COMENTÁRIO DO LEITOR

Comentário sobre a postagem PRIVILÉGIO ÚNICO, INALIENÁVEL, INTRANSFERÍVEL

Xico Bizerra:

Eita como eu tô feliz com tanta gente querida comentando meu texto.

Obrigado a todos vocês.

Ao Marcos Pontes informo que sou, de fato, cearabucano, nascido no Ceará e cidadão de Pernambuco, de papel passado.

E recicratense, parido no Crato e cidadão do Recife, também de papel passado.

Sou ou não um cabra de sorte?

* * *

Nota do Editor:

Quando meu talentoso e querido amigo Xico Bizerra, colunista desta gazeta escrota, usa a expressão “de papel passado”, ao se referir à sua cidadania, ele está absolutamente certo.

Sendo cearense e cratense de nascença, ele recebeu os títulos de Cidadão Pernambucano e de Cidadão Recifense, concedidos pela Assembleia Estadual de Pernambuco e pela Câmara de Vereadores do Recife, respectivamente.

Recebeu o diploma de cidadão, o “papel passado”, das duas casas legislativas pernambucanas.

Agora, vem o detalhe: ao receber o título de Cidadão Recifense, em agosto de 2010, tive o privilégio de ser convidado por Xico para fazer o discurso de saudação, em sessão solene da Câmara de Vereadores aqui do Recife.

De terno e de gravata no gogó, conforme o regulamento.

Uma sessão que foi abrilhantada e animada por vários artistas, sanfoneiros e grupos de forró cantando “Se Tu Quiser”, o grande sucesso de Xico e rendendo uma merecida homenagem a um dos maiores compositores da atualidade, um ícone da cultura e da música nordestina.

Vou aproveitar a oportunidade para me amostrar e matar as saudades (já lá se vão 12 anos…), transcrevendo a seguir, na íntegra, o discurso que pronunciei naquele dia.

É um discurso comprido que só um dia de fome!

Mas que pronunciei com muito gosto e orgulho, satisfeito com a honra do convite que Xico me fez pra saudá-lo.

Vou torcer para que os amigos e leitores tenham paciência e leiam até o final.

Agradeço antecipadamente a atenção de todos.

* * *

Exmo. Sr. Presidente desta sessão solene, 

Excelentíssimo Sr. Vereador Josenildo Sinésio, autor da proposta de concessão deste título, que em tão boa hora veio,

Senhoras e senhores edis recifenses aqui presentes,

Artistas, poetas, compositores, cantores, cantadores e cantadeiras da Nação Nordestina, senhoras e senhores presentes a esta celebração, cidadãos de pátrias várias e cidadãos da pátria recifense que estão aqui para homenagear o seu mais novo co-munícipe, meu querido amigo e, a partir de hoje, cidadão recifense Xico Bizerra,

Nesta vida só existe um prazer maior do que falar bem de quem a gente gosta, que é esculhambar quem a gente detesta. E, pra falar bem de você, meu estimado poeta, eu passaria o resto do ano aqui nesta tribuna. Mas prometo ser tão breve quanto me permita e minha empolgação. Já dizia meu finado pai que quem faz conversa comprida é quem tem filha pra casar. E este momento é todo seu, Xico Bizerra. É você quem deve ser posto em evidência para brilhar e ser festejado.

Quero iniciar minha fala lendo um texto que ele, Xico Bizerra, escreveu de próprio punho:

“Desembuchei no mundo numa cidade cearense chamada Crato, nos calcanhares da Serra do Araripe, avizinhada, parede-e-meia, com o Pernambuco. Por aquelas bandas se nasce sentindo as baforadas do baião, se toma mingau com gosto de xote, a chupeta já vem melada com o açúcar do xaxado. Além do mais, ao sair do bucho da mãe, já bate nas oiça da gente um violeiro, um cantador ou um cego de feira do outro lado da calçada cantarolando Gonzagão. Como não se apaixonar pelo rei Lua? Assim, fui balançado na rede ouvindo o acalanto Gonzagueante e sentindo no pau da venta o cheirinho bom da terra do sertão. Pra completar, minha mãe tocava bandolim, quando não tava namorando com meu pai. Daí, o gosto pela música, conseqüência de uma relação quase umbilical.”

