MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Nas aulas de história, nos ensinam que o sistema econômico da Idade Média era o Mercantilismo. Um aspecto importante do mercantilismo foi a organização da produção em grupos fechados conhecidos como guildas. As guildas davam aos seus integrantes o monopólio de uma atividade em cada local: tecelões, padeiros, ferreiros, pintores, cervejeiros… Cada profissão era rígidamente controlada pela respectiva associação, que por sua vez era controlada pelos seus integrantes. E como se tornar um membro da guilda? Pagando, é lógico.

Para explicar melhor: o interessado em tornar-se um profissional de determinada área precisava ser aceito como aprendiz por um profissional já estabelecido. O aprendiz trabalhava por um tempo pré-estabelecido (geralmente entre três e sete anos), mas não recebia salário. Ao contrário, pagava pela “aprendizagem”. Concluído este tempo, e com a aprovação do “mestre”, tornava-se um profissional. Caso tivesse o capital necessário, podia montar seu próprio estabelecimento e trabalhar nele. Caso não tivesse, podia trabalhar como empregado.

Oficialmente, os objetivos eram nobres. As guildas declaravam “proteger o público”, “garantir a qualidade dos produtos”, “regular o mercado”. Na prática, é claro que serviam para limitar a concorrência e garantir o controle do mercado e dos preços. Em muitos lugares a existência dos aprendizes era apenas teórica, já que pouquíssimos podiam se dar ao luxo de pagar para trabalhar por vários anos; na prática os privilégios passavam de pai para filho.

Como exemplo, vejamos algumas regras do estatuto da Associação dos Curtidores de Couro de Londres, de 1346:

“…nenhum estrangeiro trabalhará no dito ofício se não for aprendiz ou admitido à cidadania do lugar.”

“…ninguém tomará o aprendiz de outro […] a menos que seja com a permissão do seu mestre.”

“…se qualquer aprendiz se comportar impropriamente com seu mestre, ou agir de forma rebelde com ele, ninguém do ofício lhe dará trabalho…”

“…ninguém que não tenha sido aprendiz e concluído seu tempo de aprendizado do ofício poderá exercer o mesmo.”

Protecionismo explícito, e garantido pelo governo, óbvio, que é quem dava legitimidade e poder legal às guildas. É curioso como desde aqueles tempos, as pessoas tendem a acreditar que governos “protegem” o povo mesmo quando as evidências mostrando o contrário são escandalosamente óbvias.

Outros exemplos: Em 1498, uma igreja na Alemanha pagou 16 marcos à associação dos padeiros para poder fabricar seu próprio pão. Em cidades como Frankfurt e Basiléia havia guildas de mendigos, e era proibido mendigar sem ser membro da respectiva guilda. E vejam esta lei da República de Veneza, de 1454, que mostra que governo e guildas atuavam juntos no protecionismo: “Se um trabalhador levar para outro país arte ou ofício em prejuízo da República, receberá ordem de voltar; se desobedecer, seus parentes próximos serão presos, a fim de que a solidariedade familiar o convença; se persistir na desobediência, serão tomadas medidas para matá-lo, onde quer que esteja.”

Mais de cinco séculos se passaram, mas nosso país continua seguindo os mesmos princípios. Os nomes mudaram: as guildas agora se chamam Conselhos de Classe. A formação do aprendiz foi separada da atividade profissional e entregue às universidades, mas o princípio é o mesmo: pagar em troca do privilégio de exercer uma profissão. Pode-se dizer que houve uma piora: Antes, o mestre que ensinava também atuava no mercado, o que de alguma forma cobrava competência. No sistema atual, essa relação se perdeu. O mestre tem o privilégio de conceder o “privilégio de exercer o ofício” – hoje chamado de diploma – sem que se exija nada além de seu próprio diploma. É perfeitamente normal um estudante de engenharia ser “ensinado” por alguém que nunca construiu uma obra sequer. É corriqueiro que um aluno passe anos em uma faculdade de administração recebendo aulas de pessoas que nunca administraram nada na vida (exceto suas próprias carreiras acadêmicas).

