JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Tom Jobim

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro, RJ. em 25/1/1927. Músico destacado como compositor, pianista, violonista, flautista, arranjador e cantor. Conhecido como o “Pai da Bossa Nova”, criou uma nova sonoridade musical e tornou a música popular brasileira reconhecida no mundo.

Filho de Nilza Brasileiro de Almeida e Jorge de Oliveira Jobim, diplomata, escritor e jornalista oriundo de uma família proeminente e a mãe parcialmente descendente de indígenas do Nordeste. Aos 8 anos perdeu o pai e a mãe casou-se com Celso da Frota Pessoa, que incentivou a carreira musical do garoto, presenteando-o com um piano. “Eu odiava piano, achava coisa de menina, gostava de jogar futebol… Tive um ótimo padrasto que me ajudou muito a me envolver com a música e me convenceu de que piano não era coisa de menina”.

Passou a tocar piano em bares e boates do Rio de Janeiro na década de 1940 e na década seguinte foi arranjador do Estúdio Continental, onde gravou sua primeira música – Incerteza – em 1953, cantada por Mauricy Moura com letra de Newton Mendonça. Em seguida, junto com Vinicius de Moraes, compôs a música da peça Orfeu da Conceição, em 1956. A parceria com Vinicius lhe proporcionou algum destaque com a música Se todos fossem igual a você, a mais popular da peça. Pouco depois, a peça foi adaptada para o cinema, e a dupla foi convocada para fazer a trilha sonora do filme Orfeu Negro. Vinicius vivia em Montevideo como diplomata e fizeram três músicas mais por telefone: A felicidade, Frevo e O nosso amor. A partir daí, Vinicius escreveu as letras de algumas das suas canções mais conhecidas.

Em 1958 João Gilberto gravou seu primeiro álbum com duas de suas canções mais famosas: Desafinado e Chega de saudade. O álbum inaugurou o movimento musical brasileiro Bossa Nova. A sofisticação das harmonias chamaram a atenção de músicos de jazz nos Estados Unidos, principalmente após sua primeira apresentação no Carnegie Hall, em 1962. Sua obra vem sendo executada por muitos cantores e instrumentistas internacionais desde a década de 1960. Em 1965, o álbum Getz/Gilberto foi o primeiro disco de jazz a ganhar o prêmio Grammy de Álbum do Ano. O single do álbum Garota de Ipanema (em parceria com Vinicius de Moraes), tornou-se uma das canções mais gravadas de todos os tempos. Teve mais de 200 gravações por outros intérpretes.

Seu álbum de 1967 com Frank Sinatra – Francis Albert Sinatra e Antônio Carlos Jobim – foi indicado para o prêmio Álbum do Ano em 1968. Em Levantamento do ECAD, em 2022, consta que ele tem 8 das 15 músicas brasileiras mais regravadas na história. Sobre a criação musical, ele considera que “é preciso algo de grande influência para levar alguém a dedicar sua vida à música… as pessoas que tocam piano bem são todas deficientes”… É preciso algo muito forte para fazer você deixar a realidade para trás e começar a compor”. Estava se referindo a perda de seu pai quando ainda era uma criança.

Suas influências musicais são diversas e variadas. Inicia com Pixinguinha, pioneiro da música moderna brasileira e passa por Koellreuter, que introduziu no País a composição atonal e dodecafônica e conheceu-o quando foi aprender piano. Foi influenciado também pelos compositores Claude Debussy, Maurice Ravel, Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos, sua influência musical mais importante. Quanto a inspiração ele mesmo já declarou: “Minha música vem deste ambiente aqui, você sabe, a chuva, o sol, as árvores, os pássaros”. Era frequentador habitual do Jardim Botânico.

Sua fama foi ampliada após a participação com Stan Getz e João Gilberto, que resultou em dois álbuns: Getz/Gilberto, vol 1 (1963) e vol. 2 (1964), tornando a bossa nova popular nos EUA e se espalhou pelo mundo. Os discos viraram sucesso internacional, tendo Astrud Gilberto como intérprete de Garota de Ipanema e Corcovado. Ganharam o Prêmio Grammy de Álbum do Ano 1965 e Garota de Ipanema ganhou o Prêmio Grammy de Gravação do Ano. Em 1972 a música Águas de março também foi um grande sucesso. Foi gravada em português e inglês e em seguida traduzida também para o francês (Les eaux de mars) por Georges Moustaki.

Outro sucesso ocorrido nos EUA se deu com a parceria de Elis Regina no álbum Elis & Tom em meados de década de 1970. A dupla criou uma simbiose perfeita representada na letra de Águas de março simulando uma brincadeira de terminar a frase um do outro. Em 1994, após concluir o álbum Antônio Brasileiro, queixou-se ao seu médico de problemas urinários. Foi submetido a uma cirurgia, em Nova Iorque, em 2/12/1994, e enquanto se recuperava teve uma parada cardíaca, vindo a falecer em 8/12/1994. O álbum foi lançado postumamente três dias após sua morte. Em 2008 seu amigo Sergio Cabral tratou de imortalizá-lo numa bela biografia e lançou Antônio Carlos Jobim – Uma Biografia, publicada pela IBEP Nacional.

