
Nessa caminhada, de um lado e de outro, uma legião de mortos que um dia tiveram as mesmas esperanças e desalentos que hoje temos. Mulheres e homens como nós, velhos e moços, gordos e magricelos, ricos e desvalidos, brancos, negros, pardos, mulatos. Todos democraticamente enterrados, lado a lado. Lembrando aos que passamos, com seu silêncio impotente, que o destino do homem é a igualdade. É o esquecimento. É o pó.
Olhando esses desconhecidos, sempre com muita pena (eu que nem os conhecia), fica para mim claro que o homem não nasce quando nasce, nem morre quando morre. Ele começa a nascer muito antes de se converter em feto, já traçando raízes nos locais onde andará, nos amigos que terá, quase como se seu itinerário já estivesse previamente traçado. Assim é com quase todos. E ele morre, no enterro, apenas sua primeira morte; para depois ir morrendo outras mortes, devagar, primeiro na memória dos amigos, depois em suas ideias, até que um dia desaparece de todas as lembranças para cumprir seu destino de ser, completamente, só nada.
O amigo Pessoa disse (em Sá Carneiro) “Nunca supus que isto que chamam morte/ Tivesse qualquer espécie de sentido”. E essa morte é sempre dura. Sinto isso agora, na carne, por terem sido tantos, em volta, e em tão pouco tempo. Menos de um ano. Uma sobrinha, Juliana. Minha mãe (ah!, minha mãe). Dona do Carmo (mãe de Lectícia). E agora, nessa terça, nossa irmã Patrícia. De Covid. Mesmo já tendo tomado a segunda dose da Coronavac quase 50 dias antes. Mulher de Pedro Arruda. E mãe de Gustavo (com Renatinha) e Bruna (com Alonso). Éramos 6, como no título do romance de Maria José Dupré. Hoje, somos apenas 5, a melhor parte de nós se foi. Choro por ela e por todos nós.
O melhor de escrever é a reação dos leitores. Sobre a última coluna, criticando a usurpação de nomes tradicionais das ruas por celebridades e políticos, os leitores responderam com sangue nos dentes. Todos (sem exceção) contra essa prática. Entre tantos, alguns exemplos:
ADMALDO MATOS, homem público. “É inútil atentar contra a tradição. O povo nunca deixou de chamar Rua do Imperador à Rua 15 de Novembro”.
AECIO GOMES DE MATOS, pensador. “A traição às tradições revela o espírito mesquinho dos nossos políticos, até mesmo nos gestos nobres de homenagear quem merece. Jamais passaria numa rua chamada Rua José Paulo Cavalcanti Filho; arrodearia o quarteirão em sua homenagem”.
– Ideia ruim, Aécio. Que, para ter nome numa rua, eu precisaria morrer antes.
ANDRÉ REGIS, professor. “Quando estava na Câmara, consegui evitar algumas mudanças; como, por exemplo, o nome da ponte do Limoeiro”.
– Você faz falta, André. Muita.
ANTÔNIO MAGALHÃES, jornalista. “Imagine se fossem retalhar a avenida Caxangá, a mais longa do Recife, como foi feita com Av. Beira Rio, quantos nomes de figurões caberiam nela?”
– Agora que deu a ideia, danou-se, o risco é grande.
ANTÓNIO VALDEMAR, da Academia Portuguesa de Letras. “Muito bom. Vermelho como camarão assado/ E o gravata encarnada/ Tudo – e muito mais!!! – na memória como um cão vivo”.
BARTYRA SOARES, poeta. “Em Catende, tenho saudade da Rua do Craveiro, hoje Quinze de Novembro. Da Matriz, hoje Dom Expedito Lopes. Da Saudade, hoje Presidente Getúlio Vargas”.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista. “Você escolheu sua avenida?”.
– Ainda não, amigo. E você?
EDILSON PEREIRA NOBRE, presidente do TRF5, brincando. “Esse tal Manuel Bandeira deveria ser um chato. Quer me tirar o direito a que, num pequeno quarteirão da Rua Francisco da Cunha, seja nominada uma Rua Desembargador Federal Edilson Nobre? Puxa vida!”.
FÁTIMA DINIZ, professora. “Mudar nomes de ruas, sobretudo alguns tão belos e poéticos, pelo de autoridades, acaba sendo um ato de traição. Obrigada pelo artigo, até porque publicado no dia do meu natalício!”.
– Se fosse político, iria dizer que foi de propósito.
FLÁVIO SIVINI, médico. “Um escândalo!!. A mediocridade predominando nos corações e mentes (vazias) dos desocupados”.
