MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há, entre os sábios de antanho, certa mania de supor que toda cousa há de possuir explicação. É vício deplorável. Eu, ao revés, sustento que há mistérios que melhor se explicam mediante uma boa dose de imaginação, duas de insolência e nenhuma preocupação com aquilo que os físicos chamam de realidade. Posto isto, passemos aos mundos.

SATURNO — A NOBRE REPÚBLICA DOS CABEÇAS OCAS: Saturno, esse magnífico colosso de anéis, é planeta de densidade tão modesta que, caso houvesse oceano bastante para o conter, haveria de boiar como uma laranja esquecida numa tina. Ora, onde a matéria é levíssima, naturalmente leves hão de ser também os habitantes. Os saturnianos, portanto, nasceram com extraordinária capacidade intelectual, posto que seus pensamentos, por não encontrarem suficiente matéria craniana que os retenha, escapam-lhes pelo alto da cabeça. Não são ignorantes. São evaporados. Seu sistema educacional é admirável. As universidades possuem apenas uma cadeira: Metafísica da Ausência. Quando um saturniano afirma: — Tenho uma ideia! Os demais imediatamente seguram seus chapéus. Porque sabem que a ideia poderá sair voando. E não se deve confundir essa peculiaridade com deficiência mental. O saturniano possui cultura vastíssima; apenas não conserva consigo aquilo que aprendeu. É, por conseguinte, o povo mais erudito do Sistema Solar. E o que menos se recorda de coisa alguma.

JÚPITER — O IMPÉRIO DOS SISUDOS: Em Júpiter, onde a gravidade é coisa séria, não há lugar para frivolidades. O jupiteriano não ri. Não porque seja infeliz. É porque rir exige esforço muscular. Seu rosto permanece eternamente grave. — Bom dia. — Bom dia. — Dormiu bem? — Sim. — Tomou café? — Sim. — E o senhor? — Sim. Tudo com expressão de sentença judicial. O jupiteriano jamais corre. Seria indigno e fisicamente dispendioso. Ele anda. Devagar. Com majestade. Cada passo parece proclamar: “Tenho massa suficiente para permanecer onde estou.” E os esportes jupiterianos são de uma monotonia lancinante. Há o levantamento de uma esfera de gás. Há o levantamento de uma esfera de gás maior. E há o campeonato mundial de tentar levantar uma coluna de gás sem deslocar a coluna vertebral. O campeão é respeitado por toda a nação. Recebe uma medalha de chumbo. E passa o resto da vida sentado.

URANO — ONDE NINGUÉM SABE DE QUE LADO ESTÁ: Urano, como é sabido por absolutamente ninguém que tenha bom senso, decidiu girar quase deitado. Consequentemente, seus habitantes adotaram a mesma postura. Todo uraniano nasce com a cabeça inclinada. Não é doença. É tradição planetária. O recém-nascido já vem ao mundo assim: /. A mãe pergunta: — Está tudo bem com ele? O médico responde: — Perfeitamente. É de Urano. Os uranianos possuem extraordinária dificuldade para interpretar mapas. O norte, o sul, o leste e o oeste foram abolidos. Existe somente: “para cima” e “para aquele lado”. Quando um uraniano chega atrasado ao trabalho, jamais diz: — Perdi o caminho. Diz: — O planeta estava numa inclinação desfavorável. E ninguém contesta.

NETUNO — O PLANETA ONDE A ESTAÇÃO DEMORA UMA VIDA INTEIRA: Em Netuno, o tempo é assunto para gente paciente. Muito paciente. Um netuniano pode nascer durante o verão e morrer sem jamais ver novamente a mesma estação. Ali, quarenta anos não são grande cousa. São apenas uma mudança de guarda. Imagine a conversa: — Como está o clima? — Frio. — Há quanto tempo? — Desde que meu bisavô era moço. — E quando melhora? — Não sei. Consulte meu tataraneto. Os meteorologistas netunianos são, portanto, profissionais muito respeitados. Fazem previsões excelentes. O problema é que nenhuma delas termina durante sua vida profissional. “Previsão para o próximo outono: aproximadamente daqui a quarenta anos.” A população aplaude. O meteorologista aposenta-se. Seus filhos continuam o serviço.

MARTE — O PLANETA DOS TURNOS INTERPLANETÁRIOS: Marte, por sua vez, possui o Valles Marineris, uma cicatriz colossal na superfície. E isso gerou uma peculiaridade laboral. No lado oriental do vale: — Bom dia! No lado ocidental: — Boa noite! No centro: — Que dia é hoje? E ninguém sabe. A empresa marciana, muito progressista, aboliu o relógio. Agora trabalha-se segundo a posição do Sol. O departamento de Recursos Humanos, contudo, entrou em colapso. Metade dos empregados afirma estar de folga. A outra metade afirma estar trabalhando. Ambos possuem provas. O sindicato marciano exige adicional de insalubridade. A direção responde que a atmosfera já é naturalmente insalubre e, portanto, não há novidade. Começa uma greve. Ninguém percebe. Todos continuam vermelhos.