Estas são palavras de Xico Bizerra. Aqui retomo a minha fala.

Fincado no sopé da Chapada do Araripe, no extremo sul do Ceará, o Crato fica a quase 100 léguas da capital Fortaleza. A distância geográfica e sentimental que vai do Crato a Fortaleza é mais ou menos a mesma distância que vai do Crato ao Recife. E isto já diz tudo.

Xico Bizerra desembuchou num recanto de mundo que fica equidistante das capitais de dois estados que ela traz firmemente enraizados no seu coração de Poeta. E tem mais: dos oito municípios que cercam em redondo o Crato, dois são de Pernambuco. E, destes dois, um é nada mais, nada menos que o Exu, terra de nascença de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Dessa forma, a gente começa a ter uma pista da enorme paixão, da incomensurável admiração que Xico Bizerra tem pela vida e pela obra de Seu Luiz.

Esta paixão, esta admiração, Xico Bizerra explicitou na série Forroboxote, um trabalho destinado a perdurar para todo o sempre. Nesta coletânea, existe um disco, o de número 4, que é inteiramente dedicado a Luiz Gonzaga e no qual Xico Bizerra deixou gravadas estas palavras:

“Tentar homenagear Gonzagão é mais perigoso do que navalha amolada na mão de barbeiro míope. Isto porque qualquer reverência que se preste ao Rei do Baião, por maior que seja, ela será sempre muito pequena ante a grandiosidade de sua obra, à imensidão de seu perfil artístico como cantor, como instrumentista, como homem reconhecido do Oiapoque à Baixa da Égua, da Caixa-Prego ao Chuí, do Exu ao Mundo. Mas mesmo assim e modestamente, ousei fazê-lo, emboramente tenha me dado um esfriamento espinha abaixo, pela responsabilidade. Dedico este disco a ‘seu’ Luiz e a todos os irmãos do forró, que com fé e luta juntam suas mãos às minhas na guerrilha da paz, empunhando punhais de amor e fuzis de alegrias mil para preencher as trincheiras das nossas almas com forró, emoção e bem-querença das grandes.”

Palavras de Xico Bizerra. Retomo minha fala.

Assim como a obra de Luiz Gonzaga teve o reconhecimento devido em vida, e tem até hoje mais de duas décadas após a sua morte, a obra de Xico Bizerra, em pleno processo de desenvolvimento, já é uma estrela que brilha com muito fulgor no firmamento dos céus desta Nação Nordestina. São dois nomes que, a seu tempo e a seu modo, honram e dignificam a cultura e a música deste chão querido.

Um chão sobre o qual Xico Bizerra compôs a canção “Romeiros do Destino”, em parceria com Israel Filho:

Sou a casca da bala do fuzil de Lampião
Uma conta do rosário em que rezou Frei Damião
Sou o barro que escorria pelas mãos de Vitalino
Eu sou nordestino, sou dessa nação
Sou o pé de pau que deu o cajado a Conselheiro
Palavra que Patativa transformava em verso inteiro
Sou o eco do aboio no cantar de Marcolino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

Sou o fiapo da batina do Padim Ciço Romão
Poeira do pé-de-serra que pariu o Gonzagão
Na poesia de Aderaldo sou um verso clandestino
Eu sou nordestino, sou dessa nação
Sou a linha das rendeiras, sou a corda da viola
Sou águas do Pajeú, sou fogueira, bandeirola,
Sou o som de u’a sanfona, sou um terreiro junino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

Pois aqui, hoje, neste momento, Xico Bizerra está desembuchando no mundo de novo, desta vez parido do ventre de amor desta cidade maurícea que houve por bem torná-lo um cidadão seu, por sábia deliberação deste parlamento municipal. E nós, seus amigos, seus irmãos, seus intérpretes, seus familiares, seus parceiros, seus companheiros de jornada, seus fãs, seus admiradores, estamos aqui, todos nós, representando e fazendo as vezes de cada um dos habitantes desta amada cidade, de cada um dos moradores do Recife, desde a Macaxeira e o Cajueiro, passando pela Torre, pela Madalena e pelo Rosarinho, até chegar a San Martin, Mangueira e Mustardinha. Desde Santo Antônio, São José e Boa Vista, passando pelo Espinheiro, pela Encruzilhada e pela Casa Forte, até chegar ao Engenho do Meio, Iputinga e Caxangá. Aqui estamos, todos nós, recebendo e cercando de carinhos e de bem querença o mais novo e ilustre cidadão do Recife.

