JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (41) ‒ RELIGIOSOS

Todos os países têm suas festas religiosas. As nossas vieram de Portugal, conhecidas lá como dos Santos Populares. O curioso é que também herdamos o costume de dividir a devoção por regiões. No Sul de Portugal, sobretudo Lisboa, é Santo António, que encontrou seu destino em Pádua, mas naquela cidade nasceu. Num 13 de junho; mesmo dia em que nasceria bem depois, em 1888, o poeta Fernando António Nogueira Pessoa (Fernando, em homenagem ao filho de uma parenta, dona Teresa Tavares Martins de Bulhões; António, em latim o que está na vanguarda, devoção ao santo; mais os sobrenomes, em Portugal apelidos, da família ‒ Nogueira, da mãe; e Pessoa, do pai, indicando suas origens sefaraditas). Enquanto, ao Norte, é São João. Sobretudo no Porto, Cidade Invicta. Aqui no Brasil, também. No Sul, feriado é Corpus Christi. Enquanto, em boa parte de Nordeste e Norte, São João. Nossa maior festa popular, que celebramos agora. Embalados por Luiz Gonzaga, “Olha pro céu meu amor”… E assim, entre São João e São Pedro, seguem mais conversas, hoje só com religiosos, amigos dos tais santos, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

DOM AGNELLO ROSSI, núncio apostólico (uma espécie de embaixador do Vaticano, no Brasil). História contada pelo padre Pedro Rubens. Vivia em Brasília e foi visitar Fortaleza. O Bispo local perguntou

‒ Vossa Eminência está cansada?

E ele, italiano e ainda aprendendo as concordâncias do português, respondeu

‒ Morta…

Dom BASÍLIO PENIDO, abade do Mosteiro de São Bento (Olinda). História contada por Irmão José. Um frequentador da igreja reclamava das famílias de pedintes que ficavam assediando os fiéis que iam as missas, à entrada, mostrando filhos pequenos que teriam doenças graves.

– O ruim, Dom Basílio, é que eles mentem muito.

– Não é tão grave, meu filho.

– Como?

– É que eles mentem para comer.

Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia. Luciana, minha filha menor,

– Arretado!, padre.

– Cuidado com esse palavreado, Lulu.

– Padre Edwaldo, arretado pode?

E ele, depois de pensar um pouco,

– Poder pode, minha filha. Até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta que o pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.

DOM FERDINAND AZEVEDO, historiador americano. História contada por padre (que pediu para não escrever o nome), seu amigo. Viveu 90 anos no Brasil e jamais aprendeu as concordâncias de nossa língua. Chegou para morar na residência dos jesuítas, no Recife, e logo se dirigiu aos funcionários da casa

‒ A partir de hoje, no fim dos dias, todos vocês devem limpar o cuzinha.

Dom HÉLDER CÂMARA, arcebispo de Olinda e Recife. Bate na sua porta um pedinte, querendo roupas que as suas estavam rasgadas. Dom Hélder lhe deu uma calça. Zezita, que era sua guardiã (até o fim), o censurou

– Mas dom Hélder, o senhor tem só duas calças.

– E o pobre, Zezita, que não tem nenhuma?

Padre JOÃO PUBBEN, da Igrejinha das Fronteiras. Prometi uma caixa de vinhos e ele escolheu um português, Periquita. Pode? Um Padre? Mandei, junto com esse bilhete

– Todo homem de valor
Se revela pecador
Quando apreciador
De coisa boa e bonita
Mas me causa estupor
Ver alguém como o pastor
Que é quase um Monsenhor
Sendo admirador
Dessa tal de periquita.

Dom JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal. Dia seguinte à sua posse como Cardeal, no Vaticano, ofereceu almoço para os amigos. Preparei discurso que começava assim

– O treinador do Flamengo (à época), Jorge de Jesus, é também português. E hoje, no Brasil, Jesus é Deus. Os amigos de Tolentino são bem mais modestos. Não querem vê-lo como Jesus. Nem, muito menos, Deus. Para nós, basta que um dia ele seja Papa.

LILI FALÂNGOLA, empresária. Convidou Madrinha Neiça para uma festinha, na sua casa, e a outra

‒ Sabe quando eu vou?, no dia de São Nunca.

Passa o tempo e Lili, num 1º de novembro, preparou churrasco pantagruélico. Chamou amigos e, primeiro a chegar, foi a tal Madrinha.

‒ Oi, e você não disse que só vinha no dia de São Nunca?

‒ Verdade, e é hoje, o Dia de Todos os Santos.

Dom LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, secretário geral da CNBB. De nossos almoços, todas as quartas, guardo só lembranças boas. Como refrescos de laranja bem gelados. Ou o Bliss, que tomava sempre dom Ivo Lorscheiter no seu corpo de atleta. Ou a comida simples, com sabor caseiro. Então disse

– Uma das coisas que não entendo na Igreja, dom Luciano, é a restrição à Gula. Como pode coisa tão boa, que é comer, ser pecado? E logo mortal?, um dos sete capitais.

Ele, com sua imensa capacidade de consensualizar, argumentou

– Você não conhece a Santa Gula?, meu filho.

– Que história é essa?

– É assim. Quando você come muito, e não quer que mais ninguém coma, é pecado. Mas quando você come, e quer que todo mundo coma tanto quanto você, é virtude. A Santa Gula.

LUZILÁ GONÇALVES, escritora. Madrugada, ligou amiga pedindo ajuda que o marido estava quase morto. Luzilá teve que ir a colégio de freiras que acolhiam padres. Encontrou um, já bem velhinho, e disse que precisava dele para dar a Unção dos Enfermos. Tudo acertado, inclusive o preço. Mas o velho quis tomar café, antes de partir. A freirinha que lhe atendeu, com toda paz do mundo, preparou tapioca e cuscuz que ele comia com prazer. Sem pressa. E o tempo ia passando.

– Padre, queria lembrar que o homem está se acabando.

– Tenha calma, filha, Deus é paciente.

– Deus eu sei que é, padre. Só não estou certa é que o doente possa esperar tanto tempo.

Afinal, chegaram no apartamento. O padre leu Breviário e belo Ofício aos Mortos. Diante de um paciente largado na cama, lívido, com os olhos fechados. E todos rezando. Ocorre que, de repente, o quase defunto deu um pulo

– Que merda é essa?! A gente nem pode mais dormir em paz?!!, porra!!!

Em resumo, o homem estava era de porre. Coma alcoólico. Foi só engano da quase viúva.

MAURO MOTA, da ABL. Dona Santinha, sua irmã, tomava conta de outro irmão, Dom Mota, arcebispo de São Luís (Maranhão). Carola, quando escrevia cartas para Mauro começava dizendo

‒ São Luiz, cidade pagã…

Confessava-se todos os dias. Já meio surda, gritava os pecados. E, o padre, sua penitência. Para evitar constrangimento acertaram que ela entregaria, no confessionário, a relação de seus pecados mortais. Os cometidos na véspera. E o padre lhe mostraria qual seria sua penitência. Por cautela deixou já pronta, num canto, essa relação, sempre 3 Padres Nossos e 3 Aves Marias. Dando-se que certo dia Mauro roubou, de seu missal, os tais pecados do dia e nos mostrou. Eram três.

‒ Ontem, não rezei o Rosário completo.

‒ Olhei para trás na missa.

E, mais grave de todos,

‒ Tentativa de mau pensamento.

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ANOTAÇÕES (3)

Seguem mais anotações.

1. ESTADOS UNIDOS. Como a maioria dos leitores não tem ideia precisa de como funcionam as coisas, tão longe de casa, vão aqui informações curiosas sobre sua economia:

1. APOSENTADORIA.

• Idade mínima é 62 anos.

• O valor varia numa escala relacionada aos anos produtivos e a idade do recolhimento dos valores correspondentes à aposentadoria.

• Esse valor inicial, de quem se aposenta com 62 anos, é 30% menor que aquele de quem se aposenta aos 70.

• Não há ligação entre o último salário recebido e o valor do pagamento do Social Security. E normalmente esse valor da aposentadoria é (bem) menor.

• Organizações sociais criam pacotes de aposentadorias, descontados automaticamente dos salários.

2. APOIO MÉDICO.

• O Medicate and Medical Services começa aos 65 anos, para todos, independentemente do tempo trabalhado por cada um.

3. SALÁRIOS.

• O salário mínimo federal é de 7,25 dólares por hora; e não teve reajuste, no país, desde 2009. Nem há projetos de ter, no futuro próximo.

