CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Carmen Miranda e Assis Valente

José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911 no distrito de Bom Jardim, Santo Amaro, Bahia, município do Recôncavo baiano e encantou-se em 1958, tomando formicida com guaraná sentado no banco de Rua no Rio de Janeiro.

Ficou conhecido no meio artístico como Assis Valente, compositor genial, dono de uma versatilidade extraordinária para compor clássicos alcançáveis a toda classe social, desenhar e fazer escultura.

Tornou-se conhecido por compor diversos sucessos para Aracy Cortez, o Bando da Lua, Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo e Carmen Miranda. Para esta compôs inúmeros sucessos e também nutria uma tesão e paixão arrebatadora. Na época, teve a canção “Brasil Pandeiro”, samba exaltação recusada pela Pequena Notável, o que lhe deixou triste, mas depois se tornou um imenso sucesso com os Anjos do Inferno, conjunto vocal instrumental brasileiro de samba e marchinhas de carnaval formado em 1934, e principalmente com os Novos Baianos, conjunto musical brasileiro, nascido na Bahia na época da Tropicália, atingindo seu auge entre os anos 1969 e 1979, por mesclar guitarra elétrica, baixo e bateria com cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô. Formado por Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão. Carmem Miranda veio a se arrepender depois por não ter gravado Brasil Pandeiro, que alcançou enorme sucesso na voz dos Novos Baianos, gravada no segundo Long Play do conjunto Acabou Chorare, de 1972.

Assis Valente era filho de José de Assis Valente e Maria Esteves Valente. Segundo relato da época, fora roubado dos pais ainda pequeno, sendo depois entregue a uma família de Santo Amaro que lhe deu educação, ao mesmo tempo em que o forçava a trabalhar, algo extenuante, semi escravidão para ele que não morria de amores pela profissão.

Quando tinha seis anos, houve nova mudança na vida, passando a ser criado por um casal de Alagoinhas, Georgina e Manoel Cana Brasil, dentista naquela cidade. Assis Valente realizava trabalhos domésticos a contragosto, mas com a mudança do casal para a capital baiana, logo conseguiu trabalho no Hospital Santa Izabel e, por suas habilidades, acabou sendo contratado pelo médico irmão de seu pai adotivo, que dirigia a Maternidade da Bahia. Ali demonstrou talento para as artes e foi matriculado pelos criadores no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, a fim de aprimorar-se no desenho e em escultura, dividindo seu tempo entre o trabalho e o estudo.

Por esta época, foi convidado por um padre para trabalhar num hospital católico na interiorana cidade de Senhor do Bonfim, mas ao declamar versos anticlericais do poeta Guerra Junqueiro, político e panfletário da escola nova, numa festa popular, foi demitido. Juntou-se, então, ao Circo Brasileiro, onde declamava versos de grandes poetas de improviso, que encantava a todos que estivessem presentes, admirados com seu talento precoce!

Em 1927 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se empregou como protético e conseguiu publicar alguns desenhos em magazines como Shimmy e Fon-Fon, revistas brasileiras fundadas no Rio de Janeiro no ano de 1907.

Em função de uma dívida cobrada por Elvira Pagã, atriz, cantora, compositora e vedete brasileira da época, Assis Valente tentou o suicídio pela primeira vez, cortando os pulsos. Elvira cantara alguns de seus sucessos junto com a irmã.

Casou-se, em 23 de dezembro de 1939, com Nadyli da Silva Santos. Em 1941, no dia 13 de maio, tentaria o suicídio mais uma vez, saltando do Corcovado – tentativa frustrada por haver a queda sido amortecida pelas árvores. Em 1942 nasce sua única filha, Nara Nadyli, depois se separa da esposa devido à vida pregressa que levava!

Em 1958, desesperado com as dívidas, Assis Valente foi ao escritório de direitos autorais, na esperança de conseguir dinheiro. Ali só conseguiu um calmante. Telefonou aos empregados, instruindo-os no caso de sua morte, e depois para dois amigos, comunicando sua decisão.

Sentado num banco de rua ingeriu formicida com guaraná, deixando no bolso um bilhete à polícia, onde pedia ao também compositor e amigo Ary Barroso que lhe pagasse dois alugueis em atraso. No bilhete, o último verso:

“Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.”

Seu trabalho foi um do mais profícuo na música. Conta-se que chegava a compor quase uma canção por dia, muitas delas vendidas a baixos preços para “comprositores” que então figuravam como autores.

Seu primeiro sucesso de 1932 foi Tem Francesa no Morro, cantado por Aracy Cortez.

Foi autor, também, de peças para o Teatro de Revista, como “Rei Momo na Guerra”, de 1943, em parceria com Freire Júnior.

Após sua morte, foi sendo esquecido, para ser finalmente redescoberto nos anos 1960, na voz de grandes intérpretes da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Novos Baianos, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, dentre outros.

Em 2014 teve uma biografia digna lançada, a altura da sua genialidade, “ Quem samba tem alegria: A vida e o tempo de Assis Valente”, escrita pelo pesquisador baiano Gonçalo Junior, recheado de revelações sobre o grande compositor de “Boas Festas”, sem dúvida a mais perfeita tradução da farsa do velhinho do trenó.

Suas canções foram regravadas depois de sua morte alcançando enorme sucesso. Algumas composições suas trazem um conteúdo poético-gingado que buscam emocionar; outras trazem um teor mais reflexivo. Assis Valente tinha na alma a verve da mistura brasileira. A melancolia da sofrência. Exemplo: A composição “Boas Festas”. A letra tem uma ironia refinadíssima, típica de sua alma errática.

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

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