ESQUELETOS NO ARMÁRIO

Semana passada, em uma roda de amigos, mais uma vez voltou-se à tona a discussão sobre o período que foi de 1964 a 1985 – ficou conhecido como Revolução de 64, Ditadura Militar, Golpe, Contrarrevolução, Regime Militar – os nomes variam de acordo com o gosto do freguês. Mas, o que mais me chamou a atenção é que, apesar de todos terem alguma opinião sobre o período, nenhum de nós o viveu em sua plenitude. Eu, o mais velho da turma, nasci em 1971, ou seja, durante o governo Médici. Passei pelos governos Geisel e Figueiredo e, “Zé Fini!”… acabou-se governos dos generais.

Em 1979 foi aprovada a Lei de Anistia que foi recepcionada na Emenda Constitucional que convocou uma Assembleia nacional Constituinte que criou a dita “Constituição Cidadã”… uma Carta tão magna, mas tão magna que trinta anos depois, ela ainda não chegou até o povão, mas deixa isso para lá. A anistia foi um processo necessário de pacificação, mas acabou parindo monstrengos que custam caro ao dito cidadão para qual a dita constituição foi feita. E bota caro nisso. E entre esses monstrengos estão a Bolsa Ditadura – aquela compensação paga pelos otários pagadores de impostos a pessoas que foram perseguidas e prejudicadas, ou que se dizem perseguidos e prejudicados durante aquele período -, além de uma aberração parida no pior governo da história republicana do Brasil, o de Dilma Rousseff, a malfadada Comissão da Verdade, ou mais apropriada, Comissão da Verdade Estatal.

Anistia significa perdão, mas não esquecimento. Ora, como dá para perdoar algo que não é completamente sabido? Como esquecer algo que possui zonas cinzentas e sem nenhuma luz, em uma história cheia de lacunas e buracos? O presidente Bolsonaro foi eleito com o mote cristão “E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará!”. Está na hora, presidente, de tirar todos os esqueletos desse período do armário e jogá-los em praça pública. Eles vão escandalizar, chocar, provocar náuseas por alguns dias, meses, mas será um processo de cura necessário para que o país se reconcilie com o seu passado e liberte-se dele.

Até agora, vivemos refém de duas visões opostas. De um lado, aqueles que estavam no comando estatal se negam a encarar a verdade, a tirar esses esqueletos do armário. De outro lado, aqueles que estavam lutando para implantar a ditadura do proletariado querem essa abertura com o intuito de se vingar pela derrota sofrida. Não. O Brasil não precisa disso. Precisa sim, se reconciliar com seu passado, mas perdoar. Perdoar, tanto aqueles que usaram o poder do Estado para torturar, matar e destruir, quanto aqueles que intentavam solapar o poder para implantar as suas ideias de governo baseada em uma tirania sanguinária.

Nessa guerra de narrativas – olha a palavra maldita aí – a única conclusão que se pode tirar é que não há e não houve inocentes nessa luta. Os militares e civis do governo cometeram crime? Sim. Os que lutavam pela implantação de um regime totalitário no Brasil, no período cometeram crime? Sim. Porém, nesse embate devemos partir de uma premissa básica. A lei da anistia perdoou aos dois lados, mas não mandou a sociedade esquecer esse período. Só que esse perdão está difícil de ser concretizado, justamente porque há muitos esqueletos trancados em armários, tanto de um lado, quanto de outro. É necessário que esses cadáveres insepultos sejam arrancados de lá. Jogados em frente à casa de cada um dos brasileiros, com sua história, suas vidas e suas mortes. Como disse, eles vão nos escandalizar, nos causar ânsia de vômito, mas será libertador conhecer as suas histórias, as suas agruras e suas trajetórias.

Perdão significa perdão. Infelizmente ainda há tarados morais que querem não conhecer e perdoar, mas vingar, buscar revanche, ou mesmo acalentar uma falsa sensação de vitória pela punição dos seus adversários. Esse tipo de comportamento deve ser repudiado pela sociedade, porque um fato é notório: ninguém que lutou naquele período defendia um Estado Democrático e de Direito.