• Ocorre que os Estados americanos têm seus próprios salários. Em 34 dos 50 Estados, o salário mínimo é maior que o federal.

• O da Califórnia é o dobro, 15 dólares por hora.

• Em Oregon, na área metropolitana, é de 15,95 dólares, variando nos condados por categorias (rural/urbano).

4. BRASILEIROS.

• O salário dos brasileiros que por lá estão trabalhando é de, no mínimo, 200 dólares. Mas quase sempre acaba sendo bem mais.

5. SINDICATOS.

• As questões entre empregados e patrões são todas resolvidas com negociações dentro da própria empresa. Em alguns casos, com participação de sindicatos. Sem Justiça, no meio.

• A força dos Sindicatos, usualmente, depende da atividade do empregador. Alguns sendo mais fortes que outros.

• Em algumas áreas, como da saúde, é comum agréments com duração de 2 anos.

6. FÉRIAS.

• Férias dependem de cada trabalho.

• Trabalhadores podem escolher tirar férias acumuladas ou por dias.

• Não existe, ali, a regra federal dos 30 dias automáticos de férias anuais.

• Adicional das tais férias, como no Brasil, esqueça.

7. LICENÇA MATERNIDADE.

• Mulher, ao nascer filhos, tem direito à licença maternidade.

• Mas essa regra varia de Estado a Estado.

• Em alguns casos, podem corresponder até a 12 semanas.

• Dependendo do Estado, há pagamento total pelo empregador, ou pagamento parcial, ou mesmo pagamento nenhum.

8. ESTABILIDADE.

• A estabilidade no emprego depende dos contratos de trabalho.

• Em algumas categorias, é difícil demissões individuais durante a duração dos contratos.

9. INFORMAÇÕES ADICIONAIS.

• 13º salário, Zero.

• Adicional noturno, zero.

• Estabilidade no emprego, zero.

• Carteira de Trabalho, zero.

• Justiça do Trabalho, zero.

10. Isto posto, alguém estaria disposto de abandonar o Brasil para ir morar lá?, eis a questão.

2. SINDICATOS. Não são muitos, em canto nenhum. Os Estados Unidos têm o maior número, 191. Só pouco mais que África do Sul, 190; Reino Unido, 168; Dinamarca, 161; Argentina, 91. A média, no mundo, não chega a 100. Em Portugal, por exemplo, tentei por todos os meios saber e o governo silencia. “Não chega a 100”, respondem. E no Brasil? Seriam em torno de 16.700. Por favor não ria, leitor amigo, mas cerca de 90% dos sindicatos do planeta estão por aqui.

Qual a razão?, é simples. Dando-se que, nos outros países, só paga sindicato quem se associa. No Brasil era obrigatório ‒ Imposto Sindical, assim se chamava ‒, correspondente a um dia de trabalho/ano. E assim foram nascendo sindicatos, por todo canto, como uma boquinha garantida. Até que, na Reforma Trabalhista de 2017, também adotamos essa regra de pagamentos só de quem quiser fazer parte deles. Para uma ideia dos montantes que representaram, no último ano de Imposto Sindical obrigatório, as Centrais Sindicais receberam: CUT, 62,2 milhões; Força Sindical, 51,3; UGT, 46; NCST, 24,2; CTB, 15,4; CSB, 14,1 milhões.

Sem contar que vivemos um sistema de “Unicidade Sindical”, em que só pode haver um sindicato por categoria profissional. Impedindo a competição, entre eles. Diferente do resto do mundo. Agora, o novo governo brasileiro quer voltar o tal Imposto Sindical obrigatório, com outro nome, para alegria dos sindicalistas profissionais que vivem dele. E o Supremo já se apressou em colaborar com essa trama, como sempre nos últimos tempos. E tudo por cima da decisão do Congresso que, numa Democracia, deveria ser respeitada.

Olhando para a grandeza dos números, e para a voracidade com que os sindicalistas reivindicam, lembro o amigo Millôr (Nelson Rodrigues dizia que a frase era dele, um dia vou relatar a versão que o próprio Millôr me contou, bem mais confiável), num artigo do JB, “dinheiro compra tudo, até amor sincero”. Compra mesmo.

3. NELSON DA MASTERBOI. Nelson Bezerra, empresário no ramo dos frigoríficos, tem um em Canhotinho (Pernambuco) com abate diário de mais que mil bois. Estava num restaurante, em Boa Viagem, falando no celular com seu gerente. Só que a ligação estava péssima, quase não dava para ouvir, e tinha que falar bem alto. O problema relatado é que havia, naquele momento, só pouco mais de 40 cabeças disponíveis. O gerente queria saber se faria o abate logo ou melhor esperar por mais bois, para agilizar a produção. E Nelson, aos gritos,

‒ Mate todos! Agora!! Pode matar!!!

Foi um pandemônio. Pois todos os frequentadores do lugar, pensando que os mortos seria pessoas como eles, foram embora correndo. Na hora. Com medo (talvez) de serem os próximos.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

PRIVATIZAR PRAIAS, A FAKE DO ANO

Lisboa. O começo desse desvario foi uma troca de farpas, no Instagram, entre a atriz global Luana Piovani e o jogador Neymar, da seleção brasileira. Ela, com modestos 5,4 milhões de seguidores, não tinha o que perder; ele com muito mais, 221 milhões, sim; e os dois com inveja de Cristiano Ronaldo, o ser humano mais seguido no planeta, com 631 milhões ‒ mais de 3 milhões de dólares por postagem e faturamento no aplicativo, ano passado, de 107 milhões de dólares.

Nesse descaminho logo se uniu, a Luana, muitos ambientalistas ansiosos por fama que acusam um Projeto de Emenda Constitucional, já aprovado pela Câmara e hoje no Senado, de permitir a “privatização das praias”. E a imprensa do Sul, contritamente, por ser um discurso politicamente correto. Certo ou errado?, não estão nem aí. O problema é que nenhum deles ‒ nem o jogador, nem a atriz, nem os radicais ambientalistas, nem quase nenhum jornalista ‒, nenhum deles teve sequer curiosidade para ler a tal PEC. Vamos ao passado que, como na conhecida marchinha de carnaval, Recordar é Viver.

Nosso Brasil ainda fazia parte de Portugal quando, por conta das frequentes invasões estrangeiras que aqui sofremos ‒ de Espanha, França e Holanda ‒, cuidou o Reino de proteger as embocaduras dos rios buscando evitar o desembarque de tropas, cavalos e armamentos pesados. Veio daí também a definição de nosso mar territorial, não por acaso a distância do alcance máximo de um tiro de canhão, em 6 milhas marítimas (passando, em 1970, a 200).

Em 1726, ordem régia de Dom João V, O Magnânimo, estabeleceu que ninguém pudesse alargar suas casas “um só palmo para o mar” sem licença do Reino. E já no Brasil República, com o Decreto 4.105 (de 22.02.1868), afinal ficou explicitada uma das razões básicas dessa reserva de terras, o interesse na “defesa militar”. Porque ali, nessas áreas, poderia ser necessário postar canhões, importante defesa ante as embarcações estrangeiras da época, algo que não seria possível caso houvesse alguma construção no local.

Mas não apenas isso. Também importante e até mais, num país sufocado por sua dívida com a Inglaterra (herança de nossa Independência), foi o “aumento das rendas públicas”. Levando a enorme reação dos súditos. Inclusive no Recife; quando, em 1902, certo dr. Ferrer protestou dizendo que “foi insidiosamente aumentado o patrimônio da nação, em detrimento do público. Bem saberes que hoje procura-se sofisticar a Constituição tirando insidiosamente para a União tudo”.

Com aquele Decreto, segundo o § 1o do seu art. 1º, passaram a ser “terrenos de marinha todos os banhados pelas águas do mar ou dos rios navegáveis que vão até a distância de 15 braças craveiros (33 metros) para a parte de terra”. Uma pequena faixa, pois. Que, com o tempo, foi se alterando: aos poucos desaparecendo (em caso de regressão marítima); ou, ao contrário, ficando mais longe da água (quando as areias vão aumentando). Além dos aterros.

Trata-se de uma invenção brasileira, bom lembrar. Para comparar, nos demais países, a área que permanece em domínio público é tão somente aquela necessária “ao exercício dos direitos ordinários de acesso e vista”. Sem um padrão único. Em Portugal e Argentina, por exemplo, apenas 8 metros. No Chile, 20. Em Alemanha, Bélgica, Espanha, França e Inglaterra, 50. Só que, neles, define-se apenas áreas de domínio público, jamais interferindo naquelas usadas por seus habitantes. Nenhum espaço privado sendo alcançado pelo poder público, nesses países.

