PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

Antônio Carneiro glosando o mote:

Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Regressei ao lugar que fui criado
Como quem vai cumprir um juramento
Avistei os arreios do jumento
Pendurados na cerca do cercado.
No curral que papai trancava o gado
O chocalho da vaca eu procurei
Bem ao lado da casa encontrei
Os resquícios da minha mocidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Avistei o meu cabo de enxada
Encabando uma velha Tramontina
A ferrugem comendo a lamparina
E uma cela de couro empoeirada.
Mas chorei quando vi uma latada
E o cavalo de pau que eu montei
No cavalo da História disparei
Retornei aos quarenta de idade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Encontrei bem no “pé” do casarão
O meu carro de flandre na poeira
Adentrando avistei uma roqueira
Dos folguedos de noite de São João.
Vi meu rádio de pilha campeão
Meu cachorro de caça não achei
Mas a cama velhinha que deitei
Inda mora comigo na cidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Vi pedaços de bola canarinho
Enganchados em cima do telhado
Vi um saco de estopa amarelado
Que a galinha de mãe fazia ninho.
A “camisa” bonita do meu pinho
Que nas noites de lua dedilhei
O balanço que um dia despenquei
Lembrarei para toda eternidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Na “sapata” da casa eu vi salina
Vi “bezerros” de osso no oitão
Vi pegadas de gado pelo chão
Num aceiro a carcaça da turina.
Recordei de uma tarde de neblina
Da arapuca no mato que armei
Quando vi a chinela que calcei
Relembrei toda minha castidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

No oitão também vi uma balança
Onde a pedra de quilo era o peso
Um arame farpado que era teso
Uma estaca apontada como lança.
O sapato que eu ia numa dança
O sabugo de milho que usei
Pra fazer o chiqueiro que criei
Pra prender toda aquela liberdade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

A gamela que pai tomou um banho
O cacete assassino de uma rês
Algaroba, um angico, dois ipês
Que serviam de sombra pro rebanho.
Vi um prato branquinho de estanho
A rural de madeira que ganhei
Vi o cinto de pai que apanhei
Com requinte de pura crueldade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

A cumbuca de mãe guardar azeite
Enxerguei pendurada no pereiro
Avistei lá em cima do chiqueiro
A caneca que pai tirava leite.
A cabeça de vaca como enfeite
Que um dia na cerca enganchei
Vi um banco velhinho que sentei
E o cupim só deixou uma metade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Encontrei um pedaço de cocão
Uma mesa de carro sem fueiro
Uma roda, tarugo e um tamueiro
Do transporte mais belo do Sertão.
Uma tira de pano e um botão
Uma agulha de saco que comprei
E a Monark que tanto pedalei
Eu garanto de vê-la ter vontade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Uma tampa de vinho indiano
Com o rótulo do índio Jurubeba
O cotoco do rabo de um peba
A moldura do nosso Soberano.
Uma quarta da peça de um pano
Que num ano de safra eu comprei
E uma braça de terra que enterrei
As agruras da minha enfermidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

A cangalha surrada do jerico
Pendurada no torno da parede
Candeeiro, pavio e uma rede
Um machado, uma foice, um maçarico.
Um martelo, uma mala e um pinico
Um gibão que um dia campeei
No cavalo rudado que esporei
Cavalgando a procura da verdade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

Caco velho que mãe torrava massa
Caldeirão pra botar milho de molho
Uma lasca de lenha e um ferrolho
Chaminé, um isqueiro, uma cabaça.
A garrafa verdinha de cachaça
Que papai dava trago, não traguei
Eu pensando em voltar inda pisei
Numa foto da minha identidade
Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei.

* * *

UMA VIAGEM AO CÉU – Leandro Gomes de Barros

Uma vez eu era pobre
Vivia sempre atrasado
Botei um negócio bom
Porém vendi-o fiado
Um dia até emprestei
O livro do apurado.

Dei a balança de esmola
E fiz lenha do balcão
Desmanchei as prateleiras
Fiz delas um marquezão
Porém roubaram-me a cama
Fiquei dormindo no chão.

Estava pensando na vida
Como havia de passar
Não tinha mais um vintém
Nem jeito de trabalhar
O marinheiro da venda
Não queria mais fiar.

Pus a mão sobre a cabeça
Fiquei pensando na vida
Quando do lado do céu
Chegou uma alma perdida
Perguntou : – Era o senhor
Que aí vendia bebida?

Eu disse que era eu mesmo
E a venda estava quebrada
Mas se queria um pouquinho
Ainda tinha guardada
Obra de uns dois garrafões
De aguardente imaculada.

Me disse a alma: – Eu aceito
E lhe agradeço eternamente
Moro no céu, porém lá
Inda não entra aguardente
São Pedro inda plantou cana
Porém perdeu a semente.

