CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Antes que seja tarde.

Eis que estamos em mais um agosto de Deus. O oitavo mês do ano, esse que antecede, soberano, a estação das flores, chega outra vez a nos lembrar de feridas que não obedecem ao calendário, equimoses não desaparecidas com o tempo, cicatrizes atravessando os anos como quem invade e demarca cor-pos em carne viva. Agosto chega e nos devolve as dores nossas de cada dia, as físicas e as da alma, as visíveis e as invisíveis, as denuncia-das e as que morreram sufocadas dentro de uma garganta cansada, as compreendidas e as invalidadas, as curadas e aquelas que seguem adoecendo no escuro. Tenho pen-sado no lilás que habita cada agosto de um ano qualquer. Talvez porque essa seja a cor exata daquilo que ainda não cicatrizou, uma cor sus-pensa entre o roxo da violência e o azul do céu, entre a noite a expandir o silencio e a manhã anunciadora de um novo começo.

O lilás parece existir nesse intervalo quase invisível entre a dor e a liber-dade, entre o grito e o silêncio, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. É a cor de uma ferida pulsante a desejar um céu de paz. É certo que enquanto agosto retorna, milhares de mulheres continuam caminhando descalças sobre terrenos pedregosos, atravessando areias movediças, tentando encontrar um lugar seguro tanto dentro de suas próprias casas como fora delas. Algumas tropeçarão, algumas volta-rão, algumas permanecerão, algumas jamais chegarão ao próximo amanhecer. Não estarão aqui na semana seguinte, no mês vindouro, tampouco no agosto do ano subse-quente. Serão interrompidas pelo último golpe, pelo último estrangu-lamento, pelo último disparo de um revólver qualquer. Serão transfor-madas em números, estatísticas, fotografias antigas, nomes pronunciados em voz baixa, em sussurros de dor, angústia, tormento.

E talvez a parte mais perversa de tudo seja compreender a violência quase sempre chegando sem anunciar o próprio nome. Ela não bate à porta dizendo que veio para matar. Antes, oferece flores. Promete cuidado. Pede desculpas. Jura que foi a última vez. Chora. Ajoelha-se. A violência aprende a falar a língua das promessas e, por isso, tantas mulheres permanecem esperando pelo homem que nunca existiu. Amam o simulacro, a fantasia transmutada em manipulação, amam a lembrança de um afago, o intervalo entre uma agressão e outra, o pedido de perdão. Amam o depois. Amam a possibilidade. Amam a promessa. Amam a desvirtuação de uma relação que jamais conheceu a beleza do cotidiano, a magia dos avessos, a leveza de construir uma história de uma vida em tons reais.

Indago-me sempre e desde sempre acerca do dia no qual não mais denominaremos aquele troféu aquele que destrói cada uma de nós. Até quando uma mulher será ensinada a investir em disputas contra suas iguais em prol de um indivíduo cuja trajetória é talhada pela violência? Vivo inquieta por desconhecer a diferença que, ao invés de nos unir, nos repele umas das outras. Qual seria, pois, a diferença entre a antiga e a atual, entre a esposa e a amante, entre a lembrada e a esquecida, entre a rival e a inimiga, entre a mais jovem e a mais velha, entre a mais bela e aquela que já não consegue se reconhecer diante do espelho? Reitero não saber. Suponho, em meu narcísico devaneio, a pedra de tropeço entre nós ser aquela que o patriarcado nos ensinou a inventar para que continuássemos disputando papeis, lugares e espaços para permitir aos homens permanecerem confortavelmente protegidos pela nossa fragilidade transformada em rivalidade.

O machismo conhece a geometria da crueldade. Sabe dividir para dominar. Sabe colocar mulheres frente a frente e desaparecer atrás delas. Sabe fabricar competições onde deveria existir aliança, transformar inseguranças em armas, converter diferenças em abismos. E há homens especialistas nessa artimanha ao ponto de transformá-la em método, colocam uma mulher diante da outra como quem posiciona espelhos frente a frente e criam um corredor infinito de comparações, ciúmes, dúvidas e humilhações. As vítimas sucumbem ao teatro, ao cenário a elas imposto e, como fantoches go-vernadas pelos fios da covardia, medem-se entre si, odeiam-se sem qualquer razão, internalizam a ideia de ser a infelicidade da outra a ma-terialização do sucesso alcançado. É a triangulação como instrumento de dominação.

