DEU NO JORNAL

Paulo Briguet

A derrota do Brasil vai além do futebol: expõe um país que perdeu rumo, virtudes e a confiança em si mesmo

Eu tinha 12 anos em 5 de julho de 1982, quando a Itália venceu o Brasil por 3 a 2, no fatídico jogo que ficou conhecido como Tragédia do Sarriá. Naquele dia — uma segunda-feira como hoje —, eu chorei muito e fui consolado pelo Vô Briguet, ex-pintor de carros e ex-juiz de futebol. Quarenta e quatro anos depois, no mesmo 5 de julho, desta vez um domingo, o Brasil foi novamente derrotado, agora pelos vikings da Noruega.

Fico triste ao ver o desalento do meu filho — que tem 16 anos e passou da idade de chorar por essas coisas —, mas não posso deixar de observar a gritante diferença entre as duas derrotas. Em 82, a Seleção de Zico, Sócrates e Falcão encantou o mundo; o time atual apenas o desencantou. Exceto por alguns lances esparsos de talento, o que vimos, sobretudo no último jogo, foi uma equipe apática, perplexa e passiva, que permitiu ao adversário assumir o protagonismo das ações. O fantasma dos 7 a 1 parece ainda pairar sobre esse time.

Não vou procurar culpados, até porque é fácil ser profeta depois do que já aconteceu. Em vez de encontrar vilões, para consolar meu filho, disse a ele que tive de esperar até os 24 anos para ver o Brasil ser campeão. “A Copa de 70 não conta, eu ainda estava na barriga da minha mãe”, disse ao Pedro, arrancando-lhe um sorriso triste.

Sempre tentei ver o futebol como uma espécie de metáfora do mundo, como uma simulação visual das batalhas cotidianas de todos nós. Além disso, costumam chamar-me a atenção as histórias de vida por trás de cada personagem. Vocês ouviram o caso do técnico da Noruega, que, quando era jogador, aos 33 anos, sofreu um ataque cardíaco durante um treino e ficou sem sinais vitais por sete minutos, chegando a ser declarado clinicamente morto?

O futebol e a vida estão interligados. Por isso, ouso dizer que a derrota do Brasil na Copa reflete a realidade do nosso país e está vinculada aos nossos padecimentos enquanto nação.

Isso porque 2002, como vocês devem estar lembrados, não foi apenas o ano do penta. Foi também o ano da morte de Celso Daniel e da eleição de Lula. De lá para cá, decaímos vertiginosamente. Pelo caminho, fomos perdendo aquelas virtudes que, de uma forma ou de outra, ainda eram respeitadas até pelos maus. Alguém — não sei se La Rochefoucauld ou Oscar Wilde — disse que a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude, mas, no Brasil, a hipocrisia já é coisa do passado: as elites políticas que nos desgovernam fazem questão de exibir sua maldade e sua podridão moral como troféus.

Bondade, compaixão, justiça, coragem, paciência, mansidão, generosidade, pureza, confiança, inteligência, amor à verdade e perdão se tornaram objeto de escárnio. Não é a primeira vez que isso acontece na história: se, no Calvário, diante da própria Verdade oferecida em sacrifício, os homens maus fizeram zombarias, por que não o fariam hoje, diante de nós, miseráveis pecadores incomparavelmente menos feridos?

Que Deus tenha piedade do Brasil e nos perdoe.

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