Terrenos de marinha são aqueles, portanto, que se situam numa faixa de 33 metros a partir da preamar média (preamar é corruptela que vem de pleno mar) de 1831. A média das grandes marés que ocorreram excepcionalmente nesse ano. Tudo como regulado, hoje, pelo Decreto-Lei 9.760/1946. Com problemas graves, como o fato de que terrenos sujeitos a “Ocupação” (quase todos, que só uns poucos são “Aforados”) não podem ser hipotecados. Impedindo financiamentos. E vedada a Usucapião (Código Civil, art. 102), que admite a regularização de imóveis por conta do tempo. Embora, em Pernambuco, o Tribunal de Justiça venha permitindo essa usucapião no regime da ocupação.

Para evitar dúvidas, vale ressaltar, praias são bens públicos (Lei 7.661/1988). E continuam sendo. O que, salvo bem poucas áreas protegidas (vegetação, vida marinha), garante o pleno acesso a elas pelo público. Sem nenhum impedimento possível. Com PEC ou sem PEC.

Agora, o que nos interessa, onde se situam essas terras no Brasil? Basicamente, subindo, só em Belém, Vitória e Santos. Além do Recife, claro, que foi uma cidade feita sobre áreas alagadas. Como no poema de Edmir Domingues, uma Cidade Submersa.

O resto do Brasil nem sabe do que se trata. Apenas (ou sobretudo) as cidades que sofrem com isso. Sobretudo por conta dos enormes custos, para os particulares, no pagamento anual de foros (hoje, de 0,6% sobre o valor do imóvel) ou taxa de ocupação (2% desse valor), mais laudêmio (5%) em caso de transferência dos imóveis. O curioso, e aqui temos a razão pela qual o governo apoia o projeto, é que o peso financeiro do SPU, ao cobrar, é sempre maior que o valor arrecadado.

A PEC 3/2023 (que sucedeu a 39/2011) nasceu dessa necessidade, incorporado 12 projetos apresentados desde 2008. Era (e é) um tema latente, que interessa a todos os brasileiros. O resultado foi um bom texto, tecnicamente. E sabe o amigo leitor quantas palavras dedica, tal PEC, à privatização das praias? Ou que, de alguma forma, poderiam ter alguma repercussão nisso? Nenhuma. Dá para acreditar?

Tudo está muito bem estruturado em só quatro artigos. O que é do Governo Federal, permanece com ele (art. 1º, I); o que é afetado por Estados e Municípios, também com eles, sem custos (art. 1º, II); os em mãos dos particulares, em direito de ocupação e aforamento, áreas que já eram usadas por esses particulares, mediante pagamento (art. 1º, III, IV). Nada mais, na PEC, afora poucas regras operacionais.

Sem contar que, hoje, a compra de imóveis aforados já vem sendo regularmente feita mediante o pagamento de 17% sobre o valor do imóvel. Ocorrendo normalmente, com imóveis aforados. Sem nenhum problema. Sem alardes. Sem protestos. E sem nenhuma acusação, por ecologistas ou imprensa, de que as praias estão sendo privatizadas.

Em resumo, a possibilidade de qualquer privatização das praias é nenhuma. Zero. Então, cabe perguntar, de onde saiu esse Prêmio Nobel das Fake News, de que praias poderiam ser privatizadas?, eis a questão. Ninguém sabe. Talvez só no barraco da atriz global, para prejudicar um desafeto. E de ambientalistas querendo aparecer, sem se preocupar com a veracidade das teses que defendem. E de jornalistas despreparados que sequer leram os projetos que criticam.

O resultado é que a PEC vai, quase certamente, ir mofar nas gavetas; que os senadores não vão querer, em ano eleitoral, se ligar a um projeto que virou impopular na mídia. O Brasil de hoje está ficando raso. Parece até com a máxima de Fernando Pessoa (texto sem título, nem data), “como sempre, saltamos e erramos”. É pena.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (35) ‒ POETAS

Lisboa. Mais conversas, hoje só com poetas, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ALMADA NEGREIROS, do grupo da revista Orpheu. E amigo de Fernando Pessoa (“Almada, você não imagina como lhe agradeço o fato de você existir”, está em anotação sem data). O episódio ocorreu em 1917. Dando-se que Almada, Santa-Rita Pintor e Amadeu de Sousa Cardoso conversavam quando vem cumprimentá-los o poeta saudosista (autor de Dizeres do povo), ligado ao movimento conservador Renascença Portuguesa, António Correia de Oliveira. E Almada, vestido num fato-macaco (macacão de operário), o saúda

– Bom dia, Oliveira de Correia António.

– Perdão, é António Correia de Oliveira.

– Isso é para o senhor que está daqui para ali, mas eu estou dali para aqui.

ANTONIO CARLOS SECCHIN, da ABL. Manuel Bandeira dizia que um poema de Racine, composto por 12 versos monossílabos, seria impossível de igualar: “Le jour n´est pas plus pur que le fond de mon coeur” (O dia não é mais puro que o fundo do meu coração). Secchin conseguiu essa proeza memorável com o enorme poema Luz

– Ao ver
o não
que sai
da dor
o som
da voz
já vai
no sim.
no tom
do céu
não vi
mais luz
do que
no sol
que há
em mim.

BARTYRA SOARES, da APL. O dramaturgo Aristóteles Soares (seu tio) foi expulso de um bar, em Catende (cidade com larga tradição açucareira, em Pernambuco). E decidiu continuar a serenata na rua, ele e seu violão, atrapalhando a madrugada. Num desafio ao delegado, que proibiu barulho. Acabou preso. E o tira

– Me acompanhe, cachaceiro.

– Em que tom?

Por conta dessa graçola, o seresteiro levou uma camada de pau, da polícia, e passou um mês sem poder cantar.

BOCAGE, poeta português. Foi mais um poeta preso pela Inquisição. E, como Pessoa, também escrevia por heterônimos – Lidio ou Elmano (anagrama de seu primeiro nome, Manoel) Sadino. Saía do Nicola, botequim de Lisboa onde se encontravam políticos e literatos, para ele “o último café do Rossio” (ainda hoje, fica em frente à Praça). Bem ao lado, no Chave de Ouro, deu-se mais tarde (em 10/05/1958) famosa conferência à imprensa. Em que o correspondente da France Press, Lindorfe Pinto Basto, perguntou “Se for eleito presidente da República, que fará?” com Salazar. E Humberto Delgado, o general sem medo, respondeu “obviamente demito-o”. Delgado acabaria assassinado pouco depois, em 13/02/1959, na fronteira de Badajoz, por um comissário da polícia de Salazar, mas essa é outra história. Voltando ao botequim. Amigos se fingem de bandidos e, simulando um assalto, perguntam

– Quem és tu?, de onde vens?, para onde vais?

– Sou o poeta Bocage
Venho do café Nicola
E irei pro outro mundo
Se disparar a pistola.

GENTIL PORTO, médico. Escreveu texto sobre nosso poeta de Evocação do Recife. Comentei

– Pena certeira
Bem brasileira
Um vivo, um morto
Manuel, bandeira
E Gentil, porto.

JAYME WANDERLEY, da Academia Norte-rio‒grandense de Letras. Um amigo bodegueiro de Tibau do Sul, incomodado com o tamanho na fila do pendura, pediu ideia para se proteger. E o poeta redigiu na hora versos que estão numa placa, pendurada no estabelecimento, até hoje.

– Para não haver transtorno
Aqui neste barracão
Só vendo fiado a corno
Filho da puta e ladrão.

JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que me mandou desses avisos paroquianos:

‒ Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

‒ Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

‒ O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

‒ O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.

JORGE DE SENA, poeta. Iniciou sua vida de exilado, por conta de Salazar, em São Paulo (depois foi morrer na Califórnia, Estados Unidos). E não gostava de certo Costa Pimpão (Álvaro Júlio da Costa), salazarista, historiador e crítico, professor nas universidades da Bahia e São Paulo, famoso pelas edições comentadas de Rimas e Os Lusíadas – ambas recebidas, em Portugal, com muitas reservas. Razão também das críticas de Sena, com esse Poema do Pimpão que acaba assim

Eis o temível canudo
Que mais irrita o Pimpão
Ter ideias, isso não!
Álvaro Júlio da Costa
De ter ideias não gosta.

