MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Quando eu era criança, ouvi muitas vezes o seguinte ensinamento: “Algumas pessoas aprendem vendo os tombos dos outros; outras só aprendem quando elas mesmas levam um tombo; e algumas não aprendem nem assim”.

Qualquer comerciante sabe que o preço – e o lucro – de um produto depende da relação entre oferta e demanda. Um produto só pode custar caro se a quantidade disponível for pequena (oferta pequena) ou se é muito procurado (demanda grande). Sem isso, ou o preço abaixa, ou o produto “encalha”. Uma das atividades mais simbólicas da sociedade brasileira, porém, parece não ter conseguido compreender esse princípio simples. Trata-se do futebol.

Foram divulgados recentemente os números do ano passado: os vinte times da série A, somados, arrecadaram o total de 8,83 bilhões de reais, superando o recorde anterior de 8,73 bilhões, estabelecido em 2019, antes da pandemia. Estes bilhões não significam altos lucros, pelo contrário: os mesmos vinte times somaram uma despesa de 7,04 bilhões e uma dívida acumulada de 11,73 bilhões.

Quando procuramos exemplos, devemos ir logo aos melhores, e não há exemplo maior de esporte de sucesso que a NFL, a liga do chamado “futebol americano”. No ano passado, a liga faturou aproximadamente 20 bilhões de dólares, o que equivale a mais de 100 bilhões de reais, ou doze vezes mais que nosso futebol (desnecessário dizer que nenhum dos 32 times da NFL está endividado). O número fica mais interessante quando lembramos que a temporada da NFL dura apenas seis meses, com a “fase de grupos” indo de setembro a dezembro e as finais acontecendo em janeiro – e sempre jogando apenas uma vez por semana. Após a grande final do Super Bowl (que sozinho gera mais de meio bilhão de dólares), os torcedores ficam em jejum por seis meses. E é bom lembrar que, ao contrário do Brasil, onde o futebol não tem concorrentes, a NFL disputa torcedores com o basquete, o beisebol, o hóquei e as corridas da NASCAR e da Indy.

Por aqui, parece que a única solução que nossos “cartolas” conseguem enxergar é fazer seus times jogarem cada vez mais. Antigamente, futebol era no fim de semana. De segunda a sexta, os times treinavam. Hoje em dia, joga-se duas vezes por semana de janeiro a dezembro, e nos dias em que não há jogo os times estão no avião ou no aeroporto. Os grandes times disputam três ou quatro competições ao mesmo tempo (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa do Nordeste, por exemplo), e às vezes, como está acontecendo agora, disputam essas competições sem seus melhores jogadores, que estão jogando de graça para as seleções nacionais.

Com tantos campeonatos, os grandes clássicos ficam banalizados, com casos como Remo e Paysandu, de Belém, que em abril deste ano se enfrentaram quatro vezes seguidas em apenas onze dias. Poucos torcedores estarão dispostos a pagar ingresso para tantas repetições, e é por isso que, em geral, os jogos do campeonato brasileiro acontecem com metade do estádio vazio: média de 23.538 ingressos vendidos, enquanto 15 dos 20 estádios tem capacidade acima de 40.000 pessoas. Também não ajuda o fato de muitos jogos acontecerem durante a semana, começando às 22:00 horas e indo até a meia-noite, para atender à conveniência da televisão. Na NFL é o contrário: a liga determina o calendário e o horário dos jogos e as redes de TV que se virem para ajustar seus horários.

Algumas pessoas dizem que o Brasil é o país do jeitinho. Outras pessoas se ofendem com isso. Se é verdade ou se é ofensivo, eu não sei, mas é difícil não pensar nisso quando vemos que no “país do futebol” o futebol está do jeito que está. Certamente não é por falta de bons exemplos.

2 pensou em “OFERTA, DEMANDA E FUTEBOL

  1. O Futebol aqui no Brasil ainda está muito longe de ser organizado como é nos EUA, porém melhorou muito em relação ao que era há 40 anos atrás, p. ex.

    Numa breve comparação, lá nos EUA, todas as ligas são privadas e os participantes (chamam de franquias) também.

    Aqui adotou-se um formato de clubes, sendo geridos por federações estaduais e federais; onde impera uma mistura com a política.

    Mas vamos comparar o presente com o passado; o Pelé jogou quase toda a sua carreira no Santos e não pode ser vendido à Europa, pois era propriedade do Clube e não havia fim de contrato, que era renovado automaticamente.

    Como resultado, o patrimônio do Edson Arantes do Nascimento, quando morreu, coisa de 100 mi de reais, é menor que menos de um ano de salário do Neymar. Pelé também jogava mais de 100 jogos por ano (domingo e quarta), muito mais que se joga hoje, 70 a 80 jogos no máximo.

    Em relação a 30 anos atrás aqui no BR melhoraram os estádios, os CT’s, os salários médios, a idade de fim de carreira.

    O ideal é compararmos o nosso gerenciamento do futebol com o da Europa e aí sim dá para ver que poderíamos melhorar. Só que já foi muito pior.

    Ainda assim, quem que ganhou a última Copa? A Argentina, que está atualmente em situação muito pior que o BR.

    Futebol é o único esporte que nem sempre (frise-se isso) o mais organizado, rico e forte ganha, daí a sua popularidade.

  2. Pingback: FUTEBOL NO BRASIL | JORNAL DA BESTA FUBANA

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