Há, portanto, uma verdade necessária a todas nós, homem dessa natureza não é prêmio, é abismo, não é vitória, é cativeiro, não é amor, é a ausência dele. Nenhuma mulher precisar prestar-se ao papel de disputar com outra o direito de permanecer ao lado de alguém que deveria, antes de tudo, ser responsabilizado pelas vidas por ele amarguradas. Não precisamos ser escolha de quem quer que seja, não precisamos ofender nossas irmãs para provar nossa “suficiência.” Sejamos inteiras, livres para pensarmos fora dos padrões e compreendermos de uma vez por todas, sem eufemismos ou romantizações que a fantasia mais perigosa é aquela afirmando ser o amor a cura para tudo. O nosso amor não é tratamento. A nossa paciência não é terapia. O nosso perdão não é ansiolítico. A nossa permanência não é solução. Não somos responsáveis por educar homens adultos que escolheram ferir. Não nos cabe salvar a quem sequestra nossa subjetividade todo santo dia, a quem usurpa nossa identidade, a quem aniquila nossa identidade, apaga nossa dignidade. Não somos obrigadas a carregar nas costas as ruínas emocionais de quem não se responsabiliza por aquilo que destrói. Não precisamos suportar o peso de curar quem não reconhece as próprias feridas e, via de consequência, arremessa, despeja, vomita em nós a podridão de suas vis existências.

O ato de estender a mão à outra mulher interrompe o ciclo da triangu-lação, no momento em que tomamos a decisão de não mais enxergar outra como rival, o narcisista perde sua arma mais poderosa. Todavia, quando uma mulher se coloca ao lado do algoz, une-se a ele para destruir outra, quando escolhe a conveniência em lugar da consciência, a subserviência em lugar da solidariedade, a humanidade inteira sangra. Porque nenhuma violência termina na mulher que a sofreu anteriormente. Ela transborda, atravessa a vida da próxima, resvala nos filhos, compromete gerações. Os traumas ali adquiridos não ficam confinados nas vítimas, espalham-se como sombras pelas casas, corredores, fotografias, memórias, silêncios.

Por isso, faz-se necessário mudar-mos olhar acerca do agosto lilás, ele existe para além das campanhas, das fitas, dos cartazes e das palavras que desaparecem quando setembro chega. O feminicídio não começa no último disparo. Começa muito antes. Começa quando o ciúme é chamado de amor; quando o controle é chamado de cuidado; quando a posse é confundida com paixão; quando a humilhação é confundida com temperamento; quando o pedido de perdão é aceito como promessa de mudança; quando a mulher é responsabilizada pela própria dor; quando outra mulher é transformada em inimiga; quando o agressor é protegido pela reputação, pelo dinheiro, pelo poder, pelo medo, pela vergonha. O feminicídio começa quando a primeira violência é naturalizada. E talvez o lilás seja justamente a cor desse intervalo, aquilo que existe entre a ferida e a cicatriz, entre a mulher que ainda não conseguiu partir e aquela que um dia conseguirá, entre a vida que ainda pode ser salva e aquela que já não teremos como devolver. Portanto, que o lilás não seja apenas a cor de agosto, que seja a cor de nossa consciência, de nossa coragem, de nossa aliança, de nossa desobedi-ência, de nossa transgressão e, sobretudo, de nossa transformação.

Antes de termos o nome gravado em uma lápide, de sermos um número a compor estatísticas, encaremos de pé e com as frontes erguidas o nosso verdadeiro inimigo, a engrenagem do patriarcado esmaga nossa filosofia artesanal quando introduz no consciente e no inconsciente coletivos a ideia de o agressor merecer ser premiado pela nossa mediocridade para com as outras. Antes que seja tarde, antes que o último golpe aconteça, que o último grito seja silenciado, que uma foto-grafia estampe convites para velórios, antes mais uma mãe precise aprender a pronunciar o nome da própria filha no passado, antes que uma criança seja alcançada pela orfandade, antes que agosto volte outra vez, antes que nos tragam flores em sepulcros, antes de setembro chegar, que dessa vez consigamos mudar a história. Antes que seja tarde. Antes do que nunca. Antes que o próximo corpo no chão seja o nosso. Antes de tudo. Antes de nada. Antes que seja tarde, sejamos a mão estendida, o ombro que abriga, a escuta amiga, o abraço que conforta. Sustentar uma mulher como sujeito de direitos é, sem dúvi-da, o ato mais radical e eficaz para transformar a sociedade.

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