DEU NO JORNAL

QUEM SÃO OS VERDADEIROS GOLPISTAS?

Marcel van Hattem

lula 8 de janeiro

Lula discursa em ato alusivo ao terceiro aniversário do 8 de janeiro: presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo não apareceram

O 8 de janeiro de 2023 não se tornou um marco simbólico por acaso. Ele foi cuidadosamente instrumentalizado pelo PT, por Lula e por setores do Supremo Tribunal Federal como peça central de uma narrativa política destinada a um objetivo central: desmobilizar a oposição e criminalizar a direita brasileira. Três anos depois, chegado o 8 de janeiro de 2026, essa farsa sustenta-se cada vez menos, apesar da insistência de quem precisa dela para sobreviver politicamente.

A tentativa de transformar o 8 de janeiro em um mito fundacional do atual regime está fracassando. As solenidades oficiais esvaziadas, a ausência de representantes dos demais Poderes e a falta de adesão popular demonstraram o óbvio: a narrativa do “golpismo” perdeu força na sociedade e até mesmo nas instituições. Não porque os fatos tenham mudado, mas porque a verdade insiste em aparecer.

Desde o início, a história foi contada propositalmente de forma invertida. Acusou-se convenientemente a direita de “golpismo”, enquanto se fazia de tudo para esconder a realidade: o golpe institucional em curso desde 2019. De um lado, com a abertura de inquéritos ilegais, o cerceamento da liberdade de expressão, a interferência constante e ilegal nos atos administrativos do então presidente Jair Bolsonaro, a censura sistemática à oposição nas redes, no Congresso e na imprensa; e, de outro, com a anulação casuística das condenações de Lula e sua recolocação no jogo político à revelia da Lei da Ficha Limpa, o enterro da Lava Jato e a hipertrofia de uma corte usada para justificar as ações ilegais de perseguição contra a oposição.

O 8 de janeiro de 2023, ocorrido ainda na aurora do novo governo, foi apenas o pretexto cabal para consolidar um estado de exceção permanente, no qual opositores são desumanizados, descritos como intrinsecamente violentos e golpistas, e tratados como inimigos do regime a serem eliminados sem dó nem piedade. Nem mesmo as mínimas garantias legais e constitucionais lhes são oferecidas. São indignos, portanto, de quaisquer direitos humanos.

As consequências humanas dessa estratégia são dramáticas. Brasileiros continuam presos ou com restrições absurdas de liberdade por atos que jamais foram individualizados. Milhares de inocentes tiveram suas vidas destruídas. E mesmo aqueles que praticaram vandalismo já pagaram por seus atos – e pagaram muito mais do que qualquer outro vândalo na história recente do país. Ainda assim, a máquina persecutória segue ativa, porque sua função não é fazer justiça, mas intimidar. E intimidar milhões de brasileiros. O objetivo é intimidar todo um povo que, historicamente, fez a diferença tomando as ruas e exigindo mudanças políticas. Quem está no poder aprendeu com a história e não quer, de jeito nenhum, o povo de volta às ruas.

É por isso que o 8 de janeiro de 2026 também precisa ser lembrado como um marco de resistência. Apesar do ambiente opressivo e repressivo, já houve avanços: a mobilização internacional e o reconhecimento externo de que o regime no Brasil não é mais de democracia plena; o trabalho incansável em defesa de brasileiros perseguidos no exterior; as constantes mobilizações no Congresso Nacional de uma oposição aguerrida, apesar de ser objeto de cruel perseguição política; a exposição de prisões injustas e abusivas cada vez mais constante, inclusive na grande mídia – como as da Débora do Batom, de Filipe Martins e do ex-presidente Jair Bolsonaro –, que servem de exemplo para o que outros milhares de brasileiros estão sofrendo; e, finalmente, a aprovação do projeto de redução de penas tanto na Câmara quanto no Senado que, embora não seja a almejada anistia e anulação dos processos, foi um claro sinal de ampla maioria política na direção correta de reconhecer os abusos e excessos do STF e da narrativa petista.

Enquanto isso, o governo Lula segue demonstrando rancor e ressentimento. O veto de Lula à dosimetria, imposto exatamente nessa data simbólica, escancarou que a crueldade não é um efeito colateral da perseguição: é uma escolha política fria, covarde e calculista. Lula e o PT precisam do conflito permanente, do medo e da intimidação para manter sua base mobilizada. O discurso de “paz e amor” do passado ou de “união e reconstrução” do presente nunca passou de propaganda, de slogans criados para efeitos de marketing, enquanto a prática seguiu sendo exatamente a oposta.