Meu caro Xico Bizerra: tem um conterrâneo seu, também recifense e também poeta, que já partiu para o infinito e que pintava esta cidade todinha de azul. Tanto pintava que chegou até a escrever um certo “Soneto do desmantelo azul”. Estou falando do grande e saudoso Carlos Pena Filho. Pois então, Xico, este seu conterrâneo do Recife, o poeta Carlos Pena Filho, abre o poema intitulado “Guia prático da cidade do Recife” com estes versos que dizem como esta linda urbe teve início:

No ponto onde o mar se extingue
e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram seus flancos:
trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena, flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Pois é do sonho dos homens, pois é dos sonhos dos compositores, pois é dos sonhos de criadores e poetas como Xico Bizerra que esta cidade continuará se inventando e se enchendo de poesia, de lirismo, de muita música, de muito forró, de muita paz e de muito azul.

No dia 4 de novembro de 1950, na mui leal, acolhedora e histórica cidade cearense do Crato, a jovem Myrthes Bezerra de Carvalho, esta figura terna e querida que está neste momento aqui conosco, desembuchou o filho Francisco José Bezerra de Carvalho, para grande júbilo do papai, Afrânio Nobre de Carvalho, cujo estado de saúde não permitiu que viesse até esta festa em homenagem ao seu filho.

A jovem Myrthes inventou o ardil de estudar bandolim apenas pra ter a oportunidade de encontrar o namorado Afrânio no horário das aulas. O bandolim era uma maneira de fugir do cerco implacável dos pais severos daquele tempo. A certa altura dos acontecimentos, Myrthes trocou definitivamente o bandolim por Afrânio e, no final de tudo, decidiu se apaixonar pelos dois. De uma presepada deste calibre, não poderia resultar outra coisa senão um filho compositor, musical, poeta e cantor das coisas de sua terra. Como diz o próprio Xico Bizerrra, vem daí, “o gosto pela música, consequência de uma relação quase umbilical.”

Além de Xico, o casal Myrthes e Afrânio também deu ao mundo Virgínia, que já partiu para o encantado, Paulo, que mora em Fortaleza e não pode estar presente aqui, e Fátima, a caçula que está conosco neste momento para celebrar esta honraria recebida pelo irmão.

A infância do menino Xico Bizerra está fielmente retratada na composição “Canção de me ninar” que ele compôs e que dedicou “aos que tiveram a ventura da infância no sertão”:

Voltasse o tempo feito uma carrapeta,
Bailarina borboleta, piruetando pra trás,
Retiraria, das gavetas da memória,
Os brinquedos, as histórias, da criança tão fugaz
Meu coração, nu da cintura pra cima,
Pés descalços, com a prima, na vida a cabracegar,
Minha emoção, calça curta sem destino,
Nesse meu peito malino, bundacanastra a virar

Subir mangueira, atiradeira, pontaria,
‘passarim’ que não sabia da mão certa foi ao chão,
Bucho, mercúrio, quem mandou fazer besteira?
Treloso, descer ladeira pinotando, escorregão,
Portão alto, salto, joelho ralado,
E o quintal que está ao lado fica com caju de menos,
Goiaba verde, tá de vez seriguela, vou levar mangas pra ela,
Beijos, pecados pequenos

– Seis padre-nossos, salve-rainha no altar,
Quem me mandou desejar tão cedo o que eu não devia?
Nesse teatro, do amor fui aprendiz,
Brincamos de ser feliz, todo tempo era invernia,
E na escola, soletrar felicidade,
Tabuada da verdade, palmatória, noves fora,
Banhos de açude, jogos de bola e pião,
No São João, soltar balão, brincante, ator, sertão afora