VÊNUS — A CIVILIZAÇÃO DOS QUE SE ARREPENDERAM: Em Vênus, a atmosfera é tão espessa e a temperatura tão elevada que o primeiro extraterrestre sensato que chegou lá teria imediatamente dito: — Perdão pelo incômodo. Voltarei outro dia. Os venusianos, porém, desenvolveram uma admirável filosofia de vida. Não reclamam do calor. Consideram-no temperatura normal. Quando um venusiano visita a Terra e encontra 35 °C: — Que frio! O terráqueo: — Frio?! — Sim. Onde está o incêndio?

MERCÚRIO — O POVO QUE NUNCA CONCORDA SOBRE O CLIMA: Mercurianos são extremamente indecisos. Um lado do planeta é submetido a temperaturas infernais; outro, quando em condições adequadas, pode ser extremamente frio. Assim, a previsão meteorológica oficial é: “Hoje: quente. Ou frio. Depende de onde o senhor estiver.” É uma previsão impecável. Jamais erra.

TERRA – O PLANETA ONDE A VIDA INTELIGENTE AINDA É UMA HIPÓTESE: Chegamos, enfim, à Terra. O planeta azul. O planeta da água abundante, dos oceanos, das florestas, dos continentes e de uma extraordinária variedade de formas de vida. Quanto à vida inteligente, contudo, os cientistas permanecem cautelosos. Há indícios. Poucos. Muito poucos. Alguns organismos terrestres demonstram capacidade para construir telescópios, enviar sondas a outros planetas, decifrar o código genético e calcular a idade do Universo. Entretanto, estudos recentes recomendam prudência antes de se declarar a espécie humana como verdadeiramente inteligente. A principal dificuldade encontra-se no comportamento coletivo. Em certas regiões do planeta, populações inteiras são capazes de escolher, reiteradamente, soluções políticas que até uma inteligência artificial mal calibrada classificaria como experimentalmente temerárias. Há sociedades que, dispondo de vasta experiência histórica, abundante informação, universidades, imprensa, bibliotecas e acesso praticamente ilimitado ao conhecimento, parecem concluir que tudo isso é perfeitamente dispensável. O fenómeno intriga os xenobiólogos. Um deles declarou: — Como pode uma espécie tão avançada cometer o mesmo erro tantas vezes? Outro respondeu: — Não sabemos. Mas parece fazê-lo democraticamente. Foi então que surgiu a hipótese mais perturbadora: Talvez a inteligência individual exista na Terra, mas não seja encontrada quando os indivíduos se reúnem para tomar decisões coletivas. A descoberta provocou enorme controvérsia. Criaram-se comissões. As comissões criaram subcomissões. As subcomissões contrataram consultores. Os consultores elaboraram relatórios. E os relatórios concluíram que era necessário criar uma nova comissão.

Até hoje ninguém sabe o resultado. Os extraterrestres, entretanto, continuam observando. Não invadem. Não aterrissam. Não enviam mensagens. Não estabelecem contato diplomático. Preferem aguardar. Segundo fontes não confirmadas, uma civilização distante teria enviado a seguinte comunicação: “Identificamos sinais de inteligência na Terra. Permanecemos, todavia, incapazes de determinar se são provenientes da espécie humana ou de algum fenômeno atmosférico.” O debate prossegue. Enquanto isso, os terráqueos continuam a discutir. Discutem política. Discutem religião. Discutem futebol. Discutem música. Discutem quem está certo. E, ocasionalmente, discutem até fatos que podem ser verificados em aproximadamente trinta segundos. É uma civilização extraordinária. Conseguiu colocar seres humanos na Lua. Conseguiu fotografar buracos negros. Conseguiu detectar ondas gravitacionais. Conseguiu enviar engenhos a regiões tão distantes do Sistema Solar que seus sinais levam horas para regressar. E, apesar de tudo isso, ainda não descobriu uma maneira eficaz de impedir que um imbecil, munido de convicção suficiente, seja confundido com um sábio. E ainda o colocam na Presidência da República do Brasil (Este nome me dá asco). Por isso, ao classificarmos a Terra no catálogo galáctico, talvez seja prudente registrar:

PLANETA: habitável.

ÁGUA: abundante.

VIDA: comprovada.

VIDA INTELIGENTE: indícios inconclusivos.

VIDA POLÍTICA: abundante como uma praga causadora de uma devastação sem precedentes.

Bom senso: espécie aparentemente ameaçada de extinção.

Recomenda-se não interferir.

Os terráqueos parecem estar resolvendo o problema sozinhos.

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