MANUEL BANDEIRA da ABL. Em 20/09/1945, a Academia Brasileira de Letras aprovou o primeiro Acordo de Unificação Ortográfica para reduzir diferenças na língua entre Brasil e Portugal. Apesar da oposição feroz de Bandeira. Ao sair de uma reunião preparatória, jornalistas perguntaram

– Qual sua opinião sobre esse acordo?

– Por mim, tudo bem; que, para um poeta, a forma é fôrma (disse a palavra fechando o “o”, como se tivesse circunflexo).

Depois, completou

– Agora, escrevam isso aí sem o acento diferencial.

E foi embora, rindo.

MARCELO CARNEIRO LEÃO, empresário. Antes de morrer, me legou rascunhos de um Dicionário dos insultos pernambucanos. Em poemas. Exemplos. De autor ignorado, sobre o acadêmico Rui Ayres Belo e seu nariz achatado,

– Agita-se na Assembleia
Formidável polichinelo
Que à pretensão de ser Rui
Acrescenta a de ser Belo.

Ou o poeta Manuel Bandeira, que não perdoava seus desafetos na cidade e escreveu

Façam-me uma estátua incrível
De algum novo Donatello.
O mais equestre possível
Eu montado em Mário Melo!

O pintor José Cláudio vivia repetindo poema, Que fim levou Doroteia, louvando o órgão reprodutor de certo cortador de cana

– Usina, só Catende
Caminhão, 13 de maio
Mais seu Júlio no charuto
E Benvenuto no caraio.

A propósito de soneto do sociólogo francês Michel Simon-Brésil, sobre a saudade, comentou Tânia Carneiro Leão

– Michael Simon em verdade
É um gênio, todavia
Nem entende de saudade
Nem entende de poesia.

E bem que se poderia lembrar soneto de Artur Azevedo, Velha anedota, que encerra com um cidadão “frívolo, peralta e paspalhão desde fedelho” dizendo

‒ “Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo te faz preciso?”

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: ‒ Juízo!

Ou soneto escrito por Emílio de Menezes, O plenipotenciário da facúndia (da eloquência, pois), criticando seu colega na Academia Brasileira de Letras, o pernambucano Oliveira Lima. Começa dizendo

– De carne mole e pele bobalhona
Ante a própria vaidade se extasia
Sendo Oliveira, não dá azeitona
Sendo Lima, é quase melancia.

E finda com esse terceto horroroso

– Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.

Como não quero brigar com meio Recife, quando chegar a hora, vou doar (com alguns acréscimos) para quem esteja disposto.

VINICIUS DE MORAES, diplomata e poeta. Às vésperas da Segunda Guerra, voltando de Oxford com a esposa (da época) Tati, precisou de ajuda em Portugal. Na Embaixada do Brasil, omissão total. A duras penas, conseguiu passagens com amigos que moravam por lá. Mas, antes de partir, deixou na mesa do embaixador Araújo Jorge esse bilhete

‒ Meu navio larga às seis
Muito obrigado por tudo
Que Vossa Excelência não fez.
Espero imenso não vê-lo.
Da próxima vez

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

NÃO ESTÁ CERTO

Lisboa. A decisão do ministro Dias Toffoli semana passada (em 22/05), cancelando as penas de Marcelo Odebrecht, não veio sozinha. Na mesma penada, também foram absolvidos José Dirceu, Renan Calheiros e Romero Jucá. Poucos dias antes havia já anulado todas as provas contra o mesmo Marcelo e suspendido o pagamento das multas milionárias de sua construtora, a Odebrecht. Empresários e políticos na mesma barca. Sobre essa decisão de agora considero que pode ser vista por, ao menos, três ângulos ‒ o jurídico (1), o ético (2), e o dos comportamentos (3). Em breves linhas, vamos a eles.

1. Nossa legislação sobre escutas telefônicas, em parte, baseia-se na norte-americana dos Ware Tips. Com tratamentos iguais em alguns temas, como o de reconhecer como prova gravações autorizadas por juízes. E diferentes, como no caso das Consensual Ware Tips, não autorizadas, que nos Estados Unidos são equiparadas a provas circunstanciais. Em outras palavras, sozinhas, não; mas quando junto de outras provas, e diferentes do Brasil, lá são aceitas.

As fitas da Intercept, base de todas as decisões contrárias à Lava-jato, não tiveram autorização judicial. E um dado curioso, sobre elas, é que não temos nem certeza de que sequer existem. Provavelmente sim, mas talvez não. Com dúvidas sobre se as transcrições apresentadas correspondem às gravações. Só para lembrar, hoje, o Ministério Público processa a mesma Intercept, criminalmente, por ter editado imagens e fraudado transcrições no caso Mary (Mariana) Ferrer ‒ está na internet, quem quiser pode conferir. Se falseou, nesse caso da Ferrer, quem garante não ter também falseado no da Lava-jato?, eis a questão.

Perdão, senhores, mas é inaceitável que o Supremo não tenha efetuado perícia nas fitas, nada foi anunciado nesse sentido. Como é estranho que a Grande Mídia não tenha insistido nisso. Mais parecendo uma parceria. Como consideram tão relevante, qual a razão de não provar a veracidade das transcrições? Até para dar dignidade às (supostas) provas. É como se todos desejassem apenas um pretexto, um argumento qualquer para usar na proteção dos que lhe são caros.

De resto a decisão do ministro contraria jurisprudência do Supremo. Já assentado, no Brasil, que gravações não autorizadas, como as apresentadas pela Intercept, valem só como defesa. Imprestáveis, pois, para acusar. Ou provar nada, fora dessas defesas individuais. Razão pela qual, em minha modesta opinião, essas transcrições não valem como prova para embasar as decisões do ministro Toffoli. No plano jurídico, portanto, a decisão do ministro NÃO ESTÁ CERTA.

2. Segundo Marcelo Odebrecht, nas colaborações premiadas que fez, o “amigo do amigo de meu pai”, que consta nas escriturações de propinas da Odebrecht, seria o próprio ministro Toffoli ‒ ver Malu Gaspar em O Globo (23/05). Por sua gravidade, essa questão deveria ter sido examinada melhor pelo Ministério Público. Para, no caso de ser improcedente, ficar livre o ministro de acusação tão grave quanto à sua honra. Podendo ainda processar, quem o denunciou, por calúnia (art. 138 do Código Penal). E, acaso procedente, para que se promovesse o devido processo legal por corrupção passiva que, acaso provado, poderia levá-lo à prisão.

Todos nós, o ministro inclusive, temos conhecimento de como funcionou o Departamento Estruturado da Odebrecht, para pagamento de propinas. E lemos nota pela empresa publicada em todos os jornais do país, “DESCULPE, A ODEBRECHT ERROU”. Nela, se pode ler “A Odebrecht reconhece que participou de práticas impróprias em sua atividade empresarial”. Ou “Não importa se cedemos a pressões externas. Tampouco se há atos que precisam ser combatidos no relacionamento entre empresas privadas e o setor público”. Ou “O que mais importa é que reconhecemos nosso envolvimento e fomos coniventes com tais práticas”. Mais simplesmente, a construtora pediu publicamente desculpas por ter cometido essa corrupção, a mesma que o ministro considera inexistente.

O ministro Toffoli, nas suas decisões, age como se não tivesse existido essa nota. Nem corrupção alguma. Tanto que libertou de multas a empresa, como inocentou empresários e funcionários que já se reconheceram publicamente como corruptos. Alguém sobre quem pesa dúvidas (ou suspeitas) de ter recebido dinheiro da empresa decidiu, sozinho, inocentar a tal empresa e empresários que poderiam (ou não) lhe ter pago propina. Em resumo, é isso. Seja como for, enquanto essa questão não estiver esclarecida, o ministro jamais deveria tomar a decisão que tomou. Mais razoável sendo, sem dúvida, se considerar impedido. Por tudo, então, é razoável dizer (respeito quem pensa diferente, é só meu pobre entendimento) que essa decisão, no plano ético, mais uma vez NÃO ESTÁ CERTA.

3. Quanto ao combate à corrupção, antes de tudo, cumpre lamentar que, por mais duas gerações (pelo menos), ninguém terá coragem de enfrentar os poderosos do país ‒ essa conjunção perversa entre elites políticas e grandes empresários que tenham contratos com o governo. Por conta do que está acontecendo, agora. Todos os corruptos livres, e rindo de nós. Alguns, novamente candidatos a cargos públicos; ou fazendo selfies; um deles, condenado a 390 anos de cadeia, dando repetidas declarações na TV; os demais, na vida boa, sem mais preocupações financeiras. Certos de que nunca serão punidos. Prisão é só para pobres, ou gente de quem o Supremo não gosta ‒ assim, acredito, consideram. E quem combateu a corrupção continua penando. Juízes, afastados de seus cargos. Procuradores, cassados. Outros, proibidos de ter acesso às mídias sociais ‒ para evitar fake news, assim justificam Supremo e TSE uma censura que degrada nossa Democracia.

