JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Seu Zé Braz havia acabado de acordar.

Na verdade, já se levantara, lavara o rosto, escovara os dentes, penteara os cabelos brancos e já rareando, puxando-os para trás, e esperava o café ser posto à mesa tamborilando com os dedos sobre a madeira do grande móvel.

Já havia até ido lá fora, na calçada, onde cumprimentara Seu Zé Dudu, fiel escudeiro.

O dia ainda não era de todo claro.

Mais duas horas e estaria subindo a rampa da Prefeitura; pois, era o nosso prefeito naquele tempo.

Olhava ao redor com o corpo encurvado, braços apoiados na mesa desde os cotovelos. Nu da cintura para cima, a calça presa à cintura por um cinto de couro cru na mesma cor dos chinelões nos pés, abaixo das pernas formando um xis. Observava as frutas no encerado à sua frente.

Uma a uma as comidas eram colocadas à mesa.

Quando se preparava para fazer seu prato, após a xícara haver recebido o café fumegante, Seu Zé Dudu entrou apressado pela porta larga dando para a cozinha.

– Seu Zé! Seu Zé!

– Diga, Zé. O que é que há? – perguntou Seu Zé Braz já reconhecendo certa impaciência do velho empregado.

Lá fora, na área da casa, um vigilante noturno andava inquieto de um lado para o outro.

Seu nome eu vou preferir omitir nessa história, a fim de preservar nossa amizade.

No entanto, deixem-me chamá-lo de Seu João Vigia, pondo-lhe esse apelido em respeito à sua pessoa que, até hoje, nega veementemente a narrativa.

Pois bem, voltando àquela manhã mal começada, com a barra se avermelhando no nascente…

– Seu João Vigia está aí fora. Disse que foi atacado ontem de noite – declarou Seu Zé Dudu.

Seu Zé Braz franziu a testa, passou a mão no rosto e ordenou que deixasse o vigilante entrar.

Da porta da cozinha mesmo Seu João Vigia foi se aperreando em falar.

– Seu Zé, agora de madrugada eu fui atacado por dois má-condutas.

– E foi, João? – perguntou seu Zé Braz sem se alterar. – Me conte aí, como foi isso.

– Seu Zé, eu estava dando a volta no prédio quando vi que dois cabras corpulentos tinham pulado o muro para o lado de dentro. Eram dois cabrões assim – explicou Seu João Vigia levantando-se nas pontas dos pés e suspendendo os ombros, com os braços abertos, enquanto arregalava os olhos.

– Eu gritei “quem ‘tá aí?”, mas não veio resposta. Nisso eu tirei o revolver da cintura e encampei caçada, porque vi quando dobraram para dentro de uma sala e…

– Zé Dudu, dê um copo de água a João. Ele parece ainda muito abalado – pediu Seu Zé Braz sem nenhuma alteração facial ou na voz. – Continue, João.

– … empurrei a porta com um chute. Daí, fui entrando na sala com muito cuidado. E fui entrando, e fui entrando – contava Seu João Vigia encenando seu andar, representando cada uma das passadas, desde o chute na porta.

Seu Zé Dudu chegou com o copo entregou na mão de Seu João Vigia. O homem tomou de um gole e continuou.

– Só que como eu entrei com o braço do revólver assim, ó, na frente, um dos sujeitos se agarrou no braço e outro me atacou pelas costas. Me botaram no chão, Seu Zé.

– E por certo lhe mataram – ironizou Seu Zé Braz.

João Vigia, sem perceber o sarcasmo do prefeito, gritou um “não, senhor!” como quem diz “Deus me livre!”.

Depois passou a narrar uma luta corporal pelo chão, fazendo os gestos, imitando as quedas e contando as palavras ditas pelos dois má-condutas.

– Eram dois? – perguntava o tempo todo Seu Zé Braz.

– Era! – respondia convicto o vigilante. – E não era gente de Acari, pois eu num reconheci nenhum!

E continuava a sua narrativa da briga no chão.

De vez em quando Seu Zé Braz perguntava:

– Eram dois má-condutas?

– Era! – respondia com seriedade o vigilante.

Após a briga ter sido contada três vezes, cada uma delas com o acréscimo de um novo elemento, Seu Zé Braz lhe interrompeu e perguntou:

– Mas e daí, João. Pelo que estou vendo não chegaram a lhe ferir. O que queriam esses dois má-condutas? – perguntou enfatizando o “má-condutas”.

– O revólver, Seu Zé! Não levaram um tostão! Nem meu, nem da gaveta do apurado.

– Apenas o revólver? – perguntou Seu Zé Braz abrindo um pão ao meio com os polegares. – Os dois má-condutas levaram só o revólver?

O vigia com os olhos arregalados balançou a cabeça afirmativamente.

– Tem certeza que os dois má-condutas levaram seu revólver?

O queixo do vigia subindo e abaixando.

Seu Zé Braz tomou o primeiro gole de café. Partiu um pedaço de queijo, pôs no pão, depois na boca, mastigou e engoliu.

Na cozinha reinava um silêncio inquietante. Seu João Vigia de pé, ao lado de Seu Zé Dudu.

– Zé Dudu, em cima da mesa ali na sala tem um pacote. Traga aqui – pediu Seu Zé Braz.

O empregado girou sobre os calcanhares e saiu. Quando voltou trazia um saco de papel com o nome de um supermercado. Entregou a Seu Zé Braz.

O prefeito estirou a mão com o saco, ao encontro de Seu João Vigia.

– Pegue João.

O vigilante deu um passo à frente e segurou o pacote.

– Abra, hômi!

Quando Seu João abriu a boca do saco e olhou para dentro, foi logo arregalando os olhos.

– Meu revólver, Seu Zé?! – perguntou espantado.

Seu Zé Braz engoliu o que tinha na boca, tomou um gole do café e respondeu.

– Ô Jõao, deixe de ser tão mentiroso, hômi. Eu fui de madrugada lá e você ‘tava dormindo. Chega roncava. Parecia um porco reclamando fome. E o sono era tão grande que eu tirei o revólver de sua cintura e você nem sentiu.

Novo silêncio na cozinha.

– Dois má-condutas. Rhum! Hômi, tome tento.

Seu Zé Dudu já estava se segurando na braguilha da calça, para não se mijar de tanto rir.

Seu João Vigia, coitado,
Até hoje é meu amigo
Mas quando falo no caso
Ele ameaça “eu me intrigo”
O seu nome verdadeiro
Não falo nem por dinheiro
E morro! Mas, eu não digo.

3 pensou em “SEU ZÉ BRAZ E O ASSALTO AO VIGIA

  1. Eita vigia safado
    Num vigiava era nada
    Dormia a noite toda
    Da noitinha à madrugada
    Além de tudo, mentia
    O dorminhoco vigia
    Era u’a mão desarmada

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