Enquanto as manchetes de sempre martelam há dias a crise política da briga entre a ex-primeira-dama Michelle e o senador Flávio Bolsonaro, desapareceu do noticiário qualquer menção à fala de Lula (PT), denunciada como criminosa pelo governador Jorginho Melo (PL) junto à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Lula chamou toda a população de Santa Catarina de “racista” e de cultivar a “supremacia branca”.
Lula foi denunciado pelo crime de xenofobia, imprescritível e inafiançável.
A xenofobia – especialmente ao microfone, em público – pede ação penal do Ministério Público e acarreta pena de prisão de até 5 anos e multa.
O deputado Sanderson (PL-RS) cobrou de Paulo Gonet, chefe da PGR, resposta à denúncia formalizada pelo governador de Santa Catarina.
O noticiário prioriza as desavenças na família Bolsonaro, que merecem destaque, mas “esquece” o insulto de Lula aos catarinenses.
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Se o jornalisteirismo banânico prioriza a arenga da família Bolsonaro, esquecendo o absurdo insulto luloso aos catarinenses, tá tudo dentro do normal.
O poema de Dalinha Catunda é um excelente exemplo da irreverência típica da literatura de cordel e do humor nordestino.
A autora utiliza a métrica e a rima para brincar com a expectativa do leitor diante de mensagem criativa e de duplo sentido.
O poema é um texto curto, mas muito sagaz, que usa a malícia popular para celebrar a longevidade com muita graça!
Sobre não esperar aprovação, chegar em excelente forma aos 69 anos (ou qualquer idade) deve ser motivo de orgulho e leveza, e não de peso ou tabu e, quanto a isso, censurar ninguém se atreve.
Parabéns para a colunista pelos 69 anos e que ela tenha, no ano que vem, uma excelente entrada nos 70.
E que continue nessa trajetória marcante por muitos anos.
🤑/ O resultado está aí: mais famílias endividadas, custo de vida mais alto e um governo que trata isso como se fosse normal. Quem paga a conta, no fim, é sempre o brasileiro. 👉👌😡 pic.twitter.com/PcBme5XmWX
— Brasil Conservador®️🇧🇷🇺🇸🇮🇱100%SDV (@MachadoDarlon) July 1, 2026
Há algo de profundamente curioso em nossa época. Nunca tivemos acesso a tantas ferramentas intelectuais, tanta informação e tantos recursos de análise. E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil para algumas pessoas admitir a simples possibilidade de que um ser humano possa escrever bem.
Diante de um texto elaborado, de um vocabulário mais amplo ou de uma construção argumentativa minimamente sofisticada, surge imediatamente o novo inquisidor digital. Não lê para compreender. Não debate para refutar. Não analisa para aprender. Seu primeiro impulso é submeter o texto a uma inteligência artificial, como um sacerdote antigo consultando oráculos em busca de uma verdade revelada. O fenômeno é fascinante.
Durante séculos, a humanidade ensinou literatura, filosofia, retórica, gramática, lógica e argumentação. Formou escritores, poetas, ensaístas, pesquisadores e professores. Hoje, porém, uma parcela dos leitores parece acreditar que qualquer frase que ultrapasse a média da comunicação instantânea só pode ter sido produzida por uma máquina. O empobrecimento intelectual é tão profundo que a qualidade passou a ser considerada evidência de fraude.
A situação se torna ainda mais irônica quando observamos o método empregado. O indivíduo entrega um texto a uma inteligência artificial e recebe dela uma interpretação estatística. Em seguida, apresenta essa interpretação como prova definitiva de autoria artificial. Trata-se de um raciocínio circular tão perfeito que quase poderia ser apreciado como obra de arte. A ferramenta analisa padrões linguísticos. O usuário interpreta essa análise como um veredito. E então transforma uma hipótese probabilística em certeza absoluta. A lógica desaparece. A convicção permanece.
Nenhum crítico literário sério trabalha dessa maneira. Nenhum linguista respeitável trabalha dessa maneira. Nenhum pesquisador sério consideraria aceitável determinar autoria com base em impressões estatísticas produzidas por sistemas que os próprios desenvolvedores reconhecem como falíveis. Mas o analista de ocasião não precisa de evidências robustas. Basta-lhe a aparência de cientificidade. Afinal, uma conclusão frágil parece muito mais sólida quando vem acompanhada de termos técnicos.
