JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

DEU NO JORNAL

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A ELITE POLÍTICA BRASILEIRA: UM QUADRO DE NECROSE INSTITUCIONAL AVANÇADA

A elite política brasileira não governa. Ela administra a própria sobrevivência. Não legisla para o futuro. Legisla para blindar o presente. Não representa o povo. Representa a si mesma em regime de condomínio fechado, com porteiro armado, ar-condicionado e foro privilegiado. Se o Brasil fosse um paciente, a elite política seria o órgão que: não cumpre função vital; consome oxigênio; produz toxinas e ainda se declara indispensável.

1. Diagnóstico Primário: Deslocamento da Realidade

O primeiro sintoma é clássico e incurável sem choque externo: Perda total de contato com a vida real. O político brasileiro médio: não pega transporte público; não depende do SUS; não estuda em escola pública; não teme desemprego e não sente inflação no prato. Ainda assim, fala “em nome do povo” com a mesma naturalidade com que um turista descreve a selva — do alto do helicóptero. Machado de Assis pisaria fino: “Nada representa melhor o povo do que quem jamais o experimentou”.

2. Sintoma Crônico: A Profissão de Político

Em países saudáveis, política é função temporária. No Brasil, é carreira hereditária disfarçada de vocação pública. Aqui temos: filhos de políticos; netos de políticos; sobrinhos de políticos e assessores de políticos que viram políticos. É uma fauna endogâmica. Reproduz-se entre si. Fala sua própria língua. E reage a críticas como um organismo atacado: com anticorpos corporativistas. Millôr não perdoaria: “O problema do Brasil não é político ruim.

É político profissional. ”

3. Mecanismo de Sobrevivência: A Linguagem Como Anestesia

A elite política brasileira domina uma arte refinada: falar muito para não dizer nada. Eles dizem: complexidade do sistema; arcabouço institucional; responsabilidade fiscal; limites orçamentários e governabilidade. Tradução clínica: Não mexam nos nossos privilégios. Orwell assinaria o laudo: “Quando a linguagem é corrupta, a realidade se torna maleável”.

4. Comorbidade Grave: A Impunidade Como Ecossistema

A elite política brasileira não teme a lei. Ela convive com ela. Processos: prescrevem; se arrastam; se perdem; se reinterpretam; Escândalos: viram notas de rodapé; depois memes; depois piada; depois esquecimento. O sistema imunológico institucional foi treinado não para punir — mas para absorver o escândalo até que ele perca força. Machado de Assis, sorri de lado: “No Brasil, a justiça é lenta porque anda acompanhando o acusado”.

5. A Relação Patológica Com o Povo

A elite política brasileira tem uma relação curiosa com o cidadão: Em época eleitoral: chama de protagonista; No resto do tempo: chama de “populismo” quando reclama; Quando protesta: baderneiro; Quando se cala: maduro. Ou seja: o povo só é virtuoso quando não atrapalha. Millôr pisaria fundo: “O cidadão ideal é aquele que vota, cala e paga. ”

6. O Caso dos Privilégios: Um Estudo de Delírio Coletivo

Auxílios; Verbas; Penduricalhos; Cargos e Imunidades. Tudo isso é defendido com fervor quase religioso. Nunca é privilégio. É “garantia institucional”. Nunca é abuso.

É “prerrogativa”. Nunca é imoral.

É “legal”. Aqui, a legalidade virou álibi ético, e a ética foi terceirizada para discursos vazios. Orwell fecha a conta: “Legal não é sinônimo de justo. Mas no Brasil fingimos que é.”

7. O Medo Real da Elite Política

Eles não têm medo de golpe. Não têm medo de protesto. Não têm medo de crise. Eles têm medo de três coisas apenas: Educação de qualidade; Transparência radical e Memória coletiva ativa. Sim. Porque um povo educado pergunta. Um povo informado compara. Um povo que lembra cobra. E cobrança é fatal para quem vive de improviso, discurso e privilégio.

Conclusão: O Colapso Não Virá Com Gritos – Virá Com Clareza

A elite política brasileira não cairá com revolta desorganizada.

Ela sobrevive disso. Ela cai quando: o cidadão entende o sistema, o discurso deixa de hipnotizar e o “sempre foi assim” perde força. O verdadeiro terror de Brasília não é a raiva do povo — é a lucidez dele. Porque a lucidez não pede favores. Não idolatra. Não se ajoelha. Ela apenas olha e diz: “Isso não é normal. E não é aceitável”. E nesse momento, todo o teatro desaba.

