JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O café à mesa soltava ao ar uma fumaça tênue em movimentos não ensaiados, subindo numa dança do ventre orquestrada nos compassos da brisa entrando pela janela semiaberta da cozinha.

Lá fora o tempo estava frio.

Dois biscoitos de canela, deitados sobre um guardanapo de papel, observavam os movimentos da fumaça alinhados ao parsianismo da brisa fria.

Sobre a mesma mesa, sob o pote com açúcar demerara, uma folha de papel retirada da agenda presenteada pelo banco, trazia o nome dele escrito no topo. Um bilhete que a caneta esferográfica azul, repousando destampada e exausta sobre o papel, tentara escrever; mas não encorajara com eficiência a mão trêmula que a segurava havia duas horas.

Lá dentro tudo era silêncio.

Sentado de pernas cruzadas, a coxa direita sobre a coxa esquerda, ele olhava para o infinito pela brecha da janela.

O ritmo do seu coração parecia ditar os ensaios e requebrados da fumaça subindo em câmera lenta.

Nele tudo era tristeza.

Sentada num banco da estação de trens, ela observava a fumaça de uma fábrica se espalhando rápida, volumosa e negra pelo espaço aberto.

Quase nada ali parecia ter vida.

Limpou outra vez as águas dos olhos.

A tampa da caneta, no escuro de uma bolsa de couro preto, chorava a dor da separação.

O próximo trem seria o dela.

13 pensou em “SEPARAÇÃO E DOR

  1. Esse contículo tem o cheiro, a temperatura e as cores do velho continente. Senti-me como se estivera na estação de trem de Praga despedindo-me de um amor de inverno. Seus escritos aguçam os cinco sentidos.

  2. Jesus de Ritinha,

    Você me lembrou Eliete, morena, 17 anos, olhos de gato. O rosto, pele de pêssego. Nós dois, uma só paixão avassaladora em Carpina- (PE).

    Terminamos o Curso Ginasial. Ela viajou a contragosto do pai para outro estado, e até hoje vive no meu coração.

    Não foi paixão à primeira vista. Foi amor no primeiro beijo.

    Brigadaço por SEPARAÇÃO E DOR.

      • Não!

        Eu não deixei bem claro no meu comentário, mas ela foi-se de Carpina para o Maranhão porque o pai dela foi transferido a trabalho da Great West. Era engenheiro civil.

        Na nossa despedida, nós derramamos tantas lágrimas que molhamos nossos lenços.

        Eu fiquei com o dela e ela ficou com o meu.

        Até hoje eu sinto falta dela, apesar de ter tocado a vida em frente,

        Nossa querida cronista Violante Vivi sabe explicar bem, à luz dos seus conhecimentos emocionais, esse fenômeno moral.

        Fosse hoje, em plena era das Redes Sociais, nós estávamos mais juntinho do que parafuso em rosca.

        • Outra ocupou dignamente o lugar de Eliete, ou ele joje está vago?
          Caso afirmativo para a vacância, que tal uma busca no Google?
          O amor não se perde no tempo, nem perde tempo.

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