GIRLEY BRASILEIRO, escritor. Estou triste com esse esquartejamento da Beira Rio. E a história do Aeroporto que virou Gilberto Freire? Para mim, será sempre Guararapes”.
GUSTAVO KRAUSE, governador. “Estava na hora de uma palavra forte, contra esta nova forma de adulação e oportunismo. Trata-se de babação póstuma. Nunca ouviram falar de Manuel Bandeira, que homenageou a beleza dos nomes das nossas ruas?”.
HELENO VENTURA, economista, com ironia “Tudo isso espelha como estamos bem representados na nossa Câmara”.
IGNEZ BARROS, escritora. “No Rio, ninguém substituiu o nome da Rua Conselheiro Lafayette pelo do seu célebre morador, Carlos Drumonnd de Andrade. Em vez disso foi esculpida uma estátua do poeta, sentado em um banco, na Avenida Atlântica (Posto 6), em Copacabana. Bem pertinho de onde morava”.
JOSÉ DOMINGOS DE BRITO, escritor. “Sugiro uma consulta mediúnica ao jornalista Geneton, para ver se ele aprova esse despacho”.
– Xico Bizerra já fez isso, José Domingos. Segundo ele, “Geneton jamais concordaria com tal despropósito, com tamanho desrespeito”.
JOSÉ JARDELINO, pesquisador. “Fico imaginando se a moda pega mundo afora: Quinta Avenida presidente Bush, Central Park general Patton, Champs-Élysées presidente Mitterrand… Seriam tão ridículos e inadequados, quanto cafonas”.
JOSÉ MÁRIO RODRIGUES, poeta. “Gostaria que nunca mudassem o nome da minha, Rua da Amizade”.
JOSÉ PASTORE, economista. “Aqui em São Paulo também temos muitas ruas com 2-3 nomes, muitos deles desconhecidos”.
LEONARDO DANTAS SILVA, escritor. Os nomes das ruas e logradouros de uma cidade se perpetuam através dos séculos. Mas entre nós, só para atender modismos e agradar aos poderosos do dia, estão sempre a mudar designações tradicionais: Cais do Apolo, para Avenida Martin Luther King; Estrada da Imbiribeira, para General Mascarenhas de Morais; Travessa do Gasômetro, para Rua Lambari; Rua Formosa, para Conde da Boa Vista; Rua dos Sete Pecados Mortais, para Tobias Barreto; Rua do Crespo, para Primeiro de Março; Rua Lírica, para Visconde do Uruguai; Travessa João Francisco, para Cassimiro de Abreu; Beco do Quiabo, para Eurico Chaves; Beco da Facada, para Guimarães Peixoto”.
LUZILÁ GONÇALVES, professora. “Eu morava no Beco do Quiabo, agora moro na Luiz Guimarães. No final da rua era Beco do Capitão. Agora é… nem sei mais o quê”.
– Um dia vai se chamar Beco de dona Luzilá.
MARGARIDA CANTARELLI, professora. “O Instituto Histórico e Arqueológico, que tenho a honra de presidir, deve dar parecer sobre essas trocas de nomes de rua. Seu artigo vai dissuadir outras investidas”.
– Ainda bem, tia Guida.
NELSON CUNHA, jornalista. “Morava em Salvador quando o Aeroporto 3 de Julho passou a se chamar Luís Eduardo Magalhães. Daí pra frente, e pra trás, tudo vira fichinha”.
– Vamos pelo mesmo caminho, Nelson.
OG MARQUES, Ministro do STJ. “Viva o Beco do… Boi”.
– Do boi? Podia ser pior, amigo.
RAFAEL DE MENEZES, juiz. “Contra nossas tradições. Incrível o desconhecimento dos jovens da história dos antepassados e do esforço que eles fizeram pra nos trazer aqui”.
RAUL CUTAIT, médico. “Aqui em SP, para se mudar um nome de rua, é necessário que 75% dos moradores concordem com a mudança, algo que torna essa prática muito difícil. Só quando não haja nome oficial, aí existe a prerrogativa do prefeito de dar um nome por decreto; ou, então, da Câmara Municipal definir quem será o homenageado”.
– Um belo exemplo.
RICARDO ESSINGER,presidente da FIEPE. “O que podemos fazer para que este absurdo não aconteça?”.
– Para começar, não votar mais em quem propõe esse tipo de traição à nossa cultura.
ROBERTO DAMATTA, escritor. “As ruas mudam mas as casas são as mesmas”.
SILVIO AMORIM, homem público. “Concordo com você em 99% das suas posições e ideias. Só que não houve agressão a tradição, no caso, porque tradição no nome das vias não havia”.
