Eu já contei aqui a história do primeiro “teórico” da inflação, o inglês John Law. Sua experiência, na França de Luis XV, foi tão desastrosa que por muito tempo ninguém mais tentou nada parecido. No século seguinte, a Inglaterra manteve-se fiel ao padrão-ouro e tornou-se a maior potência da Europa. Mas no desabrochar do século 20, os insensatos soberanos europeus se lançaram em uma guerra que mudaria para sempre a história do mundo, e que é hoje chamada de Primeira Guerra Mundial.
Para pagar as despesas da guerra, os governantes jogaram o padrão-ouro no lixo e começaram a fabricar dinheiro de papel. Ótimo para o governo e seus amigos, péssimo para o povo. Mas, em tempo de guerra, reclamar do governo era anti-patriótico e podia acabar em cadeia ou coisa pior, então o povo aceitou calado.
A primeira “bolha” moderna aconteceu nos EUA em 1921, logo após o fim da guerra. As alegações oficiais eram as despesas com a guerra e a necessidade de “manter a economia funcionando”. Claro que os políticos descobriram rapidamente como é gostoso poder fazer dinheiro surgir do nada. Como esse dinheiro vai parar nos bancos, o crédito fica barato e as pessoas começam a gastar mais do que podem, estimuladas pelos políticos que repetem sem parar que “tudo está bem e vai ficar melhor ainda”. O problema é que, se em um primeiro momento tudo parece bom, logo depois vêm a inflação e o endividamento, e o banco central percebe que tem uma escolha a fazer: hiperinflação ou recessão. A margem de manobra que os otimistas acreditam existir entre as duas fica cada vez menor.
Voltando a 1921, naquela ocasião o presidente Harding fez o certo: cortou a expansão monetária e aumentou os juros. Com o fim do dinheiro fácil, a produção caiu 20% e o desemprego mais do que dobrou. O governo reagiu reduzindo impostos e cortando profundamente suas despesas. Em 1923, a crise já estava superada e a economia voltou a crescer.
Ao mesmo tempo, na Europa, a derrotada Alemanha também recorria à fabricação de dinheiro para pagar as contas. Para dar uma idéia de como os banqueiros gostam desse sistema, em dez anos o número de agências do Deutsche Bank passou de 15 para 242, e entre 1922 e 1924 foram fundados 493 novos bancos no país. Ao contrário dos EUA, a Alemanha persistiu o quanto pode na política inflacionária, até chegar ao ponto em que a cotação do dólar atingiu 4,2 trilhões de marcos e um pão custava 400 bilhões. A solução, no final de 1923, foi criar uma nova moeda com valor fixo em ouro.
Já naquela época políticos e banqueiros perceberam que para poder continuar fabricando dinheiro, era necessário mudar a opinião do povo. Poucos anos após a crise de 1922, o governo dos EUA voltou a praticar a “expansão”, usando como argumento, entre outras coisas, a crise da Alemanha.
A nova bolha cresceu igualzinha à anterior. Com dinheiro fácil nos bancos, todo mundo se endividava, até mesmo para aplicar o dinheiro na bolsa. Empresas surgiam do dia para a noite sem nenhum patrimônio e lançavam suas ações. Tudo parecia o paraíso até que, novamente, o governo percebeu que aquilo não poderia continuar. Em outubro de 1929, houve a famosa “quebra da bolsa”, deflagrada pela notícia de que o presidente Hoover iria adotar uma política protecionista chamada Tarifa Smoot-Hawley.
Poderia ter sido outra crise que duraria um ano, como em 1921/22, mas Hoover não era Harding. Ele aproveitou a crise para aumentar enormemente o poder do governo sobre a economia, controlando salários, tabelando preços e regulamentando tudo. Seu sucessor, Roosevelt, além de manter a mesma política, começou a gastar como um alucinado em obras faraônicas (e aumentar impostos para pagá-las). Já contei esta história aqui.
Quanto mais poderosos os políticos ficam, mais bajuladores eles terão. A imprensa elogiava o governo e seu “New Deal” sem parar, e a culpa de todos os problemas era sempre dos outros. Foi nessa época que começou a fama de um economista que até hoje é o santo padroeiro dos adoradores do estado grande: John Maynard Keynes. Assim como John Law duzentos anos antes, Keynes defendeu a idéia de que o governo pode, e deve, fabricar dinheiro do nada. Um exemplo claro que mostra as idéias de Keynes e o porquê delas serem tão adoradas pelo governo está em um texto seu publicado no New York Times em 1933:
“Na área da política doméstica, coloco em primeiro plano um grande volume de gastos sob os auspícios do governo. Em segundo lugar, coloco a necessidade de se manter um crédito abundante e barato. […] Imagine o quanto isto significaria não apenas para a prosperidade material dos Estados Unidos e de todo o mundo, mas também em termos de conforto para a mente dos homens em decorrência de uma restauração de sua fé na sensatez e no poder do governo.”