O legado de Tom Jobim na música brasileira é enorme. Internacionalizou a bossa nova e muitas de suas canções se tornaram padrões de jazz, através de Frank Sinatra e Ella Fitzgerald com os álbuns Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (1967) e Ella abraça Jobim (1981). O álbum Wave de 1996: The Antonio Carlos Jobim Songbook incluiu apresentações de suas músicas através de Oscar Peterson, Herbie Hancock, Chick Corea e Toots Thielemans. Em 2001 foi criado o Instituto Antonio Carlos Jobim para preservar e divulgar sua obra musical e poética, bem como seu cuidado com a natureza. Além disso, realiza a catalogação, conservação e digitalização do acervo de muitos de seus amigos, como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Paulo Moura, Milton Nascimento entre outros

Recebeu diversas homenagens, tais como seu nome dado ao Aeroporto Internacional do Galeão, em 1999; ganhou o Lifetime Achievement Award, no 54º Grammy Awards, em 2012; entrou para o Hall da Fama dos Compositores Latinos, em 2014; foi nomeado pelo “Billboard” como um dos 30 artistas latinos mais influentes de todos os tempos, em 2015; no mesmo ano a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera no planeta Mercúrio e no ano seguinte tronou-se o mascote oficial das Paraolimpíadas de Verão de 2016, no Rio de Janeiro.

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AS BRASILEIRAS: Ecléa Bosi

Ecléa Frederico Bosi nasceu em São Paulo, SP em 14/10/1936. Psicóloga social, professora, escritora, tradutora e pioneira nos estudos sobre a memória social das classes trabalhadoras. Foi professora titular e emérita da Faculdade de Psicologia da USP, focada na área da psicologia social de fenômenos histórico-culturais.

Graduou-se no curso de Psicologia da USP em 1966 e obteve seu mestrado em 1970, dissertando sobre o tema “Leitura de imagem: um estudo de semiologia”. Em seguida obteve o doutoramento em psicologia social com a tese “Leituras de Operários: estudo de um grupo de trabalhadores em São Paulo”. Passou a lecionar na USP, onde tornou-se livre docente em 1982. Publicou seu primeiro livro – Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias –, pela Editora Vozes, em 1972. O livro recebeu menção honrosa do Pen Clube do Brasil.

Em 1961 casou-se com o prof. Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras e historiador de literatura brasileira. É mãe de Viviane Bosi, professora de teoria literária e José Alfredo Bosi, professor de economia, Manteve a carreira acadêmica numa militância pela causa dos idosos, resumida na sua frase: “O velho não tem armas. Nós é que temos de lutar por ele”. Dedicou-se à uma área pouco estudada em termos acadêmicos, o que pode se confirmar através de seus livros: Memória e sociedade: lembranças de velhos, lançado pela Companhia das Letras, em 1994.

Trata-se do livro que escreveu com maior empenho e foi recompensada com sua inclusão numa lista do MEC de 100 obras distribuídas para milhares de bibliotecas escolares do País. Esta temática foi aprofundada resultando na edição de mais livros, como O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social, pela Ateliê Editorial, em 1998 e Velhos amigos, pela Companhia das Letras, em 2003. Em 1994, através de uma de suas iniciativas, a Universidade de São Paulo passou a acolher maiores de 60 anos em cursos regulares no programa Universidade Aberta à Terceira Idade, conhecido agora como USP 60+ funcionando nos campi da capital e do interior de São Paulo.

Foi homenageada na edição nº 1 (2008) da revista “Psicologia USP”, dedicada exclusivamente a ela e no ano seguinte recebeu o “Prêmio Ars Latina” pelo conjunto da obra. Em 2011 foi agraciada com o ”Prêmio Averroes”, dedicado a personalidades com trajetórias de pioneirismo e generosidade no compartilhamento de conhecimento em diversas áreas. No mesmo ano recebeu também o “Troféu Loba Romana”, da comunidade italiana no Brasil, em reconhecimento à sua contribuição cultural, destacando-se por sua herança e conexão com esta comunidade no Brasil. A premiação ocorreu numa cerimônia ocorrida na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Além da militância na vida acadêmica, teve atuação destacada no movimento ecológico, participando da criação do Parque Ecológico Chico Mendes, na Vila Curuça em São Paulo. Criou também os EcoEncontros da USP, travou uma luta ferrenha através da imprensa contra a construção de Angra 3 e formulou os “10 mandamentos da Ecologia”. Faleceu em 10/7/2017 em plena atividade na coordenação do “Laboratório de Memória e História Oral Simone Weil”, uma unidade de pesquisa do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).

O estilo literário de suas reflexões tem uma singularidade que além de expressar o vigor de sua prosa em tom suave, delicado, que ajuda a dotar as narrativas de uma particular dimensão literária. Relatos de pesquisa empírica e ensaios teóricos ganham muitas vezes corpo de bela prosa poética.

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OS BRASILEIROS: Sargento Max Wolff

Max Wolff Filho nasceu em 29/7/1/1911, em Rio Negro, PR. Militar integrante da FEB-Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra Mundial, que o reconheceu como o maior herói pelo seu desempenho em campo de batalha na região de Montese, Itália.

Filho de Etelvina e Max Wolff, teve os primeiros estudos em Rio Negro, conviveu com as tensões da Guerra do Contestado, a I Guerra Mundial e trabalhou desde criança em diversas atividades. Serviu ao Exército no 15º batalhão de Curitiba e combateu na Revolução de 1932, no Vale do Paraíba. Foi professor de educação física e defesa pessoal. Integrou a Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde chegou 3º sargento e atuou como Comandante da Polícia de Vigilância.

Aos 33 anos, apresentou-se voluntariamente para lutar na II Guerra Mundial, quando ingressou na 1ª Cia. do 11º Regimento de Infantaria, em São João Del Rey, MG. Na FEB, ocupou o posto de 3º Sargento e, devido a sua coragem e modo de procedimento, passou a ser admirado pelos colegas, bem como por seus superiores no V Exército de Campanha. Participou de todas as ações de seu Batalhão no ataque ao Monte Castelo, levando munição à frente de batalha e retornando com feridos e mortos.