Albert Einstein, se estivesse vivo, não poderia ensinar matemática ou física em uma universidade brasileira; ele não tinha o diploma necessário. Machado de Assis também não seria professor em uma faculdade de letras.

Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe, dois dos mais famosos arquitetos do mundo, não eram formados em arquitetura. No Brasil, suas obras seriam embargadas pelo CREA e CAU, a menos que eles pagassem alguém para assinar seus projetos (prática corriqueira por aqui).

Bill Gates largou a faculdade para fundar a Microsoft. No Brasil, seria proibido de dar aulas de Word ou Excel em um colégio de 1º grau. Provavelmente também não conseguiria ser chefe de seção em alguma repartição pública, por não ter curso superior.

Platão, Voltaire e Nietzsche não seriam considerados filósofos se morassem no Brasil, por não ter um diploma acadêmico de filosofia. Mas a Academia Brasileira de Filosofia, reconhecida como autoridade na área pelo governo, considera “doutores honoris causa” Michel Temer e João Havelange (aquele da FIFA).

Herbert Vianna, vocalista da famosa banda Paralamas do Sucesso, mesmo tendo gravado vários discos de enorme sucesso, não tinha a licença da Ordem dos Músicos. Herbert não sabia ler partituras, e não conseguia “passar” no teste da Ordem. Como nos anos 80 e 90 era proibido trabalhar como músico sem a carteirinha da Ordem, Herbert tinha que submeter-se à humilhação de renovar anualmente uma carteira provisória de “aprendiz”, emitida e carimbada por alguém que certamente nunca compôs uma música de sucesso ou recebeu um disco de ouro, ao contrário de Herbert.

Nelson Piquet, tri-campeão mundial de Formula 1, não pode ensinar alguém a dirigir. Ele precisaria ter aulas com alguém que tenha um “privilégio” concedido pelo Detran, para conseguir um papel carimbado que lhe daria o mesmo “privilégio”.

Provavelmente existem exemplos ainda mais absurdos desta realidade bizarra: é absolutamente irrelevante se uma pessoa sabe ou não fazer determinada coisa, mas ela é proibida de fazer se não submeter-se aos rituais impostos pelo governo e pelas guildas/conselhos, que se preocupam muito com a manutenção e ampliação dos privilégios de seus membros e pouco, pouquíssimo, com as consequências para a sociedade. Na verdade, a tendência destas corporações é agir CONTRA a sociedade, protegendo e garantindo impunidade a seus membros, usando seu prestígio e seus recursos financeiros e burocráticos.

Resumo da história: como quem sabe fazer não pode e quem pode fazer não sabe, não fazemos nada: compramos pronto da China.

11 pensou em “PRIVILÉGIOS

  1. Ainda bem que está gazeta escrota tem de tudo e pouco mais. Este pouco mais e o artigo inteligente do Marcelo. O tudo infelizmente são as idiotices do ceguinho teimoso

  2. Marcelo, vou aproveitar e enfatizar mais essa questão da experiência nas universidades.
    1) boa parte dos professores são ex alunos que se deram bem no PIBIC (iniciação científica), na graduação, fizeram pós – mestrado/doutorado- e que foram aprovados num concurso público pra professor adjunto. Escalonaram a classe para melhorar o salário e o cara não ir embora do Brasil. Criaram o associado, também escalonaram porque depois do adjunto vinha o titular…pessoas que nunca tiveram práticas de mercado, mas donos de saberes destacados.
    2) na grade do meu curso, matemática, tinha Física III, que era eletricidade. O professor deu uma aula estupenda sobre geradores e numa visita a uma empresa ele não soube reconhecer o gerador que tinha faltem sala;
    3) é preciso mudar a lei em vários aspectos. Por exemplo: nos cursos de especialização sou, e sempre defendi, que o corpo docente tenha pessoas de mercado. Isso não passa na aprovação do curso porque alguns professores fazem a seguinte conta: RS 150,00/hora x 30 horas = R$ 4.500,00 e se o curso tiver duas turmas então R$ 9.000,00. Vivi uma discussão dessas no início de dezembro passado Então, na cabeça do professor, paga esse valor a um professor do departamento e não há alguém de fora. Se não fizer isso, o curso não é aprovado.
    4) eu tinha professor, fui monitor dele, de que dizia: “eu não sei fazer nada, por isso fui ensinar”.

