CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

OS COMUNISTAS

Salvador (Ribeira), 12 de abril de 1964.

Naquele dia, a principal manchete do jornal “A TARDE”, que saia à tarde mesmo, estampava na primeira página: Polícia dá tiros de festim em subversivos na Ribeira. E dizia: “Ontem à noite a polícia foi comunicada que subversivos jogaram pedras na residência da professora de educação física, residente na Ribeira. Quando os policiais chegaram no local, deram alguns tiros de festim e os marginais fugiram pelo mar, a nado”.

Não era nada daquilo que foi publicado. Os subversivos eram na verdade, os moleques da Ribeira, que todas as noites se aboletavam nos galhos das árvores de fícus, que existiam na beira mar, em frente ao sobrado da professora, que ensinava no Ginásio João Florêncio Gomes. Ficavam ali esperando, até que ela e outra professora que ensinava na Escola Vitor Soares, começassem a roçar as aranhas. Era assim que denominávamos a transa entre mulheres. Era um espetáculo que deixava todo mundo excitado e a turma ficava ali escondido, a apreciar. Isso se repetia quase todas as noites.

O ninho da sacanagem ficava em um sobrado, no quarto da frente da residência que era uma das mais modernas da Ribeira. A fachada era de vidro transparente e elas não se preocupavam em fechar as cortinas, porque em frente era uma avenida, o cais e o mar. Só não imaginavam que a molecada descobriu e tinham como esconderijo as copas das árvores.

Estrategicamente, quebrávamos algumas lâmpadas de iluminação pública, para que a penumbra nos escondesse melhor.

Naquela noite deviam ter mais de vinte em cima das árvores. Cada um tinha seu posto cativo e, já estava passando da hora, quando Paulinho, filho de dona Silvinha, impaciente, desceu da árvore e sem que, qualquer um dos outros percebesse, jogou uma pequena pedra na vidraça, indo-se embora para casa.

Desconfiada, a professora olhou para o cais vendo o movimento suspeito da molecada.

Imediatamente, telefonou chamando a polícia.

Naquela época, após a revolução de 64, qualquer delito ou confusão era tido como subversão.

Nós em cima das árvores não sabíamos que fomos descobertos.

Os carros da polícia chegaram pela rua Lélis Piedade e pelo porto dos Tainheiros. Tinha até ambulância e corpo de bombeiros.

Não tivemos tempo de correr por terra e a única saída foi o mar, nadando para o subúrbio de Plataforma a cerca de 800 metros de distância, conforme a correnteza. Os que tiveram coragem pularam na água. Cinco não tiveram tempo de descer das árvores, sendo que quatro foram presos. Os soldados se posicionavam sob as árvores e gritavam:

– Vou contar até três, se não descerem, vamos atirar. Um, dois, três…

– Os quatro temendo as balas desceram aterrorizados. O quinto ficou escondido nas folhagens, não desceu, ate´que os policiais fossem embora, e mesmo todo cagado, ficou lá para contar a estória.

Enquanto isso as viaturas se posicionaram com os faróis para o mar, onde já estávamos, já a uma distância de uns cem metros.

Nisso, para não sermos vistos, já nadávamos aos mergulhos e víamos as balas brilhando abaixo da superfície, como se fossem peixes luminosos.

Quando vínhamos à flor d’água tomar fôlego, olhava para trás víamos os feixes luminosos dos faróis e ouvíamos os estalos da artilharia.

Foram terríveis aqueles primeiros momentos. Quando já nos encontrávamos mais longe, já protegidos pela escuridão nadávamos desesperadamente. Alguns choravam apavorados pelos tiros. Mais adiante cansados, paramos de nadar e nos juntamos para pensar como sair daquela situação. Logo, alguém pensou. – e se a polícia pegar uma embarcação e vier atrás de nós?

– Outro sugeriu. – Vamos nos dividir em grupos, porque fica mais difícil de eles nos verem.

Dividimo-nos em três grupos e continuamos nadando em direção a Plataforma, Cabrito e cabeceira da ponte São João, que liga os dois subúrbios.

O primeiro grupo chegou ao navio da Bahiana, o Paraguaçú, apoitado no largo, sendo acolhidos pelos vigias.

O segundo grupo chegou no Cabrito. O grupo do qual eu fazia parte, fomos vistos e recolhidos por dois pescadores em uma canoa, que nos levaram até São Bartolomeu, de onde nos dirigimos até a roça do pai do nosso amigo Romeu. Chegamos na propriedade em torno das duas horas da madrugada e seu Bixiguinha nos recebeu meio que assustado com a repentina visita. Estávamos todos de calção e morrendo de frio.

Permanecemos escondidos na roça de Romeu durante três dias, até que ficássemos sabendo o que realmente aconteceu. O pessoal na Ribeira, achava que havíamos morrido no fogo da artilharia e já estavam esperando os nossos corpos boiarem em algum ponto da enseada.

Quando voltamos para casa, todo mundo nos olhava, como se fôssemos almas penadas do outro mundo.

Os quatro meninos que foram presos ficaram incomunicáveis no DOPS, durante dez dias.

Só depois que a mãe de um deles, foi no jornal “A TARDE” e deu entrevista a respeito do que realmente aconteceu, naquela noite dos tiros de festim, é que eles foram soltos.

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