DEU NO JORNAL

DESCULPEM SE EU NÃO CHORAR: A CARTA DE CLARICE

Roberto Motta

Policiais durante a Operação Contenção, no Rio de Janeiro.

Policiais durante a Operação Contenção, no Rio de Janeiro

Reproduzo aqui a carta que recebi de Clarice, leitora dos meus livros. Por razões que ficarão evidentes, esse não é seu nome real. Além de mudar o nome, retirei do texto qualquer elemento que permitisse a identificação da autora.

É Clarice quem fala agora.

* * *

Caro Roberto,

Tento me afastar de temas polêmicos e manter o tom positivo nas minhas redes sociais. Mas não consigo me calar por muito tempo, principalmente diante do que tenho visto e do que já vivi. Preciso contar minha história.

Fui moradora de uma comunidade (esse é o termo que a mídia usa para se referir a favelas) até casar e mudar para uma linda cidade da serra fluminense. Essas são minhas memórias de infância e adolescência, vividas em uma pequena favela do Rio de Janeiro – infelizmente, não tão pequena a ponto de escapar do domínio do crime organizado. Lembro de voltar da escola ou da igreja sofrendo crises de ansiedade, pela possibilidade de encontrar com uma vítima da sociedade armada de fuzil na esquina, ou até na porta de casa. Sofria do medo permanente de me encontrar em meio a uma troca de tiros – um fato corriqueiro naquele lugar.

Lembro também de acordar apreensiva e ver meus pais saindo de madrugada para trabalhar, depois de ter ouvido tantos tiros na noite anterior.

Lembro de passar madrugadas acordada, tremendo (literalmente) de medo, ouvindo correria, gritos e tiros – muitos tiros – que pareciam estar sendo disparados dentro de casa. Isso não ocorria apenas durante operações policiais. Na maioria das vezes, tratava-se de briga entre as facções.

Lembro de ter a casa invadida duas vezes. Em uma dessas ocasiões as “vítimas da sociedade” apontaram fuzis para meu avô, ameaçando “furá-lo todo” se ele não abrisse o portão.

Lembro de um dia em que minha mãe (que era muito cuidadosa) não me deixou descer para brincar na rua, porque a favela tinha sido invadida por outra facção e havia perigo. Depois daquele dia, nunca mais desci para brincar – até que, de repente, eu já não era mais criança.

Lembro de ter crises de pânico ao ouvir passos, conversas e risadas das “vítimas da sociedade” vindas da laje da minha casa, transformada por eles em “escritório” – isso enquanto, sozinha em casa, eu esperava meus pais voltarem do trabalho. Na laje os criminosos escondiam drogas, armas e granadas. Subir na laje para estender roupas era um teste de coragem, assim como descer a escada, à noite, para trancar o portão, torcendo para não levar um susto com o vulto de alguma “vítima da sociedade” escondida no quintal.

Lembro de histórias de pessoas próximas, pais de família, que tiveram que abandonar suas casas só com a roupa do corpo, sob ameaça de morte, por não ceder o carro para ser usado pelo movimento ou facção Lembro de um pai de família assassinado no “micro-ondas” por ter pedido educadamente que as “vítimas” parassem de usar drogas no portão de sua casa.

Lembro de tantas coisas, a maioria bem ruim.

A polícia comete erros? Há corrupção e excessos? Claro. Mas eu garanto: nada se compara ao terror que é viver sob o domínio de uma facção!

Me surpreendo com as pessoas que se sensibilizam mais com criminosos mortos em uma operação policial do que com os trabalhadores honestos que, diariamente, perdem suas vidas ou sua saúde mental pela ação cruel e deliberada desses criminosos. Quem pensa assim não tem noção do que é a realidade de uma favela.

Me desculpem se eu não chorar a morte de quem leva tanta desgraça, ruína e terror a populações inteiras. Eles escolheram esse caminho.

Não venham me dizer que “foi a sociedade” que fez isso ou aquilo. Para cada menino da favela que escolhe pegar em armas, há outros cem que escolheram um livro ou uma carteira de trabalho. Eles são frutos do mesmo meio – muitas vezes os honestos vivem em condições ainda piores do que aqueles que escolheram o crime. Essa é a realidade que vi na minha pequena comunidade: é sempre uma minoria que escolhe o crime, a facção, e que faz a população inteira de refém.

E sim, acredito que em Deus há perdão, redenção e regeneração esperando esses indivíduos. Mas desde que exista antes uma coisa chamada ARREPENDIMENTO.

Mas, quando um homem, voluntariamente, aponta uma arma e fuzila pessoas inocentes (incluindo policiais), ele já escolheu o infortúnio como destino, e se sujeita às consequências de tal escolha.

Sejamos lúcidos.

Clarice.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CANTIGA PARA NÃO MORRER – Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento

José Ribamar Ferreira, o  Ferreira Gullar, São Luís-MA, (1930-2016)

DEU NO JORNAL

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO – E NA JANELA

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?

Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”.

Mt 6,26-29

Lírios da Paz no campo

O mundo está moderno. Pessoas estão a caminho e, deduz-se, vão demorar chegar para um encontro. Outras, faz tanto tempo que chegaram, estão ávidas para ir embora – deixando o encontro para Pasárgada. Mas, é bom lembrar que, lá, nem todos são amigos do Rei.

Elvira, “Vivi”, filha primogênita e única daquele casal que herdou fortuna dos pais e dos avós. Fazendeiros ricos que continuaram investindo no agronegócio no interior goiano. Investiram, duplicaram a riqueza e empregaram centenas de pessoas. Boa gente, melhor dizendo.

