MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Nos anos 90, o governador do Paraná, Jaime Lerner, criou uma política de incentivos ficais para trazer indústrias para o estado. No setor automotivo, ele conseguiu que a Renault, a Volkswagen e a Chrysler instalassem fábricas aqui, recebendo vantagens no pagamento de impostos.

O governador seguinte, Roberto Requião, logo que assumiu “comprou briga” com as três. Fazia discursos populistas dizendo ser absurdo o coitadinho do pequeno empresário ter que pagar impostos enquanto as multinacionais malvadas não pagavam. Prometeu que iria mudar isso.

Certo dia, chegou na sede da Renault junto com um bando de secretários e aspones, para uma reunião com os diretores da montadora. Repetiu o mesmo discurso. Quando terminou, um dos diretores da Renault respondeu calmamente: “Senhor governador, uma fábrica como a nossa exige constantes investimentos para manter-se moderna e competitiva. O custo do terreno e da prédio em si são ínfimos diante do custo dos equipamentos. Agora, se o governo do Paraná não pretende cumprir o contrato que assinou com a Renault, nós cancelaremos os reinvestimentos nesta fábrica e usaremos o dinheiro para construir outra, mais moderna, em outro lugar. Daqui a dois anos fechamos esta e nos mudamos para a nova, e isso não nos custará um centavo a mais.”

Dizem que a cara de bunda do governador Requião foi algo épico. Ele olhava para seus assessores em busca de uma resposta, mas todos apenas balançavam a cabeça como quem diz “é isso mesmo”. Restou levantar e ir embora. A Renault continuou sem pagar impostos, como previa o contrato.

Tudo isso, claro, tem a ver com o anúncio da Ford de fechar suas fábricas no Brasil. Afinal, isso é bom ou ruim?

Na modesta opinião deste pitaqueiro, é bom.

A indústria de automóveis é viciada em incentivos e benefícios. Pelo seu tamanho e por ter um produto que mexe com os sentimentos básicos das pessoas (o sonho do tal do “carro novo”), as fábricas desfrutam de um prestígio e um poder que lembram os antigos “senhores de engenho”. A explicação que o diretor da Renault deu é correta: nos tempos de hoje, os equipamentos de uma fábrica ficam obsoletos em poucos anos, e precisam ser trocados. Instalar os novos no local dos antigos ou em outro, dá quase na mesma (na verdade, em muitos casos é mais fácil e barato construir uma fábrica nova a partir do zero do que trocar as máquinas de uma unidade em funcionamento). Com esta facilidade de trocar de endereço, e mais o apoio da opinião pública, que vê uma fábrica como uma espécie de “vaca sagrada” que deve ser paparicada e protegida, as indústrias estão sempre chantageando o governo em busca de mais incentivos e facilidades.

Se esse fenômeno é mundial, o Brasil o leva ao absurdo: embora não exista nenhuma indústria “brasileira”, as estrangeiras aqui instaladas gozam de privilégios que não existem em nenhum outro país civilizado: o mercado é praticamente reservado para elas. As importações, ínfimas, existem apenas para atender à classe mais alta, que não se importa de pagar extorsivos impostos de importação (na verdade, até gosta: o alto preço mantém a aura de “exclusividade” que é um critério importante na compra, como acontece na indústria da moda). O resultado é que pagamos caro para ter carros ruins. Isso prejudica a todos, e não apenas no aspecto da satisfação pessoal; pensemos em quantas oportunidades são perdidas por pessoas que poderiam trabalhar em determinada coisa mas não conseguem porque não conseguem obter (e manter) um carro para se deslocar.

Nossos governos sempre acreditaram que o progresso de um país depende de apertar parafusos, não do conhecimento técnico. Por isso, nunca se preocuparam em criar tecnologia ou em ter capacidade de desenvolvimento própria; se preocuparam, isso sim, em obrigar as empresas estrangeiras a montarem seus produtos aqui, algo que foi levado às últimas consequências na vital área da informática, onde uma estúpida reserva de mercado isolou o país do caminho do progresso por quinze anos. O motivo principal, além da simples burrice e de um nacionalismo tosco, é provavelmente a conveniência de criar um grupo de empresas privilegiadas que sabem ser gratas aos políticos que criam os privilégios.