Enquanto a narrativa do golpismo se esboroa, os escândalos se acumulam. Petistas voltaram à cena do crime, como certa vez profetizou Geraldo Alckmin, e decidiram dobrar a meta, como já entoou outro poeta. A CPMI do INSS avança aceleradamente sobre o roubo dos aposentados e sobre o envolvimento de figuras próximas ao núcleo do poder, como Fábio Luís da Silva, o Lulinha. O filho de Lula já é apontado em relatórios da Polícia Federal como beneficiário de uma mesada de R$ 300 mil, pagos por lobistas do esquema que assaltou idosos, velhinhas e pessoas com deficiência.

Também cresce a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal. Em particular, sobre o até então todo-poderoso ministro Alexandre de Moraes. O outrora incontestável e intocável ministro, protegido de quase toda a grande mídia brasileira, está no foco de um escândalo com potencial para derrubar o que restou da República. A descoberta de um contrato de R$ 129 milhões da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o banco Master, foi o estopim para a mudança de humor da imprensa em relação ao ministro. As revelações de que o próprio Moraes tentou interferir nas decisões do Banco Central relativas à transação comercial entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master aumentaram a pressão, e a instalação de uma CPMI para investigar o escândalo é, regimentalmente, apenas questão de tempo, com a volta do recesso para iniciarmos os trabalhos também no Congresso, pois as assinaturas parlamentares necessárias já foram superadas com folga.

O 8 de janeiro de 2023, portanto, não pertence ao PT nem ao STF. Ele pertence à história – e a história não costuma ser gentil com regimes que se sustentam na mentira, na censura e na perseguição. Estratégias baseadas em comoção artificial podem funcionar no curto prazo, mas inevitavelmente caem quando confrontadas com a realidade. E a realidade, tanto para petistas como para os ministros do STF, não lhes está sendo nada favorável, diferentemente de três anos atrás.

O Brasil vive em 2026 um ano decisivo. A soberania popular, sufocada por um Estado hipertrofiado e por instituições capturadas, precisa ser reafirmada. Assim como na Venezuela, onde já não há democracia constitucional e soberania popular, também no Brasil a situação é crítica. Democracia não é tutela judicial, não é censura, não é medo. Democracia depende de povo livre, Parlamento forte, respeito à Constituição e responsabilidade institucional com as leis e com as garantias fundamentais.

Este 8 de janeiro de 2026 deixa cada vez mais claro quem são, de fato, os verdadeiros golpistas. E deixa ainda mais claro que nenhuma injustiça é eterna. A mobilização cívica, a coragem de denunciar e a recusa em normalizar o abuso seguem sendo as únicas respostas possíveis. Não desistir não é apenas a única opção moral do brasileiro: é dever histórico de quem acredita e quer a volta da democracia, da justiça e da liberdade no Brasil.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DA LÍNGUA E SEUS DERIVADOS

Tá pra tu!…

Aos 10 anos fui severamente advertido por minha mãe porque estirei a língua para uma coleguinha da escola. Nos idos de 1940, o ato representava um palavrão silencioso, a “mímica fulminante”.

A propósito de palavrões, volto no tempo para contar a historinha do primeiro palavrão que minha língua soltou, aos cinco anos.

Tentando fazer uma engenhoca aproveitando uma caixa de madeira, arranjei uns pregos e um pequeno martelo e mandei brasa. Numa das marteladas, deixei o dedo no lugar da cabeça do prego e tome lapada!

Sem verter uma só lágrima, corri pra cozinha e perguntei a “Teteza”: “Tia, eu já posso chamar pinóia?” E com a complacência dela, achando a maior graça, mandei ver. Dei um grito de revolta: “Ora pinóia!!!”.

A língua – me parece – ainda não foi bem estudada pelos cronistas; apenas pelos antropólogos. Primeiramente que é o órgão do corpo humano da mais alta importância, face às suas múltiplas funções; E bota função nisso.

Kant afirmou: “Quando o vinho entra a língua se solta.” Bem, aí está o perigo, porque a língua não é o órgão pensante!

Há um bocado de tempo fiz parte de uma troça carnavalesca, formada por jornalistas, cujo título era: “Língua Ferina”. Nada mais próprio do que se qualificar a profissão com expressão tão mordaz.

Em suma poderemos afirmar que vai longe a lista da língua e seus derivados.