Joguem esses esqueletos fora, limpem esses armários. Conheçamos toda a verdade daquele período para que essa verdade nos liberte desse passado e nos mostre o caminho do futuro. Esses esqueletos escondidos são fonte para espertalhões arrancarem dinheiro do cidadão, que, em sua maioria não viveram aquele período, mas são obrigados a pagar o investimento feito pelos ditos guerrilheiros naquele período. Abram-se os armários e joguem-se esses esqueletos em plena luz do dia. As torneiras do dinheiro fácil e das ditas indenizações serão fechadas no mesmo instante, o país poderá conhecer o seu passado, reconciliar-se com ele e caminhar para frente finalmente.

Conhecer esse passado irá nos fazer enojarmos de nós mesmo, por um tempo, porém jamais poderemos negar ele. Enquanto esses esqueletos estiverem escondidos nós nos envergonharemos de nossa história. Vamos trazer à luz esses cadáveres e buscar cumprir a promessa do presidente Bolsonaro a respeito da verdade, mas com o intuito exclusivo da reconciliação e não da revanche, ou da vingança? Quem sabe não está aí a chave para o nosso futuro?

12 pensou em “ESQUELETOS NO ARMÁRIO

  1. Caro Roque, sou um dos que viveu durante o “golpe” em 1964 tinha 15 anos. Acredito que houve excessos dos dois lados, mas o que não dá para acreditar é que os perseguidos políticos estavam defendendo a democracia. Só como exemplo a Dilma estava defendendo a democracia, filiando-se ao Polop, MR-8 e que tais? Só sendo idiota para acreditar que estava defendendo a democracia.

    • Meu caro Chatonildo… em nenhum momento no texto defendi um lado, ou outro. Ao contrário, disse que ambos os lados cometerem crimes. O que prego é que está na hora do país se reconciliar consigo mesmo, abrindo os arquivos sobre o período, mas escancarando-os para que esses esqueletos saiam do armário e o.pais possa finalmente ser pacificado. Enquanto houver algum esqueleto escondido, o perdão trazido pela anistia nunca será pleno.

  2. Eu tinha 8 anos em 1964. Não entendia de política mas me lembro dos transtornos causados no dia-a-dia pelas greves e desabastecimento. Meu pai vindo a pé do Centro do Rio por causa da greve dos bondes ou eu, de mãos dadas com minha mãe, de madrugada, na fila do açúcar e do feijão. Vida incerta…

    No “dia D”, lembro da ansiedade das pessoas (“não vai brincar lá fora, menino, pois tem uma revolução!”). Lembro dos soldados nas ruas e do tráfego de viaturas militares.

    Depois desse dia, meu pai não chegou mais atrasado em casa e eu não tive que ir para a fila, de madrugada, nas mão de minha mãe, para comprar comida.

    Já adolescente, lembro de ir para a escola, ou voltar para casa à noite, em segurança, apesar dos jornais falarem em explosões e atentados. Algumas poucas vezes fui interpelado pela polícia, ou por militares, mas nunca tive problemas: bastava tratá-los com o devido respeito, e não ter feito nada errado, e nada acontecia…

    Tenho boas recordações daquela época: um país mais pobre, porém mais organizado e seguro.

    Hoje vejo, com espanto, tentarem reescrever a história dos “anos de chumbo” como um período negro de nossa história. Para nós, povo simples, só foram “anos de chumbo” para aqueles que tentaram promover a balbúrdia ou cometeram crimes. Quem andava na linha e cumpria seus deveres, como eu e meus amigos, tem recordações boas e tornaram-se adultos cumpridores de seus deveres.