Numa destas batalhas, foi designado para resgatar o corpo do Capitão João Teixeira Bueno, auxiliar do General Zenóbio da Costa. Era uma missão difícil, mas o Sargento não titubeou: “Coronel, por favor, diga ao general que, desde o escurecer, este padioleiro e eu estamos indo e voltando às posições inimigas para trazer os nossos companheiros feridos. Faremos isto até que a luz do dia nos impeça de fazer. Se numa dessas viagens, encontrarmos o corpo do Capitão Bueno, nós o traremos também”. Não encontrou o corpo do capitão Bueno que, apenas ferido, havia sido resgatado por outro soldado, mas ainda lhe foi possível salvar muitas outras vidas.

Em 12/4/1945 seu pelotão de choque avançou nos planos concebidos para a conquista de Montese. Em dado momento, achando que os inimigos recuaram, avançou em direção ao topo da elevação. Enquanto isso, os inimigos deixaram que o pelotão se aproximasse até quando não podiam mais errar, Uma rajada de balas atingiu o sargento no peito. Ao cair recebeu mais tiros junto com seu pelotão, dando fim ao embate, restando alguns poucos soldados salvos do confronto.

Mais tarde, Montese foi conquistada e seu nome ficou gravado na mente dos companheiros como herói. Foi agraciado pelo Exército com 4 medalhas: de Campanha; Sangue do Brasil; Bronze Star (americana) e Cruz de Combate de 1ª Classe. Seus restos mortais jazem no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro e recebeu o epiteto de “Rei dos Patrulheiros”. A Escola de Sargento das Armas (ESA), em Três Corações, MG, leva seu nome e o tem patrono, ergueu um monumento ao seu pelotão, com os soldados em tamanho natural dispostos no jardim da Escola.

Em 2010, foi criada a medalha Sargento Max Wolff Filho, pelo Decreto nº 7118. A medalha é uma condecoração do Exército Brasileiro conferida a subtenentes e sargentos em reconhecimento à dedicação e interesse pelo aprimoramento profissional que tenham se destacado no seu desempenho profissional, evidenciando características e atitudes inerentes ao Sargento Max Wolff Filho. Em São Paulo, uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI), no Jardim Belém, recebeu seu nome; em Curitiba o 20º Batalhão de Infantaria Blindado passou a ser denominado “Batalhão Sargento Max Wolff Filho”

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AS BRASILEIRAS: Iara Iavelberg

Iara Iavelberg nasceu em 7/5/1944, em São Paulo. Psicóloga, professora e militante da Organização Revolucionária Marxista Política (POLOP) do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organizações de oposição armada em combate a ditadura militar instalada no governo do Brasil em 1964.

Filha de Eva e David Iavelberg, tradicional família judia paulistana, teve os primeiros estudos em São Paulo e ingressou na Faculdade de Psicologia da USP em 1964. Casou-se muito cedo, aos 16 anos, com um médico, mas logo separou-se e passou a participar da militância política. Neste ambiente manteve diversos relacionamentos amorosos, pois era bonita e virou musa da juventude estudantil paulista. O líder estudantil José Dirceu foi um de seus namorados. Vaidosa, era capaz de sair de um “aparelho”, enquanto vivia na clandestinidade, para cortar os cabelos nos melhores salões de Ipanema.

Em 1969, atuando no MR-8, conheceu Carlos Lamarca pouco depois que ele desertou do exército. Foi uma paixão fulminante e o casal era um dos mais procurados na época. Suas fotos, com a legenda “Procura-se”, logo foram fixadas em diversos locais do País. Foram viver juntos e passaram 10 meses escondidos em diversos “aparelhos”. Uma de suas amigas, que testemunhou este relacionamento, foi a guerrilheira “Vanda’, da VPR, codinome de Dilma Roussef, futura presidente do Brasil.

No ano seguinte, teve início o treinamento militar no Vale do Ribeira, onde ela deu aulas teóricas de marxismo aos guerrilheiros. No mesmo ano, em 7 de dezembro, Lamarca liderou o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, no Rio de Janeiro, em troca da libertação de 70 presos políticos. Em princípios de 1971, boa parte das organizações de esquerda já estava desarticulada e semidestruída, e o que restou da VPR juntou-se ao MR-8. Na nova organização, Iara, mais preparada intelectualmente, teve um cargo de cúpula, e Lamarca foi rebaixado a militante de base enviado para o interior da Bahia, enquanto ela deveria se estabelecer em Salvador.

A mudança do local de atuação se deu em junho de 1971 e ela passou a viver num apartamento junto do militante Félix Escobar Sobrinho, 20 anos mais velho que ela, para que se passassem por pai e filha. Por esta época houve uma troca de correspondência ente ambos, onde Lamarca demonstrava seu profundo amor e ela recomendava-lhe pulso firme com seus companheiros para que fosse mais respeitado. Foi a partir destas cartas. encontradas pelas forças de segurança do Estado, que ela foi localizada no bairro da Pituba, conforme citado no relatório da “Operação Pajuçara”, da polícia.

