MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há algo de profundamente curioso em nossa época. Nunca tivemos acesso a tantas ferramentas intelectuais, tanta informação e tantos recursos de análise. E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil para algumas pessoas admitir a simples possibilidade de que um ser humano possa escrever bem.

Diante de um texto elaborado, de um vocabulário mais amplo ou de uma construção argumentativa minimamente sofisticada, surge imediatamente o novo inquisidor digital. Não lê para compreender. Não debate para refutar. Não analisa para aprender. Seu primeiro impulso é submeter o texto a uma inteligência artificial, como um sacerdote antigo consultando oráculos em busca de uma verdade revelada. O fenômeno é fascinante.

Durante séculos, a humanidade ensinou literatura, filosofia, retórica, gramática, lógica e argumentação. Formou escritores, poetas, ensaístas, pesquisadores e professores. Hoje, porém, uma parcela dos leitores parece acreditar que qualquer frase que ultrapasse a média da comunicação instantânea só pode ter sido produzida por uma máquina. O empobrecimento intelectual é tão profundo que a qualidade passou a ser considerada evidência de fraude.

A situação se torna ainda mais irônica quando observamos o método empregado. O indivíduo entrega um texto a uma inteligência artificial e recebe dela uma interpretação estatística. Em seguida, apresenta essa interpretação como prova definitiva de autoria artificial. Trata-se de um raciocínio circular tão perfeito que quase poderia ser apreciado como obra de arte. A ferramenta analisa padrões linguísticos. O usuário interpreta essa análise como um veredito. E então transforma uma hipótese probabilística em certeza absoluta. A lógica desaparece. A convicção permanece.

Nenhum crítico literário sério trabalha dessa maneira. Nenhum linguista respeitável trabalha dessa maneira. Nenhum pesquisador sério consideraria aceitável determinar autoria com base em impressões estatísticas produzidas por sistemas que os próprios desenvolvedores reconhecem como falíveis. Mas o analista de ocasião não precisa de evidências robustas. Basta-lhe a aparência de cientificidade. Afinal, uma conclusão frágil parece muito mais sólida quando vem acompanhada de termos técnicos.

Há também uma dimensão cultural particularmente preocupante nesse comportamento. Ele revela uma crescente incapacidade de reconhecer a singularidade humana. O sujeito já não consegue conceber que alguém tenha estudado, lido, amadurecido intelectualmente ou desenvolvido um estilo próprio ao longo de décadas. A hipótese da inteligência artificial lhe parece mais plausível do que a hipótese do esforço humano. Talvez porque admitir a existência de talento, dedicação ou erudição em outra pessoa exija uma humildade que nem todos estão dispostos a cultivar. É mais confortável atribuir o mérito a um algoritmo. Mais confortável e mais rápido.

Não é preciso discutir ideias. Não é preciso enfrentar argumentos. Não é preciso formular contrapontos. Basta insinuar que o texto foi produzido por uma máquina e declarar encerrado o debate. O recurso é intelectualmente conveniente. E intelectualmente pobre. O mais curioso é que os mesmos indivíduos que depositam fé quase religiosa nesses diagnósticos costumam ignorar um detalhe elementar: as inteligências artificiais foram treinadas justamente com textos produzidos por seres humanos. Livros, artigos, ensaios, pesquisas, crônicas, discursos, poemas e tratados filosóficos escritos ao longo de séculos.

Quando uma IA identifica semelhanças entre um texto e os padrões presentes em sua base de treinamento, ela está, em grande medida, reconhecendo características da própria tradição intelectual humana. A acusação, portanto, frequentemente produz um efeito involuntário. O acusador imagina estar demonstrando artificialidade. O que acaba demonstrando é que o texto possui elementos encontrados na boa escrita. Chega a ser uma homenagem involuntária. Talvez o aspecto mais triste de tudo isso seja a substituição do julgamento crítico pela terceirização do pensamento. Em vez de ler, compreender e avaliar, muitos preferem perguntar a uma máquina o que devem pensar sobre aquilo que acabaram de ler.

Não buscam conhecimento; buscam confirmação. Não procuram a verdade; procuram um carimbo. E assim chegamos a um paradoxo extraordinário: pessoas que denunciam uma suposta submissão intelectual à tecnologia tornam-se, elas próprias, completamente dependentes dela para formular seus juízos. No final, a questão jamais foi a inteligência artificial. A questão continua sendo a inteligência humana.

E nenhuma ferramenta, por mais sofisticada que seja, conseguirá compensar a ausência desta.

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