CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SONHAR É PRECISO!

Ultimamente eu tenho sonhado o mesmo sonho. Invariavelmente. E ele é espetacular! Nele, sou mais um entre centenas de milhares de cidadãos felizes por viverem e conviverem em um paraíso singular concebido na imaginação fértil daqueles que ainda ousam sonhar.

Recanto privilegiado, a própria natureza rendeu-se aos seus encantos homenageando-o com a introdução de planícies verdejantes de solo fértil onde em se plantando tudo se colhe e com a concepção perfeita de serras bucólicas entrecortadas por rios piscosos de águas mansas e cristalinas que exprimem a quietude solene de uma paisagem arrebatadora que dá vida ao perfil generoso de seu povo e traduz a índole honesta de sua gente. A emoldurá-lo, a costa litorânea exuberante contrapondo-se à beleza selvagem de matas intocadas, refúgio sagrado da fauna e da flora. Nunca ouvi nenhum habitante mencionar o nome desse pedaço de mundo quase celestial. Por minha conta e risco estou propenso a denominá-lo Brasilquesonho.

O modelo de governo prima pela simplicidade na administração evidenciada não só na configuração de um estado enxuto e desburocratizado, mas, também, na justa divisão de suas riquezas. Contrariando a regra, o governo é o reflexo do povo e como decorrência, as autoridades se sobressaem pela inequívoca retidão de caráter e cultivam profundo respeito à coisa pública. A simetria perfeita dos egos inviabiliza devaneios despropositados.

Dispondo de uma equipe de ministros que não excede a uma dezena, legitimado pelas urnas o presidente é o condutor das diretrizes que embasam as grandes questões da administração nacional e o lídimo representante da nação nas demandas internacionais. O gestor e executor dessa política alicerçada no repasse automático de 70% do orçamento federal para os municípios é o prefeito, permitindo, dessa forma, que a riqueza auferida na cobrança dos impostos não seja tratada como patrimônio da união, mas, sim, como propriedade da população, retornando em forma de benefícios àqueles que a produziu.

O Congresso Nacional se limita a um Conselho constituído por não mais de uma centena de homens e mulheres notáveis cujas cãs revelam o acúmulo de sabedoria suficiente para garantir em lei os anseios da sociedade que representam. Por sua vez, o arcabouço jurídico repousa na veneração à meritocracia e na credibilidade consubstanciada no notório saber de seus magistrados doutos, executores do dispositivo legal que disciplina a convivência social e guardiões do texto sagrado da Carta Magna que encerra o orgulho dos nativos.

Com os três poderes imbuídos da mesma vontade de servir à população o país se desenvolve amparado em bases sólidas, colocando à disposição da sociedade um serviço de saúde moderno e de altíssimo nível e um sistema educacional avançado que garante o acesso dos alunos aos bancos escolares desde a creche até a universidade. Nenhum de seus cidadãos é flagelado pelas intempéries, pois a todos é assegurado o direito da casa própria e se multiplica o sorriso que ilumina as faces de mães orgulhosas ao exibirem o esplendor saudável de suas crianças.

A corrupção é encarada como a mais perversa abominação que diminui a humanidade e retarda o processo civilizatório, enquanto que nenhum ministro foge de suas responsabilidades nem, em tempo algum, ultrapassa os limites da legalidade. Já, as eleições, são consideradas expressão natural da democracia consolidada e as campanhas eleitorais passam ao largo do discurso vazio e dos ataques pessoais se concentrando somente na exposição de ideias e no debate de propostas. Não há espaço para desconstrução de candidaturas. Menos ainda de candidatos. A tez diferenciada de sua gente é uma inspirada ode celebrando a igualdade. Me sinto leve, próximo do êxtase.

Mas eis que, num repente, um sobressalto me sacode e me devolve à crua realidade que reveste o cotidiano do Brasil dos meus pesadelos. Desperto ao som de uma sirene estrepitosa e dos estampidos característicos dos disparos de arma de fogo. Ainda atordoado pela forma brusca que fui sequestrado do meu enlevo, ouço uma voz vigorosa ordenando: mãos na cabeça, vagabundo! O breve silêncio que sobreveio à ação policial foi rompido pelo lamento triste que ecoava pela vastidão da insensibilidade midiática que, movida pelo mais refinado ódio dedicado a determinada autoridade federal, repercutia, com frieza que se aproximava do irracional, o avanço de um vírus desconhecido e produzia, com requintes de perversidade que extrapolava a canalhice, a disseminação de oportuno clima de terror coletivo. Fique em casa, negacionista!, exigia, condenava. Ainda que ínfima, uma chance a mais de sobrevivência negava, subtraia.

Tento me recompor, mas, incontinenti, chegam aos meus ouvidos a languidez dos ais que vagueiam pelos meandros da agonia e preenchem os macabros corredores dos hospitais públicos e, no mesmo fôlego, fico sabendo de mais uma denúncia de corrupção – ignorada por CPIs seletivas – no setor da Saúde envolvendo governadores e prefeitos. Ecos constrangedores ressoam desde a velha Europa dando conta de uma possível aproximação de ex-presidente da República com a bandidagem internacional. A aflição se agiganta na medida em que vislumbro aproximar-se, ameaçador, um novo encontro com as urnas. Temo pelo resultado e por suas (in)consequências. Votar não é preciso.

Desiludido, fecho os olhos e, sôfrego por felicidade, busco dormir novamente confiante que o sono se compadecerá do meu sofrer e me reconduzirá às profundezas do Brasilquesonho. Lá, desde que respeitado o princípio da licitude, não é proibido o acúmulo de riqueza ao indivíduo, mas, por definição soberana de seu povo, não é esse o norte que seduz o coletivo. A certeza natural de que poderão sorver com lenta avidez cada gota de felicidade que a plenitude da cidadania proporciona, lhes enriquece a alma e apascenta o espírito. Sê propício a mim, sonhador, senhor do sono. Sonhar é preciso!

Definitivamente o chamarei de Brasilquesonho!

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