Perambulo, veredas da meninice,
Coração, mestre em tolice,
Emoção, menoridade,
E todo dia, vários sonhos a beber,
Sou criança a renascer
Nas varandas da saudade

A vocação da escrita, o chamado das letras, a paixão pela literatura, que eram marcas salientes do menino Xico, tiveram um reforço importante na figura do seu avô materno, José Bizerra, professor no tradicional Seminário do Crato. Jovem recém saído da meninice, mudou-se Xico pra capital Fortaleza e a distância fez com que virasse rotina a troca de cartas poéticas com o avô.

Agora vejam: um neto adolescente trocando cartas em forma de poesia com um avô que era professor de Português, Francês e Latim! Com um detalhe: professor de Português, Francês e Latim naquele tempo! Não poderia haver uma influência mais benéfica, mais arejada e mais marcante do que esta no preparo do futuro compositor e escritor Xico Bizerra.

Sim, é isto mesmo, do jeito que acabei de falar: do escritor Xico Bizerra, do cronista e contista Xico Bizerra. Um escritor de raro talento e de estilo marcante, um mestre da escrita criativa que só tive o prazer de conhecer há bem pouco tempo, quando passei a publicar na minha página da Internet, os textos que ele gentilmente me mandava. Foi uma descoberta prazerosa e que me encheu de encantos. Me senti diante de uma mina jorrando ouro em pó. São textos de tal leveza e de tanta sensibilidade que eu não canso nunca de admirar. Fiz a seleção de alguns, de alguns poucos, em meio às dezenas que tenho comigo, todos belos, todos inspirados. Apenas alguns poucos pra dar uma pequena amostra pros senhores:

1 – Mais gostoso que as mangas roubadas era o prazer de roubá-las, de pular o muro, do perigo que se corria se flagrados fôssemos. As mangas cumpriam apenas um papel secundário ao serem chupadas. Sabíamos que, se descobertos, nossos pais tomariam conhecimento do ‘crime’ e as penalidades iam de estudar a tarde inteira a não poder jogar bola depois das quatro. Mas valia a pena correr o risco e enfrentar as ameaças. Era o prazer do perigo, da aventura. Hoje, não pulo muros nem chupo mangas. As pernas já não permitem o atrevimento frente a muros altos; o corre-corre da vida não me dá tempo de sentir o sabor da meninice, tão distante. Além do mais, não gosto das mangas amargas dos supermercados, sem qualquer gosto de saudade, sem qualquer sabor de perigo. 

2 – Ela foi, não havia como deixar de ir. Não queria, mas findou por ir, junto com os pais. O pretexto de conhecer o mar não lhe parecia convincente, mas incontestável se mostrava. Como ficar, sem pai, sem mãe, apenas com ele, seu amor, à espreita, aguardando uma chance? O mar? E ela queria lá saber de mar! Muito mais lhe aprazia os carinhos recebidos e testemunhados pela lua, só por ela. Mas estava lá o mar à sua frente, sem graça, totalmente imenso e insosso, uma coisa grande, mas sem sal. De nada teria valido aquela paisagem não fossem as conchinhas recolhidas na areia para ofertá-las, como presente, quando voltasse. Ao recebê-las, ele levou aos ouvidos o regalo e, da conchinha mais bonita, ouviu o mar, distante. Beijou-as, a concha e quem a trouxe de tão longe. Ela adorou ter visto o mar. Ele adorou ter escutado o mar.

3 – Ramiro era muito feio e todos os bonitões da cidade riam de sua feiúra. Descaradamente. Até os que também eram feios riam de sua feiúra, tão exagerada que era. Ele não se importava e seguia a vida, carregando bagagens na estação de trem, trabalhando como chapeado: era assim que se chamavam aqueles que transportavam malas, identificados por um número na chapa de bronze colada ao quepe: O dele era o 341. Um dia Ramiro ganhou de um viajante um espelho encantado que refletia a alma das pessoas que nele se olhassem. Ramiro olhou, viu-se e passou a rir da feiúra de todos os bonitões da cidade. Discretamente, sem que ninguém percebesse o seu riso. Como era feio aquele povo! Como era belo o Ramiro!

