PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VISITA À CASA PATERNA – Luís Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
o fantasma, talvez, do amor materno,
tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
e, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala… (O se me lembro! e quanto!)
em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe… O pranto

jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de?
– Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade…

Luís Guimarães Junior, Rio de Janeiro, (1847-1898)

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O JUAZEIRO DAS QUEIMADAS

O juazeiro e sua sombra magnífica

Por ali, e pode-se afirmar com segurança, ninguém tinha conhecimento de quem plantara aquele juazeiro. Havia quem apostasse que, muitos anos atrás, antes mesmo de Queimadas ser considerado um povoado, algum animal silvestre poderia ter trazido a semente que, brotando produziu a árvore de frutos comestíveis e úteis na medicina informal.

O que se sabe – e algumas pessoas mais idosas viveram para contar e garantir a veracidade – é que, aquela sombra maravilhosa foi o primeiro e único “mercado onde se reuniam e reúnem” pessoas que ali vão para vender e comprar seus mantimentos alimentícios.

Um toco de cajueiro serviu de apoio para muitos cortarem suas porções de carnes de bodes e bois ou vacas; servia, também, para o corte de camurupins e até para escamar curumatás e traíras. Nunca alguém teve a coragem de limpar aquele toco – moscas, formigas e até ratos faziam banquetes dos minúsculos pedaços de alguma carne.

As feiras, ou encontros, aconteciam sempre aos domingos, ao clarear do sol. Criadores traziam suas criações (porcos e bodes) para abater ali mesmo. Muitas vezes, antes mesmo da missa dominical na Igreja São José, donas de casa já se postavam por ali esperando o abate dos animais – compravam do porco a cabeça e o fato e pechinchavam nos miúdos para completar o “sarrabui”.

A balança sempre foi um improviso. Os homens mereciam (ainda) confiança e até compravam para pagar depois. As carnes eram levadas em “fieiras” de folhas de carnaúba, colocada na parte traseira dos cambitos.

O comerciante que ficasse por último (era um acerto entre pessoas adultas e de respeito) fazia a varredura e a limpeza de tudo, espantando gatos e cachorros em preparação para os eventos vespertino e noturno.

Nas tardes e noites de sábados, cantorias e pelejas entre cordelistas. No mês de maio, tudo mudava. Era o mês de Maria e o mês das novenas organizadas pelas mulheres. Cada família levava seus assentos e os mais abastados se encarregavam de levar o candeeiro, as lamparinas e até as velas que acendiam até o fim. Tempos de muita Fé – muitos acreditavam que São José “mandaria” chuvas para garantir as safras de milho, feijão e principalmente mandioca.

As tardes e entrada pela boquinha da noite, sediavam as danças. Forró pé-de-serra, onde rapazes e cabrochas batiam virilhas naquele esfrega-esfrega no som produzido pelas sanfonas.

Certa vez, houve até um movimento para que o Padre Adail passasse a celebrar uma missa, pelo menos uma vez no mês, naquela frondosa sombra do juazeiro. Padre Adail pediu permissão para a Arquidiocese e, pelo que se sabe, até os dias de hoje a permissão não foi autorizada. Mas, novenas, podiam. Aqueles encontros para o novenário não passava de uma fervorosa demonstração de Fé cristã.

Mas, quando se quer, tudo se alcança.

Pelo menos uma vez no Mês de agosto ou setembro, de quatro em quatro anos, aquela frondosa sombra do juazeiro das Queimadas servia de ponto de encontro para as promessas politiqueiras dos candidatos a prefeitos.

Coisas do Brasil que estamos construindo desde 22 de abril de 1.500.

DEU NO JORNAL

SAIDINHA NA AVENIDA

A vereadora Cris Monteiro (Novo-SP) pediu a suspensão de saidinhas de presos no carnaval.

“Essa data já registra aumento de furtos e roubos, não há motivo para piorar o problema despejando criminosos nas ruas”.

* * *

Já não bastam as saidinhas no carnaval.

Agora, tem até ladrão sendo homenageado por escola de samba no Rio de Janeiro.

Deram uma saidona pra ele ir se amostrar na avenida.

Essa nossa republiqueta banânica é mesmo surpreendente!

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SELETIVIDADE

Semana passada, o Deputado Nicolas Ferreira protagonizou uma caminhada de mais de 240 km entre Minas Gerais e Brasília. O início da caminhada foi criticado por outro deputado, Lindenberg Farias, ironizando a pouca adesão e o esvaziamento da ação e quatro dias depois ele voltou às redes sociais para “denunciar” que a ação de Nicolas era crime. Aquele esvaziamento comemorado por esse deputado, passou a ser um inconveniente real nas pretensões políticas do PT.

Inúmeros vídeos compartilhados por diversas mídias, mostrava algo inusitado: famílias buscando se aproximar de Nicolas querendo tirar uma foto, registrar o momento e o que mais me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que o procurava para uma foto, um abraço, um registro. Algo como se fosse um ídolo. Um assédio semelhante ao que se faz com um cantor, artista ou jogador de futebol. Poucas pessoas levaram em conta o significado de tudo isso.