E qual seria a alternativa? Bem, para começar, o Brasil tem provavelmente o maior potencial de produção de alimentos do mundo. São milhões de quilômetros quadrados de terras férteis e com boas chuvas, algo que não pode ser movido de um lugar para outro como uma fábrica. Mas ganhar dinheiro com agricultura e pecuária implica em exportar, e politicos não gostam muito da idéia, porque o mercado externo não pode ser controlado por eles. Isso, combinado com um pensamento “isolacionista” que prospera com facilidade em mentes fechadas, fez com que o Brasil se dedicasse a repetir o mantra de que comércio exterior é ruim, bom mesmo é mercado fechado e “protegido”. De tanto tentar, conseguimos ficar nos últimos lugares dos rankings de comércio mundial: em 2017, segundo o World Bank, entre 178 países estávamos em 176º, ou seja, ante-penúltimo, ganhando apenas de Sudão e Nigéria.

Já posso ver meu leitor pensando “mas meu professor disse que um país não pode se desenvolver exportando commodities, precisa exportar produtos com valor agregado!”. Sim, eu sei que a doutrinação é intensa e vai do jardim-de-infância até a faculdade. Mas vamos pensar um pouco.

Em primeiro lugar, alguns exemplos: Chile, Nova Zelândia, Austrália. Todos muito melhores que o Brasil em desenvolvimento econômico e social. O Chile exporta cobre e vinho. A Nova Zelândia, ovelhas. A Austrália exporta carne bovina, lã e carne de ovelha, carvão, gás natural e minério de ferro (e vinho também). Nenhum deles tem sequer uma única fábrica de automóveis. Os três exportam commodities (e são bons nisso) e com o dinheiro compram o restante de quem sabe fazer melhor. Nenhum dos três importa carros do Brasil, por exemplo; importam Toyotas do Japão e BMWs da Europa.

Em segundo lugar, se exportar produtos com alto valor agregado é bom, quando é que vamos começar? Porque hoje não fazemos isso, e não fazemos por um motivo simples: não temos competitividade. E porque as indústrias daqui iriam se esforçar para ser competitivas se têm o mercado interno reservado para elas, podendo vender produtos de qualidade inferior pelo preço que quiserem? A verdade é que o povo brasileiro é obrigado a pagar caro em nome de algo que não existe, que é a competitividade de nossa indústria, que por sua vez está desde 1808 pedindo “só mais um pouquinho” de privilégios, e prometendo que a sonhada competência demorará “só mais um pouquinho” também.

Meu leitor deve estar pensando em outro argumento: “mas a indústria é necessária para gerar empregos!”. Outra falácia. Gerar empregos é a coisa mais fácil, e ao mesmo tempo mais inútil do mundo. O que uma sociedade deve fazer, se quiser prosperar, é gerar VALOR, ou seja, produzir algo pelo qual as pessoas, voluntariamente, queiram pagar. Sem gerar valor, um emprego é simplesmente tirar dinheiro de um para dar para outro, mas criando um faz-de-conta para não parecer esmola. Qualquer governo pode acabar com o desemprego do dia para a noite, com uma canetada. Se o governo proibir os carrinhos-de-mão, surgirão milhares de empregos na construção civil para carregar coisas nas costas. Se o governo proibir os tratores agrícolas, milhões de pessoas terão um emprego, de enxada na mão. O governo pode obrigar todo prédio a ter dez porteiros, pode obrigar cada ônibus a ter cinco cobradores, pode colocar um guarda de trânsito em cada cruzamento, com apito e tudo. Mas isso não resolverá nada porque, de novo, se o emprego não cria valor, ele é inútil, é um desperdício. Se o emprego não cria valor, o pagamento dele terá que ser tirado de algum outro lugar; isso é destruir riqueza, não construir. Em outras palavras, é obrigar duzentos milhões de brasileiros a pagar mais caro por tudo para dar dinheiro a pessoas improdutivas de uma forma mais hipócrita e menos eficiente do que se eles recebessem para não fazer nada.

Em suma, os australianos decidiram que não são bons em fabricar carros, mas sim em criar bois. Eles com certeza estão mais prósperos que nós. Está mais do que na hora de olharmos seriamente para nosso país, descobrirmos em que nós somos bons e decidirmos, afinal, o que vamos fazer de nossas vidas.

8 pensou em “A FORD VAI EMBORA

  1. O Color abalou o Brasil quando falou que só fabricávamos carroças. Revolucionou o mercado abrindo os portos, tudo bem que vieram os ladas e nivas, mas os brasileiros puderam sentir o cherinho de carros de verdade. Só lembrando na época tinha gol, chevete, escort, corcel, kombi, opalas, tudo com caburação e que bebiam mais que os donos.
    O Bertoluci só está esquecendo de falar que a Ford está saindo daqui porque o governo Trump deu incentivos para ele montarem fábricas nos EUA, quero ver como vai ficar com o governo do Biden, vão sentir saudades do Brasil.