    Esse é o meu testemunho. Não ouvi falar: eu estava lá.
    :

    • Eu tinha 11 anos em 1964. Concordo plena e totalmente com TUDO que você relatou.
      Pra mim foi um REGIME MILITAR, vivíamos e nos sentíamos seguros, diferentemente de hoje…

    • Confirmo tudo o que você disse. as vezes ia ao cinema com a namoradinha assistir a sessão de arte, que em geral começava às 23 hs e voltavamos do cinema por volta da 01:30 hs e o máximo que acontecia era algum policial perguntar de onde e para onde estavamos indo. Apresentavamos a carteirinha de estudante (da escola) não a da UNE (que nunca tirei) e eramos liberados tranquilamente. Nunca fui assaltado durante esse período!

  3. ROQUE:-,meu conterrâneo:que infelizmente não conheço pessoalmente:- Você é “porreta”. Seus artigos e comentários são sempre “tri-legais. “OMEDETÔ” (Parabéns em “japa”). Um abração.

  4. Meu Caro colunista.
    Não concordo em nada com a sua sugestão.
    Em 64 eu tinha 29 anos de idade, participei dias antes da revolução,
    da MARCHA COM DEUS PELA LIBERDADE que foi um marco e deu grande
    impulso aos militares a derrubarem a camarilha comunista que estava
    se preparando para estabelecer um REGIME COMUNISTA no BRASIL.
    TUDO BEM ?

    Não foi tudo bem, houve excessos dos dois lados, principalmente do lado
    dos guerrilheiros tipo DILMA que tudo fizeram para derrotar o regime
    militar, que mesmo autoritário (tinha que ser ) conduziu o país com ordem
    e nos propiciou uma fase de grande prosperidade.

    Depois do regime e da anistia, esperava-se que todos se uniriam para o bem
    do Brasil. O que aconteceu foi uma barbaridade, governo incapaz do Sarney, depois
    do falso democrata FHC e depois do corrupto LULA e a ignorante e estúpida DILMA.

    Estamos num governo que deseja trabalhar e organizar o Brasil. Este governo
    com todos os seus defeitos, mas é honesto e não tem corrupção, mesmo assim
    a mídia devoradora de dinheiro não dá uma trégua e não deixa governar.

    O Supremo, congresso e o Judiciário em geral são todos bosta do mesmo
    pinico e fazem de tudo para derrubar o nosso grande herói o ministro Sérgio
    Moro, pois têm medo do que ele poderá e irá fazer quando for eleito presidente,
    porque o será, podes crêr.

    Agora, começar uma guerra expondo todas as aberrações dos terroristas e
    contra os atos do governo militar seria apenas loucura, o que jogaria
    o governo, o povo e a nação inteira numa convulsão sem sentido que não
    traria resultado algum para ninguém. Pense nisso ok?

    • Meu caro.
      Respeito a sua opinião, e também não digo que o regime foi de todo mal. Trouxe a ordem?Sim. Trouxe prosperidade? Sim. Trouxe avanço econômico? Sim. Mas também trouxe crimes. assim como os canhotinhas estavam sedentos pelo poder… Posso até dizer que o regime de 1964 saiu no barato. De acordo com o relatório Brasil Nunca Mais, foram apenas 343 mortos e desaparecidos em 21 anos, além de 711 casos de torturas. Isso do lado do governo. Mas do lado dos canhotinhas também se conta esse mesmo saldo, os ditos “justiçamentos”, que de justiçamento não tinha nada. Para comparar…. a nossa ditadura”, assim mesmo entre aspas, em 21 anos fez, quando não muito mil vítimas. A União Soviética, no mesmo período, entre 1917 e 1939 fez 27 milhões de vítimas.
      O que busco não é ver o agora, mas sim a necessidade, até mesmo para a gente superar esse clima de revanche, a todo momento promotor burro, ou safado tentando processar anistiado – só os anistiados do lado do governo, claro – questionamentos sem fim. Precisamos dessa verdade. Vamos tirar esses esqueletos do armário. Todos eles, tanto os esqueletos que estão nos armários militares, quanto os esqueletos que estão nos baús dos canhotinhas. Precisamos disso como uma forma de catarse, ou mesmo de epifania para podermos nos reconciliar com o nosso passado e podermos viver para o futuro. Esse passado meu caro, é uma pedra pesada. Antes pesava apenas nos calcanhares. Hoje pesa no bolso do cidadão que tem que sustentar vagabundo que se disse prejudicado e somos obrigados a sustentá-los nababescamente. Para o sol todos os esqueletos desse período. Precisamos disso.