Quando foi divulgado, oficialmente, pelo ministro da fazenda, que haveria acompanhamento das movimentações do Pix, Nicolas Ferreira gravou um vídeo que bateu mais de 318 milhões de visualizações. A coisa foi tão incômoda que o presidente deu uma reprimenda público no ministro e disse, dentre outras coisas, que não se podia criar normativos sem que fosse pela Casa Civil. Visando atenuar os efeitos, Erica Hilton também gravou um vídeo em resposta ao que disse Nicolas, mas o alcance foi, aproximadamente, 10% do que atingiu o vídeo de Nicolas.

Nicolas, conseguiu um nível de destaque no cenário nacional fora do comum e menosprezar isso é imbecilidade. Hoje, não existe nas hostes esquerdistas, uma figura sequer que consiga aglutinar em torno de si uma multidão como a que foi vista. O que se viu ali, não foi apenas uma caminhada isolada para manter a forma física, mas uma demonstração de coesão com apoio de empresários e pessoas comuns. Ao longo do caminho, foi disponibilizado apoio em termos de água, alimentação, repouso etc. coisa que eu duvido que qualquer candidato de esquerda consiga obter numa tentativa semelhante.

O voto na esquerda, principalmente, no PT é algo esquisito de se entender. Desde a sua criação, o PT é dono de quase um terço dos votos, ou seja, aproximadamente, 33% dos eleitores brasileiros são petistas. A partir daí, os votos petistas são decorrentes das coligações, portanto, o PT, por si só, não ganharia nenhuma eleição e sempre foi assim quando houve das disputas com Collor, Fernando Henrique Cardoso. Somente quando o PT firmou coligações com Deus e o diabo, conseguiu ganhar as eleições.

Ao longo da campanha política de 2022, chamava a atenção o fato de Lula não fazer caminhada sem as pessoas simpatizantes. Ele nunca caminhou por nenhuma rua do país, hora nenhuma e se resumiu a fazer encontros com eleitores petistas. Seria um bom teste para ele fazer uma caminhada na avenida Paulista, por exemplo, mas o grande chefe supremo, até mesmo quando sai de férias, vai curtir uma praia com sua esposa, na mais absoluta solidão. Em todo canto que vai, a praia é fechada para o público por conta da presença dele.

A grande diferença entre o que Nicolas fez e o que a esquerda faz é que, no primeiro caso, a participação, colaboração, é espontânea. Os vídeos mostram que havia tendas servindo comidas, havia pessoas distribuindo, havia lugares ofertados para dormir. Havia gelo para que Nicolas e outros colocassem seus pés no intuito de amortecer os efeitos de uma longa caminhada. Não havia imprensa para registrar tal ação, mas ao chegar em Brasília, com aquele lance do raio que atingiu algumas pessoas, a imprensa estava lá para divulgar e não apenas isso: quase culpando o deputado porque algumas pessoas foram atingidas.

Pode-se tirar uma grande lição: 500 anos adormecido em berço esplêndido, o Brasil não foi capaz de reagir aos infinitos desmandos envolvendo o nível absurdo de corrupção, a proteção exacerbada de determinadas figuras públicas. Acredito que o efeito dessa caminhada foi sentido no âmago da esquerda. No fundo, foi criado um símbolo para se combater – o bolsonarismo – e a crença das pessoas era de um reino pleno e farto de práticas poucas republicanas.

O desenho eleitoral mostrará que pouco se mudou no Nordeste. Mais preocupante é que poucos entendem que seria necessário mudar. Quando você vê um jovem dizer que o envolvimento de Frei Chico no rombo do INSS, bem como a declaração de que o filho do presidente ganhou mesada de R$ 300 mil são meras fake news, isso significa que devemos nos preocupar fortemente.

É engraçado o comportamento do eleitor nordestino: ele vota na esquerda, mas migra para estados como São Paulo ou Santa Catarina para tentar sobreviver, ter renda e poder manter sua família. Acorda Brasil! É o mínimo que tu podes fazer pelas gerações que acreditam que isso aqui pode ser diferente, pode ser melhor, apesar de toda estrutura que favorece corruptos.

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

UMA HOMENAGEM A MAMÃE

Minha mãe, Enedina Maurício

Há um ano o Céu ouvia
Tua resposta: -Presente!
Uma lacuna gigante
Ficou no meio da gente.
Deixaste a nossa vigília
Pra se juntar à Tercília,
João Maurício e Zé Vicente.

Meu coração hoje sente
Esta saudade ferina
Mas compreende a ação
Da Providência Divina:
Todos somos passageiros,
Pequeninos caminheiros,
Como tu foste, Enedina!

Foi a tua disciplina
De importância vital,
Tuas orações diárias
Nos protegeram do mal.
Conosco fica a lembrança
Enquanto você descansa
Na Mansão Celestial.

