SONHO INFIEL
A literatura cearense noticia uma pitoresca história cuja autoria é atribuída ao engenhoso poeta Lourival Batista, a quem parabenizo pela invencionice e, ao mesmo tempo, peço licença para recontá-la. Prometo não desfigurar o original, porém, faz-se necessária uma demão dos meus particulares temperos, eventualmente jocosos. Reconto para saciar esta minha vaidosa mania de querer ser repórter cultural, é um vezo incorrigível, pelo qual peço desculpas.
João Tertuliano ganhou o apelido de “João teimoso” pela teimosia de jogar no “bicho”, continuadamente. Certa feita João teve um sonho que lhe dizia:
– João, amanhã cedinho você ouvirá o nome do bicho a ser sorteado, fique atento.
Ao despertar, no dia seguinte, João, ávido por conhecer o prometido em sonho, ardia de expectativa. A primeira coisa que lhe veio aos ouvidos foi o vozear do vizinho transmitindo ordens ao seu empregado, José Leão. Disse o vizinho ao empregado:
– José Leão, acorde que o galo já cantou, calce as botas de couro de camelo para evitar mordida de cobra. Leve o touro e a vaca, ponha ambos no roçado. De volta traga o burro, ou o cavalo, e vá à casa do compadre João Carneiro, Rua Coelho Neto, esquina com Pavão Misterioso, número vinte e quatro. Tenha cuidado com o cachorro, valente igual a urso, inclusive mordeu o elefante do circo. Tenha moderação com o compadre, pois ele é zangado feito tigre. Peça-lhe emprestado o macaco, a chave borboleta e o alicate jacaré. Ponha tudo na bolsa de couro de avestruz. Volte ligeiro, como a um gato. Passe no armazém e traga a ração dos perus.
Com a mente literalmente desarrumada pelo excesso de palpites, João Teimoso não jogou, passou o dia amuado. O sonho, promesseiro, se recusou a cumprir o prometido. Aliás, nos sonhos, e em tudo mais de natureza onírica, radicam elevados índices de insegurança. Nisso há que se ter cuidado redobrado. Apesar de balsâmicos, sonhos podem ser ilusivos; não se deve fiar neles, inteiramente. “Confiar desconfiando é uma regra muito salutar da prudência humana”.
Que prosa boa, meu jovem?
Grande abraço.