    Se não rediscutir o problema, não vamos avançar. Temos boas pesquisas nas universidades, mas o número de patentes não se destaca e uma das razões é que a política de royalties diz que 2/3 é da instituição, então, ao invés de ganhar 1/3, o professor espera se aposentar, monta seu instituto ou se associa a uma empresa e a partir daí vai desenvolver o produto dele. Enquanto não se aposentar, fica usando dinheiro público, via finep, pra comprar equipamentos para aumentar o conhecimento dele, pra não dá retorno algum a instituição.

    • Maurício, não tenho dúvida que você sabe muito mais sobre o assunto que eu. Quando escrevi o artigo, nem estava pensando tanto no professor que sabe pouco, mas no burocrata que não sabe nada (que às vezes é o chefe do professor).

      Concordo que nossas universidades precisam rediscutir muita coisa, mas acho que enquanto as verbas vierem garantidas de Brasília e os partidos políticos se meterem, nada vai mudar: a mediocridade será a regra, e a excelência será a exceção.

  3. Velho professor universitário, pois ingressei na carreira em 1965, após alcançar duas graduações (Direito e Jornalismo), cursar uma entidade de prestígio e abrangência internacional (à época), como o Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina – CIESPAL,(patrocinado pela UNESCO/OEA), acompanhei por mais de 30 anos de minha carreira as idas e vindas do ensino superior brasileiro, notadamente nas universidades públicas (federais, especialmente) que foram, face a medidas equivocadas implementadas no final do período 64/85 que adotaram o discurso de excelência das pós-graduações, em detrimento até do chamado notório saber, princípio este que permitiu o acolhimento de excelentes profissionais, nas II EE SS federais, onde muitos pontificaram tornando-se, até, figuras icônicas dessas instituições.
    Infelizmente o Brasil é um país cartorial, sofrendo os males das guildas e das repartições públicas semi-cartoriais que nos assolam e depenam a todos, com suas exigências até malignas, como vemos nas muitas denúncias que quase que diuturnamente (salve Dilma) nossa imprensa verbera.
    Nessa pletora de entidades malignas, hoje, sem sombra de dúvidas, uma das mais importantes ou atuantes é a Ordem de Advogados do Brasil, que merece tal classificação pelos muitos males que vem causando à sociedade brasileira, que ela falsamente diz defender.
    É incabível em qualquer linha de pensamento as diretrizes que regem as relações profissionais desse segmento de nossa sociedade, com uma desmoralização completa do próprio Estado, que aceita que uma entidade particular tenha “status” de ente federativo e por conta desse “status” desautorize a ação da sociedade-estado, negando permissão aos cidadãos que atendam aos padrões que ele estabelece para considera-los aptos ao exercício profissional – curso regular, em uma unidade de ensino previamente autorizada por esse Estado, se eles não se submeterem a um exame posterior, de origem nebulosa que favorecem a muitos.
    Há muitos males a superar nesta sociedade em que vivemos, o que decerto requer muito suor e até sangue, mas temos de nos convencer que a sociedade brasileira somente alcançará pelo desenvolvimento quando acabar com esses cartórios de presença nefasta e altamente prejudicial a todos.
    Já é hora de trazer essas guildas ao seu verdadeiro papel, de simples representante de um segmento profissional que o integre voluntariamente, sem reflexos na sua capacidade de trabalho.
    Não cabe a essas entidades dizer se um cidadão brasileiro pode ou não exercer determinada profissão, se para tanto o Estado já o declarou apto, quando lhe outorgou um diploma de graduação, adquirido dentro das diretrizes estabelecidas por este mesmo Estado.