João Pessoa-PB, 30 de janeiro de 2026

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ana Aurora

Ana Aurora do Amaral Lisboa nasceu em 24/9/1860 em Rio Pardo, RS. Professora, escritora, poeta, dramaturga, jornalista, e ativista política. Foi precursora do ensino supletivo para adultos e pioneira do movimento feminista com destacada atuação política em fins do século XIX e princípios do século XX. Junto com a irmã Zamira, fundou o Colégio Amaral Lisboa.

14ª filha de Maria Carlota do Amaral e Joaquim Pedro da Silva Lisboa, comandante da Guarda Nacional de Rio Pardo. Diplomou-se na Escola Normal de Porto Alegre, em 1881, com distinção em todas as matérias e foi contratada como professora do Estado. Sua família tinha posicionamento contrário ao Partido Republicano. Eram federalistas e o fato causou-lhe perseguições políticas, que a obrigou a exonerar-se do cargo público e entrar no Partido Federalista, vindo a participar da Guerra Federalista no Rio Grande do Sul em 1893.

Na época sua irmã publicou na imprensa um poema elogiando o federalista Gumercindo Saraiva. Um republicano, major do Exército -Antero de Fontoura-, não gostou do elogio feito ao seu opositor e achando que foi ela e não a irmã a autora do poema, escreveu-lhe uma carta recriminando a atitude nos seguintes termos: “Essa não é a missão da mulher, deixar o lar doméstico para vir intrometer-se na política. Com tanto cultivo da inteligência, não pensais que a mulher, principalmente a solteira e sem pai, deve arrojar-se a vir provocar homem…” Ela se aborreceu com o insulto e decidiu resolver a parada nos moldes gaúchos da época.

Adquiriu uma arma, procurou o major e exigiu retratamento apontando-lhe a arma. Deve ter se desculpado, pois o desfecho não resultou em tiro, mas lhe rendeu um processo-crime. Foi julgada e absolvida por estar no pleno direito de “defesa da honra”. Este pode ser mais um pioneirismo alcançado por Ana Aurora, por se beneficiar de um direito até então só utilizado pelos homens. O episódio ficou marcado em sua biografia e alavancou sua carreira como colunista política e “membra honorária” dos federalistas. Pouco depois, junto com as irmãs Zamira e Carlota, fundou o Colégio Amaral Lisboa, dirigindo-o até 1924. Junto ao trabalho educacional, foi articulista em diversos órgãos da imprensa, onde expunha seus ideais políticos e educacionais. Através destes artigos, alguns deles utilizando-se de pseudônimos, ganhou notoriedade na política local.

Colaborou no jornal A Reforma, do Partido Federalista; no O Canabarro, de Santana do Livramento; Gaspar Martins, de Santa Maria; Correio do Povo, de Porto Alegre e jornais do Rio de Janeiro. Foi também escritora, poeta e dramaturga, tendo o primeiro livro – Minha defesa – publicado em 1895. Em Caxias do Sul, fundou e dirigiu o periódico O Estímulo, mantido de 1916 a 1918, ao mesmo tempo em que se dedicava a Literatura. Seu segundo livro – Traços meus -, uma coletânea de contos, foi publicado em 1924, pela Livraria do Globo.

Manteve intensa vida social com participação destacada na Sociedade Feminina Sempre-Viva e Grêmio Rio-pardense de Letras. Em 1915 criou curso de ensino noturno gratuito para adultos, bem antes do ensino supletivo ser instituído em 1931. Casou-se em 1922 com o Dr. Hermenegildo de Barros Lins e mudaram-se para o Ceará. Após breve estadia no Rio de Janeiro, voltou a morar em Rio Pardo, onde passou a cuidar do Colégio fundado pela família.

Junto com a irmã Zamira, dedicou-se durante 55 anos ao ensino, acolhendo alguns alunos gratuitamente. Em meados da década de 1930, o colégio passou por uns perrengues financeiros, devido em parte ao episódio ocorrido com o major, e as irmãs tiveram que viver numa condição precária em idade avançada. Em 1937 o governo do Estado, em reconhecimento aos serviços prestados na educação, lhes concedeu uma modesta pensão vitalícia, permitindo-lhes a sobrevivência. Seus ex-alunos também reconheceram suas contribuições ao ensino e ergueram uma herma na Praça Barão de Santo Ângelo, no centro da cidade, em 1944, expondo o busto das irmãs. Na inauguração do pedestal sua expressão, aos 84 anos, exprimia uma comoção e agradecimento à homenagem prestada.

Faleceu em 22/4/1951 e deixou alguns livros publicados, além dos já citados: Preitos à Liberdade e A culpa dos pais. Em termos biográficos, encontramos apenas breves verbetes na Wikipedia, que serviram para costurar esta síntese, e o livro Mulheres em cena: as trajetórias de Ana Aurora e Malvina Tavares no limiar do século XX, de Carlos Dias, publicado pela Editora Primas, em 2016. Malvina Tavares foi uma destacada ativista política, contemporânea de Ana Aurora, que se encontra no radar deste Memorial.