DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

A INDIRETA DE TEMER

Eu tinha visto uma entrevista do ex-presidente da República, o constitucionalista, professor Michel Temer; só tinha visto, mas não tinha lido no Estadão. E agora eu vejo o brilhante Fernando Schuler chamando a atenção para algumas coisas que o ex-presidente disse e que são absolutamente verdadeiras.

Vocês já ouviram essas coisas da minha boca, mas eu não sou constitucionalista; eu só sei ler a Constituição. E agora Michel Temer é que está dizendo. A primeira coisa, perguntam para ele o que precisa ser feito para pacificar o país, e ele diz: seguir rigorosamente a Constituição.

Tenho falado muito disso aqui. Está escrito na Constituição. Por que invertem o que está escrito? Por que interpretam e sai o oposto do que está estabelecido pela Constituição? Então, é preciso cumprir rigorosamente a Constituição. É uma crítica direta a quem não cumpre a Constituição, inclusive àquele que Michel Temer indicou para ser ministro do Supremo.

* * *

Temer indica que “não sabia que ele agiria assim”

Ele tem responsabilidade nisso. Talvez esteja se tentando fazer um ato de contrição: “Olha, eu não sabia que seria assim”. A gente deve muito a Michel Temer. Ele entregou o caos de Dilma já muito suavizado para o governo seguinte, Bolsonaro, com as reformas que ele fez.

Continuando os destaques da entrevista, ele diz assim: “Se não tem foro no Supremo, foro privilegiado não pode ser julgado pelo Supremo”. É outra coisa óbvia. Eu falo toda hora que o juiz natural versus o… está lá escrito na Constituição: não haverá juízo de exceção. E está escrito que a pessoa que é da primeira instância vai para a primeira instância; quem tem foro privilegiado, está entre aqueles que a Constituição diz que tem foro privilegiado, vai para o Supremo. Está cheio de gente julgada no Supremo.

Outra, ele diz assim: “Se a Constituição diz que parlamentar tem imunidade por quaisquer palavras, não pode ser acusado por aquilo que disseram”.

Está cheio de parlamentar preso, mas a Constituição diz que é imune por quaisquer palavras. Eu digo, brincando aqui, se ofender a mãe de um autoridade, sinto muito: “quaisquer palavras”, está escrito na Constituição. E interessante que tem algumas coisas que são cláusulas pétreas que não podem ser mudadas a não ser por uma nova constituinte; não podem ser mudadas sequer por emendas com 60% dos votos em duas votações na Câmara e no Senado. Então, se não observa isso, não dá para dizer que no Brasil vigora um Estado Democrático de Direito, porque não observa a Constituição. É simples.

* * *

Constituição garante: ninguém será incriminado por críticas

Outra coisa que ele fala, eu dizia isso aqui: “Se a Constituição diz que há liberdade de pensamento, liberdade de expressão, ninguém no YouTube pode ser incriminado por críticas”. Está escrito na Constituição: é livre a expressão do pensamento, vedado o anonimato.

Isso no artigo 5º; no artigo 220 fala sobre a comunicação, a informação sobre qualquer meio que é vedada a censura e a liberdade. Não se fará nenhuma lei que imponha a censura. Saiu da boca de um constitucionalista publicado no jornal O Estado de S. Paulo.

Agora estamos em Copa. Queria mencionar a morte desse jogador da África do Sul. Me chamou atenção porque ele é de Stellenbosch, que é uma velha conhecida grande produtora de vinhos. Atleta de 25 anos, é mais um caso: jovens cheios de saúde, atletas de higidez física, frequentadores de academia.

* * *

Futebol não pode ser mais importante que o ensino

E aí é o mecanismo de fuga identificado por Freud. O Brasil foi eliminado da Copa. Passaram a falar só da Copa Feminina do ano que vem, que vai ser no Brasil. Vai ser em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Salvador, São Paulo, oito capitais, de 24 de junho a 25 de julho, algo assim. Por que que eu estou citando?

Não é só por esse mecanismo de fuga ou de transferência, é também porque já estão fazendo ampliação das férias escolares por causa da Copa do Mundo Feminina no Brasil. Meu Deus do céu, não vai para a frente jamais esse país desse jeito. Não vai. O futebol é mais importante que o serviço público, o futebol é mais importante que eleição, o futebol é mais importante que o ensino. Só que o futebol não altera em nada o nosso amanhã, como diz a letra daquela música, “para tudo se acabar na quarta-feira”. É cinzas que estão fazendo deste país. Isso é um pecado mortal, porque a gente recebeu isso e não administra.

DEU NO JORNAL

XICO COM X, BIZERRA COM I

O AZUL E O AZUL

Era só uma quarta-feira, igual a tantas outras quartas-feiras já vividas. Estava eu a soletrar sílabas, embalar palavras e transformá-las em versos, quando acendi o escuro e meus olhos enxergaram um azul mais azul que aquele que o Poeta Carlos Pena Filho tanto gostava. Acho que até meus sapatos, ainda que que em mim descalçados, estavam azuis. Meus cabelos, revoltos e também azuis, voavam ao sabor dos ventos anunciadores da chuva que estava por vir.

