ALEXANDRE GARCIA

A DÍVIDA QUE LULA DESPREZA É UMA BOMBA-RELÓGIO PARA QUEM VENCER EM OUTUBRO

Achei muito estranho – melhor dizendo, assustador – que Lula tenha dito, na sabatina da Globo, que “a mim não preocupa a dívida pública”. Agora, o jornal O Globo está mostrando que a situação é muito ruim. Metade da dívida paga juros atrelados à Selic, e o país paga mais de R$ 1 trilhão por ano em juros. É dinheiro posto fora. A dívida pública está em R$ 10,8 trilhões e, disso, R$ 5,7 trilhões são Letras Financeiras do Tesouro, com a taxa de juros lá em cima. Esses títulos, durante a pandemia, no governo Bolsonaro, representavam 34% do estoque total da dívida; agora, são 51,1%. É uma bomba-relógio para o próximo mandato presidencial.

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A incrível história (falsa) de Roberta Luchsinger

Estou muito impressionado com a biografia de Roberta Luchsinger. A começar que esse Luchsinger dela não tem nada de suíço. Ela diz que o avô seria do Credit Suisse, mas é falso. Uma tia dela, sim, era casada com banqueiro; os dois morreram em acidentes aéreos – ela em 2009, ele em 2017 –, e Roberta tentou pegar a herança. A atitude dela é típica do que os franceses chamam de nouveau riche, “novo rico”. É aquela pessoa que precisa mostrar para os outros que ganhou dinheiro, e então compra bolsa de marca, sapato de marca, cinto de marca, roupa de marca, mala de marca, relógio de marca… aquela coisa ridícula que o rico de berço não faz, porque prefere a vida discreta. O dinheiro do rico atrai mais dinheiro; o dinheiro do “novo rico” é gasto mostrando para os outros que é rico.

Agora, o Estadão mostra que a empresa de Florianópolis que ela representava como lobista tem contratos de R$ 81 milhões com órgãos do governo. Lembro de uma mensagem dela para Lulinha, dizendo que em 2024 eles ganhariam R$ 100 milhões. Não deu e não vai dar. Depois de Lula a chamar de “pilantra” e dizer que ela cometeu uma imbecilidade, acho que vão ficar com o pé atrás em relação a ela.

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O abuso de autoridade contra os familiares de condenados do 8 de janeiro

Uma reportagem da Gazeta do Povo mostra a servidora pública Vanessa Rolim de Moura, de Ji-Paraná (RO), criando seis filhos sem o marido, porque ele fugiu para o exterior após ser condenado a 14 anos por causa do 8 de janeiro. Ele já tinha sido preso antes da condenação, estava com tornozeleira eletrônica e saiu do país; ninguém sabe onde ele está. Ele é caminhoneiro, e bloquearam todos os bens da família, inclusive os caminhões. Eu vi na foto quatro veículos. Ele começou com um, e chegou a quatro.

Fui ler a lei antiga de abuso de autoridade. Sabem de quando é? De 9 de dezembro de 1965, ou seja, em pleno regime de 64; é a Lei 4.898/65. E é dura essa lei de abuso de autoridade: quem fizer prisão arbitrária, quem não der legítimo direito de ampla defesa, quem inventar um motivo para prender a pessoa vai em cana. Mas a lei que está em vigor agora é outra, a Lei 13.869/2019. A lei atual trata praticamente da mesma coisa: se a autoridade restringir o amplo direito de defesa de todas as formas (e há mil formas de fazer isso), se a autoridade prender fora da previsão legal, é responsabilizada. Isso tem sido abundante no Brasil, a começar por aquela perfídia de pôr as pessoas no ônibus, supostamente para irem à rodoviária, e depois prendê-las sem lhes explicar o motivo, sem descrever os seus direitos. E tudo o que foi feito depois, os julgamentos coletivos… É o que estamos vivendo aqui. Por isso gosto de ler a Constituição. Coitada, mas é a única coisa que ainda nos salva da lei das selvas.

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PHILADELPHIA (1993), UM FILME QUE NÃO MAQUIA O PRECONCEITO

O filme Philadelphia em DVD

Tema polêmico e dramático, tratado com seriedade pelo diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes) e pelos atores Tom Hanks e Denzel Washington. “Filadélfia” começa perfeitamente bem. A lente de Tak Fugimoto mostra uma cidade lentamente alegre, movimentada, acompanhada pela bela canção de Bruce Springsteen, “Streets of Philadelphia” que, meritocramente, leva o Oscar de melhor canção original.

Tom Hanks, acertadamente, também leva a sua estatueta para casa por ter sido escolhido como melhor ator, merecidamente. Um trabalho brilhante, que trouxe o ator para os dramas da vida, tirando-o de comédias quase que esquecíveis.

No início dos anos 90, a AIDS ainda era uma incógnita para o grande público, mas já colecionava vítimas pelo planeta. Famosos como Freddy Mercury (morto em 91) e Cazuza (morto em 90) foram cedo demais, junto com diversos outros artistas e desconhecidos, seja pela falta de informação, pela falta de sorte em transfusões ou pela irresponsabilidade sexual ou com as drogas. Mais do que isso, a aids era conhecida como a condenação gay, a peste a que todos os homossexuais estavam fadados por sua ‘depravação’. Algo absurdo, óbvio.

Foi mais ou menos nessa época ainda obscura da doença que o então em evidência Jonathan Demme resolveu filmar Filadélfia (Philadelphia, 1993), a história de um prodígio advogado que é demitido de um poderoso escritório em que trabalhava depois que um dos sócios descobre que ele tem aids. Andrew Beckett (Tom Hanks) decide então processar seu antigo emprego, buscando diversos advogados para representar seu caso sob a alegação de armação (ele teoricamente havia perdido documentos importantes de um caso mais importante ainda), mas todos o recusam. Joe Miller (Washington), advogado trabalhista negro extremamente homofóbico, decide comprar sua briga e, juntos, enfrentam não apenas um império da lei, mas também os preconceitos pessoais de cada um. Tudo baseado em um ‘caso real’.

