MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Minha família do lado paterno é 100% descendente de italianos. Meus antepassados emigraram de várias regiões do norte da Itália para a Serra Gaúcha, estimulados por um programa do governo brasileiro da época (1876). Eu sempre procuro ter em mente como foi a vida dos meus tataravôs, como padrão de comparação com a vida de hoje.

Os pais ou avós de meus bisavôs tinham tão pouca esperança no futuro de sua terra que preferiram vender o pouco que tinham e embarcar na terceira classe de um navio a vapor rumo a uma outra terra, sem saber direito onde ficava ou que língua se falava lá. Chegando aqui, descobriram que as terras mais planas já estavam ocupadas, e que eles seriam acomodados em terras montanhosas, cobertas por mata virgem e praticamente sem estradas – e eles teriam que pagar por estas terras. Até onde sei, nenhum deles desistiu.

Sua primeiras casas foram feitas de troncos de árvores partidos a machado, pois não havia ferramentas para cortar tábuas. Mas com o tempo estas ferramentas vieram, e surgiram casas de tábuas bem serradas e também de pedra. E surgiram pequenas oficinas que viraram fábricas, e pequenos armazéns que viraram mercados, e pequenas pousadas que viraram hotéis, e pequenos bares que viraram restaurantes, e muitos pequenos negócios que prosperaram, porque seus donos trabalhavam duro, dia e noite, sem jamais reclamar; ao contrário, eram GRATOS por poder trabalhar e construir seu futuro, e até sonhar com um mundo melhor para seus filhos.

Nunca um destes imigrantes se orgulhou de viver às custas dos outros, ou reclamou de ter muitos problemas. Problemas eles tinham, aos montes, mas a solução para todos eles era uma só: trabalho. Com trabalho, vontade, responsabilidade, persistência, os problemas se resolviam. Para as crianças, os mais velhos ensinavam frases como “Um dia sem trabalho é um dia sem comida” ou “A vida é dura para quem é mole”.

Mas chegou um dia em que os mais jovens deixaram de escutar os “mais velhos” e passaram a escutar outras pessoas. Estas pessoas diziam que não era preciso trabalhar para conseguir as coisas; existia uma coisa chamada governo que dava coisas de graça. Também não era preciso disposição e coragem para enfrentar os problemas: bastava transferir os problemas para os outros. E para viver bem, trabalhar muito não era o melhor caminho: bom mesmo era ser “funcionário do governo”, onde não fazia muita diferença entre ser esforçado ou não, nem entre trabalhar muito ou “enrolar”: o salário era garantido todo mês.

Os jovens mais entusiasmados com estas idéias “fizeram faculdade”, e se tornaram professores, para poder repetir estas idéias para as gerações mais novas. Dentro das universidades, especialmente as públicas, discordar deste pensamento passou a ser algo mal-visto, sujeito a boicotes e perseguições.

Em pouco tempo, este modo de pensar se tornou uma maioria absoluta: todos têm a certeza de que nasceram com um monte de direitos. A idéia de que “ter direito” a algo significa uma obrigação para uma outra pessoa não passa pela cabeça de ninguém. Através dessa abstração chamada “estado” (eu prefiro usar “governo”, que é mais direto) todos fingem que é possível ter coisas “de graça”.

Pior que o direito de ter coisas, é o direito de não ter responsabilidades. As pessoas acreditam com toda a convicção que a vida deve ser composta apenas de alegrias e prazeres; tudo que é aborrecido, chato, preocupante, perigoso, desagradável, deve ser resolvido pelos outros.

Não gosta de estudar? Não tem problema, o governo inventa uma escola onde todo mundo passa de ano mesmo sem saber nada. Dá até para entrar na faculdade sendo semi-analfabeto, e sair de lá um semi-analfabeto diplomado.

Acha trabalhar muito cansativo? Não tem problema, como todo mundo tem diploma universitário, o governo inventa um monte de normas para obrigar os outros a contratar os diplomados para não fazer nada. Na lingua do povo, isso se chama “pagar alguém para assinar”.

Não quer trabalhar, mas é tão preguiçoso que não conseguiu ter um diploma? Não tem problema, faz um cadastro na prefeitura e ganha um dinheiro do governo todo mês. Se tiver filho, ganha mais, então simbora fazer filho.

Criar filhos é trabalhoso e cansativo demais? Não tem problema, o governo providencia creches e escolas em tempo integral, e explica para todo mundo que a função da escola não é ensinar, é “educar”. Como educar era função dos pais, fica estabelecido que os pais não tem mais obrigação nenhuma a não ser largar o filho da creche as sete da manhã e buscar às seis da tarde, de preferência jantado e de banho tomado.

Há também as coisas minúsculas: o governo deve regular o preço da pizza, criar regras sobre a bagagem nos aviões e manter toda uma estrutura burocrática de “defesa do consumidor” que garanta que todos possam ser tolos, fúteis e inconsequentes em cada minuto de sua vida.

Claro que às vezes as coisas saem do combinado, como agora: “Como assim eu posso ficar doente e morrer? Não, não admito. Alguém tem que tomar alguma providência. Eu, sujeito a pegar um vírus? Absurdo! Eu tenho direitos.”