A operação montada em 19 de agosto, afim de “estourar” o apartamento foi comandada pelo DOI-CODI de Salvador e executada no dia seguinte. Segundo a versão oficial ela foi morta em 20/8/1971, conforme relato da operação: “no dia 19/08/1971 foi montada uma operação pelo CODI/06 para estourar este aparelho (…). Iara Iavelberg, a fim de evitar sua prisão e sofrendo a ação dos gases lacrimogêneos, suicidou-se”. A família não aceitou esta versão da história e travou uma longa batalha para esclarecer o que realmente aconteceu.

Além de diversos impedimentos colocados pelas autoridades para evitar a exumação do corpo, a Sociedade Chevra Kadisha, responsável pelo Cemitério Israelita do Butantã, dificultou ao máximo a exumação. Finalmente, em 2003, o corpo foi exumado sob a responsabilidade do Dr. Daniel Romero Muñoz, confirmando que Iara foi assassinada: “a descrição do laudo necroscópico oficial não é compatível com suicídio” Em 1992 foi publicado o livro Iara: reportagem biográfica, de Judith Lieblich Patarrra, pela Editora Rosa dos Tempos e em 2014 foi realizado o filme-documentário “Em busca de Iara”, produzido por sua sobrinha Mariana Pamplona e dirigido por Flavio Frederico, relatando toda a trajetória de Iara e os problemas encontrados por sua família para elucidar o caso.

Iara Iavelberg foi homenageada com seu nome dado a uma praça no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro e aos centros acadêmicos de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora e Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo-USP, onde ela estudou e tornou-se psicóloga.

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OS BRASILEIROS: Joaquim Cardozo

Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu em Recife, PE em 26/81897. Engenheiro, arquiteto, professor, contista, poeta, dramaturgo, caricaturista, crítico de arte, tradutor, editor e poliglota com domínio de diversos idiomas. Conhecido como “Poeta dos Cálculos”, foi o calculista do arquiteto Oscar Niemayer na edificação de alguns cartões-portais de Brasília, como o Palácio da Alvorada, Catedral Metropolitana, Congresso Nacional, Palácios do Planalto e do Itamarati, além do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte.

Filho de Elvira Moreira Cardoso e do bibliotecário José Cardoso, teve os primeiros estudos no Ginásio Pernambucano. Aos 16 anos editou o jornal “O Arrabalde”, junto com os amigos, onde estreou na literatura, com o conto Astronomia alegre. Aos 17, publicou os primeiros trabalhos como caricaturista e chargista nos jornais Diário de Tarde e Diário de Pernambuco. Aos 18, ingressou na Escola Livre de Engenharia, interrompida várias vezes, devido a dificuldades econômicas. O curso foi concluído em 1930, aos 33 anos.

Tomou gosto pela docência e foi professor da escola onde se formou. Pouco depois tonou-se um dos fundadores da Escola de Belas Artes de Pernambuco, em 1932. Além da docência, incorporou-se à equipe do arquiteto Luiz Nunes, com a função de organizar a Diretoria de Arquitetura e Construção, da Prefeitura do Recife, em 1934, primeira instituição governamental do Brasil, para cuidar dessa área. Em 1940 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar no SPHAN-Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com o arquiteto Lúcio Costa, o paisagista Burle Marx e o advogado Rodrigo de Melo Franco. No período 1943-1954 trabalhou com Oscar Niemeyer, fazendo os cálculos estruturais do conjunto da Pampulha. Pouco depois projetou as principais edificações de Brasília.

Revolucionou a concepção estrutural do concreto armado com seus métodos de cálculo, contribuindo para a renovação da arquitetura mundial. Para Niemeyer, ele era “o brasileiro mais culto que existia”. Suas hipóteses de cálculo permitiram que as bases dos principais palácios de Brasília apenas toquem o solo como agulhas. Trata-se de um feito considerável, levando-se em conta a resistência do concreto à época, bem menor do que atualmente e pode ser melhor visto no projeto da Catedral Metropolitana.

Sobre a relação da poesia com a arquitetura, declarou: “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia”. Suas primeiras poesias foram publicadas em 1924, porém o primeiro livro – Poemas – só foi lançado em 1947, devido ao incentivo dos amigos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. O livro foi prefaciado por Carlos Drummond de Andrade. Ou seja, sempre esteve em boa companhia.

Sua poesia mescla traços líricos numa dimensão moderna, sem abraçar o modernismo em sua totalidade. Ao todo publicou 11 livros de poesia, destacando-se: A Tarde Sobe, Alucinação em Branco, Espumas do Mar, Imagens do Nordeste, Menina e Tarde no Recife. Ele costumava dizer que “eu não sou bem um poeta. Minha vida é que é cheia de hiatos de poesia”. Em 1975 foi eleito para ocupar a cadeira 39 da Academia Pernambucana de Letras e tomou posse em 1977, pouco antes de seu falecimento em 4/11/1978. Ao todo foram publicou 11 livros, sendo o último publicado postumamente: Canções Sombrias. Na imprensa, colaborou com o Diário de Pernambuco como chargista; dirigiu a Revista do Norte e participou das revistas do SPAHN, Para Todos e Módulo.

Seus trabalhos contribuíram efetivamente para a construção de uma Teoria da Arquitetura, firmada quando passou a ser o catedrático responsável pela cadeira de “Teoria e Filosofia da Arquitetura” na antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco, extinta em 1976, dando origem ao atual Centro de Artes e Comunicações- CAC da UFPE. Costumava dizer que “Os muros das construções são o papel onde se inscreveram as páginas da história, onde ainda se inscrevem as mensagens para o futuro. E escrever estas mensagens, cabe ao arquiteto”.