  4. 1º – Um tio meu – meu padrinho – era odiado pelos engenheiros e similares da minha cidade.

    É que ele, com um ou dois auxiliares da sua confiança, sempre era chamado pelos proprietários das construções para corrigir ou consertar burrices e defeitos dos ditos diplomados.

    E resolvia, mesmo, todos os “galhos” deixados ou produzidos por aqueles que “arrotavam” a sua sapiência medíocre – exibindo os seus diplomas – mas que na hora do “pega pra capar” eram umas nulidades.

    Sua formação: não concluiu o curso primário.

    Sua base profissional: oa “batentes” da vida, desde que quando começou a aprender, como auxiliar de pedreiro.

    Daí, o porquê que nunca esqueço, a sua frase lapidar e antológica, quando lhe perguntavam como sabia tanto e “quebrava qualquer galho”, ele respondia, simplesmente:

    “DESDE QUANDO DIPLOMA ENCURTA AS ORELHAS DE ALGUÉM?!?”

    2º – O maior absurdo é o tamanho das verbas que recebe cada universidade brasileira, para produzir o quê?

    Explico: há uns dias, assisti um debate sobre a Universidade de Santa Maria e fiquei sabendo que ela recebe o dobro do orçamento que arrecada a prefeitura de lá.

    E a prefeitura, de lá, procura atender as necessidades de quase 290 mil habitantes, enquanto a dita universidade atende(?) 10% disso.

    Pergunto: o que a UFSM devolve – em benefícios à sociedade brasileira, cujos impostos sustentam-na?

    O que eu sei é que os formandos e formados – conscientes que não têm preparo, nem experiência suficientes (testemunho de meus ex-alunos!!!) – anseiam, mais do que tudo, por conseguir um estágio junto a profissionais bem sucedidos, da sua área, para depois se aventurarem a exercer a sua profissão.

    E o Brasil, mandando para o ralo, bilhões dos seus impostos, qual é a posição no meio acadêmico mundial?

    Risível, para não dizer patético.

    Só deve ser bem alta quando se trata de posições, demonstrações, defesas e comportamentos histéricos, “no último”, de esquerdopatetice dominante nas apelidadas de universidades.

  5. Minha opinião: FECHA JÁ TODAS AS UNIVERSIDADES E INSTITUTOS FEDERAIS!
    Chega dessa imensa mamata. Quem comeu, comeu. Quem não mamou, não mama mais.
    Cria fundações autônomas com o imenso patrimônio das mesmas, e estas que tratem de se viabilizar economicamente. Seja através de bolsas de estudo concedidas por empresas a alunos que se destacaram, seja através de financiamento governamental SÉRIO, e não a canalhice do FIES que ninguém paga porra nenhuma e só enrica os magnatas da educação, seja através de pagamento dos pais que puderem e quiserem, seja de projetos de pesquisa com começo, meio e fim, financiados por empresas interessadas ou até mesmo pelo governo.
    Basta de querer ensinar jumento a trotar. Quem não tiver competência, que vá para o cabo de uma enxada.
    Só que, para ter igualdade de condições na competição, os jovens precisam de:
    1- Pararem de nascer de mãe adolescente, funkeira e drogada e que não tem nem ideia de quem seja o pai do pimpolho,.Pois estas já nascem com os neurônios atrofiados, neuróticas e dependentes de drogas.
    2- Investimentos maciços em educação básica de primeiríssimo nível para todas as crianças, desde os primeiros anos de vida e absolutamente igual para todas.

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