CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O Azulzinho

Fábricas e revendas estão se ajeitando para investir naquele equipamento que já foi objeto de desejo, sinônimo de gastança, charme e meio para conquistas femininas, durante mais de 100 anos: os automóveis.

Agora, diante das tecnologias, os infernais engarrafamentos e a falta de estacionamento, novos fatores se projetam nas preferências públicas: o transporte por aplicativos e os carros de aluguel, que nos últimos cinco anos são coqueluche.

Os compradores, finalmente resistiram às mudanças de modelos, que ocorrem todos os anos. Um fator de renovação de procedimentos, digamos. O advento dos carros elétricos e o sistema de veículos de aluguel estão refazendo conceitos.

O automóvel deixou de ser um bem de família, há anos. Na América, há uns 15 anos, percebi que alugar um carro em Las Vegas e deixá-lo em São Francisco, dias depois pegar outro e deixá-lo em Phoenix, era coisa comum.

Os galegos sempre estão à nossa frente em modismos que antes vinham através do cinema, como: Chicletes, Coca Cola, relógios de pulso e rádios portáteis.

Um carro próprio, atualmente, no Brasil, mesmo parado, tem custo alto. Se considerar-se que circulam nas estradas e se analisados, direitinho, os custos, estaremos botando fora muito dinheiro para quitar licenciamento, IPVA, estacionamento em Zona Azul e seguro.

Fora a “associação” com as indústrias das multas, que funciona, dias e noites, que nos parecem dispor de “filiais invisíveis” em todo o País, porque nossas estradas se enchem de câmeras a cada dia, com maior ânsia de lucros.

Agora vê-se que é mais lógico telefonar para uma Localiza, Hertz, Avis, National ou Unidas, a um custo médio de R$ 100,00 diários. sem preocupações, e usar carros semi-novos, que podem marcar presença nos diversos lugares, dando a entender que ao volante está alguém “estribado no dólar”.

Mas, o carro próprio ainda tem seus aspectos simbólicos. A pesquisa não mostra, mas, o carro da família é um equipamento que a gente aprende a querer bem.

Todos os dias passamos a flanela em seu corpo, como quem alisa uma fêmea de “alta periculosidade conjugal”, adicionamos enfeites, instalamos buzininhas-duplas, calotinhas aluminizadas, rodinhas esportivas e forrinhos novos, à prova de flatulências insalubres.

E tem mais, como um se fosse um ser humanos, ainda sofremos com ele nas oficinas, aos sábados. Quantos fins-de-semana não perdemos dando assistência a eles?!. O bem-querer é tão significativo que até botamos apelidos neles.

Tenho amigos que, como eu, criaram identificações para seus carangos: Azulzinho, Gatinho, Relampejo, Bechanildo, Carniça, Relampejô, Paraíso das Fêmeas, Fodorífico, Leva-e-traz, Pega-e-solta e até Marmita.

Este último tem significado interessante. Seu proprietário me segredou que foi por justificada e singular inspiração: porque só leva “mulher comida”, por isto, recebeu a incomum e alcunha de Marmita.

Mas, depois de 14 anos convivendo com meu Azulzinho – um senhor Fiat Uno Mille – que ganhei de presente do filho primogênito, um carrinho caceteiro famoso, “suspensão” pra qualquer estrada e de manutenção barata. Causou-me tristeza a despedida. Mas oram fortes os fatores que me levaram a me desfazer dele.

Já de maior-idade – com 14 anos só nas minhas mãos – tinha direito a garagem privativa, pasta-suspensa, com todos os documentos de manutenção bem guardados. Já pensou quantos cuidados?

E vou mais além nas minhas lembranças: nas datas certas eu costumava trocar platinado, condensador, velas e filtros. Os pneus só andavam calibrados e o tanque cheio. Nunca usei pneu renovado. O carro era uma boneca! Ouvi muitas ofertas de venda e resisti. Mandava o cara se danar!…

Mas veio a pandemia, minha idade avançou, os reflexos ficaram mais demorados e a desvalorização do carrinho concorreu parao desfecho. Mas, ainda hoje rogo praga para um miserável de um vizinho que todos os dias me solicitava comprá-lo. Juntei todos os fatores e acabei vendendo. Findou-se a aporrinhação.

Vivi um drama íntimo. Ainda solicitei ao comprador o direito de dirigi-lo até a saída do condomínio onde moro, porém, antes, sabendo que não deveria mais dirigir automóveis, abri a mala e passei pra Seu Astenildo: luvas, alavanca com “mão-de-força”, meio litro de óleo 30, alicate, chaves de fenda, de roda e outros penduricalhos.

Quando vi o bichinho dobrar na esquina, senti um “enfarto sentimental fulminante”. A partir daquele dia passei a ser um homem de menor valor. Nunca mais serei o mesmo! Carro próprio, pode até ser um cangaço, mas a gente pega amor como se fosse um animal de casa.

E quem disse que segurar um volante não é forma de se sentir mais importante?!

Pra nós, velhotes nascidos na década de 30, ter um carro melhorava até o cadastro bancário. E junto aos olhares femininos, nem pensar em coisa mais atraente. Era um vidro de perfume francês sob rodas. O cara poderia até ser feio, desajeitado, com bafo de boca, mas dirigindo um carro, tinha jeito de Brad Pitt depois da gripe.

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