Acho especialmente significativo que para ele a “sensatez” do governo não é algo a ser analisado ou questionado: é uma questão de fé. Roosevelt fez exatamente o que Keynes aconselhou (provavelmente teria feito mesmo sem o conselho). O resultado foi que a recessão, ao invés de durar um ano como em 1922, durou quinze e entrou para a história como “a grande depressão”, que também prejudicou a economia de muitos outros países e ajudou a começar a II Guerra Mundial.
Para ser justo com Keynes, vale lembrar que outro grande economista, Friedrich Hayek, quando visitou o Brasil em 1979, disse o seguinte:
“Keynes foi um dos maiores combatentes contra a inflação e morreu no momento errado. Pouco antes de morrer ele me disse, pessoalmente, que iria mudar o rumo de suas idéias. Alguns dos seus discípulos, muito mais keynesianos do que o próprio Keynes, é que confundiram as coisas e levaram o mundo a acreditar em teorias elaboradas para as necessidades políticas da Inglaterra, na época.” (atenção para a expressão: “necessidades políticas”, não “necessidades econômicas”)
Passada a II Guerra, as bolhas foram se tornando cada vez mais comuns. O roteiro nunca muda: o governo diz que é preciso “movimentar a economia” ou “incentivar a demanda”. Para isso, ele fabrica dinheiro que é gasto construindo estádios de futebol ou transamazônicas. O dinheiro fabricado alegra as empreiteiras e enriquece os bancos, que passam a liberar empréstimos fáceis que “aquecem” determinados setores da economia (os mais comuns são a bolsa de valores e o setor imobiliário). Por algum tempo todo mundo se sente rico e se enche de prestações e crediários para pagar. Chega uma hora que a expansão acaba, a festa acaba junto e sobram só as dívidas. Depois de algum tempo, tudo recomeça. Alguns exemplos:
– Japão, anos 80. Com os estímulos do governo, os japoneses pareciam que iam dominar o mundo. O mercado imobiliário atingiu valores completamente irreais: em Ginza, bairro comercial de Tóquio, o preço do metro quadrado de terreno passou dos duzentos mil dólares, o que equivale a dois bilhões de dólares por quarteirão. Pessoas e empresas faziam empréstimos dando como garantia estes imóveis supervalorizados. Quando a bolha estourou, em 89, o governo socorreu os bancos, mas a economia estagnou e assim permanece até hoje. A bolsa de Tóquio hoje, três décadas depois, ainda está 30% abaixo do que estava durante a bolha.
– EUA, anos 90. Com o governo despejando dinheiro e os bancos emprestando a juros baixos, muitos americanos acreditaram que podiam ficar ricos comprando ações das novas empresas do setor tecnológico (conhecidas como “pontocom”). Qualquer nerd recém-saído da faculdade criava um site na internet e punha ações para vender na bolsa, e como o dinheiro era abundante, muita gente comprava e as ações disparavam. Quando o banco central de lá subiu os juros em 99, o dinheiro fácil sumiu e as ações começaram a despencar. Em um ano, mais de seiscentas empresas pontocom negociadas na bolsa faliram.
– A crise imobiliária de 2008. Logo após o estouro da bolha das pontocom houve o 11 de setembro. Os políticos fizeram apelos desesperados para que a população gastasse, chegando a falar em “consumo patriótico”. O governo começou a estimular fortemente o setor imobiliário, que inchou de forma semelhante ao Japão dos anos 80. Em 2008 a crise veio na forma de bancos falindo e mansões sendo abandonadas porque não havia quem quisesse comprar. Veja detalhes neste artigo clicando artigo.
Todas estas bolhas ensinaram aos banqueiros e aos investidores que eles podem se endividar à vontade. Quando a bolha estourar, o governo vai socorrê-los. Este socorro sempre é pago pelo contribuinte, na forma de inflação e aumento de impostos, mas com os economistas e a imprensa garantindo que isso é o certo a fazer, ao coitado do contribuinte só resta pagar e ficar calado.
E agora, o que está acontecendo? O horizonte não parece bom. Com a crise da COVID, governos do mundo inteiro (mas não todos, atenção!) saíram imprimindo dinheiro em quantidades que fazem as crises anteriores parecerem coisa de criança. Os EUA não falam mais em bilhões de dólares, só em trilhões. O problema é que, ao contrário das outras vezes, a população já está reclamando da inflação antes do estouro. Isso compromete o plano normal, que é deixar a bolha estourar, dar dinheiro para salvar os bancos e os investidores e seguir em frente.