Cabe aqui ainda, por fim, lembrar os outros 10 ministros do Supremo. Lamento dizer isso, que sou amigo de vários. Alguns, há 40 anos. Ou trabalhei ao lado, como advogado. Ou acompanhei repetidamente em congressos, pelo Brasil. São pessoas corretas, assim considero. Mas por que estão calados?, eis a questão.

Carlos Alberto Sardenberg, em O Globo (25/05), já disse de “Todos os ministros, uns mais outros menos, uns por conveniência, outros por apatia, envolvidos em um grande acordão para zerar a Lava-jato e todo o sistema de combate à corrupção”. Me associo a esse entendimento. Ainda sem acreditar como podem ficar calados. Nem mesmo pediram que a última decisão do ministro Toffoli fosse ao pleno do tribunal, o que permitiu valesse (até aqui) sua vontade solitária. Em decisão monocrática. Uma contradição, em se tratando de tribunal. A única Corte Constitucional do planeta em que algo assim é possível.

Cabe então perguntar, como conseguem dormir? A consciência (de alguns, pelo menos) não pode estar em paz. É impossível. Não se sentem constrangidos? Não se acanham do que fazem? Nem do que os outros possam pensar deles? Do que seus filhos dirão, no futuro? Em resumo, amigo leitor, perdão mas esse silêncio cúmplice, dos que são colegas do ministro Toffoli no Supremo, também NÃO ESTÁ CERTO.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA SAMUEL HULAK

Lisboa. Frei Luis Ponce de Léon era, desde 1561, catedrático de Teologia na Universidade de Salamanca (Espanha) ‒ famosa inclusive por ter como símbolo, a partir do bestiário medieval, uma rã. Processado em Auto de Fé, pela Inquisição espanhola, foi retirado a meio da classe; e permaneceu preso, em Valladolid (capital da comunidade autônoma de Castilla y León), de março de 1572 a dezembro de 1576. Mas acabou, no fim, declarado inocente. Em seu primeiro dia de volta ao ofício de professor, e como prova de prestígio, todas as figuras ilustres da universidade estavam presentes para ouvi-lo. Mas o dito frei, em vez de protestos ou lamentos, apenas sorriu, falou “Como estava dizendo na última aula…”, e seguiu na lição interrompida.

Mais tarde, ficaria Salamanca marcada por outro episódio; quando em 12/10/1936, na Guerra Civil Espanhola, o general falangista (José) Milán-Astray gritou, numa de suas salas, “Viva la muerte”; com protestos, imediatos e fortes, do reitor perpétuo da universidade, Miguel de Unamuno. Em vez de silenciar, como recomendariam todas as regras do bom-senso (Baltazar Gracián y Morales até escreveu livro sobre isso, A arte da prudência), reagiu, porque “permanecer calado equivale a mentir”. E acabou nas masmorras, mas essa é outra história. Voltando à citação inicial, ela tem sobretudo o papel de marcar a sagração da palavra. Reconhecendo ser o que fica de importante, na vida ‒ ela e seu irmão inseparável, o exemplo. Indicando caminhos.

Essa introdução, maior talvez do que deveria, tem apenas o sentido de anunciar que já está no prelo, pela editora Paradoxum, o primeiro livro de Samuel Hulak no campo da literatura, Na contramão e outros contos.

Se ficar só nele (quase um pecado), não seria caso isolado. Walt Whitman escreveu um único livro, na sua existência, Leaves of grass (Folha de relva). A cada nova edição ia alterando, acrescentado ou suprimindo poemas. A primeira (de 1855), com 91 páginas, apenas tinha 12; a segunda 32, com o famoso Salut au monde (O take my hand, Walt Whitman), que inicialmente seria Poem of salutation; a nona e última, 293. Além de uma Death Bed Edition, de 1892, a impressão definitiva. O mesmo com Cesário Verde; dando-se que, no seu caso, foi até sem querer, por tratar-se de outra edição póstuma ‒ O livro de Cesário Verde, produzido por mulher e filha, reunindo tudo que deixou.

Margareth Mitchell escreveu Gone with the wind (E o vento levou), ficou rica e, desgraçadamente (para ela), logo morreu atropelada por um taxi. Enquanto Emily (uma das irmãs) Brontë mereceu glória breve com O morro dos ventos uivantes; logo sucumbindo, num tempo em que ainda não havia estreptomicina, a uma tuberculose devastadora (o mesmo mal que vitimou as outras filhas escritoras, Anne e Charlotte, do Reverendo Brontë).

Manuel Antônio de Almeida, amigo de Machado de Assis, começa Memória de um sargento de milícias dizendo “Era no tempo do rei”. Mas seu tempo era curto pois, em seguida, morreu afogado no naufrágio do Hermes; e, também ele, ficou neste primeiro livro. Enquanto Augusto dos Anjos nos deixou depois de EU. Ao mandar os originais para a tipografia (sem registros de editora, por ser uma edição doméstica), rasgou a mão com faca e, usando seu sangue, escreveu o título. Assim diz a lenda. Razão pela qual, até hoje, suas edições tem capa clara e título em vermelho. Cor de Sangue. E se foi cedo, aos 30 anos, pena. Tudo isso apenas para dizer que, espero, Samuel não precise usar seu precioso sangue para escrever título nenhum (até por ser, o deste livro, bem maior que as duas letras de EU). Nem faça parte dessa relação de autores com um livro único.

Também cumpre lembrar que o autor escreve esse livro tarde, com 86 anos. Mais uma vez não é caso isolado. Só para ficar na literatura brasileira, antes dele já Pedro (da Silva) Nava escreveu seu primeiro grande livro de memórias, Baú de ossos, com 69. Médico, nos deixou uma obra monumental em sete livros. E mais não foram porque recebeu um telefonema misterioso (até hoje não se sabe de quem) e, com 81 anos, deu um tiro na cabeça. Já Cora Coralina (Anna Lins de Guimarães Peixoto Bretas), apesar de escrever poemas esparços desde a adolescência, decidiu publicar seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e histórias mais, com 76 anos. Doceira, pessoa simples e morando longe dos grandes centros, retratou como ninguém a vida nos interiores de nosso Brasil popular e profundo em nove livros. E morreu com 95 anos, de pneumonia. Muitos outros escritores também lhes seguem.

Para ficar só num caso lembro dona Maria Lia Cavalcanti que lançou seu primeiro e único livro, Recordar é viver, com 92 anos, em textos muito bem escritos sobre as memórias da família. Um dia, para nossa mãe, escrevi esses versos

Me diga dona
Maria Lia
Luar da noite
Flor do meu dia
Se brilha ainda
A luz infinda
Que eu perseguia.

E hoje sei que viverá para sempre, majestosa e tocada pela eternidade, essa luz que não cessará de brilhar em nossos corações.

Saramago pergunta, no início da apresentação que escreveu para um livro de Sábat (Anônimo transparente), “Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa?”. Lembro dessa passagem para fazer a mesma pergunta, com Samuel Hulak no papel do poeta português. Certo já de que sua resposta, qualquer que seja, iria surpreender. Posto ter dito autor o dom de construir, de forma invulgar e competente, suas histórias.

Mas quem é mesmo Samuel Hulak?, eis a questão. Em poucas linhas, trata-se de médico especialista em Psiquiatria. Atuou nos palcos (com prêmio de melhor ator) e foi diretor do Teatro do Estudante Israelita, além de participar em peças das televisões. Sem esquecer, ainda é compositor de músicas sinfônicas interpretadas por diversas orquestras. Uma vida, com certeza, incomum. E, antes desse livro de agora, escreveu artigos científicos, publicados em revistas especializadas; e, mais, Elementos da Psicoterapia (1976); Entrevista, mitos, métodos e modelos (1986); e um capítulo (VI) no livro Psicossomática hoje (1992), editado por Júlio de Melo Filho, só livros técnicos.

“E de repente, mais de repente”, assim Pessoa diz em sua monumental Ode marítima (quase o mesmo que Vinícius de Moraes escreveu depois, no seu Soneto da separação, “E de repente, não mais que de repente”), de repente, pois, Samuel decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária. Alguém que jamais escrevera nada parecido, antes, por que o fez agora? Mistério. Embora mistério maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade (muito) superior dos seus textos.