4 – Pajeuzado de emoção e caririzado de saudades lembro desse sertão arrodeado de lua por todos os lados. Do terreiro onde se escuta a voz do vento moxotizado vindo de não sei onde para refrescar a tarde teimosa e araripense que não quer virar noite. E quando esta chega, ah, aí dá pra sentir que o paraíso foi inventado ali por perto, que o Criador se inspirou naquele lugar prá se motivar a criar o céu . Tivesse ele ficado por ali mais um tempinho, teria colocado Adão e Eva naquele terreiro sem maçãs e sem serpentes, com luz, sol e um vento que canta quando o sol, vencido pelo cansaço, veste o pijama e vai dormir. Deixem-me balançar nesse terreiro, deixem passar as galinhas por sob a rede, não impeçam que o cachorro lata quando passar alguém na estrada, deixem o sol ser preguiçoso, como sou. Deixem tudo. No céu pode tudo.

São textos em prosa que trazem o cheiro da mais pura poesia. São temas poéticos em forma de prosa e que se materializam na pena de um mestre da escrita. Por um estranho capricho e por conta de uma situação que espero que dure pouco, Xico Bizerra é um escritor desconhecido e ainda inédito, mas tão talentoso e tão genial quanto o compositor consagrado, famoso e amado pelo grande público. Torço para que ele não demore muito a nos agraciar com o seu primeiro trabalho impresso. Será mais um grande nome que irá brilhar na constelação da literatura nordestina e brasileira. Não tenho dúvida alguma.

Pois este Xico Bizerra que hoje é também escritor, bafejado pela generosidade e pelo capricho do destino, ao chegar adolescente a Fortaleza, teve como primeiro emprego, aos 14 anos, um trabalho numa biblioteca. Um emprego onde sua obrigação maior não era propriamente trabalhar, mas ler. Isso mesmo: ler. A um desmantelo deste porte, resistir quem há de?

E datam desta época, dos seus 14 para os 15 anos, as primeiras composições, que ele, meio por timidez, meio por falta de oportunidade, meio por não poder se dedicar integralmente ao ofício, foi armazenando, foi guardando no baú e esperando o tempo certo pra propagandear seu produto. Um tempo que ele marcou como sendo o da chegada da aposentadoria de sua vida funcional, que durou 28 anos e que o levou a viajar o Brasil inteiro como Inspetor do Banco Central, além de mais uns tantos outros anos como servidor do Banco do Nordeste.

Ao se transformar em compositor de expediente integral, Xico Bizerra se tornou o autor regional mais gravado dos últimos anos, tendo sido cantado por tanto quanto 176 artistas e conjuntos brasileiros, daqui do nordeste e de outras regiões destes brasis.

Dentro desta trajetória vitoriosa, contabiliza-se um fenômeno realmente extraordinário, um feito espetacular por qualquer ângulo que seja analisado e medido: a sua música “Se tu quiser”, lançada em 2002, já foi gravada 106 vezes, de norte a sul e de leste a oeste deste país grande, com direito até mesmo a uma versão inglesa, If You Want. Is it mole ou querem mais?

Xico Bizerra viveu em Fortaleza até 1971, mudando-se para o Recife no início de 1972, tendo aqui estudado Economia e terminou bacharelando-se em Administração. Por aqui, nesta cidade acolhedora de todas as gentes, já chegara, desde o ano de 1968, uma certa Dulce Maria, uma jovem conterrânea do Crato e prima do compositor, que viera estudar e tentar a vida na capital pernambucana.

E, como costuma acontecer nas histórias de amor de pé-de-serra, encontraram-se um dia e Xico insinuou-se assim: “Se tu quiser…”. No que Dulce respondeu de imediato: “E eu sou doida de num querer???”

