JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Eu estive aqui.

Marcamos que nos encontraríamos.

Lembras?

Esperei. Esperei e esperaria mais – se era esperar que querias que eu fizesse.

Não viestes.

Não virias mais?

Não vens?

Mas, continuarei esperando.

Estarei aqui amanhã – a partir da hora que combinamos.

Posso esperar?

Tu vens? Vens mesmo?

Acredito, e, por isso, esperarei.

Ainda que não venhas, estarei esperando.

Esperarei esperando, até que a espera me diga que não virás,

Ou, que a espera é uma forma inútil de esperar.

Esperei.

Estive aqui. Consegues ver?

Escolhi um lugar que nos cabia

E agora, só cabe a espera.

* * *

Transformação

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero um campo, sem ventos fortes
E um corpo puro como tuas entranhas.

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero o cheiro do mel polinizado
Para acalmar minha ansiedade.

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero a beleza e o cheiro do teu corpo
Para o pouso demorado do meu.

Quero o néctar, quero teu corpo
Quero teu cheiro, quero, enfim,
Me transformar numa borboleta.
Para viver uma vida sem fim.

8 pensou em “A ESPERA

    • Assuero: inspirado tá vosmecê, caba bom! Caba generoso. Caba lúcido. Você está, está, está!…..endeusado de bondade!

  1. Beleza !
    O homem está inspirado !.
    Assuero lembrou bem The Green Mile .
    Estamos nesta fase e neste corredor . Mas ainda há esperança , já que ela é a ultima que morre.

    • Joaquim, eu transpiro inspiração, quando lembro do chão tórrido do sertão do meu Ceará que, hoje, bastou “molhar a terra” prumode produzir uva, batata – comida, enfim! A gente espera. E acaba alcançando. A alegria é dupla, quando a gente conheceu a fase da espera.

  2. Zé Ramos sempre se mostrou ser um extraordinário artífice das letras. Cada crônica passa a ser uma aula, uma exposição de talento. Conto? novela? fábula? parábola?…você decide.

    A poética parábola da espera (esperançar), no presente texto, ele extrai a combinação de emoção, crença, perseverança e fé num amor quimérico.

    Não é a toa que uma de suas crônicas seja a que teve mais acesso e comentários (campeã) até hoje no JBF
    Bendita seja tua inspiração, cabra da peste!.

  3. Eu, ao contrário, resolvi não mais esperar. Sabia que não virias. Não perderia um tempo já tão gasto esperando o que não devia esperar. Liberei as borboletas que me faziam companhia e elas se foram. Voarão, aí sim, espero, por céus em que a esperança viva, em que não seja perda de tempo o esperar inócuo. Belo texto do Ramos. Aliás, como sempre.

Deixe uma resposta