Não obstante seu talento, sua vida ficou marcada por uma tragédia profissional. Em 1971, o Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, desabou no fim da construção, matando 69 operários, e ferindo outros 100. A obra era assinada por Niemeyer e ele. A perícia detectou que o erro não foi no cálculo, e sim na execução da obra por parte da empreiteira. Mesmo absolvido, ficou extremamente abalado depois do acidente, encerrou sua carreira de calculista e entrou em depressão.

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AS BRASILEIRAS: Petronilha Gonçalves

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva nasceu em 29/6/1942, em Porto Alegre, RS., no bairro Colônia Africana, atual bairro nobre denominado Rio Branco. Professora, pesquisadora, escritora, professora emérita da UFScar e doutora honoris causa pela Universidade Federal do ABC.

Filha de uma professora da rede pública estadual, participante da criação do Colégio de Aplicação, da UFRGS-Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1953, quando lhe foi oferecida uma vaga para sua filha na primeira turma do Colégio. Aos 18 anos ingressou na Faculdade de Letras da UFRGS e no 3º ano começou a lecionar Português no Ginásio Comercial Antão de Faria, em Porto Alegre e no colégio Bom Jesus Sévigné. Durante a graduação, lecionou francês no Colégio de Aplicação.

Em 1972 passou a lecionar Língua Portuguesa na UFRGS e em seguida foi docente também na PUC/RS, no curso de especialização em Supervisão Escolar. Pouco depois passou a ministrar aulas no curso de pós-graduação em Educação. Atuou em várias escolas percorrendo um longo caminho na docência. Foi indicada pelo Movimento Negro para integrar o conselho da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação no período 2002-2006.

No cargo, foi relatora do parecer estabelecendo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Em 2006, participou da criação do programa de reserva de vagas para estudantes da escola pública, para indígenas e negros, vindo a assumir a coordenação do programa. Foi docente no Programa de Pós-Graduação em Educação e no Departamento de Metodologia do Ensino da UFScar até 2012, quando se aposentou e recebeu o título de Professora Emérita do Conselho Universitário.

Em 2021 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do ABC, em reconhecimento ao trabalho em defesa da cultura, da diversidade, da mulher, do ensino gratuito e da não discriminação racial. Atualmente trabalha como pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros NEAB/UFSCar e atua em grupos do Movimento Negro. É coordenadora do Grupo Gestor do Programa de Ações Afirmativas da UFSCar e do Grupo de Pesquisa Práticas Sociais e Processos Educativos (UFSCar), junto com a professora Maria Waldenez de Oliveira.

Sua carreira acadêmica se deu de modo contínuo a partir de 1964, quando se graduou em Letras e Françês; mestrado em Educação (1979); doutorado em Educação (1987) e pós-doutorado pela University of South Africa, em 1996. Em 2024 recebeu mais um título de Doutora Honoris Causa, pela UFRGS. Teve sua dissertação e tese publicadas, além de publicar diversos artigos em revistas especializadas. A tese “Educação e identidade dos negros trabalhadores rurais do Limoeiro”, serviu, 18 após, como documento para o reconhecimento da comunidade do Limoeiro como quilombo.

O livro O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos, publicado em 1998 junto com Luiz Alberto Oliveira Gonçalves, encontra-se na 4ª edição (2006). Outro livro Experiências étnico-culturais para a formação de professores, publicado em 2002 junto com Nilma Lino Gomes, encontra-se também na 4ª edição (2018). Outros livros publicados: Entre Brasil e África: Construindo Conhecimento e Militância, 2ª edição (2021); O Pensamento Negro em Educação no Brasil – Expressões do Movimento Negro, com Lucia Maria de Assunção Barbosa. 2ª edição 2023.

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OS BRASILEIROS: Ricardo Brennand

Ricardo Coimbra de Almeida Brennand nasceu em 27/5/1927, em Cabo de Santo Agostinho, PE. Engenheiro, empresário, mecenas e, sobretudo, colecionador de obras de arte. Sua coleção resultou na criação do museu, digo Instituto Ricardo Brennand, no Recife, cujo acervo inclui a maior coleção particular de pinturas de Franz Post no mundo.

Filho de Dulce Padilha Coimbra e Antônio Luiz de Almeida Brennand, tradicional família pernambucana. Formado em engenharia civil e mecânica, pela UFPE em 1949, dedicou-se aos negócios da família: fabricação de vidro. aço, cerâmica, cimento, porcelana e açúcar. Em viagens pela Europa e Ásia, adquiriu diversas obras de arte. Em 1998 uma tragédia -a morte do filho- mudou o foco de prioridades do empresário, canalizando toda sua atenção para o lado artístico e sentimental, mais ligado ao colecionismo.

Em 1999 vendeu as fábricas de cimento ao grupo português Cimpor por 590 milhões de dólares e passou a projetar o Instituto Ricardo Brennand (IRB), espaço de referência cultural sem fins lucrativos no Recife, fundado em 2002. O nome homenageia seu tio homônimo, grande incentivador das artes na família. Trata-se de uma instituição cultural reconhecida mundialmente, ocupando as terras do antigo Engenho São João, no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife, com uma área de 180 mil m², circundado por jardins, lagos e obras de arte. O Museu em fins de década de 1990, quando o vice-presidente da República, Marco Maciel, chamou Brennand para uma conversa:

“Ricardo, tenho uma missão para você servir a Pernambuco. Este ano completam-se 350 anos da morte de Albert Eckhout. O governo holandês aceitou uma sugestão nossa para trazer as obras que ele pintou no Brasil. Mas exige que tenhamos uma instalação que abrigue as obras que serão expostas ao público. Preciso que você nos ajude a realizar esse evento”. Brennand ajudou na empreitada criando o IRB, em 2002, com a exposição “Albert Eckhout volta ao Brasil”.