Casaram-se em maio de 1977, e a jovem conterrânea é hoje a Sra. Dulce Maria Bezerra de Carvalho. Companheira, amiga, anjo da guarda, presente em todos os momentos, na alegria e na tristeza, no aperreio e no folguedo, no fuá e na novena, no sertão e na beira do mar, na saúde e na doença, na valsa e no rela-bucho. Formam estes dois um casal que serve de inspiração para os amigos e para o mundo. Construíram uma família exemplar que é um refúgio de paz, uma ilha de tranquilidade para o nosso artista continuar em seu buliçoso processo de criação.

E não tem coisa melhor na vida de um artista, pra incentivar, pra atiçar o seu processo de criação, do que uma mulher ao lado dele, apaixonada, ali, de banda, encangada, dedicada e com os quatro pneus arreados…

Ainda esta semana Dulce me fez esta declaração: “Estou com ele até hoje, igual pulga de cós, acompanhando lado a lado, sua trajetória artística, com muito orgulho”

Num é só você que tem orgulho dele, caríssima Dulce. Nós todos também temos.

Quando é um dia, no mês de setembro de 1981, o casal pegou no laboratório o resultado do exame que confirmava o embuchudamento de Dulce. Era o esperado primeiro filho! Sem a menor idéia se a cria que estava pra vir seria fêmea ou macho, e ainda no caminho, vejam bem, no caminho do laboratório até chegar em casa, Xico Bizerra compôs uma das letras mais ternas, mais belas e mais tocantes de sua vasta produção.

Uma música que ele intitulou de “Pr’aquele que vem”. Uma composição que Xico musicou em parceria com Luciano Nunes.

Não me canso nunca de ouvir a versão gravada por Irah Caldeira e me enterneço sempre que escuto este poema:

Sede bemvindo, água na hora da sede,
No meu peito armei a rede
Que é prá nós se balançar,
Sede bem lindo, vinde com saúde e paz,
Seja moça ou rapaz,
Tô esperando ocê chegar

Que coisa boa que ocê resolveu vir
Prá aumentar o meu sorrir,
Fazer crescer meu alegrar,
Que coisa boa, agora nós vamos ser três,
Eu sou um mas sou vocês,
Tô esperando ocê chegar

Vem, meu amor, que a gente tá te esperando,
Vem na hora, não carece se avexar,
O tempo de chegar é o seu tempo,
Vem, meu amor, que a gente tá te esperando,
Linda flor de sentimento, vem nossa vida completar

E quem veio primeiro foi Mariana que, por uma feliz coincidência, nasceu no mesmo dia do aniversário da cidade do Recife.

Dois anos depois, em 1984, nasce João Paulo que, pra não reclamar nem ficar com ciúmes da homenagem recebida pela irmã mais velha, ganhou de presente um desmantelo intitulado “Passarim João” que, na voz de Bia Marinho, eu reputo como sendo um dos pontos altos do cancioneiro da Nação Nordestina.

Vejam:

‘Passarim’ joão, meu menino, companheiro
‘garradim’ no travesseiro dorme solto, ‘tá feliz
quais os sonhos de joão? Doce anjo, néo-rapaz
que sejam sonhos de paz dos que sempre tê-los quis
do moleque sinto o cheiro, meu menino, rouxinol
és meu doce arrebol, me encanta o teu sorrir
é um amor tão verdadeiro nessa alma inda pequena
que a vida lhe seja plena, joão menino, bem-te-vi
dorme, nenen, o teu sono (sonho) de esperança
eu volto a ser criança quando pego em tua mão
dorme, nenen, joão-de-barro pequenino
‘tô feliz, joão menino, ‘tá em paz meu coração

Mariana e João Paulo cidadãos recifenses de nascença. Dulce cidadã recifense de coração e adoção. E agora, Xico Bizerra cidadão recifense de coração, de fato, de direito, de decreto, de diploma, atestado, carimbado, rubricado, protocolado, assinado e oficializado aqui neste solene momento, com as bênçãos do Meu Padrinho Pade Ciço, a proteção de Frei Damião, debaixo do manto de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Crato, e no recinto deste ilustre sodalício que recebeu mandato do povo da cidade do Recife para a conferência desta merecida honraria.