O escritor Theóphile Gautier foi ver As meninas, de Velasquez. Passou horas contemplando cada detalhe da tela e, no fim, perguntou “Mas onde está o quadro?”. Uso essa metáfora, que ouvi do escritor português António Lobo Nunes, apenas para perguntar, depois de ler esse Na contramão e outros contos, “Mas onde está o livro?” Melhor resposta seria dizer que está em cada pequeno roteiro do autor. Nas tramas. No inesperado. Mas prefiro recorrer a Érico Veríssimo (em Todos nós somos um mistério), “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”.

Samuel faz parte do último grupo. E escreveu esse livro com certeza só para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. “A identidade é uma trajetória”, dizia Michel Foucault (Vigiar e punir). E essa identidade nele, a partir de agora, é ser reconhecido como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil.

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ATÉ QUANDO?

Fernando Pessoa disse, um dia, “Tenho saudades de mim” (em Há quase um ano não escrevo). Se assim for, creio que posso também dizer quero tirar férias de mim. Porque nosso Brasil anda complicado. E chato. Faltam esperanças, desalentos sobram. Faltam caminhos, porteiras sobram. Faltam horizontes, sobram tristezas. Falta luz, sobra sombra. O otimismo, que teima em sobreviver nas entranhas dos brasileiros, vai sendo impiedosamente soterrado.

A Constituição, que nos países maduros é uma Lei Maior, referência e obrigação para todos, aqui vai virando enfeite. Corruptos passeiam alegremente, pelas praias ou em shows musicais (como o de Madonna), fazendo selfies. Preparando-se para brincar o Carnaval, onde vão acabar (talvez) destaques em alguma escola de samba controlada por bicheiros. Criticar deixa de ser o exercício da Liberdade de Expressão e passa a ser algo (muito) arriscado. Perigoso. O Paraná Pesquisas aponta que 61% dos brasileiros temem punição por falar o que pensam. A favor do governo, sem problema; contra, cuidado. Penas de quase 300 anos de cadeia são apagadas, multas milionárias perdoadas, confissões assinadas consideradas inexistentes e alguns ministros do Supremo agem como se tudo fosse muito natural. Com a consciência em paz. Trata-se de uma “defesa da Democracia”, assim justificam.

No Recife, nesta segunda, um dos carros da vice-governadora, a querida Priscila Krause, foi vítima de assalto. Fotos mostram o vidro da frente furado por balas. O bandido, alvíssaras, acabou preso. Continua? Que nada, meus senhores, era só o que faltava! Um juiz plantonista já emitiu, para ele, o correspondente “Alvará de Soltura”. Talvez por ser pardo e (aparentemente) pobre. Fosse pouco determinou (é inacreditável) que os policiais militares, responsáveis por essa prisão, fossem encaminhados à “Central de Inquérito do MP”. O receio é que possam acabar atrás das grades. Por terem tido a ousadia de prender um bandido.

Em Brasília, terça, o Supremo declarou constitucional Lei que proíbe políticos de ocupar cargos públicos. Nem podia ser diferente, era o que faltava. Ocorre que, sem qualquer fundamento jurídico decente, manteve nos cargos todos os nomes escolhidos pelo governo para funções que deveriam ser ocupadas por pessoas qualificadas para isso. É dando que se recebe. Talvez não por acaso a Petrobrás, atualmente em mãos de um desses políticos amigos do Poder, que era presidente do PT no Rio Grande do Norte, acaba de ter queda de 38% nos lucros, comparados aos do ano passado. Protegidos, todos, por decisão monocrática do então ministro do Supremo Ricardo Lewandowski. Que, coincidência ou não, é hoje ministro da Justiça desse mesmo governo que nomeou seus protegidos. E todos a rir. De nós, provavelmente.

Esse é o retrato do Brasil, meus senhores. Aqui, hoje, grupos poderosos sabem que mandam ‒ elites políticas, grandes empresários, milícias, até o pessoal do tráfico e adjacências. Sem obedecer à lei, ora a lei?, nem a ninguém. Reproduzindo a máxima do Coronel Chico Heráclio, de Limoeiro (PE), “quando a lei é fraca, a gente passa por cima (e quando é forte, por baixo)”. É (quase) inacreditável. E, tudo, com a complacência do Poder Judiciário. Que deveria ser um exemplo, contribuindo para pacificar o país; enquanto, ao contrário, prefere tocar fogo nele. Até quando?

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ANOTAÇÕES (2)

1. RIO GRANDE DO SUL. Antônio Pavão, da Academia Pernambucana de Ciências, recebeu recado que lembra Fernando Pessoa (Ficções de Interlúdio), “Não quero o presente, quero a realidade/ Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede”. Que a PM do RS já não consegue evitar saques. Tanto que o governo local já pensa em decretar um GLO, para enfrenta essa guerra. Para confirmar isso a filha de Pavão, que mora em Porto Alegre, lhe mandou mensagem que dá uma boa dimensão da tragédia humana por trás das chuvas:

‒ Gente, cena de guerra aqui. Muito triste. O prédio está sem água e conseguimos encher uns baldes e panelas. Água mineral está em falta na cidade, mas temos um garrafão de 20 litros. As facções estão saqueando tudo. Mantimentos. Um horror. Nem os brigadianos estão com coragem de ir. Tudo armado nessas cidades alagadas.

2. MADONNA. Esse último evento, no Rio, me lembrou o amigo Oliveira de Panelas. Numa cantoria, pediram que desse uma definição de globalização e ele respondeu assim:

– Certo dia eu estava em Hollywood
Em Marlboro, ou talvez no Arizona
Foi então quando encontrei-me com Madonna
Que convidou-me para um banho no açude.
E se a galega mostrou ter muita saúde
Eu também lhe mostrei ter muito gás
E nos domínios das táticas sensuais
Tudo quanto ela quis, fiz em inglês
E depois perguntei em português
O que é que me falta fazer mais

Tinha mesmo razão. Que Madonna é baixinha, velhota, loura, canta numa língua que Oliveira não entende, um tipo de música que ele não gosta. E como pode esse tipo ser musa de nosso cantador?, eis a questão. Em resumo, Oliveira foi perfeito em sua definição.

3. A ARTE DE SER CAMALEÃO. Os capitéis dos templos romanos eram povoados por figuras animais que vieram das páginas do Apocalipse. Expressando-se nessas figuras receios, remorsos, virtudes, o mel e o fel que habitam o coração do indeterminado cidadão comum. Avançamos no tempo. Até (Friedrich) Nietzsche. Que, em Assim falou Zaratustra, fez seu bestiário baseando, na moral, a busca de poder que eleva o Übermensch (em tradução livre, o Novo Homem). Inspirado nesses capitéis, representava esse homem com figuras animais. O camelo, com a moral pesada do eu devo. O menino, com a moral simples do eu sou. E o leão, com a moral onipotente do eu quero.

Nesse zoológico de símbolos, será legítimo perguntar qual animal deveria representar a imprensa. Mais amplamente, os meios de comunicação. E, se assim for, talvez devêssemos escolher o camaleão. Por sua infinita capacidade para mudar sempre. Com a moral ambígua do eu me adapto.

Essa marca vem de longe. Nos livros de jornalismo, por exemplo, sempre se proclama que tudo começou com (Johannes) Gutenberg (1398 – 1468). Só que não é bem assim. Os tipos móveis não foram inventados por ele. Já sendo usados, na China e na Coréia, milhares de anos antes. Feitos em porcelana, madeira e metal. O título de Pai da Imprensa, que lhe é atribuído, se deve ao fato de que teria editado o primeiro livro ‒ a Bíblia de Gutenberg, como se diz ainda hoje. Problema é que essa Bíblia de Gutenberg nunca existiu. Trata-se, apenas, de lenda. Como tantas outras.

A história real é outra. Para pagar dois empréstimos de 800 florins, cada, o pobre do Gutemberg foi obrigado a entregar em 1455, ao banqueiro Johannes Fust, materiais e obras em preparação. Entre elas, o projeto de uma Bíblia de 42 linhas. Apenas projeto. Que acabou depois realizado, inteiramente, pelo tipógrafo Peter Schöffer.