DEU NO JORNAL

AS REALIDADES ESCONDIDAS NOS BONS NÚMEROS DO DESEMPREGO

Editorial Gazeta do Povo

Os números fechados do desemprego no Brasil devem ser divulgados pelo IBGE no fim de janeiro, e espera-se a repetição dos últimos resultados positivos, já que dezembro costuma ser um mês aquecido, especialmente no comércio. Governistas e seus aliados na opinião pública já salivam com a possibilidade de usar os números – especialmente o principal deles, a taxa geral de desemprego, que foi de 5,2% no trimestre móvel encerrado em novembro, o menor valor da série histórica – como ferramenta de campanha eleitoral. O mercado de trabalho aquecido é de fato uma realidade, mas também é preciso não apenas matizar alguns números e entender que parte desse dinamismo se deve a uma estratégia que cobrará seu preço no médio prazo.

Os dados já publicados pelo IBGE permitem formar um retrato interessante do período de 12 meses transcorrido entre o trimestre móvel encerrado em novembro de 2024 e o trimestre móvel encerrado em novembro de 2025 (o último período cujas informações foram divulgadas até agora). A população total ocupada, por exemplo, saltou de 101,916 milhões para 103,019 milhões, aumento de 1,08%. No entanto, o crescimento se deu de forma desigual entre setores, e o principal contraste está entre o setor privado e o público. Os empregados no setor privado (exceto trabalhadores domésticos, cujo número caiu) foram de 52,493 milhões para 52,986 milhões, uma elevação de 0,94%, enquanto no setor público o crescimento foi de 3,8% (de 12,617 milhões em novembro de 2024 para 13,1 milhões em novembro de 2025).

O grupo com a maior elevação em números absolutos foi o dos trabalhadores por conta própria, que ganhou quase 700 mil pessoas nos 12 meses entre novembro de 2024 e de 2025, elevação de 2,9%. Aqui, é positivo verificar que a formalização ganhou espaço, pois a quantidade de trabalhadores por conta própria com CNPJ subiu 6,2%, enquanto os sem CNPJ aumentaram 1,7% – embora este grupo ainda seja 2,7 vezes mais numeroso que aquele. A formalização também ganhou tração no setor privado: enquanto, como vimos, o número total de empregados nesse setor subiu menos de 1% entre novembro de 2024 e novembro de 2025, os trabalhadores com carteira assinada foram de 38,375 milhões para 39,354 milhões, com elevação de 2,5%. Apesar disso, as taxas de informalidade não se afastaram dos 38% ao longo de todo o ano passado.

Uma outra ressalva interessante vem de um estudo da Fundação Getulio Vargas. Segundo o pesquisador Bruno Ottoni, o envelhecimento da população tem participação na queda do desemprego, já que o ritmo de idosos saindo da força de trabalho é mais veloz que o de jovens ingressando no mercado, um resultado óbvio considerando a queda na natalidade e o aumento da longevidade do brasileiro. Se a pirâmide etária do Brasil em 2025 fosse a mesma de 2012, o desemprego no segundo trimestre do ano passado teria sido de 7,8% em vez de 5,8%, lembrando que o IBGE considera desempregado aquele que está buscando inserção no mercado de trabalho, e não aquele que simplesmente está sem trabalhar.

Por fim, não há como dissociar o dinamismo atual do mercado de trabalho aos inúmeros estímulos governamentais – principalmente do governo Lula, mas também de estados e municípios. Projeções de seis instituições financeiras ouvidas pelo Estadão/Broadcast apontam que, do crescimento de 1,7% no PIB previsto para 2026, mais da metade (0,9%) virá de estímulos governamentais, incluindo a isenção do Imposto de Renda e programas como o Luz para Todos, o Gás do Povo e o Minha Casa, Minha Vida. Em outras palavras, o poder público está alimentando um círculo vicioso: o governo aquece a economia, o Banco Central tenta esfriá-la com juros altos, aos quais o governo responde com ainda mais estímulos e superaquecimento. Mais que fundir, esse motor corre sério risco de explodir.

Ninguém haverá de negar que o desemprego em queda é positivo. Mas seria ainda melhor se ela viesse graças a boas políticas econômicas, que tirassem das costas do setor privado o peso que atrapalha as contratações. Em vez disso, a queda atual ocorre por meio de aumento da máquina estatal e como resultado de estímulos que, se por um lado elevam a demanda e puxam a iniciativa privada, por outro criam uma bomba-relógio idêntica a uma outra, bastante recente, em que um período de bonança econômica e crescimento insustentável deu lugar a uma severa recessão. Hoje o quadro é positivo, mas resta saber por quanto tempo ele resistirá.

PENINHA - DICA MUSICAL