Quero encerrar minha fala lendo um texto que escrevi há exatamente 4 anos, setembro de 2006, quando do lançamento do álbum Forroboxote nº 6, que tinha o título de “Do reino encantado de Novo Exu até as fronteiras do resto do mundo e adjacências!”.

Isto prova que não é de hoje que sou xeleléu e tiete de Xico Bizerra.

* * *

Cada época, cada tempo, cada geração e cada recanto desse mundo peculiar é rico, riquíssimo, no surgimento de novas vocações para as artes, para a exaltação do belo e para a celebração, através da transformação da realidade, da luxuriosa fartura que Natureza botou graciosamente à disposição das vistas privilegiadas de nós outros, os cidadãos do Nordeste Brasileiro.

Xico Bizerra é uma cabra malassombrado da bixiga lixa, um doido, um retratista, um cangaceiro romântico, um poeta da gota serena que entope os ares do mundo com a magnificência de suas composições, ricamente emolduradas pelas vozes que as interpretam.

É com uma felicidade inominável, com o peito cheio de alegria, que saúdo essa trajetória luminosa e mágica que vai desde o reino encantado de Novo Exu até as fronteiras do resto do mundo e adjacências!

Eita titulação da bobônica. Um manifesto de luz e de beleza, escritinho.

Vai cumprir tua sina, Xico, de botar mais beleza nesse mundo e colorir, com tuas músicas, as telas povoadas pelos homens, os cantos, os recantos, os bichos, os matos, as caatingas, as beiradas de praia e os ares dessa Nação Nordestina.

14 pensou em “UM DISCURSO RECIFENSE-CIDADÂNICO

  1. Não poderei nunca esquecer a alegria que tive nessa ocasião, um dos dias mais felizes de minha vida. Honrado fui com o belo discurso do Papa Berto I, de alto valor literário e repleto de generosidades. Parodiando-o, me-mijei-me internamente de emoção e, indo além, me-caguei-me todinho por dentro, tamanha a emoção que ele me proporcionou. Me envaidece muito ter os amigos que tenho e a eles dedico eterna gratidão. Ao Papa Berto, em especial, minha solene reverencia e agradecimento.

  2. Berto, meu amigo. Que coisa arretada é essa.
    Meus Deus! Coisa mais linda de se vê e de se ouvir.
    A homenagem ao Xico Bizerra. O seu discurso, uma obra-prima.
    A história de vida desse homem, poeta, escritor, compositor… As pessoas, parentes e amigos presentes.
    As músicas, depois cantadas. É um bálsamo e um aprendizado para as nossas vidas.

    Cada vez mais, sinto-me gratificado, orgulhoso e honrado de ser leitor do JBF. Ser leitor, seu também e poder me considerar como seu amigo.
    É um aprendizado diário.

    Esses momentos são únicos. Ainda mais com todas essas características distintas, próprias e marcantes do nosso Nordeste maravilhoso e do nosso inigualável e incomparável povo nordestino. Que não tem similar ou parecido em lugar nenhum nesse ôco de mundo.

    Com certeza vou ler seu discurso mais vêzes. O que se disser sôbre ele é pouco.
    Irretocável, é o mínimo que a gente pode achar. Só sabedoria e generosidade.

    Parabéns pra você, pro Xico Bizerra e pra todos participantes desse dia memorável.

    Fiquem com Deus e obrigado por vocês existirem e no Nordeste.

  3. Prá mim, não importa aonde nascemos, o que importa, é onde crescemos, criamos raízes, família e somos felizes. afinal, somos TODOS B!RASILEIROS!

  4. Luiz Carlos e Marcos Pontes, se der pra imaginar minha alegria com os comentários de vocês, imaginem. Imaginaram? Multipliquem por 10 e terão a real dimensão de um ego afagado com carinho. Gratidão a ambos.

  5. Xico,

    A Liberdade me dá a oportunidade de ser mais feliz do que o Mestre, mesmo sabendo que o homenageado foi o mestre com os dois títulos, e um memorável discurso mestre Berto.