    • A Ford vai montar mais fábricas nos EUA? Essa para mim é nova. A Ford anunciou já faz dois anos que vai suspender a fabricação de carros nos EUA também e ficar só nos suv e picapes.

      Se eles vão mudar de idéia depois, tudo é possível. As coisas mudam, o mundo gira e a Lusitana roda.

      • Isso mesmo.

        A Ford só vai fabricar automóveis na Argentina (e exportar para o Brasil e quem mais quiser) de lá. Menor custo, menos impostos.

        A Ford está fadada a morrer vítima de sua não adaptação à nova era mundial de carros híbridos, elétricos e autônomos.

        Já no passado sentiu uma pancada quando o Sistema Toyota de Produção introduziu os conceitos japoneses nos EUA (Ver: a fábrica que mudou o mundo, livro) e ferrou com o sistema Ford de montagem.

        Ou seja, esteve sempre na rabeira dos avanços tecnológicos da indústria automobilística.

        A empresa, que já foi a número 1, hoje está abaixo da GM, da Renault, da Fiat, da Toyota, da Chery, etc…

        Chorar por ela?

        Saudações

  2. Marcelo Bertoluci nicknamed “The Iceman” da crõnica fubânica, pois não transmite a emoção do fanatismo hoje encontrado na mídia (Marcelo não veste as coloridas camisas ideológicas à esquerda ou à direita – Ah, se todos fossem. Iguais a você)… Escreve Bertoluci: O governo pode obrigar todo prédio a ter dez porteiros, pode obrigar cada ônibus a ter cinco cobradores, pode colocar um guarda de trânsito em cada cruzamento, com apito e tudo.

    Lembrei que na Coreia do Norte belíssimas norte-coreanas fazem o papel de semáforo nos cruzamentos.

    • No início dos anos 60, a Coréia do Sul (não a do norte) proibiu a venda de máquinas de cortar grama, para “preservar empregos”.

      Felizmente para os sul-coreanos, as medidas populistas lá eram temporárias, ao contrário daqui.

  3. Caro Marcelo,

    Há algum tempo atrás, pensava-se que cada país tinha que se especializar na produção de bens que demandassem o que eles tinham em maior abundância.

    Se tinham abundância de capital, deveriam produzir bens intensivos de capital. Se tinham abundância de mão de obra, deveriam produzir bens intensivos em mão de obra.

    Os autores dessa teoria, os suecos Heckscher e Ohlin, ganharam o Prêmio Nobel por isso em 1977: a Teoria da Dotação de Fatores.

    Foi quando alguém perguntou: Por que os Estados Unidos, intensivos em capital, são o maior exportador de produtos agrícolas do mundo.

    A resposta dos caras foi fantástica! Porque a agricultura é, hoje, altamente intensiva em tecnologia e, como bem sabemos, tecnologia é sempre altamente intensiva em capital para ser desenvolvida.

    O caso da agricultura brasileira é um ponto fora da curva na imbecilidade geral reinante em nossas camadas governamentais. Quem está salvando a pátria, neste momento, são os pesados investimentos feitos por um cara Chamado Allysson Paulinely, ministro da agricultura dos milicos lá na década de 70, e que investiu consistentemente bilhões de dólares em uma empresa chamada EMBRAPA. Mandou uma leva enorme de pesquisadores fazerem PhD no exterior, sempre com o compromisso de virem aplicar suas pesquisas aqui no Brasil. Está aí o resultado. Foram eles os responsáveis pela adaptação da soja ao cerrado, à criação da fruticultura irrigada em Petrolina, e por aí vai.

    Fazem muita falta brasileiros como ele.

    • E também fazem muita falta rodovias, ferrovias, hidrovias, portos…

      Chuto que só o que o país desperdiça por falta de infra-estrutura cobriria o déficit do governo com alguma folga.

    • Trabalhei na Embrapa e endosso o comentário do Adonis. Nosso valor agregado no agronegócio permitiu saltar de uma produção de 110 milhões de tom na minha época de pesquisador (16 anos atrás ) pra 230.
      Um cultura pra exemplificar que não foi só aumento dé área cultivada..o arroz passou de 4.7 ton/ha para cerca de 8,5ton/ha
      Lembrar que no governo Lula o incentivo era que o MST invadisse as fazenda experimentais da EMBRAPA.

Deixe uma resposta