O IRB abrange um complexo de edificações, abertas à visitação pública, abrangendo o Museu Castelo São João (museu de armas brancas), Pinacoteca, Biblioteca com 60 mil volumes, datados do século XVI em diante, Auditório, Jardim das Esculturas e a Galeria de Exposições Temporárias e Eventos. Foi eleito o melhor museu da América do Sul pelo site de viagens TripAdvisor. Vale a pena uma visita ao museu através do site Instituto Ricardo Brennand.

Conta com um acervo de obras de história e arte, incluindo mais de 5 mil armas brancas, bem como espadas, armaduras, miniaturas, canhões, chaves, relógios e armas modernas automáticas. Trata-se da maior coleção bélica do mundo. Tal apreço por armas teve início quando, ainda criança, ganhou do pai um canivete estilizado. O acervo inclui também objetos históricos e artísticos de diversas procedências, abrangendo o período da baixa idade média ao século XX, com destaque para a coleção de documentos e iconografia referente ao período colonial e ao Brasil Holandês.

Em 2017 recebeu a “Medalha do Mérito Capibaribe”, a mais alta honraria concedida pela Prefeitura do Recife. Foi casado com Graça Monteiro Brennand, com quem teve 8 filhos. Construiu para a esposa a Igreja de Nossa Senhora das Graças, em estilo gótico, e faleceu em 25/4/2020, aos 92 anos. Foi um empresário prolífico e diversificado. Porém, sua obra maior foi a construção do IRB, conforme registrado numa conversa com jornalistas:

“Como empresário, nossa família ajudou o Brasil, eu mesmo construí fabricas e participei de grandes projetos. Mas eu nunca me senti tão reconhecido pela sociedade como depois que construí o IRB. Virei uma estrela!”

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AS BRASILEIRAS: Dona Veridiana Prado

Veridiana Valéria da Silva Prado nasceu em 11/2/1825, em São Paulo, SP. Proprietária de terras e administradora das fazendas da Família Prado, membros da aristocracia paulista da época. Em sua residência, o palacete na Av. Higienópolis, mantinha grandes reuniões (saraus) de intelectuais, políticos, artistas, cientistas, incluindo a família real Dom Pedro II e a princesa Isabel.
Filha de Maria Cândida de Moura Vaz e Antônio da Silva Prado, o Barão de Iguape. O pai não queria criar uma filha submissa ao marido e desejava que seguisse os passos da mãe e da avó, que eram mulheres poderosas, empreendedoras e carismáticas. Na infância, ela podia ouvir as conversas das personalidades que visitavam o Barão no casarão da Rua Direita e acompanhava o pai nas viagens ao Rio de Janeiro e Europa.

Veridiana casou-se aos 13 anos, por imposição do pai, com seu meio-tio Martinho da Silva Prado, como forma de proteção ao patrimônio da família, mas depois separou-se e ela obteve o comando da família. Aos 15 anos teve o primeiro filho e aos 22 já era mãe de 5 filhos. Teve 6 filhos, 36 netos e 96 bisnetos. Os filhos exerceram papéis de destaque na política, nos negócios, na vida social e cultural do país, entre eles, Antônio da Silva Prado, o primogênito, que foi Conselheiro do Império, Ministro de Estado, senador, deputado e o primeiro prefeito de São Paulo do período republicano (1899 a 1911) e Eduardo Prado, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Em 1839, com a venda de suas joias, adquiriu a Fazenda de Campo Alto, em Mogi Mirim, passando a ser sócia do marido nos negócios. A fazenda tornou-se rentável e um modelo de produtividade. Além da comercialização de café, teve profunda influência na vida econômica no fim do Império e início da República. Era uma criança com muita graça, vivacidade e curiosidade. Durante o período regencial, estudou, leu muito, viajou com os pais e aprendeu inglês, francês e alemão com suas governantas. Ficou conhecida como uma mulher empreendedora com fazendas, comércio de café e dona do Jornal O Comércio de São Paulo.

Defendeu a abolição como presidente da Sociedade Redentora para libertação dos escravos, formada por senhoras da sociedade. Em 1878 separou-se do marido e manteve uma vida paralela ao ex-marido. Em 1882 foi visitar a filha em Paris e ficou encantada com a vida social, intelectual e os palacetes residenciais. No mesmo ano iniciou a construção do seu palacete no então bairro de Santa Cecília, próximo da rua que leva seu nome Dona Veridiana. Um dos mais elegantes da cidade e ponto de encontro dos intelectuais, políticos e artistas. Lá recebeu Dom Pedro II e a princesa Isabel, Luiz Pereira Barreto, Cesário Motta Jr. Diogo de Faria, Teodoro Sampaio, Joaquim Nabuco entre outros e também os negros abolicionistas Luís Gama e José do Patrocínio.

Os empregados da casa eram de origens diversas, entre eles, um índio e dois afrodescendentes, e tinha como dama de companhia uma jovem negra, que era pianista e só falava com ela em francês. O mordomo era um índio botocudo e tinha como cocheiro um homem suíço, que a levava a passear de coche durante os fins de tarde pela atual Avenida Higienópolis. Os jardineiros eram todos europeus e ela abria o jardim às crianças do bairro. A área do palacete conta com 3.500 metros quadrados de área construída e 5.000 metros de jardins, com lagos de carpas e fontes. O tombamento também contemplou as obras de arte incorporadas ao imóvel, como a pintura “Aurora” de autoria de Almeida Júnior e a escultura em mármore “Diana”, de Victor Brecheret.