    Ver o mestre sendo homenageado com dois títulos em reconhecimento ao seu talento e ao que representa com a sua genialidade e generosidade para o Recife e sua Cultura, me envaidece talqualmente.

    Parabéns por existir. A Nação Nordestina é que ganha com esse reconhecimento merecido.

  6. Vixe Maria, Valei-me Nosso Sinhô Jesus Cristo: vou deixar de ler os comentários dessa postagem. Temo que o coração véi não resista à emoção e eu tenha um quiripipapo. Ainda bem que meu cardiologista atual é o mesmo que atende ao Papa, Dr. Sérgio. Fico tranquilo, mas nem tanto, pela judiação de tantos elogios. Obrigado, cumpade Ciço, tamo junto, sempre. Abração

  7. Xico Bizerra. Tô imaginando sua alegria multiplicada por dez.
    Agora imagine a minha multiplicada por vinte, trinta…
    Por você ter comentado sôbre nossos comentários.

    Aproveito esse mesmo espaço para concordar e confirmar, com o amigo Marcos Pontes. Somos todos brasileiros com muito orgulho.
    Mas o ar que é respirado no nordeste tem alguma coisa à mais do que oxigênio, nitrogênio…
    Tem, também o nordestingênio.
    Que despois da alquimia respirointectual. Gera sêres e entes talentosos, inteligentes, engenhosos, habilidosos, eruditos…
    E pra ficar, só num exemplo. Que é a música “Se tu quiser”. Naturalmente fruto do diálogo, como o Berto bem citou no seu discurso: “Xico insinuou-se assim: “se tu quiser…” No que Dulce respondeu de imediato:
    “E eu sou doida de num querer?”
    Resultar, numa das canções mais bonitas, mais significativas e mais gravadas de todos os tempos. Só temos que agradecer, mais uma vez. A existência dessas entidades.
    Em particular, aqui, ao grandioso Xico Bizerra.
    Nossas reverências, sempre.

  8. Parabéns, querido Escritor Luiz Berto, pela belíssima saudação, feita ao grande poeta e compositor Xico Bizerra, na ocasião em que este foi agraciado com o honroso título de Cidadão Recifense, em agosto de 2010!
    Seu discurso primoroso e emocionante tocou a nossa alma, mostrando seus valores morais intrínsecos e seu enorme talento, como consagrado Escritor que é, como também traduzindo a grandeza do poeta e compositor Xico Bezerra, seus valores morais e extraordinário talento.

    “Sendo cearense e cratense de nascença, ele recebeu os títulos de Cidadão Pernambucano e de Cidadão Recifense, concedidos pela Assembleia Estadual de Pernambuco e pela Câmara de Vereadores do Recife, respectivamente.
    Recebeu o diploma de cidadão, o “papel passado”, das duas casas legislativas pernambucanas.”

    Parabéns ao poeta Xico Bizerra, pelas duas merecidas homenagens!

    Aquilo que nos dá valor como ser humano não é o que podemos comprar ou desejar, mas sim os aspectos da condição humana que nos definem como indivíduos iluminados, donos de inteligência privilegiada.

    Grande abraço para os dois!

  9. Xico Bizerra é do Recife desde antes de haver Xico Bizerra ou o Recife. Estava escrito nas estrelas. E o privilégio com certeza não é dele. Mas nosso, em o ter como um daqui. Viva Xico Bizerra. E, sobretudo, viva o Recife.

    P.S. Que belo discurso, meu Papa. À altura do homenageado. Parabéns.

    E abraços lisboetas, para todos.

  10. Fico sem palavras para falar, da grandesa extraordinária que meu ídolo, tem pra escrever. Chego a ficar sem palavras. Quanto ao grande compositor e poeta Xico Bizarra, é o que tem de melhor na nossa poesia Nordestina.

  11. Um artista saudando o outro. Uma alegria em via de mão dupla.
    Uma saudação sem tamanho, de ambos os lados. O agraciado e o “agraciador”. São essas coisas que deixam marcas, cicatrizes saborosas em nossas almas.
    Xico foi abençoado pelo Papa.

    Um homenageou o outro e, o outro, homenageou o Um.

    É pra se lascar…

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