Essa é uma metáfora de caráter filosófico-pedagógico que exibe um diálogo entre o pensador e mestre de Platão, Sócrates, e a personagem Glauco, um jovem aprendiz.
A partir de um conto cheio de simbologias, Platão nos apresenta conceitos e situações que versam sobre a busca pelo conhecimento, em contraste com a ignorância e a manipulação, a incultura, o ódio, o sectarismo e a brochalidade mental de muitos.
A história integra se encontra no livro VII de A República, obra em que o autor se debruça sobre a vida política ateniense, texto escrito aproximadamente no século IV a.C.
Segundo dados pesquisados, nessa metáfora Sócrates pede que Glauco imagine uma situação hipotética em que várias pessoas são mantidas acorrentadas no fundo de uma escura caverna subterrânea.
À frente dos prisioneiros havia apenas uma parede, onde eram projetadas sombras de figuras representando seres, animais e outros elementos.
Essas projeções eram feitas por outras pessoas (que podem ser denominadas como “amos da caverna“) com o auxílio da luz de uma fogueira, que se encontrava atrás da população acorrentada.
Os amos da caverna elaboraram esse esquema, acorrentando as pessoas desde o nascimento delas, levando-as a acreditar que são livres. Assim, eles as estimulavam a trocar ideias entre si e, inclusive, a escolher um líder.
Como a única realidade que os prisioneiros conheciam era aquela, eles acreditavam que as sombras exibiam o mundo real, que tudo o que havia para ser explorado no universo eram as projeções. Então contentavam-se com aquele espetáculo e não tinham outras aspirações.
Entretanto, contrariando as expectativas, um dos prisioneiros começa a refletir sobre sua condição e percebe que existe algo de muito errado. Assim, um dia ele consegue se libertar e caminhar pela caverna, percebendo a fogueira, os amos e as silhuetas.
O homem liberto, à princípio, sente um enorme desconforto, não consegue enxergar nada, pois a vida inteira esteve aprisionado e seus olhos não estavam acostumados com a luminosidade. Entretanto, aos poucos desenvolve um olhar capaz de lidar com o mundo exterior.
A partir de então passa a ver a realidade e viver outras experiências que não eram possíveis dentro da escura cavidade.
Após um tempo explorando o novo mundo, o homem sente a necessidade de contar aos seus pares o que havia descoberto.
Então, no diálogo proposto por Platão, Sócrates diz para Glauco supor o que aconteceria se tal homem retornasse à caverna a fim de “abrir os olhos” de seus irmãos.
Eles chegam à conclusão de que o homem seria rechaçado por muitos dos prisioneiros, que não acreditariam nele e o tomariam como louco.
Para Platão, a caverna simbolizava o mundo onde todos os seres humanos vivem. As sombras projetadas em seu interior representam a falsidade dos sentidos, enquanto as correntes significam os preconceitos e a opinião que aprisionam os seres humanos à ignorância e ao senso comum. Platão então descreve a importância do senso crítico e da razão para que os indivíduos possam se “libertar das correntes” e buscar o conhecimento verdadeiro, representado pelo mundo exterior à caverna.
O Mito da Caverna chama atenção por manter-se atual. A alegoria de Platão pode ser interpretada como uma crítica aos que, por preguiça, falta de interesse e oportunismo, não questionam a realidade e aceitam as ideias impostas por grupos dominantes.
Podemos traçar um paralelo com essa alegoria e a realidade atual no que diz respeito, por exemplo, à ânsia de adquirir bens de consumo, acreditando que assim será possível o preenchimento de um vazio existencial.
Os amos da caverna podem hoje simbolizar os políticos e grandes empresários, donos de verdadeiras fortunas conquistadas com a manipulação das pessoas e a venda de produtos, alguns até desnecessários. Seguindo esse raciocínio, é possível relacionar a publicidade e os modismos às sombras projetadas na caverna.
A busca pelo conhecimento, continua sendo, portanto, essencial para que um dia os seres humanos consigam alcançar a verdade e promover uma integral libertação.
Uma questão final: será que os poderes dominantes incultos não estimulam um bom sistema educacional por interesses radicalmente nada racionais, cavernosos no frigir dos ovos?
PS. Uma excelente leitura complementar: O PONTO A QUE CHEGAMOS: DUZENTOS ANOS DE ATRASO EDUCACIONAL E SEU IMPACTO NAS POLÍTICAS DO PRESENTE, Antônio Gois, Rio Janeiro, FGV, 2022, 208 p. Páginas que aprimoram binoculizações redentoras.