Quando veio a público a Bíblia de Shöffer e Fust, em 1456, já Gutenberg havia voltado ao anonimato em que sempre viveu. Sem que se conheça um único livro impresso por ele. Nem havendo sequer um retrato seu. Nada. Ficou apenas o anúncio, alardeado por ele nos bons tempos, de que estaria fazendo uma Bíblia. Que nunca fez, mais uma vez se diga. Apesar disso, e por força das repetições, continuamos a falar na Bíblia de Gutenberg. Um caso claro em que a adaptação camaleônica de uma mentira, e sua repetição continuada, finda por se converter em verdade. O que vem hoje se repetindo com desalentadora preferência, não custa lembrar, em nosso Brasil de hoje.

4. GUARDIÕES. Em conhecido conto de Kafka (Diante da Lei), um homem do campo encontra o Lugar da Lei protegido por um guardião. E pede autorização para entrar. Talvez até nem devesse pedir, que a porta da Lei estava (aparentemente) aberta. Mas o guardião não deixou. Ainda advertindo que além dele ainda existia, de sala para sala, guardas cada vez mais fortes, a não permitir ninguém entrar. O homem do campo não esperava reação tão dura. Que a Lei, pensava, deveria ser acessível a todos. Mas, por humildade (ou prudência), ficou esperando lhe fosse concedida tal autorização. E assim permaneceu por dias, meses e anos. Até perceber, já bem velho, que a “indesejada das gentes” (assim Bandeira se referia à morte, na sua Consoada) era inevitável. Então, com um resto de coragem, perguntou ao guardião: “Se todos aspiram à Lei, como é que durante todos esses anos ninguém mais, a não ser eu, pediu para entrar?”. Para ouvir a resposta do guardião, “Porque só para você era feita essa porta”. Lembro do escritor de Praga, com a sensação de que esse homem do campo era, na verdade, o povo brasileiro.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (34) ‒ CONVERSAS DE PORTUGAL

Mais conversas, hoje só da terrinha, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ANA MARIA MACHADO, da Academia Brasileira de Letras. No elevador da Rua Santa Justa, que faz o trajeto Chiado/Baixa, fotografou bilhete que lhe deram quando pagou a passagem. Com Instruções para Viagem

– Ao viajar de pé, afaste as pernas e tenha-as bem plantadas. Segure-se com firmeza, sobretudo nas arrancadas e nas curvas.

E ficou sem entender. Que não havia bancos, no local, todos teriam mesmo que “viajar de pé”. E “curvas”, num elevador?

ANTÓNIO COSTA, homem público. Em Lisboa, nas vésperas das eleições gerais de 30/01/2022, vi poste cartaz da municipalidade com esse aviso aos motoristas

‒ Cuidado, zona de acidentes a 2.000 m.

E por baixo, em outro cartaz, foto de António Costa, ex-prefeito e então Primeiro Ministro, com seu lema de campanha

‒ Continuamos a avançar.

ANTÓNIO VALDEMAR (JOSÉ STONE DE MEDEIROS TAVARES), da Academia das Ciências (Carteira 01 do Sindicato dos Jornalistas de Portugal). Na redação do Diário de Notícias, com ele foi ter o filho Álvaro, 2 metros de altura. Foi quando seu colega de redação Guilherme de Melo, homossexual assumido, ficou deslumbrado e disse

– Perdão, amigo Valdemar, é que eu desejava tanto ser sua nora…

COUTOS DE VISEU. Em 12/01/2018 li, no Jornal do Centro, Aviso sobre Dias de Falecimento e de Acesso ao Cemitério de Coutos. A matéria, com brasão do concelho, dizia

– O cemitério só está aberto ao fim de semana, das 8h00 às 20h00 no verão e das 9h00 às 18h00 no inverno.

– Os cidadãos só podem falecer quinta-feira e sexta-feira, para permitir que os funerais ocorram sábado ou domingo.

– O falecimento noutros dias será considerado ato de desobediência civil sujeito a contraordenação, caso o falecido seja reincidente.

Depois vim a saber que a Junta da Freguesia de Coutos de Viseu está processando o jornal pela rebaldaria (canalhice, patifaria) de publicar uma página de humor como se fosse algo sério. O presidente da Junta declarou que

‒ O jornal está abusivamente a usar da heráldica para causar danos à imagem da freguesia.

Após o que completou

– Filhos da puta, deviam era morrer todos.

Faltou só dizer se preferia que isso ocorresse quinta ou sexta-feira.

DIAMANTINO MIRANDA, ex-jogador e treinador de futebol, hoje comentarista da CMTV. Numa entrevista ao Onefootball, sobre desmandos no Benfica, declarou

‒ Se cada corrupto andasse com uma lâmpada no cu, Portugal hoje parecia Las Vegas.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, pensador. Numa sapataria do Chiado, pergunta o preço e acha caro

– Trezentos e vinte euros por um sapato?

– Não, sr. dr., pelos dois pés.

JOÃO MADUREIRA TEIXEIRA, empresário. Encontrou, no restaurante Solar dos Nunes (dos irmãos Suzana e Zé Tó), o amigo de juventude Albano Pereira Dias de Magalhães. Que quase não reconheceu dado estar já com rosto gasto, careca, barriga enorme. E disse o que protocolarmente se diz, nessas ocasiões,

‒ Você não mudou nada, Albano, está ótimo.

‒ E você continua o mesmo, João, a mentir muito.

JÚLIA PINHEIRO, apresentadora de TV. A Ana Maria Braga de lá. Em seu programa matinal da SIC, falava de minha coleção com objetos de Fernando Pessoa.

– O Cavalcanti foi pondo a mão em tudo?

– Pondo a mão?, não.

– E não foi?

– Não. Recebi de presente ou comprei.

– Mas não foi o que eu disse?

Só para lembrar, Júlia tornou-se conhecida por um programa satírico da SIC (no qual participava, também, o jornalista Victor Moura Pinto), a Noite da Má Língua. E eu estava com um pé atrás. Depois me informaram que, em Portugal, meter a mão significa adquirir. Problema é que aqui, no Brasil, não. A língua é uma só mas, por vezes, duas.

MONÇÃO. Primeira página do JN fala em evento gastronômico que ia realizar-se na aldeia de Piais, dias 17/18/19 de março de 2023, com essa manchete

‒ Monção quebra jejum de 3 anos e reedita Feira da Foda.

MURO EM FOLGOSINHO (SERRA DA ESTRELA). Joaquim de Barros escreveu Serenata a uma pretensiosa, com versos assim

– Nas tuas unhas condiz
Teu modo de ostentação
Por fora sobra verniz
Por dentro falta sabão.

Naquele muro, vi o último quarteto desse longo poema

– Nem sempre uma linda cara
Traduz encanto no mundo
Há mil fontes d’agua clara
Cheias de lodo no fundo.

NO SUPERMERCADO. História contada por José Brandão, arquiteto no Porto, que jura ser verdade. José (como não disse quem era, vai aqui o personagem com seu nome) foi ao Pingo Doce para comprar azeite. Deixou a carteira em casa e levou, com ele, só uma cédula de 10 euros que, na fila do caixa, escapou da mão e um cidadão, atrás dele na fila, gentilmente pegou. Já se preparando para agradecer, José viu aquele estranho pôr o dinheiro no bolso da própria camisa; justificando, a partir de conhecido provérbio português,

– O que está no chão é de quem põe a mão.

E não devolveu. Depois de algum tempo, quando o tal senhor já se dirigia para seu veículo, decidiu ir atrás. Junto com a caixa, funcionários e clientes, ainda indignados todos com o que aconteceu antes. Para fazer nem sabia o quê. Em frente à caminhonete luxuosa o tal senhor pôs as duas sacolas no chão, tirou do bolso a chave, tocou nela e a porta do bagageiro começou lentamente a subir. Foi quando José se abaixou e agarrou uma sacola em cada braço, com pronta reação do outro,

– Elas são minhas.

– Correção, sr. dr., o que está no chão é de quem põe a mão.

E saiu correndo com suas compras.

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). No Teatro Sá da Bandeira (Porto), o Primeiro Ato da peça correu muito mal e grande parte do público se foi assim que encerrou. O famoso ator português Artur Ribeiro contou, a Onésmo, que começou o Segundo a dizer

– Aqui estou, aqui estou, aqui estou!

Só para ouvir, na plateia, um espectador

– Também eu, mas muito arrependido!

POLICIAMENTO. Em 1953 foi publicada, pela Câmara Municipal de Lisboa, a Portaria 69.035, para policiamento de zonas consideradas quentes. Dizia, em resumo,

‒ Verificando-se o aumento de atos atentatórios à moral e aos bons costumes, determina-se à Polícia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações. Assim, estabelece-se:

1º. Mão na mão (2$50);

2º. Mão naquilo (15$00);

3º. Aquilo na mão (30$00);

4º. Aquilo naquilo (50$00);

5º. Aquilo atrás daquilo (100$00).