DEU NO JORNAL

A TEOCRACIA IRANIANA EM XEQUE

Editorial Gazeta do Povo

protestos irã

Manifestação em solidariedade ao povo iraniano diante da embaixada norte-americana em Roma, em 14 de janeiro

Mais uma vez, os iranianos estão nas ruas protestando contra o regime teocrático que governa o país desde 1979. E, mais uma vez, os aiatolás respondem com um grau de violência de dar inveja aos bolivarianos que ainda se agarram ao poder na Venezuela. As autoridades iranianas prometem processos rápidos (em que o respeito aos direitos dos réus será inversamente proporcional à celeridade do julgamento) e execuções de manifestantes para tentar controlar as multidões. Em várias outras ocasiões – a mais recente delas em 2022, após o assassinato de Mahsa Amini, jovem presa por não usar corretamente o hijab (véu islâmico) –, os teocratas conseguiram conter a revolta popular. Será diferente desta vez?

O mundo aguarda notícias sobre Erfan Soltani, manifestante de 26 anos cuja execução havia sido prometida para esta quarta-feira, mas o fato é que os tais julgamentos anunciados pelo governo do Irã não passam de formalidade, pois nas ruas a repressão já tem licença para matar: o número de mortos já passa de 2,4 mil; somando-se as prisões, o número de iranianos atingidos pela violência estatal é de pouco mais de 18 mil, segundo a organização Human Rights Activists (HRANA), sediada nos EUA. Em comparação, os mortos nos protestos de 2022 não chegaram a 500, segundo dados da Iran Human Rights (IHRNGO). Os aiatolás bloquearam a internet no Irã há uma semana; apenas uma rede doméstica, pela qual só são acessados sites permitidos pelo governo, está em funcionamento. Não é possível telefonar do exterior para o Irã, embora a rede CNN tenha informado que, na terça-feira, algumas pessoas conseguiram ligar de dentro do Irã para números fora do país.

Desta vez, o estopim dos protestos foi econômico: a inflação de 2025 foi de 42,5% e a moeda local, o rial, se desvalorizou 69% em relação ao dólar – isso apesar de a moeda norte-americana ter perdido valor globalmente no ano passado. Lojistas e comerciantes, descontentes com a economia, iniciaram as manifestações no fim de dezembro; só depois jovens, estudantes e iranianos mais pobres (os principais afetados pela alta nos preços) se juntaram ao movimento e encheram as ruas, transformando os protestos atuais em atos contra o regime como um todo, e não apenas contra a forma como os teocratas conduzem a economia do país. À medida que as manifestações se intensificaram, o governo passou do discurso conciliador, admitindo os problemas na economia, para a repressão violenta.

Os problemas econômicos não apenas colocaram nas ruas iranianos que tenderam a ficar afastados de ondas anteriores de protestos, mas também fizeram com que eles se espalhassem por todo o país – há manifestações em todas as 31 províncias. Esta, no entanto, não é a única diferença a alimentar as esperanças de que desta vez o regime teocrático caia. O Irã está enfraquecido internacionalmente: seus aliados no chamado “eixo da resistência” – os terroristas do Hamas e do Hezbollah, e os houthis do Iêmen – estão severamente debilitados, especialmente depois da reação israelense ao massacre de 7 de outubro de 2023. Na Síria, o aliado Bashar al-Assad caiu em dezembro de 2024. Nem o território iraniano está incólume, como demonstraram os ataques israelense e norte-americano a instalações nucleares iranianas, e as ações em que Israel conseguiu eliminar líderes terroristas e chefes da Guarda Revolucionária iraniana.

Esse enfraquecimento internacional do Irã também permitiu que os Estados Unidos aumentassem sua pressão sobre a teocracia islâmica. Donald Trump anunciou tarifas de 25% sobre produtos de países que negociarem com os iranianos (o que inclui o Brasil) e deixou subentendido que pode intervir no país persa se de fato o regime executar manifestantes. No entanto, o mundo já aprendeu que com Trump é preciso ver para crer: se por um lado os EUA de fato agiram na Venezuela e levaram Nicolás Maduro, por outro lado têm iniciado uma política de distensão com a ditadura bolivariana que persiste no país; além disso, as tarifas são aplicadas de forma muito seletiva – em agosto do ano passado, o norte-americano anunciou o mesmo tipo de punição para quem comprasse petróleo russo, mas apenas a Índia acabou sancionada.

A teocracia iraniana é violadora contumaz dos direitos humanos, oprime especialmente mulheres e minorias como a população LGBT, mata e prende os dissidentes, financia o terrorismo internacional e corre para conseguir armas atômicas e desestabilizar de vez a região. Motivos não faltam para que o regime dos aiatolás mereça cair, pelas mãos dos próprios iranianos. Se isso ocorrerá agora ainda é totalmente incerto, mas, ainda que ocorra, isso não é garantia de que o futuro será necessariamente de estabilidade e democracia – e os vizinhos do Irã são o melhor exemplo disso.

PENINHA - DICA MUSICAL