Nada agrada mais um político do que ver seus eleitores exigindo “direitos”. Ele sabe que a esmagadora maioria destes eleitores não tem noção do que está pedindo e se contenta com qualquer coisa que o político disser. Se além de agradável, a fala do político der ao eleitor a chance de se fazer de poderoso, com direito a impôr a sua verdade aos outros, então o eleitor chegou ao paraíso. Quer coisa melhor que ficar em casa sem trabalhar, com salário garantido e ainda poder bancar o gostosão no facebook postando “Fica em casa, babaca!” ?

Claro que mesmo que todo mundo finja que não, toda ação tem consequências. As consequências dessa ilusão coletiva de que todo mundo pode passar o ano de férias (mas com os pobres trabalhando para manter os mercados abastecidos) estão se aproximando. Indústrias, já não tínhamos: foram para a China. Comércios, estão fechados para que as autoridades possam fingir que estão resolvendo o problema. Muitos deles não voltarão a abrir. Os impostos que eles pagavam vão fazer muita falta para os prefeitos e governadores daqui a alguns meses, e os empregos perdidos não voltarão em um passe de mágica. Não é difícil ver que tempos muito difíceis se aproximam.

O irônico disso tudo é que as gerações passadas sabiam exatamente o que fazer em uma crise como essa: arregaçar as mangas e trabalhar. Mas nos dias de hoje, falar isso é tão grave quanto xingar a mãe dos outros. Trabalhar? Que horror! E os meus direitos?

11 pensou em “TRABALHO

  1. Marcelo,

    A cada dia fico mais fã deste articulista genial.

    Disse e repito: Tens que colecionar esses artigos e publicar um livro, para que seja utilizado como texto base em escolas e universidades.

    • Pleno acordo. Sigo o relator. Livro já!!!!!!! E olha que tais centros educacionais vivem no maior “miserê” de bons livros e textos. Pense nisso caríssimo Bertô!!! Talento é coisa que pulsa em seu texto.

  2. É isso mesmo, Marcelo,

    As novas gerações foram adestradas a problematizar tudo em acordo com o método de ensino do aluno para ler e entender o mundo antes de saber ciência, matemática e linguagem.

    Diante de um problema sério, como o que estamos tendo, repassam para o estado a solução, quando é o indivíduo que tem que agir.

  3. Artigo perfeito, esta “coisa” está tão arraigada em nossa cultura, que vai ser difícil manda-a aos “quintos dos infernos”! Parabéns Marcelo e pense no que o Prof. Adonis falou!

  4. Perfeito, mas revoltante ……

    Nós deixamos isso acontecer ……. então nós é que temos de consertar, agora com muito mais trabalho….

    Privilégios sem fim, imorais e inaceitáveis para os parasitas do funcionalismo tem e vão acabar….

    Não se pode construir um País com estas imoralidades no serviço público.

    Se existe um começo, tem de ser pelo sistema judicário máximo, o STF, para servir de exemplo……

    Não pode existir DIREITOS, sem os DEVERES correspondentes ………

    Vamos contruir uma nação que possa ser chamada assim e não servir de pilhéria para o resto do mundo ………

    • Escreveu Arthur: Privilégios sem fim, imorais e inaceitáveis para os parasitas do funcionalismo tem e vão acabar….Não se pode construir um País com estas imoralidades no serviço público.

      Entendeu, Bolsonaro!? Ou quer que o Tavares desenhe?

      E se “PRIVATIZARSAPORRA TODA” diminui o número de funcionários públicos, ficando a cargo da iniciativa privada, fazer o que sabe: gerar riqueza.

      Entendeu, Paulo Guedes!? Ou quer que o Tavares desenhe?

  5. Prezado Marcelo,
    Parabéns, Perfeito !!!
    Acompanho, e guardo, seus textos, assim como de outros colunistas brilhantes, aqui do JBF.
    Este, é um verdadeiro primor.
    Sou professor de uma universidade federal, completamente aparelhada, como a quase totalidade das nossas IFES, ideologicamente, com gerações e gerações de jovens imbecilizados.
    São imprestáveis para a sociedade, pois só aprenderam a repetir chavões e mantras de ditos professores, na verdade, deformadores.
    Por vezes me comparo ao Prof. Adonis, na amargura de desesperança, que um dia as universidades – para não dizer, o país – possam ter jeito. Falo das universidades por ser um dos elos da grande cadeia de formação e qualificação que poderiam iniciar a transformação de uma nação. É claro que poderíamos falar do ensino fundamental, igualmente calamitoso. Mas os seus professores vem justamente das universidades aparelhadas. Imaginem, o que os professores de história e geografia, por exemplo, recém saídos de IFES brasileiras, atualmente, vão ensinar para seus alunos, seja de escolas públicas ou privadas ?
    O estrago foi muito grande.

    • Agradeço os elogios, Rômulo, e compartilho de sua preocupação. Nosso ensino está preso em um círculo vicioso sem solução à vista. Professores doutrinam alunos, alunos doutrinados se tornam professores doutrinadores. Todos exigem mais verbas e mais investimentos, que só servem para aumentar a quantidade de “intelectuais” sustentados por nossos impostos, pregando suas maluquices ideológicas.

      E quem se atreve a questionar a situação, é tratado como “inimigo da educação”.

      Como você diz, o estrago foi muito grande.

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