– Opinião sua, mestre. Que, para mim (e muita gente mais), Beira Rio é já uma bela tradição.
VAMIREH CHACON, professor. “Desde quando os brasileiros cultivam tradições?”
– Penso que desde sempre, mestre.
XICO BIZERRA, compositor. “Fico a refletir: não seria uma boa ideia retalhar nossas ruas e avenidas por esquinas? Assim se daria vazão à ânsia incontrolável dos vereadores em agradar as gentes que lhes interessam. Se de fato trabalhassem em prol do povo, como deveriam, certamente lhes faltaria tempo para discutir tanta bobagem. Vou ali tomar um cafezinho na Esquina Prefeito Fulano, ex-Governador”.
– Se ao menos fosse Esquina Xico Bizerra… Ou Esquina Se tu Quiser...
O general Joaquim Ignacio Cardoso chegou, ao Recife, logo depois da Segunda Grande Guerra. Homem simples, usava bondes, andava sempre à paisana e acabou morrendo sem saber que um parente (FHC) chegaria a ser presidente da República. Sem nem ter sido militar! Estatura mediana, vermelho como camarão assado, bigode e cabelos brancos, até poderia ser confundido com o barão do Rio Branco. Foi dele a ideia de criar, por aqui, uma Liga Pernambucana contra o Analfabetismo. Logo nomeando, como seu cobrador oficial, um esfogueado tribuno popular, crismado como Samuel Vieira e mais conhecido pela alcunha de Gravata Encarnada. Mantendo-se, tal Liga, com multas de mil réis, cobradas por cada vez que um cidadão errasse o nome da rua – algo, aliás, naquela época bem frequente. Que a Prefeitura do Recife trocava, todos os dias, nomes antigos por datas oficiais ou figuras que representassem o poder.
Rua da Concórdia, por exemplo, passou a ser Marquês do Herval. Nova era Barão da Vitória. Imperatriz, Dr. Rosa e Silva. Crespo, Rua 1º de Março. Imperador, Rua 15 de Novembro. Conta-se até que uma professorinha pediu ao bravo general: “Moro na Rua Imperial, dou classe na Rua da Palma, tenho que atravessar a Campina do Budé, passando pelas Ruas Direita e das Hortas, não seria possível uma escola mais perto?” Só para ouvir , como resposta, que Imperial passou a ser Rua 89. Campina do Budé virou Viveiro do Muniz. Palma, Paulino Câmara. Direita, Marcílio Dias. Hortas, Coronel Suassuna. Logo sapecando, na coitada, multa de cinco mil réis.
Espaços públicos ganham nomes de mulheres, homens e suas circunstâncias, amigo leitor. O que reforça nossas relações com eles. E devem ser preservados, para ganhar eternidade. Mas nossas elites políticas, por se considerarem entidades superiores, continuam usurpando esses nomes. Lembro do recifense Manuel Bandeira, nascido na Rua das Venturas (hoje Joaquim Nabuco); que, na sua Evocação do Recife, vaticinou: “Rua da União…/ Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância./ Rua do Sol (tenho medo que hoje se chame dr. Fulano de Tal)”. O que desde muito tempo já vem acontecendo. E não está certo, perdão. Por mais méritos que possam ter – e usualmente têm, de fato – os grandes homens a serem homenageados.
A Av. Beira Rio está sendo esquartejada. Pedaço por pedaço, num desenho ilógico. O D.O. deste sábado, 08/05, publicou seus novos destinos: um para o ex-deputado Oswaldo Coelho; outro, ao jornalista Geneton Moraes Neto; e, mais um, ao pai do Prefeito. A bela avenida vai perdendo seu nome, ao sabor dos interesses políticos. Tenho certeza que se o querido amigo Eduardo pudesse opinar, quanto a esta lei, teria preferido manter, como antes, seu nome original. Para receber homenagem (justíssima, vale dizer) depois, em qualquer outro lugar, novo, que viesse de ser construído. Na sua falta, o filho deveria ter feito isso. Fez o contrário. Não tem sentido, que Eduardo já é imortal em nossos corações.
Pobre do Capibaribe, o Cão Sem Plumas de João Cabral de Melo Neto, “Aquele rio/ Está na memória/ Como um cão vivo/ Dentro de uma sala”. Um cão cada vez mais retalhado. Imagino quem receberá os próximos nomes, ali. E temo por outros espaços. Inclusive as Avenidas Caxangá e Boa Viagem que, por serem longas, podem receber nomes de um caminhão de autoridades. E até já antevejo, Marco Zero Governador… Deus nos proteja. No fundo, amigo leitor, mudar esses nomes acaba sendo um ato de traição. A nossas tradições e a nossa cultura. É triste.