Nos EUA, a inflação anual já passou dos 7%, maior valor dos últimos 40 anos, e em condições normais os juros já estariam subindo. Mas com uma dívida de 30 trilhões, economia contraída, milhões de pessoas recebendo auxílio do governo para não trabalhar, o banco central deles está encurralado. Qualquer movimento mais forte pode jogar o país em uma recessão grave. Ter um presidente fraco e com sintomas de senilidade não ajuda.
Na Europa, a situação é ainda pior. A inflação ao consumidor (manipulada politicamente como nosso IPCA) está em 5%, o que já é muito alto para os padrões europeus. Já o índice de preços dos produtores, por exemplo, está em 26% (curiosamente próximo ao brasileiro, que está em 28%). Mas se o Banco Central Europeu fizer o necessário para conter a inflação, que é subir os juros e reduzir a fabricação de dinheiro, isso levará à falência vários países, começando com Grécia e Itália, cujas contas e dívidas públicas estão em situação de calamidade.
Em resumo: de um lado, os políticos têm horizontes de curto prazo e fazem qualquer coisa para que a economia cresça, mesmo que esse crescimento seja insustentável. Seus sucessores que se virem com a crise. De outro lado, relembrando a frase de Keynes lá em cima, as pessoas de hoje tem uma fé inabalável não apenas “na sensatez e no poder do governo” como também no seu direito de receber benefícios gratuitos deste governo, começando com saúde e educação e chegando ao dinheiro vivo. Como disse um sem-teto entrevistado em São Francisco: “por que eu vou trabalhar se o governo me dá 780 dólares por mês para eu não fazer nada? Prefiro passar o dia assistindo Netflix no meu smartphone.”
Aparentemente, todos pretendem deixar esta bolha crescer o máximo possível. O estouro será com certeza memorável.
Brilhante, Marcelo. Já escrevi algumas vezes sobre isto: todo aquele dinheiro dos “auxílios” desaparece rapidamente das mãos do “assistido” mas continua circulando dentro da economia, vai para as mãos do varejista, daí para o atacadista, para o fabricante…
Inflação é uma das consequências inevitável.
E através do imposto acaba voltando para o mesmo governo. Bem lembrado, Osnaldo.
Aliás, a mais nova maluquice, chamada Teoria Monetária Moderna, defende exatamente isso: o governo pode emitir quanto dinheiro quiser, e se a inflação começar a subir basta aumentar os impostos para “enxugar” o excesso de dinheiro.
Marcelo sempre traz boas informações e motiva um debate construtivo aqui no JBF. Agradeço pelo tempo que ele dedica as pesquisas e elaborar um texto que vale a pena ler. Já manifestei minha opinião divergente em relação ao uso do Padrão Ouro, que na minha opinião imporia uma rigidez inconveniente na política monetária.
Insisto numa pergunta: Por que pagam US$ 38.000,00 (já foi 60 mil) num Bitcoin? Além das outras moedas, que o único lastro é um sistema baseado na confiança do modelo, no anonimato, com baixa aceitação (um dos fatores mais importantes para moeda). No país do Bitcoin os preços flutuariam bastante, passando por inflações e deflações seguidas, inviabilizando a economia.
No meu entender, confiança é o nome do jogo. Estamos assistindo no início de 2022 uma valorização surpreendente do Real contra as outras moedas. Juro! O Brasil tem uma dívida enorme e paga atualmente um dos juros mais caros do planeta, o que atrai uma grana de curto prazo para brincar nesse diferencial de juros (tomar em dólar aplicar em real), fazendo o Real apreciar. Se o regime fiscal (confiança) garantisse que seria possível estabilizar a dívida, o Tesouro não estaria pagando 5,70% + IPCA para 2055. É muito juro!
Quem acredita que o Brasil de Lulla ou Bolsonaro vai dar certo, pode comprar para os filhos e netos. Quem não acredita aplica no curto prazo para diminuir o risco. Também tem muita taxa, 2025 pagando 11,32%, IPCA + 5,40% pra 2026.
Embora P Guedes tenha dito que o Brasil iria deixar de ser o paraíso dos rentistas, não é isso que está acontecendo. Infelizmente.
Eduardo, já escrevi sobre o bitcoin e pretendo escrever de novo em breve. Governos do mundo inteiro que estão morrendo de vontade de eliminar o dinheiro físico e substituir por dinheiro digital, o que permitiria um grau de controle absurdo sobre as pessoas. Bitcoin e outras criptomoedas são a forma de se proteger, e é por isso que ele está tão valorizado.
Quanto aos nossos juros, concordo integralmente com você. Me vem à cabeça uma velha frase: O Brasil é o país do futuro, e sempre será.