  5. Prezado Roque Nunes,

    Permita-me discordar do senhor em parte.

    Sempre achei saudável a exposição da verdade, a fim de se evitar as famigeradas narrativas, sempre propostas pelas esquerda, que detêm os meios de comunicação. Porém, não acho que isso traria a paz social conforme o senhor espera.

    Esqueletos estão nos armários dos dois lados que se antagonizaram durante o período militar. O governo só iria expor seus próprios esqueletos; jamais a esquerda exporia os dela, de modo que ficaria a impressão de que apenas os militares cometeram crimes (não chamarei de excesso pois isso é um eufemismo desnecessário)

    Ademais, a atual polarização não decorre destes esqueletos, mas da divisão política da sociedade, sobretudo pelo ódio cultivado pelo PT, na figura de seu proprietário Lula, que sempre criou a ideia do nós contra eles, divisão esta agravada pelo inconformismo da esquerda com a eleição democrática de Bolsonaro.

    Eu vivi toda minha infância e e adolescência sob o regime militar; nasci em 1965, e como meus colegas já comentaram acima, nunca tive qualquer problema com minha segurança; jamais fui prejudicado pelos militares, nem eu nem qualquer pessoa de minha família. Assim, jamais me deixei levar pela narrativa esquerdista. Acredito que todos os que viveram aquela época pensam igual a mim, exceto os que desejavam impor um tipo pior de totalitarismo.

    Acho que o presidente Bolsonaro só deveria abrir os armários quando os representantes da esquerda se dispuserem a fazer o mesmo. Agir unilateralmente só iria reforçar a narrativa falsa da esquerda. Como diz meu pai, seria dar milho pra bode.

  6. Porque os comunistas aceitaram a anistia ? E agora desejam retribuir tudo aquilo que
    se sentem acusados. O que eles querem é exatamente aquilo que o nobre colunista está
    propondo, um re-arranjo geral, com todas as punições possíveis, somente de um lado, pois
    do lado esquerdo eles se sentem injustiçados e com sede de vingança, pois perderam
    o poder e consequentemente perderam também as mamatas, os roubos e as suas
    mentiras agora não se sustentam mais.

    O que o colunista está propondo é exatamente o que o lula deseja, i.e. jogar o país
    numa guerra ideológica grave, com consequências inimagináveis, tendo por
    resultado uma guerra civil. O que o Lula está propondo constantemente ( veja
    suas declarações e entrevistas ) é uma guerra civil que proporcione a sua volta
    ao poder caminhando em cima dos cadáveres do povo exausto e derrotado.

    Quanto as indenizações reclamadas, sim acho que o país deveria cobrar dos
    ladrões do erário o valor de todo o roubo e valores desviados pela corrupção
    desenfreada. O Brasil ficaria rico em poucos meses se recebesse de volta
    ao menos 50 % dessa dinheirama roubada.

    Confirmo como verdadeiro o depoimento de alguns dos comentaristas
    acima. Eu não era criança, na época do governo militar, era adulto e posso
    testemunhar que foi o período de maior segurança pública que tivemos neste
    país em todos os tempos.

    • Goiano, creio que você já entendia alguma coisa da vida em 1964. Você foi perseguido? Você foi torturado? Você foi proibido de cantar, beber, namorar? Porque eu e meus amigos daquela época respondemos NÃO á todas essas perguntas. Agora sei que nos armários daqueles que “defenderam a democracia” tem vários mortos (inclusive de companheiros que eles trucidaram). Alguns
      dos ” defensores da democracia” que hoje recebem indenização foram aqueles que explodiram bombas que mataram civis inocentes. Esses foram anistiados e ninguém quer que eles sejam lembrados como criminosos!

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