O imóvel foi tombado em 2001 pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo e pelo CONDEPHAAT, em 2006, incluindo as árvores e as obras de arte, entre elas, a pintura em formato de mural “Aurora”, de Almeida Junior e a escultura em mármore de Victor Brecheret, “Diana”. Dona Veridiana faleceu em 11/6/1910, aos 85 anos. Em seu testamento, deixou diversos legados para instituições de caridade, principalmente à Santa Casa de Misericórdia. Deixou também alguns valores em títulos inalienáveis para as mulheres que cuidavam da casa e parentes sob a condição de que não poderiam dividir com seus maridos e o rendimento dos bens herdados lhes garantiria uma vida independente.

Junto ao seu testamento deixou uma carta: “A todas as pessoas a quem eu possa ter ofendido ou escandalizado, peço humildemente perdão, assim como perdoo de todo coração aos que me tenham ofendido ou caluniado”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Miguel Arraes

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15/12/1916, em Araripe, CE. Advogado, economista e político, foi deputado estadual e federal, secretário de estado, prefeito de Recife, teve três mandatos como governador de Pernambuco e presidiu o Partido Socialista Brasileiro no período 1999-2005.

Filho de Maria Benigna Arraes de Alencar e José Almino Alencar, concluiu o curso secundário no Colégio Diocesano, em 1932. No ano seguinte ingressou no curso de Direito da Faculdade Nacional no Rio de Janeiro e concluiu na Faculdade de Direito do Recife, em 1937. Passou a trabalhar no IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, onde fez carreira até 1943 no cargo de delegado regional. Aí manteve contato com o presidente do IAA Barbosa Lima Sobrinho, que em 1947, quando tornou-se governador de Pernambuco, levou-o à vida pública no cargo de Secretário da Fazenda. Em 1950 foi candidato a deputado estadual, ficando na suplência e pouco depois assumiu o cargo. Em 1954, disputou de novo o cargo e foi eleito ocupando a liderança na oposição ao governo Cordeiro de Farias.

Em 1959, no governo Cid Sampaio, retornou à Secretaria da Fazenda e no ano seguinte foi eleito prefeito do Recife, apoiado pela Frente Popular. Em sua gestão foi criado o MCP-Movimento de Cultura Popular, com investimento em massa na cultura e na educação. Mobilizou artistas e entidades, realizando uma cruzada pela melhoria dos serviços públicos básicos. Em um ano abriu vagas nas escolas para 10 mil crianças, onde o déficit chegava a 100 mil. Em 1961 ficou viúvo de Célia de Souza Leão, com quem teve 8 filhos. Em seguida casou-se com Maria Madalena Fiúza, tendo mais 2 filhos. Em 1962 foi eleito governador de Pernambuco. Em sua gestão foi assinado o “Acordo do Campo”, visando a implantação de relações mais justas entre os canavieiros e usineiros. No ano seguinte foi lançado pré-candidato à presidente da República por várias lideranças do País, propondo um programa nacionalista e correção das desigualdades sociais.

Em abril de 1964, foi deposto do Governo pela ditadura militar instaurada pelo Golpe de Estado. Ficou preso por um ano na Ilha de Fernando de Noronha; seguiu para o Rio de Janeiro; pediu asilo na Embaixada da Argélia, onde ficou 14 anos ao lado da família, em Argel. Ficou conhecido em todo o mundo como político progressista que ajudou os movimentos de independência das colônias portuguesas na África e apoio na estruturação destas jovens nações.

No Tribunal Internacional Bertrand Russell, em 1974, denunciou a ditadura militar no Brasil, responsabilizando-a pela prisão, tortura e morte de muitos dos opositores e ampliação das condições de desigualdade social da população. Com a anistia, em 1979, retornou ao Brasil e foi recebido no Recife por cerca de 50 mil pessoas carregando-o no ombro e retomou sua vida política no PMDB-Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Diversas faixas traziam a inscrição “Arraes taí”.

Foi eleito deputado federal, em 1982, com a maior votação do estado e em 1986 foi eleito governador de Pernambuco pela 2ª vez. No ano seguinte foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do infante Dom Henrique de Portugal. Como governador, teve como foco corrigir as desigualdades sociais e iniciou o mais ambicioso programa de eletrificação rural no Estado. Implantou o sistema de microcrédito dirigido aos camponeses e periféricos, e dizia: “Nas regiões miseráveis do interior e da periferia do Recife, modernidade é um bico de luz aceso e uma torneira pingando água”. Ao mesmo tempo, criou a 2ª secretaria de Ciência e Tecnologia do País e a 2ª Fundação de Amparo à Pesquisa. Mobilizou esforços em favor da implantação de uma refinaria de petróleo no Estado e, em 1996, promoveu negociações com o governo da Venezuela, visando uma parceria binacional para viabilizar a planta de refino petrolífero no Estado.

Em 1990 foi eleito, novamente, deputado federal pelo PSB-Partido Socialista Brasileiro com a maior votação proporcional do País. Em 1994, foi eleito governador pela 3ª vez e ampliou o programa de eletrificação rural com a meta de implantar a rede de eletricidade em 150 mil domicílios rurais. Em 1998 perdeu a reeleição para o 4º mandato de governador e em seguida elegeu-se mais uma vez para a Câmara dos Deputados. Trata-se de um político popular, no trato com as pessoas. De certo modo era até sisudo e de poucas palavras. Seu estilo chegou a propiciar-lhe a alcunha de “Oráculo do Nordeste”, devido a concisão de seus pronunciamentos.