Além do alto investimento na bovinocultura e ovinocultura, o casal investiu, também, na floricultura. Os resultados imediatos satisfizeram e, nesse campo, o investimento foi maior, quando problemas familiares surgiram.

Vivi, filha do casal, sentia incômodos e deficiência visual. Diagnosticada, adquirira doença visual rara, de nome “presbiopia”, provavelmente fruto de sequelas de uma toxoplasmose.

O patamar financeiro dos pais de nada servia para resolver o problema de Vivi. Os pais se dedicaram inteiramente à filha. Nada lhe faltava.

Vivi não ficou cega. Teve acuidade visual diminuída em noventa por cento, o que lhe causava profunda tristeza e irritação. O amor e a dedicação dos pais aliviavam os problemas.

A rotina doméstica mudou intempestivamente. O pai, que se acostumou a resolver quase todos os problemas ao lado da esposa, passou a resolvê-los só. A mãe precisou dividir as tarefas diárias, dedicando a maioria delas à Vivi.

A parte da manhã era rotina um passeio no campo, onde os “lírios da paz” – todos brancos! – eram cultivados. Vivi acompanhava a mãe, que aproveitava para colher ramalhetes de lírios que colocava num vaso na janela. Todo dia os lírios eram trocados, e a janela, sempre aberta, permitia que o vento perfumasse levemente os aposentos de Vivi.

– Vamos filha! Vamos passear no campo e colher lírios!

– Vamos mãe. Já estou pronta. O que a senhora faz com os lírios que são substituídos?

– Tiro uma das pétalas e guardo. Depois, dou o destino necessário pata as pétalas que sobram. Rezo, e as jogo no córrego pedindo Paz!

– Deus tem sido bom e tem atendido seus pedidos?

As duas saem em direção ao campo. O vento trazia um perfume inconfundível, enquanto mãe e filha caminhavam em passos lentos, usufruindo a paz dos lírios no campo.

Por um momento, o comentário de Vivi (“que coisa mais linda mamãe, a beleza de cada lírio branco contrastando com o verde das folhas”) chamou a atenção da mãe, e lágrimas rolaram pelos seus olhos.

– Nem duvido que você esteja vendo tudo isso, filha!

– Deus é bom, mãe. Sinto, como se estivesse vendo!

E as duas se abraçaram fraternal e carinhosamente. A mãe aproveitou para colher os ramalhetes de lírios brancos. As duas, agora em passos mais lentos para aproveitar aquele momento de paz e felicidade, voltaram para casa.

Os lírios do vaso na janela foram trocados. A mãe arrancou suavemente uma pétala e guardou. Saiu da casa e foi até o córrego, onde “ofereceu” aos santos, os lírios brancos da paz.

No novo dia que chegou, após o café matinal, e antes da saída do pai para o trabalho na granja, Vivi pediu:

– Pai, compra um computador e me dá de presente!

Ainda que achasse aquele pedido estranho, o pai ouviu e nada respondeu. Os dias se passaram e o computador com teclado apropriado foi instalado no cômodo de Vivi.

Os dias de Vivi passaram a ser diferentes. Mais alegres. Parecendo até que algumas horas foram acrescentadas nas vinte e quatro normais. Apesar disso, os passeios no campo de lírios não diminuíram. Ao contrário. Ficaram mais divertidos e aquilo alegrava também a mãe de Vivi. Era visível a felicidade da filha, ainda que acometida de problema tão grave e de difícil solução.

Certo dia, operando o computador, Vivi falou em voz alta:

– Como é você? Perguntou Vivi, no exato momento que a mãe entrava no quarto com uma pequena bandeja nas mãos. O susto foi enorme.

– Com quem você está falando filha? Perguntou a mãe, aflita!

– Com um rapaz que conheci ontem no Facebook. Respondeu Vivi.

– Deus dos céus! (“Minhas preces quando jogo os ramalhetes de lírios no córrego estão sendo ouvidas por Deus”)

Além do teclado especial para deficiente visual, o pai de Vivi comprou, também, fones/microfones modernos, o que permitia que a filha mantivesse contatos com outras pessoas.

Aquele era um momento diferente. Frank, o nome do interlocutor e, agora, amigo de Vivi.

A casa recebeu novo astral. A preocupação com a “presbiopia”, contraída por Vivi diminuiu ante a possibilidade de recuperação total: graças ao amor.

Vivi nunca falou para Frank o seu problema visual. Os momentos de alegria com o relacionamento superaram qualquer necessidade de revelação. O amor poderia curar tudo.

Uma visita de Frank à casa de Vivi foi marcada. Chegado o dia, Vivi recebeu da mãe o comunicado que a visita havia chegado. As duas preferiram receber o visitante no cômodo onde Vivi permanecia sempre. A janela foi aberta. As cortinas foram amarradas e o ar puro que entrava fazia do cômodo um lugar prazeroso.

A mãe de Vivi convidou Frank para ir ao encontro da filha, no quarto. Os três estavam juntos. A mãe preferiu deixá-los a sós. Vivi, tão emocionada com o momento, permaneceu sentada e acessando o computador.

Frank se aproximou, cumprimentou Vivi. A jovem pediu para que Frank lesse uma postagem recente que fizera. Só então Frank percebeu a diferença especial do teclado, concluindo que Vivi era cega. Embora não fosse.

Lírios da Paz na janela

Vivi levantou, cumprimentou Frank e o convidou a ir até a janela, de onde poderiam olhar os lírios no campo.

Aquele horizonte branco que apareceu, visto da janela, por um momento foi visto pelos dois. Vivi, intempestivamente, viu o campo repleto de lírios da paz. Agora, também do amor.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA