CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Casa semelhante ao Bar Ambassador, situado na “Zona do Meretrício” do Recife Antigo

Na década de 50, sob o vigor dos meus 20 anos, “donzelão” todo, mas já exercendo atividade profissional como bancário, fui levado pelo tio e amigo Sebastião, para conhecer a “Zona de Meretrício” do Recife, situada nas proximidades do cais do porto. Mas ainda não era propriamente uma introdução à putaria, mas uma visita de cortesia, digamos.

Menino criado sob os fortes rigores da religião católica, chegar à segunda década de vida sem “comparecer” à Zona, era motivo de discreta preocupação dos pais. Mas a sífilis nesse tempo grassava e era o espantalho maior da juventude. Sobremodo porque eu já era noivo.

Vivi um tempo em que a juventude não tinha opções para se obter “ficha de macho” a não ser cair na gandaia da “Zona”. As moças eram virgens até o casamento e os namoros sempre motivavam compromisso de casamento. Segui esse caminho. Após um namoro de dois anos, já entrei no noivado e em poucos anos depois, no casamento.

Mas, me vi diante do desejo de conhecer o funcionamento da “prostituição oficializada”, que na década de 1950 se concentrava em dois polos: no Pina e no Cais do Porto, sendo esta a parte mais movimentada. Um território aberto a todos.

Sendo o Bairro do Recife uma ilha, ao se ultrapassar, à noite, qualquer uma das duas pontes – Maurício de Nassau ou Buarque de Macedo – se chegava a uma sociedade sem fronteiras. Tudo era livre, sobretudo a mulherada, que estava ali disponível para atender aos vários gostos.

Ainda vivíamos o rescaldo dos tempos da II Guerra Mundial e os marinheiros norte-americanos deixaram um rastro para o usufruto de “divertimentos masculinos”. Criaram o espaço onde se concentrava a mulherada. No Pina, tínhamos o Cassino Americano, clube chic, onde apareciam mulheres importadas; mas era coisa pra usineiros, pois os preços eram elevados.

Mas era na ilha onde foi fundada a cidade que se concentrava a “festa” para os solteiros, porque tinha mulheres para todos os gostos e desgostos. O Restaurante Gambrinos era o melhor e o dancing Chanteclér, uma espécie de clube dançante, assunto do qual já falei.

O Bairro do Recife era uma Paris. Local bem iluminado. Em cada pardieiro havia as “residências” da mulherada. As ruas estavam sempre transformadas em passarelas; uma espécie de “desfile de modelos”. Ali elas negociavam suas noites ou relações sexuais por instantes.

Fui com a intenção de apenas ver o que era a “Zona”, porque não havia apetite para enfrentar aquele tipo de divertimento. Aquela que seria minha esposa já estava escolhida.

E o que vi foi interessante para observações de um cronista ou um sociólogo. Vale a pena avaliar os hábitos daquela época e hoje estabelecer as comparações.

Um contrassenso: as ruas de Nossa Senhora da Guia, Vigário Tenório e da Madre de Deus e seus diversos becos, não obstante terem nomes religiosos, concentravam mais “casas de prostituição”, que na verdade ficavam localizadas nos velhos pardieiros. De dia um setor bancário e casas do alto comércio. À noite, festa da prostituição.

Depois de breve passeio e explicações sobre o funcionamento da “Zona”, tio Sebastião me levou à um dos bares mais elegantes do Recife, o Ambassador, situado ao lado da Concatedral da Madre de Deus.

Radiola de Fichas. Já nos anos, 50 era um atrativo no do Bar Ambassador

Ambos de ternos completos – imaginem!… – Chegamos ao bar para apreciar os drinks da Casa. Meu companheiro, que era solteirão, comprou também algumas fichas para que eu escolhesse discos que seriam tocados durante nossa estada. Haja Nelson Gonçalves e Sílvio Caldas!…

A radiola automática já era um sucesso. Os discos, escolhidos rodavam de pé. O elegante bar era discretamente um ponto de encontro com as mulheres mais finas da ‘Zona”. Ouvi dizer que ali se tornara o ponto dos que amargavam as “dores de cotovelo”, por causa da vasta oferta de discos a serem rodados na magnífica radiola.

Tio Sebastião foi informando como funcionava aquele local de divertimento. Era um ponto distinto, onde se poderiam encontrar mulheres de fino trato, raparigas bonitas e caras.

Logo à chegada, era de bom tom o boêmio se sentar e pedir ao garçom uma cerveja Brahma e uma ficha. Os discos rodavam. Começava, de fato, a fina boemia. Depois era só dar o braço à criatura que fosse convidada para um drink e sair para desfrutar o melhor da noite, alugando um automóvel para os levar ao Cassino Americano.