Bebeu obra de três contas
Ficou muito satisfeita
Disse: -Aguardente de cana
Imaculada direita
Isso é o que chamo bebida
Essa aqui ninguém enjeita.

Perguntei-lhe: – Alma, quem és?
Disse ela: – Tua amiga
Vim te dizer que te mude
Aqui não dá nem intriga
Quer ir para o céu comigo?
Lá é que se bota barriga.

E lá subi com a alma
Num automóvel de vento
Então a alma me mostrava
Todo aquele movimento
As maravilhas mais lindas
Que existem no firmamento.

Passamos no purgatório
Tinha um pedreiro caiando
Mas adiante no inferno
Tinha um diabo cantando
E a alma de um ateu
Presa num tronco apanhando.

Afinal cheguei no céu
A alma bateu na porta
Com pouco chegou São Pedro
Que andava pela horta
Perguntou-lhe: – Esta pessoa
Ainda é viva ou é morta?

A alma então respondeu
– É viva, estava no mundo
Não tinha de que viver
Está feito um vagabundo
Lá quem não for bem sabido
Passa fome e vive imundo.

São Pedro aí perguntou:
– O mundo lá como vai?
Eu aí disse: – Meu Santo
Lá, filho rouba do pai
Está se vendo que o mundo
Por cima do povo cai.

Eu inda levava um resto
Da gostosa imaculada
Dei a ele e ele disse:
– Aguardente raceada!
E aí me disse: – Entre
Aqui não lhe falta nada.

Arrastou uma cadeira
E mandou eu me sentar
Chamou um criado dele
Disse: – Cuide em se arrumar
Vá lá dentro e diga à ama
Que bote um grande jantar.

Quando acabei de jantar
O Santo me convidou
Disse: – Vamos lá na horta
Fui lá, ele me mostrou
Coisas que me admiravam
E tudo me embelezou.

Vi na horta de São Pedro
Arvoredos bem criados
Tinham pés de plantações
Que estavam carregados
Pés de libras esterlinas
Que já estavam deitados.

Vi cerca de queijo e prata
E lagoa de coalhada
Atoleiro de manteiga
Mata de carne guisada
Riacho de vinho do Porto
Só não tinha imaculada.

Prata de quinhentos réis
Eles lá chamam caipora
Botavam trabalhadores
Para jogar tudo fora
Esses níqueis de cruzados
Lá nascem de hora em hora.

Então São Pedro me disse:
– Quero fazer-lhe presente
Quando você for embora
Vou lhe dar uma semente
Você mesmo vai escolher
Aquela mais excelente.

Deu-me dez pés de pinheiro
Alguns querendo botar
Quilos de queijo do reino
Já querendo safrejar
Uns caroços de brilhante
Pra eu na terra plantar.

Galhos de libras esterlinas
Deu-me sento e vinte pés
Deu-me um saco de semente
De cédulas de cem mil réis
Deu-me maniva de prata
E diamante umas dez.

Aí chamou Santa Bárbara
Esta veio com atenção
São Pedro aí disse a ela:
– Eu quero uma arrumação
Este moço quer voltar
Arranje-lhe uma condição.

– Bote cangalha num raio
E a sela num trovão
Veja se arranja um corisco
Pra ele levar na mão
Porque daqui para a terra
Existe muito ladrão.

Eu desci do céu alegre
Comigo não foi ninguém
Passei pelo purgatório
Ouvi um barulho além
Era a velha minha sogra
Que dizia: – Eu vou também.

Eu lhe disse: – Minha sogra
Eu não posso a conduzir
Ela me disse: – Eu lhe mostro
Porque razão hei de ir
Se não for, apago o raio
Quero ver você seguir.

Nisso o raio se apagou
Desmantelou-se o trovão
O corisco que trazia
Escapuliu-me da mão
E tudo quanto eu trazia
Caiu dessa vez no chão.

Aí a velha voltou
Rogando praga e uivando
Quando entrou no purgatório
Foi se mordendo e babando
Dizendo tudo de mim
Lançando fogo e falando.

Bem dizia meu avô:
“Sogra, nem depois de morta
Fede a carniça do corpo
A língua da alma corta
Não diz assim quem não viu
Uma sogra em sua porta”.

Eu vinha com isso tudo
Que o Santo tinha me dado
Mas minha sogra apanhou
O diabo descuidado
Fiquei pior do que estava
Perdi o que tinha achado.

E quando eu cheguei em casa
A mulher quase me come
Inda pegou um cacete
E me chamou tanto nome
Disse que eu casei com ela
Para mata-la de fome.

Se não fosse minha sogra
Eu hoje estava arrumado
Mas ela no purgatório
Achou tudo descuidado
Abriu a porta e danou-se
Veio deixar-me encaiporado.

Nunca mais voltei ao céu
Para falar com São Pedro
E ainda mesmo que possa
Não vou porque tenho medo
Posso encontrar minha sogra
E vai de novo outro enredo.

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