Há também uma dimensão cultural particularmente preocupante nesse comportamento. Ele revela uma crescente incapacidade de reconhecer a singularidade humana. O sujeito já não consegue conceber que alguém tenha estudado, lido, amadurecido intelectualmente ou desenvolvido um estilo próprio ao longo de décadas. A hipótese da inteligência artificial lhe parece mais plausível do que a hipótese do esforço humano. Talvez porque admitir a existência de talento, dedicação ou erudição em outra pessoa exija uma humildade que nem todos estão dispostos a cultivar. É mais confortável atribuir o mérito a um algoritmo. Mais confortável e mais rápido.
Não é preciso discutir ideias. Não é preciso enfrentar argumentos. Não é preciso formular contrapontos. Basta insinuar que o texto foi produzido por uma máquina e declarar encerrado o debate. O recurso é intelectualmente conveniente. E intelectualmente pobre. O mais curioso é que os mesmos indivíduos que depositam fé quase religiosa nesses diagnósticos costumam ignorar um detalhe elementar: as inteligências artificiais foram treinadas justamente com textos produzidos por seres humanos. Livros, artigos, ensaios, pesquisas, crônicas, discursos, poemas e tratados filosóficos escritos ao longo de séculos.
Quando uma IA identifica semelhanças entre um texto e os padrões presentes em sua base de treinamento, ela está, em grande medida, reconhecendo características da própria tradição intelectual humana. A acusação, portanto, frequentemente produz um efeito involuntário. O acusador imagina estar demonstrando artificialidade. O que acaba demonstrando é que o texto possui elementos encontrados na boa escrita. Chega a ser uma homenagem involuntária. Talvez o aspecto mais triste de tudo isso seja a substituição do julgamento crítico pela terceirização do pensamento. Em vez de ler, compreender e avaliar, muitos preferem perguntar a uma máquina o que devem pensar sobre aquilo que acabaram de ler.
Não buscam conhecimento; buscam confirmação. Não procuram a verdade; procuram um carimbo. E assim chegamos a um paradoxo extraordinário: pessoas que denunciam uma suposta submissão intelectual à tecnologia tornam-se, elas próprias, completamente dependentes dela para formular seus juízos. No final, a questão jamais foi a inteligência artificial. A questão continua sendo a inteligência humana.
E nenhuma ferramenta, por mais sofisticada que seja, conseguirá compensar a ausência desta.
Os alunos estão na escola, e para o Pé de Meia isso basta. Mas estarão lá apenas com o corpo enquanto a cabeça está em outro lugar?
Faço chamada há mais de 25 anos. É a primeira coisa que faço em toda aula, antes de qualquer conteúdo: abro o diário de classe, chamo nome por nome, marco presente ou falta. Levei mais de duas décadas para admitir o que aquela lista mede, e o que ela não mede. Mede corpo na cadeira. Não mede se o corpo trouxe junto alguma coisa parecida com atenção.
O ex-ministro Fernando Haddad comemorou, semana passada: o Pé de Meia reduziu em 40% a evasão escolar no primeiro ano do ensino médio, mais do que o estudo previa, e isso, segundo ele, é “política pública feita com pesquisa, seriedade e resultado”. Dirão que é assim mesmo, e é, em parte: ficar matriculado é melhor do que evadir, ninguém com juízo defende o adolescente fora da escola. Só que fora e dentro não esgotam as opções. Há um terceiro estado, o mais comum de todos, que é estar lá sem estar lá.
O programa tem uma régua, e é só uma: 80% de frequência em sala, aferida mês a mês. Não pergunta se o aluno abriu o caderno, se entendeu a equação, se ouviu a explicação e discordou dela ou dormiu nela. Pergunta se o corpo cruzou a porta um número suficiente de vezes. Cumprida a régua, o Estado deposita R$ 200 numa poupança que o próprio aluno não pode tocar: fica trancada até o fim do ensino médio, uma fiança que o adolescente paga com a presença física, resgatável só se ele aguentar os três anos inteiros. Usei “aguentar” de propósito.