Hoje recordando aquela apresentação de minha primeira noite apenas de visita ao meretrício, me lembro que terminamos o “tour” no dancing do Chanteclér, onde a música surgia ao vivo através de uma boa orquestra e havia moças jovens e distintas para se bailar. Bem diferente do bar, onde geralmente se ouvia:

– Garçom, uma Brahma e uma ficha!…

6 pensou em “UMA BRAHMA E UMA FICHA!…

  1. Fica difícil acreditar que um jovem mancebo, no vigor de seus vinte anos, com dinheiro no bolso e cheio de testosterona tenha ida visitar uma zona e não tenha comido ninguém. Se houve um deslize com a confiança da noiva, o tempo já se encarregou de diluir a culpa.. Eu acho que comeu sim, e o tio Sebastião também papou alguém .KKKKKKKKKKKK

  2. Paulão, você foi na mosca amigo!

    Mas, vivendo uma época em que se a rapaziada passava muito tempo urubuservando as meninas para depois abordar uma, seria difícil – como foi – ver u’a mulher e saltar em cima dela, sem mais conversa.

    Ainda me balancei por uma polaca – que na época brilhavam por suas pees claras e sabelos louros – mas no primeiro gole de Guaraná Fratelli Vita ela já foi falando em “money” e aquilo me desanimou.

    A pobre, que viera de tão longas terras da Polônia, de fato ali estava trabalhando e sua principal ferramenta era a priquita, que precisava botar pra funcionar várias vezes em cada noitada.

    Esperei mais uns poucos meses e perdi o cabaço no mesmo dia do casamento; ou seja, na noite de nupcias, que aliás, confesso, não foi das melhores porque nenhum dos dois tinham experiência.

    Hoje, quando num círculo mais restrito digo que casei cabaçudo as gargalhadas ecoam no ambiente, porque ninguém acredita.

    Mas, na “Zona de Prostituição” do Recife era assim.

    Obrigado por sua leitura e comentário.

    • Como diria o Almirante em seu programa na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ( Incrível, fantástico e extraordinário.). Um abraço Carlos Eduardo, sou fã das suas. Crônicas ..

  3. Paulão amigo,

    Grato por sua leitura, agradeço emocionado.
    Pelo que vejo é da Velha Guarda.

    Escutei muito os programas da Rádio Nacional, notadamente às tardes de domingo.

    Eu ia para Apipucos, bairro do Recife, e ficava com minhas primas, todas donzelas – é bom que se diga – assistindo, inocentemente aquelas delícias de apresentação de artistas e calouros, pelos quais tanto vibrávamos.

    Na casa delas havia um potente rádio ‘Murphy” (Made in England) que pegava até pensamento. Comentávamos sobre questões disputadas pelos candidatos e sempre havia algo educativo nas respostas.

    Havia, além do Almirante, o César e Alencar, que também era bom de audiência. Todos, programas muito interessantes, que lucidavam questões, ensinavam a gente.

    Outro danado era Ary Barroso e seu programa de Calouros.

    Ficou na memória o que se dizia nos intervalos da emissora:

    “Rádio Nacional, Rio de Janeiro, Brasil, transmitindo dos seus studios, no 10 andar do edf. A Noite.

    Quando fui pela primeira vez ao Rio, em 1952, me desloquei até a porta do edifício e lancei meu pensamento sobre aqueles bons tempos em que eu ouvia os maiores nomes da cena radiofônica nacional, emissões de rádio emitidas lá de cima daquele prédio. Tive boa emoção.

    Hoje, embora desfrutando das imagens, os programadores estão empobrecendo, embora estejam nos brindando, nas imagens ,aparecendo excelentes bundas e peitos, o que agrada à velharada ,mas nos preocupa diante dos nossos netos ver tanta mulher em trajes indecorosos.

    Fico imaginando na surdina se no tempo em que eu era donzelo visse uma coisa dessas!…

    Na verdade, nada instrui a juventude de hoje. Tudo é deturbado, inclusive letras de músicas.

    Quando teremos compositores como Ary, criando o quase hino: A quarela do Brasil?

    A TV Aberta está levando nossa sociedade ao caos, quando poderia educar, através de um instrumento tão potente que pode circular por todos os quadrantes do País.

    Outro dia fiquei puto com um filme em Curta Metragem sobre o bairro do Recife, deturpando até a putaria. O tema pode ser aprofundado porque para lá iam mulheres com mil problemas de família e sobre isto nosso poeta Mauro Mota fez lindo poema. Mande – me seu zap que lhe mandarei. (Meu telefone: 81. 9.9880.0038. – santosce@hotmail.com.).

    Grato por sua leitura, Seu Terracota Paulináceo.

    E daqui do velho Recife, das antigas Terras do Engenho Poeta, lhe transmito aquele abraço.

    • Meu caro Carlos Eduardo, tentei, por várias vezes me comunicar com você através do telefone que me foi passado por você, nem através do Zap, nem através da linha direta. Não sei se nossa idade nos impede de acessar com competência os novos meios de comunicações. Um abraço do Paulo Terrocota, diretamente do Vale do Paraíba Paulista..

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