A verdade é que “Filadélfia,” mesmo com suas escolhas óbvias (advogado negro, raça historicamente sofrida, tem preconceito contra o gay portador de HIV, outra minoria social), tem seus méritos, principalmente por ter sido o primeiro grande veículo a dialogar com o público em massa sobre o assunto em uma época de tabus. Antes dele houve outros trabalhos, mas o filme de Demme conseguiu chamar atenção por ter nomes fortes envolvidos (Tom Hanks, Denzel Washington e o próprio Demme, que vinha de cinco Oscars principais por O Silêncio dos Inocentes (The Silence of The Lambs, 1991) e ser relativamente simples, sem grandes discussões filosóficas ou dubiedade de personalidade, abraçando assim um público ainda maior por sua simplicidade e mensagem direta.

É um filme claro onde o sujeito A é prejudicado, corre atrás de seus direitos, constrói uma relação com a desavença B e tudo se fecha certinho dentro da boa moral, conscientizando a todos. Mas, ao mesmo tempo, é um trabalho tão sincero, tão bem interpretado, com um Hanks tão cativante (premiado pelo Oscar) e um Denzel Washington tão enérgico que fica impossível não simpatizar por sua causa. Há ainda um Antonio Banderas bem jovem interpretando o companheiro de Hanks e a participação como ator de Roger Corman, a lenda por trás de diversos clássicos de horror dos anos 60.

Bruce Springsteen – Streets of Philadelphia (Official Video)

Filadélfia (1993) – Trailer legendado

Análise Jurídica do Filme Filadélfia

DEU NO X

DEU NO JORNAL

CRITÉRIOS PARA “DEEP FAKES” NA CAMPANHA

Editorial Gazeta do Povo

editorial andré mendonça deep fakes

Vídeo de IA com Jair Bolsonaro foi exibido na convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República

Nesta terça-feira, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve analisar uma ação movida pela Federação Brasil da Esperança (formada por PT, PCdoB e PV) contra o candidato Flávio Bolsonaro (PL), pelo uso de um vídeo feito por inteligência artificial, no qual um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro manifesta apoio ao filho. Os partidos de esquerda alegam que se trata de deep fake, o que viola as normas do TSE sobre uso de recursos de IA na campanha eleitoral. O julgamento deve marcar a adoção de regras mais específicas que guiem a análise de outros casos que inevitavelmente chegarão à corte, e o ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, já sugeriu critérios bastante sensatos.

Para Mendonça, a vedação do artigo 9.º-C da Resolução 23.732/2024 do TSE deve se aplicar apenas a conteúdos de IA que tenham duas características essenciais: o “grau de realismo ou verossimilhança objetivamente apto a produzir falsa percepção de autenticidade” e a intenção de ludibriar o eleitor, fazendo-o pensar que se trata de situação real. Foi usando esse critério que Mendonça mandou remover liminarmente um vídeo narrado em primeira pessoa por alguém que seria o banqueiro Daniel Vorcaro, e que associa Flávio Bolsonaro a esquemas de corrupção. Outros conteúdos gerados por IA, ainda que realistas, entrariam no conceito de “conteúdo sintético”, descrito no artigo 9.º-B, e que inclui “o dever de informar, de modo explícito, destacado e acessível que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e a tecnologia utilizada”.

De imediato, os critérios já servem para descartar como deep fakes dois casos famosos: o primeiro é o próprio vídeo de Jair Bolsonaro questionado pela esquerda, pois logo de início o avatar afirma que não se trata do Bolsonaro real, mas de uma simulação feita por IA, ou seja, inexiste a intenção de enganar os participantes da convenção do PL, ocasião em que o vídeo foi exibido. O segundo é o dos vídeos satíricos com fantoches publicados pelo também candidato Romeu Zema, pois obviamente não há realismo algum ali que induza quem os assiste a pensar que se trata de conversas reais – o que deixa ainda mais patente a ignorância digital do ministro do STF Gilmar Mendes, que falou justamente em deep fake ao pedir a inclusão de Zema no inquérito das fake news.

Ressalte-se que o ministro manteve, em sua proposta, a proibição de deep fakes que possam ser benéficos a um candidato – por exemplo, que forjassem uma situação em que esse candidato apareça ao lado de um político ou personalidade extremamente popular, recebendo um apoio que poderia lhe render ganho eleitoral. Também aqui existe a ideia de ludibriar a população, criando uma cena realista de forma que, sem a devida identificação dada às peças criadas por IA, o eleitor acredite que o encontro realmente ocorreu.

Os critérios de Mendonça mantêm a correta necessidade de combate aos deep fakes, que de fato têm a capacidade de desequilibrar a disputa eleitoral por meio da mentira muito bem elaborada – a proibição desse tipo de procedimento é um dos poucos acertos nas recentes resoluções do TSE, que costumam pender mais para o lado da censura inconstitucional. Mas eles não tratam o eleitor como um incapaz a ser tutelado, alguém sem inteligência para perceber que um vídeo é produzido por IA quando ele é devidamente descrito como tal (como foi o caso do vídeo de Jair Bolsonaro), ou quando ele não tem o realismo necessário para ser confundido com uma cena verdadeira (caso dos fantoches de Zema). Se o plenário do TSE aprovar a proposta, terá um guia seguro para analisar novas ações que chegarem à corte sem risco de voltar a atacar a liberdade de expressão.

PENINHA - DICA MUSICAL