Entendo por que o governo escolheu essa régua e não outra. Frequência é a única variável que um sistema central consegue contar sem depender de ninguém: o aluno bate o ponto, o professor confirma na chamada. Aprendizagem não bate ponto. Exige prova corrigida, erro discutido: coisa miúda e lenta, que não cabe numa planilha do Ministério da Educação e não produz nota de imprensa em duas semanas. O programa não mede formação porque formação não se mede naquela velocidade, para aquele público de tuíte. Mede o que dá para medir, e chama o que deu para medir de “sucesso”.
Hannah Arendt tem um ensaio sobre a crise da educação em que diz algo que ainda não fomos capazes de desmentir: a escola existe para apresentar ao recém-chegado um mundo que já estava lá antes dele. Isso é um ato de autoridade. Alguém precisa garantir que o mundo continua de pé enquanto o novato aprende a se equilibrar nele. Uma lista de chamada não apresenta mundo a ninguém: cumpre calendário.
A palavra escola vem do grego skholé: pausa, suspensão. O momento em que alguém interrompe os processos vitais – comer, produzir, sobreviver – para fazer a única coisa que a urgência da vida nunca permite, que é pensar devagar. Jean-François Mattéi dedica um capítulo inteiro de A Barbárie Interior a essa suspensão e ao que sobra quando ela é abolida em nome de uma ideia de educação que soa generosa: a escola aberta para a vida. Cito de segunda mão, sem o livro na mesa, mas a frase ficou comigo: a pedagogia moderna reduziu um lugar de reflexão a um lugar de vida, assimilado ao processo de socialização. Em vez da Escola para a Sociedade, a Sociedade para a Escola. A instituição que deveria cortar o aluno da vida por umas horas passa a servir a vida, prolongá-la, confundir-se com ela.
É esse corte que o Pé de Meia dissolve, sem perceber que dissolve. O programa paga para o aluno continuar dentro da vida, só que sentado, sem o corte que a skholé pede. Os R$ 200 mensais substituem, na conta da família, o que o adolescente ganharia catando latinha ou ajudando no trabalho de algum adulto: dinheiro de sobrevivência trocado por dinheiro de sobrevivência, só que com endereço fixo das 7 às 11 da manhã. A escola, assim, transforma-se mais em um posto remunerado, e o que deveria suspender a urgência da vida passa a ser a própria urgência, redecorada. Skholé nenhuma sobrevive a isso. Sobrevive só o prédio e a demagogia do governo.
Jonathan Haidt anda argumentando, com dados, que a esta geração falta menos presença do que atenção: corpo na sala, cabeça em outro aparelho, sequestrada por um projeto que não é o da aula. Se ele tiver razão – e a experiência de qualquer um que dá aula há alguns anos sugere que sim –, o Pé de Meia resolve a parte do problema que já não é o problema. Paga para o corpo ficar onde o corpo já queria ficar, ou pelo menos onde a família mais pobre precisa que ele fique para receber R$ 200. Não paga, porque não tem como pagar, pela outra coisa.
Dirão, de novo com razão parcial, que R$ 200 por mês mudam a vida material de uma família pobre, e mudam mesmo, e um adolescente de 15 anos que fica em sala em vez de ir catar latinha na rua já é alguma coisa. Concedo isso sem ironia. Não confundo, porém, a concessão com o que Haddad disse: que isso é sucesso educacional, comprovado por pesquisa. A pesquisa mediu evasão. Evasão é lista de chamada. O ex-ministro está certo sobre o número, e errado sobre o que o número prova.
Volto à minha rotina escolar. Todo santo dia marco “presente” para adolescentes que estão ali e não estão, e não tenho antídoto para oferecer: dou aula há tempo demais para acreditar em antídoto de coluna de jornal e planilhas. Sei só que, quando o governo mede sucesso pela lista que eu preencho, está medindo a coisa errada, e eu, que preencho a lista, sou o primeiro a saber disso – e o primeiro a continuar preenchendo.