Para comprovar sua aversão ao populismo, traduziu para o português o livro A mistificação das massas pela propaganda política, de Serge Tchakhotine, publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1967. O livro foi censurado na França em 1939, queimado pelos nazistas em 1940 e reeditado em 1950. Hoje é um livro raro, que bem poderia ter sua edição em português reeditada. Além desta tradução, deixou mais de 10 livros publicados, com desataque para: A nova face da ditadura brasileira. Lisboa: Seara Nova, 1974; Le Brésil: Le peuple et le pouvoir. Paris: François Maspéro, 1970; O jogo do poder no Brasil. 2. ed. rev. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982.

Faleceu em 13/8/2005 e deixou um considerável legado que pode ser avaliado no acervo do Instituto Miguel Arraes, criado em 2008 em Recife, que não se destina a ser uma espécie de museu do seu patrono. Foi concebido como “uma instituição sem fins lucrativos, atuante nas linhas e princípios defendidos por ele”. Em 2006 foi lançado o livro Arraes, de Teresa Rozowykwiat, a primeira biografia autorizada publicada pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco. Em fevereiro de 2016, Arraes foi homenageado no carnaval do Rio de Janeiro, pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Clarice Herzog

Clarice Ribeiro Chaves Herzog nasceu em 1941, em São Paulo, SP. Socióloga, pesquisadora, publicitária e professora. Ficou conhecida como esposa do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1975. Manteve uma luta ferrenha para elucidar as circunstâncias do crime e conseguiu responsabilizar o Estado Brasileiro pela morte do marido.

Graduou-se em Ciências Sociais pela USP-Universidade de São Paulo, na década de 1960. Conheceu Vladimir Herzog, então estudante de Filosofia, em 1962 e casaram-se em fevereiro de 1964. Mudaram-se para Londres, onde nasceram seus filhos: Ivo e André. Em 1968, em plena ditadura militar, retornaram ao Brasil e Vlado seguiu trabalhando como jornalista e cineasta. Ela seguiu numa carreira bem-sucedida com pesquisas na área da publicidade.

Em 24/10/1975 seu marido foi prestar depoimento no II Exército e nunca mais foi visto vivo. Ela foi a primeira a romper o silêncio declarando “Mataram o Vlado”. Ficou viúva aos 34 anos e a partir daí travou uma luta ferrenha contra a mentira forjada pelo Exército que Vlado havia cometido suicídio. O Fato comoveu a sociedade e tornou-se na maior mobilização popular contra a ditadura. A missa de 7º dia na Catedral da Sé, uma missa ecumênica, conduzida pelo arcebispo Dom Evaristo Arns, reuniu mais de 10 mil pessoas lotando a igreja e a Praça da Sé, protestando e velando a morte de Vlado.

Em 1978, Clarice junto com os filhos publicaram o livro Caso Herzog: a sentença, pela editora Salamandra, com prefácio de Raimundo Faoro, expondo a íntegra do processo movido contra o Estado. A partir daí, tornou-se uma pessoa pública e indignada, passando a buscar a verdade, não obstante sofrer ameaças da repreensão. Dizia que “Não quero virar esta página. Quero imprimi-la na História”. No mesmo ano conseguiu uma sentença histórica que condenou o Estado, obrigando-o a indenizar a família pela morte do marido. Tal indenização só veio ocorrer em fevereiro de 2025, quando Clarice conta com 83 anos, sofre do mal de Alzeihmer e talvez não possa comemorar, a contento, sua vitória numa luta de vida inteira.

Em 2009, o caso foi levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA-Organização dos Estados Americanos com apoio do CEJIL-Centro pela Justiça e Direito Internacional. Com isso, abriu um precedente importante para todas as famílias de mortos e desaparecidos políticos. Ainda em 2009, foi criado o Instituto Vladimir Herzog com o objetivo de preservar a memória do jornalista e promover ações que atraiam a atenção da sociedade aos problemas sociais e econômicos do Brasil com ênfase nas consequências do golpe. Em 2013, 38 anos depois do crime, ela conseguiu a retificação do atestado de óbito, não mais como suicida, mas como vítima da violência do Estado brasileiro.

Os anos de luta de Clarice contra a mentira do regime militar foram destacados por Eneá Stutz, presidente da Comissão de Anistia como “uma luz que ilumina os erros que o país tem cometido diante da sua própria história. Ao ser tão determinada, ela ajudou o Brasil, um país que se acostumou ao esquecimento e à impunidade”. Há 45 anos vem sendo outorgado anualmente o “Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos”, que presta homenagem a jornalistas, repórteres fotográficos e artistas do traço que, por meio de seus trabalhos, defendem a democracia, a paz, a justiça e os direitos humanos.

Em abril de 2025 foi anunciado o filme sobre a trajetória de Clarice na mesma linha do filme Ainda estou aqui, evidenciando o papel das mulheres como protagonistas na luta para reestabelecer a verdade, a justiça e manter viva a memória. “Assim como o filme sobre Eunice Paiva não é exatamente sobre Rubens Paiva, o filme sobre Vladimir Herzog será, na verdade, sobre Clarice. Essas mulheres foram as grandes agentes da luta por justiça nos dois casos”, diz o release. O filme, recontando a última semana de Herzog e sua repercussão, com direção de Susanna Lira e roteiro de Ana Durães e Débora Mamber, começa a ser filmado em 2025 e deverá estar pronto até 2027. No momento encontra-se em fase de captação de recursos e produção.