Parágrafo único ‒ Com a língua naquilo, 150$00 de multa.

RAUL CUTAIT, médico. Em Coimbra, num posto de gasolina,

– Quanto tempo até Lisboa?

– Depende.

– Do quê?

– Da velocidade em que o sr. dr. ande no carro.

Ponto para o luso.

RENATINHO MAIA, empresário. No Lautarco (bairro de Alfama), se deliciava com um bacalhau. E perguntou ao proprietário, que lhe atendeu,

– O senhor poderia trazer azeite?

O cidadão veio com uma garrafa. Mas, ao ver Renatinho por em cima do bacalhau, desabafou

– Vocês, brasileiros, têm mania de pôr azeite no que não se deve. O prato já tem o necessário. Se precisasse, eu mesmo teria posto.

– E por que trouxe?

– Pensei que fosse para colocar no pão.

SHIGEAKI UEKI, ministro das Minas e Energias (no governo Geisel). Desembarcaram, no aeroporto de Lisboa, ele e seu assessor de imprensa Hideo Onaga. Deram nome do hotel, ao táxi. E, com cara de japoneses, conversavam no banco de trás. Em português do Brasil, claro. Até que o motorista não se conteve

– Que raio de língua estão a falar?, que eu entendo tudo.

SUPERMERCADOS MINIPREÇO, Av. Alexandre Herculano (no Rato). Bati foto de cartaz que vi, por lá, sobre caixa com uva e mamão

‒ As senhoras que apalpem (com traço, por baixo) a fruta serão submetidas ao mesmo tratamento por parte dos vendedores.

VICTOR MOURA-PINTO, jornalista da TVI/CNN. No aniversário dele, mandei bilhete

– A Lisboa de outras eras
Já livre da servidão
É feita de cem quimeras
De duzentos quem-me-deras
De trezentas mil esperas
Ardendo ao sol do verão.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

25 DE ABRIL, SEMPRE

“O que há num nome?”, se pergunta Shakespeare (em Romeu e Julieta). Porque, nesse nome, pode haver tudo e nada, amor e perdição, liberdade, sonho, mistério, miséria, Destino, tragédia, o espanto. E por trás dele sobrevivem, com frequência, todas as contradições da alma humana. Saramago seguiu nessa trilha, mais tarde (em Todos os nomes), ao fazer uma pergunta enigmática, “conheces o nome que te deram?”. Ironicamente, nesse livro, apenas um personagem tem nome, quase um não nome, que é José. E no Ensaio sobre a cegueira como que conclui, sem mais esperanças, “os nomes deixam de ter sentido”.

E numa data o que haverá?, eis a questão. Em Portugal são tantas importantes: 1128 (Batalha de São Mamede), 1139 (Ourique), 1383 (Aljubarrota), 1578 (Alcácer Quibir), 1580 (quando Camões encontra sua paz), 1640 (Restauração Portuguesa), 1755 (o grande terremoto), 1910 (República), 1935 (quando morre o homem Fernando Pessoa e começa a nascer a sua lenda). Importante por conformar, em cada uma delas, o próprio coração da nação portuguesa. Aquilo que há, nela, de mais sagrado. Faltando, nessa relação, 1974 ‒ quando se festeja, em 25 de abril, a Revolução dos Cravos. Agora (ontem), comemorando 50 anos.

Assim se chama, toda gente sabe disso, por ter a população distribuído cravos aos soldados que participaram do movimento. Zeca Afonso até anteviu (em Grândola, vila morena) “O povo é quem mais ordena”. A deusa Sophia de Mello Breyner Andresen anunciou (em 25 de abril), alegremente, “Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo”. Manuel Alegre (em Lisboa perto e longe) já fala numa “Lisboa que ninguém verá de joelhos” por ter “um cravo em cada mão”. E Ary dos Santos (As portas que Abril abriu) definiu bem “Dentro de um povo escravo/ Alguém que lhe queria bem/ Um dia plantou um cravo,/ Era a semente da esperança/ Feita de força e vontade/ Era ainda uma criança/ Mas já era a liberdade”.

Só que a data nos leva, também, a outras questões. Que a história das transições, de um governo autoritário para a Democracia, são sempre complicadas. A palavra verdade tem origens variadas. Na Roma antiga corresponde à veritas, mais ligada à precisão. Já no hebraico, emunah, está mais próxima à confiança (num deus ou num amigo) e dela deriva o Amém (“assim seja”). Mas na tradição grega ocidental, aletheia, corresponde só e sobretudo ao contrário da palavra esquecimento. Por ser algo tão surpreendentemente forte que não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem a indiferença, nem o perdão. É memória, mas é também História. É a capacidade humana de contar aquilo que aconteceu, o como e o porquê. E as novas gerações têm direito a essa verdade. Sobretudo merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos ou parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre, num moto-contínuo, a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, deve existir uma História sem voz. E quem dá voz à História são as mulheres e os homens livres que não têm medo de escrevê-la.

Em Portugal esse desejo de aclarar o passado, anunciado com pompas em 1977, ganhou forma só com a criação, pelo então primeiro-ministro Mário Soares, da Comissão do Livro Negro (Decreto-lei 110, de 26/05/1978). Sobretudo, assim declarou, como “forma de combater o ressurgimento de ideologias fascistas”. Nascida com a intenção de conseguir a “reposição da verdade histórica”, já no art. 2º, 2, dispunha não poder atingir fatos “que respeitem à organização, funcionamento e disciplina das forças armadas”. Como que reproduzindo a máxima do Estado Novo, “o Exército é o espelho da nação”. O que, definitivamente, compromete seus resultados. Chegou a publicar 25 volumes de conclusões, hoje esquecidos nas estantes e jamais reeditados. E, assim funcionou, a tal comissão, até ser extinta pelo Decreto-Lei 22, de 11/01/1991. Sem deixar saudades. Embora haja estudiosos como Priscila Hayner que, levando em conta se ter trabalhado com documentos de inquérito, imprensa da época e entrevistas qualitativas, consideram que poderia ser tida como uma espécie de Comissão da Verdade, os estudos comparados não lhe colocam nesse nível. Mas já foi algo importante, claro, uma espécie de resposta ao passado.

No Brasil, diferentemente, havia o consenso de que toda a verdade deveria vir a luz. A Comissão Nacional da Verdade nasceu dessa visão. Criada, pelo Congresso Nacional (Lei 12.528/2011), entre seus objetivos sobressai logo no art. 3º “Promover, com base nos informes obtidos, a reconstrução histórica dos casos de graves violações de direitos humanos”. Quase 50 anos depois do Golpe Militar de 1964. E quase 30 anos depois da transição; com a eleição indireta, para Presidente da República, de um representante da oposição civil ao sistema ‒ Tancredo Neves. A Comissão Nacional da Verdade situou o Brasil entre os 41 países que, diante de múltiplos mecanismos da Justiça de Transição, criaram comissões da verdade para lidar com um legado de graves violações dos direitos humanos.

A história de quem exercia o poder, então, já era conhecida. Faltava a dos vencidos. Caminhamos nessa linha. E chegamos a 434 casos em que foi possível definir quem morreu, em que circunstâncias, e quais foram os responsáveis por essas mortes. Também a mais que dois mil casos de opositores do sistema desaparecidos, sem que pudéssemos chegar a provas. Além de descrever os subterrâneos da tortura e da repressão. Para registrar, fui um dos 6 brasileiros escolhidos para deixar claro esse pedaço da história do Brasil. Durante três anos nos esforçamos para contá-la com a precisão humanamente possível. Uma grande honra, assim considero. E creio que valeu a pena.

Fez bem, Portugal, em traçar o caminho que escolheu? Difícil saber. E talvez, depois de 50 anos, a pergunta já não faça qualquer sentido. Acabou, nada restou a fazer. Afora contar o que se passou em livros, o que vem se fazendo, como os de Alfredo Cunha, Fernando Rios, José Pedro Castanheiro, tantos mais. Sempre tendo em conta ser importante lembrar a história. George Orwell (1984) ensinava “quem controla o futuro controla o presente e quem controla o passado controla o futuro”. Bem a propósito, Pessoa encerra O Infante (de Mensagem) dizendo “Senhor, falta cumprir-se Portugal”. Falta mesmo. Só que, afinal, isso vai aos poucos se cumprindo, ao conhecer melhor seu passado. E como hoje todos repetem, nas ruas, Viva o 25 de abril, sempre.