A lua, escondida entre nuvens, de quando em vez teimava em costurar bordados num céu azul, como que a anunciar que naquela noite ela estava preguiçosa e sem vontade. Estava também azulada, observei. Ali permanecia apenas por obrigação de ofício, embora soberana como sempre.

O relógio bateu meia-noite e naquele instante respirei o cheiro de uma quarta-feira de passado tão recente. Além disso,já era madrugada de uma nova quinta-feira.

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

PORNOGRAFIA E PROSTITUIÇÃO INVADEM O MERCADO DO FUTEBOL

Editorial Gazeta do Povo

editorial pornografia prostituição futebol

Cada vez mais times estão sendo patrocinados por sites de conteúdo erótico ou de prostituição

Em abril de 2023, o técnico Cuca durou apenas duas partidas no Corinthians; ele pediu demissão após forte pressão da torcida, especialmente sua ala feminina, devido ao fato de ter contra si uma condenação por violência sexual na Suíça, em 1989 – ele sempre negou o crime, e em janeiro de 2024 a condenação foi anulada por irregularidades processuais, sem análise de mérito. Três anos depois, o clube paulista se vê novamente diante de um episódio que testa seu compromisso com a dignidade da mulher, mas a repercussão tem sido muito menor que a esperada e necessária.

A prostituição e a pornografia estão seguindo o caminho aberto pelas bets e invadindo o mundo do futebol. Em 4 de julho, o Corinthians anunciou um contrato de patrocínio no valor de R$ 22 milhões com um site de conteúdo erótico, em que os usuários pagam para receber fotos, vídeos ou interagir com as mulheres presentes na plataforma – o mesmo site também está patrocinando o Operário (PR) e o Vila Nova (GO). O site pertence a um conglomerado que também opera uma agência de prostituição (eufemisticamente chamada de “anúncios de acompanhantes”), que coloca ou já colocou seu nome nos uniformes de outros times, como Vitória (BA), Amazonas (AM), Brusque (SC), Paysandu (PA), Remo (PA) e Ponte Preta (SP).

Tanto o Corinthians quanto o novo patrocinador afirmam que o nome do site não será estampado nos uniformes da equipe de futebol feminino – os calções terão a frase “respeita as minas”, slogan de um movimento de torcedoras e jogadoras, e que foi muito usado nos protestos após a contratação de Cuca. Uma ressalva hipócrita; afinal, se não houvesse nenhum problema com o tipo de atividade praticada pela empresa patrocinadora, a marca poderia muito bem estar no uniforme das atletas. No fim, admite-se implicitamente que a última coisa que o patrocinador faz é respeitar as mulheres.

A exploração da mulher, seja pela prostituição, seja pela pornografia, é um atentado grotesco à dignidade feminina. A pessoa da mulher, com toda a sua riqueza, é reduzida ao seu corpo, usado como instrumento de prazer por outra pessoa. Essa avaliação independe completamente de a mulher consentir ou de tomar a iniciativa de expor ou negociar o seu corpo; a desvalorização, a objetificação, os problemas de autoestima são consequências praticamente inescapáveis. Pesquisadores como Mary Eberstadt têm se dedicado a investigar o custo que a sociedade paga pela pornografia e pela prostituição, e já encontraram mecanismos de vício semelhantes ao causado pelas drogas, bem como relações de correspondência entre consumo de pornografia e violência contra mulheres. A dessensibilização dos homens que recorrem à prostituição e a pornografia destrói relacionamentos reais e famílias inteiras.

Assim como as bets, o mercado da exploração sexual de mulheres movimenta cifras grandes, e os R$ 22 milhões pagos ao Corinthians fazem desse patrocínio um dos maiores do time paulista atualmente, e o maior das modalidades poliesportivas (ou seja, excluindo o futebol masculino) do clube. Mas será mesmo necessário? A Gazeta do Povo acredita que pode dizer algo a esse respeito. Cerca de 25 anos atrás, quando os classificados ainda eram uma enorme fonte de receita de todos os jornais, decidimos não publicar mais os anúncios de prostituição disfarçados sob os rótulos de “massagistas” ou “acompanhantes”, uma prática que era amplamente difundida na grande imprensa nacional e à qual as publicações faziam vista grossa. O autêntico respeito à dignidade da mulher era incompatível com a publicação de tais anúncios, e a eventual redução de receita se revelou, no longo prazo, um preço baixo a pagar pela coerência.

A reação da torcida e das jogadoras do Corinthians e de outros times patrocinados pelo mesmo conglomerado, infelizmente, tem sido muito menor que a registrada quando da contratação do técnico Cuca, quando deveria ser equivalente. Estariam os R$ 22 milhões comprando consciências? Ou a sociedade estaria normalizando a prostituição e a pornografia, aceitando-as socialmente a ponto de não se incomodar com a propaganda mesmo em ambientes como o esportivo, frequentado inclusive por crianças e adolescentes? Em qualquer dos casos, estamos presenciando o fortalecimento de um processo que precisa ser contido antes que se torne irreversível – e as mais prejudicadas serão, indiscutivelmente, todas as mulheres.

PENINHA - DICA MUSICAL